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UMA PLENITUDE NÃO DELICODOCE

  Uma Plenitude não delicodoce 1.A Rosalía fora assídua e pontual como se dizia na caderneta da minha infância, sabia-a militante e acólita e, embora não fossemos, já, companheiros de ano letivo, abeirei-me, envolto em fraternidades e em simultâneos cuidados que aprendi (necessários) com alguns meninos quando passa(ra)m dos quinze anos – “parte-se” -, e perguntei-lhe, então, num intervalo em que a vi a um canto, sossegada, no recreio: “ queres vir à prisão? Vamos meditar, juntamente com os detidos que quiserem participar, numa Via Sacra para a qual foram feitas reflexões por um padre que trabalhou em prisões de África. São textos fortes que incidem sobre a vida das pessoas que estão atrás das grades”. Ainda ecoa em mim, com a memória de um certo espanto e desconforto (por insuficiente ponderação instantânea minha, reconheço), a resposta que lhe saiu espontânea e expressiva: “ Creeeedo!! Eu tenho medo deles!! ”. Confesso que o primeiro pensamento que me ocorreu não foi o de um...

FUNDAMENTO E SENTIDO

  FUNDAMENTO E SENTIDO Num livro póstumo, elaborado para deliberada publicação após a sua morte, Bento XVI deixou escrito ("O que é o cristianismo. Quase um testamento espiritual", Lucerna , 2023, p164): "Um mundo sem Deus não pode ser senão um mundo sem sentido. Efetivamente, de onde provém tudo o que existe? Fosse como fosse, tudo seria destituído de um fundamento espiritual. De qualquer forma, existiria simplesmente, e seria destituído de qualquer fim e de qualquer sentido. Deixariam de existir critérios do bem e do mal. Por conseguinte, só teria valor o mais forte. O poder torna-se então o único princípio. A verdade não conta; aliás, na realidade não existe. Só se as coisas tiverem um fundamento espiritual, só se forem desejadas e pensadas - só se existir um Deus criador que é bom e quer o bem -, é que a vida do homem pode também ter um sentido (...) Uma sociedade em que Deus está ausente - uma sociedade que já não O conhece e O trata como se não existisse - é uma s...

'OS BEIJOS NÃO DADOS/TU ÉS BELEZA' (ERMES RONCHI)

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  ‘Amigo é um nome de Deus’ Há um abismo, uma incandescência viva que se torna torrente jorrante em Os beijos não dados/Tu és beleza , de Ermes Ronchi: a mais fragante ardência amorosa, motivo e culminância do caminho monasterial, como insinua o autor (“ a língua dos trovadores tem fome de superabundância de amor: por isso, o inevitável porto de chegada é, para muitos deles, a abadia ”, p.17), como que (re) encontra a palavra guiada pela mão, puro artesanato do coração (“ Deus não está presente onde o coração está ausente ”, p. 12), para ajudar a falar de novo, em tempo desencantado. O desiderato da obra, não deixa, pois, desde a sua aurora, de ficar bem claro: amar a Deus não é amá-lo com exclusão dos outros (amigos); é reinventar – até rebentar – um coração plural, polifónico. Um risco implícito em todo o grande amor é o de esmorecer, em nome justamente de um amor totalizante, a polifonia da existência.  Semelhante esmorecimento foi uma das consequências mais negativa...

BENTO XVI NA NOITE DO MUNDO

  “ BENTO XVI NA NOITE DO MUNDO NUMA IDADE [EM QUE O SÉCULO] PERDEU O OUVIDO PARA O DIVINO, O CATOLICISMO VOLTA AO GRÃO DE MOSTARDA, AO RESTO DE ISRAEL. RATZINGER SOUBE VER QUE A CRUZ DESTA GERAÇÃO ERA O DESALENTO, E AO MESMO TEMPO SABIA DA FÉ COMO “O TACTO DE DEUS NA NOITE DO MUNDO”. TALVEZ POR ISSO DISSE DE SI MESMO QUE NÃO ERA OPTIMISTA, MAS UM HOMEM ESPERANÇADO. ALGO DO GÉNIO DO CRISTIANISMO ESTÁ NESSA BELEZA E PROFUNDIDADE.   Haveria que ter o tamanho espiritual de Joseph Ratzinger para albergar – como se disse – uma inteligência de dimensão agostiniana e, ao mesmo tempo, apresentar-se face à cristandade como “um humilde trabalhador na vinha do Senhor”, ou terminar a sua autobiografia assimilando-se a um burro de carga .  Defensor da dignidade intelectual da Igreja no mundo contemporâneo, Bento XVI foi considerado o epígono desse génio germânico que iluminou Kant ou Lessing; mas, talvez seja mais pertinente questionar se na sua vida e obra não se reproduz algo de mai...

BENTO XVI - MAGNO

  BENTO XVI - MAGNO 1.A última encíclica de João Paulo II data de 2003. Para acedermos, porém, à penúltima carta encíclica do Papa polaco necessário é recuarmos 5 anos, a 1998. Nos últimos anos de vida e do seu pontificado, João Paulo II surge, já, muito debilitado, mas a Igreja vê no seu labor um testemunho em favor da plena humanização de todos os enfermos, da integração humana do sofrimento, da revalorização da velhice e dos doentes, sendo saudado, sempre, com grande afecto, por incontáveis multidões. Quando um novo Conclave, com vista à eleição de um novo Papa, se dá, na Primavera de 2005, a imprensa produz e relata um imenso jogo de palpites e apostas: geografias a considerar na escolha do Sumo Pontífice; tendências doutrinárias a sopesar; cor da pele, inclusive, a ponderar. Entre os nomes incontornáveis, o do cardeal Ratzinger . Sobre ele recairão, nas semanas que se seguem à escolha do novo Papa, um conjunto de epítetos de pendor, claramente, negativo: “o rottweiler de Deus...

O CRISTIANISMO E O OCIDENTE (DAVID BENTLEY-HART)

  O cristianismo e o Ocidente . David Bentley Hart Para o filósofo norte-americano, teólogo ortodoxo oriental, David Bentley-Hart , de todas as transições que a civilização ocidental atravessou ao longo da sua história só uma, em rigor, pode ser apelidada de “revolução”: o triunfo do cristianismo. Em uma época sem memória, procuremos situar, par e passo, o que mudou, com a emergência cristã, na visão que a humanidade tinha da realidade e as consequências práticas de tal adquirido , nas vidas individuais e coletivas, nos últimos dois mil anos. Um dos modos possíveis de atestarmos o contributo que o cristianismo ofereceu à civilização ocidental – e podemos definir civilização como “sociedade complexa assinalada pelo desenvolvimento urbano; a estratificação social, que tem no seu topo uma elite cultural; sistemas simbólicos de comunicação; uma divisão e domínio patentes sobre as circunstâncias naturais envolventes” - passa por comparar a sua emergência e as realizações que inspiro...