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"O FILHO DO CARPINTEIRO"

  «Aqui o carrasco trava a carroça: O melhor dos amigos deve partir. À vossa saúde me despeço:  Vivei rapazes, não tarda morro. «Oh, se tivesse ficado em casa Preso ao labor de meu pai, Se me tivesse agarrado à plaina E ao enxó, não estaria perdido.  «Às tantas ainda havia construído Forcas pra outros gajos, Ao invés de estar aqui, pendurado,  Oh, se tivesse ficado mal, a sós.  Agora, vês como me erguem  Lá no alto, enquanto passam, Apertam as mãos, rogam-me pragas;  E o meu estado vai de mal a pior.  «Eis-me aqui, pendurado, junto A estes dois pobres condenados Por roubo: a sorte é a mesma, Só que um está enforcado por amor.  Vede camaradas, sem distinção, Cuidai de seguir distinto caminho;  Vede o meu pescoço, salvai o vosso;  Deixai o mal em paz, se possível. «Encontrai um fim decente, Sede mais astutos que eu. Fiquem bem, que eu passo mal;  «Vivei, rapazes, não tarda morro».  A.E. HOUSMAN , "O Filho do carpinteiro", tr...

RELÂMPAGO

  Quando a cegueira, relâmpago de fogo que me incendiou, me fez olhar a luz não vi sequer as patas do cavalo, nem o seu dorso inverso e ameaçante que eu nunca pressentira, eu à sua mercê - e à mercê d'Ele Abri os braços em fervor recente de crente convertido, e nada disse: agi Só mais tarde falei Não sei se pressenti dos gestos das palavras que no futuro disse e como o seu futuro incendiou cidades e poluiu nascentes, pisou até à morte gente que não a minha Ainda que, por dentro, naquele breve instante de cegueira, eu sentisse reconvertida e breve: a confusão do amor - Ana Luísa Amaral , in "Ágora",  Assírio e Alvim , 2019. sobre o quadro "A conversão de Paulo", de   Caravaggio , 1600-1601.