GIANFRANCO RAVASI
GIANFRANCO RAVASI
La Vanguardia: Se eu lhe dissesse que sou ateu...
Cardeal Gianfranco Ravasi: Melhor do que ser indiferente!
La Vanguardia: É mesmo assim?
Cardeal Gianfranco Ravasi: O ateu é um crente, ele tem fé: ele acredita.
La Vanguardia: Ele acredita que Deus não existe.
Cardeal Gianfranco Ravasi: Isso é fé! Nietzsche e Marx estão mais próximos de mim do que uma pessoa
indiferente.
La Vanguardia: E o que há de errado com a indiferença?
Cardeal Gianfranco Ravasi: A indiferença é a névoa da banalidade. Cristo foi morto porque suas
palavras tiveram impacto. Hoje, a polícia apenas lhe pediria os documentos.
La Vanguardia: Bem, eu vejo isso como progresso...
Cardeal Gianfranco Ravasi: Eu detesto "verdades" passageiras.
La Vanguardia: A visão de Deus não evolui?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Verdade: o Deus bíblico é um Deus histórico e evolui dos lamentos do
Antigo Testamento para o amor do Evangelho.
La Vanguardia: Alá... será que não evolui?
Gianfranco Ravasi: Alá é mera transcendência, muito distante de nós. Mas o Deus bíblico é
transcendente e imanente, intrinsecamente ligado à humanidade.
La Vanguardia: E Ele encarnou num homem: ressuscitou?
Gianfranco Ravasi: Num nível diferente e sublime: os seus discípulos não o reconhecem! Então
eles cearam.
La Vanguardia: O Papa vem a Barcelona: e o senhor?
Gianfranco Ravasi: Junho ainda está longe, preciso de ser cauteloso.
La Vanguardia: Leão XIV é discreto: como ele é?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Um falante nativo de espanhol e uma grande pessoa, e mesmo antes de se
tornar Papa, já tínhamos concelebrado algumas missas.
La Vanguardia: Leão XIV celebrará missa na Sagrada Família no dia 10 de junho,
certo?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Parece que sim. Sabe o que o núncio apostólico Ragonesi disse sobre Gaudí
na década de 1920, quando visitou Barcelona?
La Vanguardia? Não. O que disse?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Disse assim: "Ele é o Dante da arquitetura!"
La Vanguardia: Será que Gaudí será um santo um dia?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Gaudí goza hoje da dignidade católica de venerável. Uma comissão estuda
um possível milagre que o tornaria beato. E, após outro processo, ele tornar-se-ia
santo.
La Vanguardia: Qual a sua opinião sobre o Templo Expiatório da Sagrada Família?
Gianfranco Ravasi: Há uns anos, fiquei
cativado pelo seu interior, a sua verticalidade e a sua acústica celestial,
onde ouvi vários coros cantando ao mesmo tempo. Naquele dia, conversei com
Montserrat Caballé.
La Vanguardia: Sobre o que conversaram?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Sobre ópera e música clássica, e pediu-me para transmitir os seus
cumprimentos a Riccardo Muti, um maestro que é um grande amigo meu.
La Vanguardia: Se Donald Trump estivesse nesta sala... sobre o que conversariam?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Sobre nada, receio. Porque Donald Trump não me ouviria.
La Vanguardia: Que opinam os bispos norte-americanos sobre Trump?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Os bispos de Chicago, Newark e San Diego criticaram os desmandos da
política de Trump contra os imigrantes.
La Vanguardia: Uma política racista, diria eu.
Cardeal Gianfranco Ravasi: Perseguir pessoas é anticristão. Tal como foi perseguir os cristianos há
dois mil anos na Roma de então.
La Vanguardia: E eles escondiam-se em catacumbas.
Cardeal Gianfranco Ravasi: Conheço em detalhe todas as catacumbas de Roma como arqueólogo: ali, no
ano 63 d.C., os bispos coordenaram-se na prédica da mensagem de Jesus.
