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'MOVIMENTO DO MUNDO'

  Movimento do mundo Pela porta da Igreja ouvia dizer orações como quem diz tabuadas. Eu errava pelo mundo e (escuta: era engraçado) quanto mais errava mais estava certo (a própria vida parecia que me queria preso a si). Num mundo de pernas para o ar os sábios são os morcegos – eu regressava do mundo e nunca estranhava o regresso (a cor do mar era a mesma a luz do céu era a mesma a inveja era a mesma). Vista de cima para baixo toda a ilusão é pequena – pela janela da escola ouvia dizer tabuadas como quem diz orações.   João Luís Barreto Guimarães , “Nómada”, Quetzal , 2019, p.12.   - houve um tempo em que nas Igrejas se diziam orações de forma mecânica, rotineira, burocrática; estas esgotavam-se em si mesmas, como se outro significado nelas não houvesse que o dizê-las; decoradas, mas sem existir uma apropriação das mesmas, do seu sentido, como se o ritual se esgotasse em si mesmo (“dizer orações como quem diz tabuada”); - num jogo antitético, podemos ver, diversamente, qu...

"OS CORVOS EM BIRKENAU"

  Os corvos em Birkenau   Os vagões que aqui chegavam partiram para outros lugares. O madeiro dos barracos (onde os mantinham à espera) não resistiu às estações. Nenhuma coluna de cinza os leva (em nuvem) pelo ar. Não há odor a queimado (nem gritos sob o silêncio) na plataforma puída ninguém aparta ninguém. As próprias câmaras de gás (hoje um monte de ruínas) podiam passar a ideia de que nada se passou. Mas eles já vestem de negro para não deixar esquecer. Sobre a erva que renasce (e faz por cobrir o passado) os corvos velam a morte colhendo provas de vida (restos de biologia:) sementes vergonha aqua lacrimae.   João Luís Barreto Guimarães , “Nómada”, Quetzal, 2019, p.25.   - não é possível, hoje, mesmo que visitemos o campo de concentração e extermínio de Birkenau aceder à experiência dos que ali habitaram: já não há o “madeiro dos barracos”, as “colunas de cinza” após as mortes, o cheiro a carne queimada, os ...