SOBRE 'A POSSIBILIDADE DE UMA ILHA', DE MICHEL HOUELLEBECQ
Sobre A possibilidade de uma ilha , de Michel Houellebecq Leonidas Donksis , em livro em co-autoria com Zygmunt Bauman , qualificou “A possibilidade de uma ilha” (reeditada, pela Alfaguara , em 2018) como a distopia insuperada do que levamos de século XXI. Durante a pandemia, Houellebecq , cínico mas também lúcido, escreveu na France Inter que a obsolescência em curso das relações sociais, ainda que imposta, apenas acelerava uma tendência que já aí estava. Os contornos paroxísticos que esta assumia, para o escritor francês, conhecem nesta obra um desenvolvimento minucioso. 1.Principiemos pelo título. Possibilidades múltiplas de o decifrar. No interior do próprio texto (que titula), podemos situá-lo num poema de Daniel a Esther : “Existe no meio do tempo/a possibilidade de uma ilha” (p.352). O que significará, face a um cepticismo radical sobre o humano (“a criança é uma espécie de anão perverso, de uma crueldade inata, no qual se reconhecem imediatamente os piores traços da ...