La Vanguardia: O Governo de Espanha regularizou a residência de 800.000
imigrantes.
Cardeal Gianfranco Ravasi: E fez muito bem. É um acto de coragem. E está na mesma linha da Igreja
Católica, que predica o acolhimento das pessoas. Esta política ajudará as
pessoas, as que vêm e as que já cá estão, todas!, a ter uma vida melhor.
La Vanguardia: Diga isso a qualquer bispo espanhol.
Cardeal Gianfranco Ravasi: Sei que há algumas vozes discordantes sobre esses assuntos, mas eu
gostaria que a Itália fosse como a Espanha é hoje!
La Vanguardia: É mesmo assim?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Na Itália, a economia está atualmente em frangalhos e temos sérias
tensões sociais.
La Vanguardia: E atribui isso ao governo Meloni?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Pessoalmente, anseio pela democracia cristã clássica, uma tradição muito
italiana que foi muito benéfica.
La Vanguardia: Qual é a posição do Vaticano em relação aos conflitos em Gaza, na
Ucrânia, no Irão...?
Cardeal Gianfranco Ravasi: O Vaticano recusa-se a participar no Conselho de Paz estabelecido por
Trump. A presença do Vaticano no Médio Oriente manifesta-se através do
Patriarca de Jerusalém, que presta auxílio aos que sofrem em Gaza e noutros
locais.
La Vanguardia: Como estão os cristãos por ali?
Cardeal Gianfranco Ravasi: No Oriente Médio, não há problema. No Irão, nem tanto. E muito menos na
Arábia Saudita: o culto público é proibido para os cristãos.
La Vanguardia: E qual é a relação atual com o Patriarca de Moscovo, um cristão
ortodoxo?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Má, porque a Igreja Ortodoxa não critica Putin, que invade outro país e,
além disso, degrada as liberdades internas da Rússia.
La Vanguardia: Como arqueólogo(a), qual é o seu sítio arqueológico favorito?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Qumran! Encontramos papiros com textos bíblicos originais, escritos na
época de Jesus pelos essénios.
La Vanguardia: O que gostaria de encontrar?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Há poucas informações novas a serem encontradas; tudo já foi
exaustivamente rastreado. Vamos examinar o que está disponível.
La Vanguardia: Maria Madalena era a companheira de Jesus?
Cardeal Gianfranco Ravasi: Não. Sim, ela era sua discípula favorita. E uma discípula sábia.
Auto-retrato do Cardeal Gianfranco Ravasi
“Tenho 83 anos. Nasci em Merate
(Lombardia) e vivo em Roma. Sou cardeal no Vaticano, presidente emérito do
Pontifício Conselho para a Cultura, arqueólogo, especialista em hebraico e
estudioso da Bíblia. Sou celibatário. Política? Progressista. Crenças? Creio em
Deus, e Deus é humanista.”
Perfil realizado pelo La Vanguardia:
Ravasi é um homem de grande cultura, com um sorriso largo e um estilo de conversa jovial. E um cardeal romano. Ele serviu como Ministro da Cultura (e do Património e Arqueologia) do Vaticano e diretor da Casa de Dante. É também o fundador e diretor do Cortile dei Gentili (Pátio dos Gentios): um fórum de grande sucesso para encontros, discussões e debates entre crentes e não crentes. É um homem de mente aberta e coração receptivo. Atendeu graciosamente a todos os pedidos do fotógrafo e respondeu alegremente a todas as minhas perguntas. Um exemplo de paciência afável e convivial; se eu morasse em Roma, seríamos amigos. Seus dez doutoramentos honoris causa não seriam um obstáculo, e eu o convidaria para explorar as catacumbas romanas onde — disse-me — "em 63 d.C., os bispos se coordenaram para difundir a mensagem de Jesus". Meu amigo, Monsenhor Gianfranco Ravasi, participou em Barcelona do Congresso Gaudí organizado pelo Ateneu Universitari Sant Pacià.
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