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LAMAS DE OLO (FOTOGRAFIA DE DUARTE BELO)

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  " Lamas de Olo, Vila Real, fotografia tirada em 2023. Uma imagem intrigante e ambígua. À primeira vista, o Portugal refractário, aquele que subsiste e resiste à mudança, encontra-se no canastro coberto de neve, do lado esquerdo, e na casa de pedra (uma capela mortuária), do lado direito. O grande acto de «resistência», porém, parece ser o da habitação amarela ao centro, com escadaria pelo exterior e janelas de alumínio. É ela, de facto, a que melhor exprime a vontade ou o inconformismo de continuar a viver no interior do país, contra tudo e contra todos. Morar em Lamas de Olo, Vila Real, no ano de 2023, tem laivos de militância, é quase um gesto político, uma atitude rebelde. Num azulejo minúsculo, encimando a escadaria, Nossa Senhora de Fátima abençoa tal façanha. A parabólica da varanda é só mais um adereço de modernidade, a juntar a muitos outros, facilmente detectáveis a olho nu " António Araújo , "Portugal refractário. Um país entre o imobilismo e a mudança",...

FOLHADELA

  "Fui autorizado e mudei-me para Vila Real para preparar as eleições [constituintes, de 1975]. Foi uma aprendizagem fabulosa porque conheci todas aquelas aldeias (...) e numa dessas vezes fui a uma escola primária numa aldeia, Folhadela, onde a minha mãe tinha vivido quando era criança. A escola não tinha luz eléctrica, estavam lá umas senhoras de idade com uns xailes pretos - a imagem cinematográfica italiana perfeita dos anos 1920 e 1930. Entrei, fui cumprimentando as pessoas, e quando passei junto das duas senhoras ouço uma dizer: 'Podemos votar neste, que é filho da Céuzinha'. A frase ficou para sempre na minha cabeça, pois era o melhor resumo de um programa político e da situação portuguesa de então. (...) Para minha 'honra', [na Constituinte] ainda cheguei a votar no hemiciclo um dos artigos que mais barulho deu, o que interditava total e definitivamente a pena de morte. Em Portugal, há a convicção de que fora abolida no século XIX, mdepois restaurada e nova...

A PROPÓSITO DE “A DISTÂNCIA”, DE TIAGO RODRIGUES

  1. Em palco, o cenário de uma Terra desolada, devastada por vários colapsos, a face que, da outra parte da moeda, remete a Marte. 2. A cadência, o ritmo gerado por frases sempre curtas e incisivas, interpretadas por Adama Diop (pai) e Alison Deschamps (filha), com o tom da urgência do decisivo, acentua o contorno do tempo (finito), da mortalidade a reclamar a intensidade das relações (vivências) humanas (por antonomásia, a relação pai/filha), aquela roda livre (o palco giratório no countdown até Amina perder a memória, o braço de ferro do pai para tentar convencê-la a regressar à Terra, “tantas coisas para consertar, tantas lutas para fazer. Aqui, podes fazer a diferença”), a mil à hora, redemoinho sobre o proscénio, amor desorbitado que escapa à lógica, voltas ao sol cumpridas com a velocidade furiosa de um certo desespero de incompreensão, da dádiva libertadora que aceita, finalmente, a escolha, a vida, a mundividência, a liberdade do outro. Que, numa palavra, o outro sej...

NO "ENTRE QUEM LÊ", MODERANDO CONVERSA COM RUI LAJE

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Do gosto de participar nas coisas da cidade e dos livros. No "Entre quem lê", em diálogo com o poeta Rui Laje . Vila Real, 23 de Setembro de 2026, nos claustros do antigo Governo Civil. De Rui Laje, no “Posfácio” a “Física Espiritual”, o Professor Arnaldo Saraiva , leitor muito atento da sua obra, diz tratar-se do “maior acontecimento da poesia portuguesa do século XXI (…) Depois da morte dos melhores poetas ativos nos meados e fins do século XX – Nemésio, Jorge de Sena, Sophia, Eugénio de Andrade, Cesariny, O’Neill, Herberto, Ruy Belo… - tínhamos a sensação da existência de algum vazio ou de alguma orfandade na poesia portuguesa. Hoje podemos anunciar sem titubeios – esta antologia bastará para o confirmar – que um novo grande poeta chegou no início do século XXI à poesia portuguesa”.  

IRÃO E JORNALISMO DE GUERRA

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De acordo com Ricardo Alexandre , jornalista há décadas, na antena1 (companhia dominical com José Cutileiro ), TSF e SicNotícias , devotado às questões de política internacional, autor, entre outros, de “Tudo sobre o Irão” ( Ideias de Ler , 2026), ao fim da tarde deste Domingo, no “Entre quem lê”, em Vila Real, o do regime iraniano transfigurou-se desde o início da guerra, nos seguintes termos: 1. Alteração das cadeias de comando: não é, já, uma elite teocrática, mas muito mais uma elite técnica e nacionalista que se encontra à frente dos destinos iranianos; 2. Deu-se uma profunda descentralização das tomadas de decisão – agora realizadas, muito, em âmbitos regionais ; 3. Foram nomeadas equipas de engenharia, alocadas a todo o território, para responder, de modo imediato, à danificação de estruturas cruciais do país . A forma de preparar a defesa do país alterou-se também, o controlo do estreito de Ormuz e ataques a interesses estratégicos e militares de outros países da ...

RELICÁRIO

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  Teatro Nacional de São João repleto, na noite de ontem, para assistir à ópera-bufa "Relicário Perpétuo" - inserida, ainda, na celebração dos 500 anos de Camões - com música de Luís Tinoco, direcção musical de Joana Carneiro , libreto de Luísa Costa Gomes e encenação de Nuno Carinhas .  "É um dos problemas que o 'Relicário' põe: o que é que se pretende? Que Camões faça parte do Relicário ou do Cânone? Provavelmente, é uma simplificação, mas Cânone soa a regra viva, Relicário, a devoção retórica. O Cânone devia significar que Camões está vivo porque é lido e não porque está morto e ressequido, visitado em romagem de saudade. Se está vivo, não há saudade nenhuma" ( Luísa Costa Gomes ) "A partitura é também um Relicário de soluções e de articulações musicais. Se eu estivesse a fazer uma peça puramente instrumental, sem qualquer texto associado ou elemento teatral extramusical, não iria talvez pegar em algumas relíquias que transportei para esta partit...

LEITURA(S) DO MUNDO

  1.Marc Bassets , especialista em Política Internacional , autor de “O outono americano”, “ElPaís”, 06-09-2026, a insuficiência dos programas de memória e de História como travões do ascenso da extrema-direita: “O exemplo alemão esconde outra lição amarga. Possivelmente, não existe outro país no mundo que tenha estudado com tal empenho e profundidade o seu passado criminoso como a Alemanha, nem nenhum que tenha dedicado tantos esforços e tão sérios – nas escolas, na política, na sociedade civil – a entender as origens do nazismo e as suas consequências. Era um dever para o país que renasceu das ruínas em 1945, depois de ter perpetrado o Holocausto e destruído a Europa e baseava-se numa crença: não há melhor vacina contra a repetição dos erros do passado do que o seu estudo e expiação. (…) Não se trata de esquecer as lições do passado nem de apagar as linhas vermelhas contra aqueles que apresentam propostas que atentam contra a dignidade humana e os direitos humanos. A questão é ...