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COMOÇÃO E DESORDEM

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1 .E porquê a sedução ou queda em Tanatos (o antagonista de Eros, o impulso do amor) , o impulso destrutivo , a pulsão de morte  (na psique humana) que, tantas vezes, e, de novo, ao longo dos últimos anos, pareceu reemergir em força nas nossas sociedades (guerras ampliadas a territórios de que estavam desaparecidas há décadas, desconsolidação democrática, ‘democracias do ódio’…)? O antropólogo, pensador norte-americano Ernest Becker (1924-1974) propôs a seguinte explicação (estrutural) para aquele suceder: “o impulso destruidor seria uma reacção à comoção que a nossa mortalidade produz em nós . Humanos, reprimimos a nossa consciência da morte identificando-nos com uma ideia ou crença e, de imediato, matando por [em nome de] ela . Destruir outras pessoas [motivado] por uma abstracção cria nos destruidores a ilusão de fuga da mortalidade à qual enviam os destruídos. Segundo este paradoxo psicanalítico , o assassinato em massa viria a ser a expressão mais extrema dessa negação da mort...

REPENSAR O ALTRUÍSMO (PETER SINGER)

  1 .O filósofo Thomas Hobbes , um homem que viveu nos séculos XVI e XVII, sustentou, com particular intensidade no livro Leviatã , uma visão sombria do ser humano. Deixado sem uma autoridade forte, o homem seria o lobo do próprio homem e estaria num estado de guerra permanente com o seu semelhante (pelo que era necessário conceder soberania a uma instituição forte, com o monopólio da força, como o Estado, prefigurado nesse monstro marinho como o Leviatã). 2 .Um dia, Hobbes, passeando com amigos, e vendo um mendigo, abeirou-se deste e deu-lhe uma esmola considerável. Os seus companheiros de estrada, de imediato lhe fizeram observar que o seu gesto contradizia a sua teoria quanto à natureza profundamente iníqua do ser humano. Hobbes retorquiu-lhes que, em realidade, gostava de dar esmola, pelo que o ato que acabara de realizar tinha sido egoísta e, logo, compatível com a sua teoria. 3 .O pensador Peter Singer , um controverso professor de Ética, nos nossos dias propõe este dil...

OUSAR A ESPERANÇA

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  Ousar a Esperança   1 . Susan Neiman entende por progresso “ a ideia de que as pessoas podem trabalhar em conjunto para melhorar significativamente as condições reais das suas vidas e das dos outros ” (p.109). Esta concepção afasta-se tanto da perspectiva de que este, o progresso , se enlaça num trilho (humano) em linha recta e é inevitável (e “ muitas passagens de Hegel fazem [de facto] essa afirmação, e a História não a confirmou exatamente ”, p.110), como não o interpreta em chave de um acquis a que, chegados , enquanto sociedade estejamos livres de o ver desmoronar-se; quer dizer, o retrocesso é, efectivamente, possível (p.111; lembremos as noções difundidas, até Fevereiro de 2022, de imersão em um estádio de superação [ ou, nas suas formas mais suaves , “implausibilidade”] da “guerra”, na história recente da humanidade (em particular, na Europa), como um adquirido - por contraponto). Quando Neiman se refere a “progresso” não se encontra a aludir, bem entendido, a...