'OS BEIJOS NÃO DADOS/TU ÉS BELEZA' (ERMES RONCHI)
‘Amigo é um nome de Deus’ Há um abismo, uma incandescência viva que se torna torrente jorrante em Os beijos não dados/Tu és beleza , de Ermes Ronchi: a mais fragante ardência amorosa, motivo e culminância do caminho monasterial, como insinua o autor (“ a língua dos trovadores tem fome de superabundância de amor: por isso, o inevitável porto de chegada é, para muitos deles, a abadia ”, p.17), como que (re) encontra a palavra guiada pela mão, puro artesanato do coração (“ Deus não está presente onde o coração está ausente ”, p. 12), para ajudar a falar de novo, em tempo desencantado. O desiderato da obra, não deixa, pois, desde a sua aurora, de ficar bem claro: amar a Deus não é amá-lo com exclusão dos outros (amigos); é reinventar – até rebentar – um coração plural, polifónico. Um risco implícito em todo o grande amor é o de esmorecer, em nome justamente de um amor totalizante, a polifonia da existência. Semelhante esmorecimento foi uma das consequências mais negativa...