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NÉLSON RODRIGUES E A ARTE DA FRASE

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  A prova de que não precisamos de subscrever boa parte de uma prosa para nela nos deleitarmos, seguirmos a volúpia, exercício hedonista, escrita que nos prende e contagia, encontra-se no volume de crónicas de  Nélson Rodrigues , agora finalmente publicado em Portugal - pouca coisa do autor havia chegado até nós, apesar das referências quase míticas que o seu nome sempre rumorejava -, selecção de  Pedro Mexia , sob o título  O homem fatal  (Tinta da China, 2016). Trata-se da " arte da frase ", como escreve  Abel Barros Baptista , e de um humor soberano, seguro, fatal. Sem condescendências, nem indolência. Vital. Por exemplo, sobre os inúmeros feriados, pontes, momentos de ociosidade dos brasileiros, Nélson Rodrigues sentencia, com a magnífica impenitência de quem assesta uma  fatwa  necessária, caricatura que na hipérbole, junta crónica de costumes a uma reivindicação do literário, o exagero necessário para criar distância e civilidade: " O brasil...

NOS 50 ANOS DA ÚLTIMA DITADURA (MILITAR) ARGENTINA, OS VOOS DA MORTE - OU DA HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA

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  1. Agora que passam 50 anos do inicio da última ditadura (militar) argentina (a primeira das quais surgindo no início dos anos 30 do século XX, e ao longo dessa centúria múltiplas vezes replicada, à razão de uma vez por década, naquele país da América Latina), fixemo-nos em “ O voo ”, livro reeditado em 2020 e originalmente dado à estampa em 1995 , momento em que um verdugo, Adolfo Scilingo , oficial da marinha , assumia, pela primeira vez, num arrepiante conjunto de entrevistas ao jornalista de investigação Horacio Verbitsky , os voos da morte levados a cabo pela Junta Militar liderada (inicialmente) por Jorge Rafael Videla : em existindo campos de concentração em espaços das Forças Armadas argentinas, nomeadamente na Escola Superior Mecânica da Armada ( ESMA ), um conjunto de alegados "subversivos", depois de sujeitos a tortura , recebiam, da parte dos seus títeres, uma primeira injecção entorpecedora, de forma a entrarem, já, cambaleantes em um camião que os tra...

A CIÊNCIA POLÍTICA NÃO EXPLICA TRUMP: A PERPLEXIDADE DE ADAM PRZEWORSKI

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  A Ciência Política não explica Trump . A perplexidade de Adam Przeworski Há um desafio epistemológico que deixa o decano de Ciência Política aterrado : e se os instrumentos – as estatísticas , os inquéritos , os questionários , toda a sorte de estudos coligidos durante décadas – a que a sua disciplina se ateve (até ao presente) se mostra(re)m incapazes / insuficientes de/para rastrear o significado derradeiro do que politicamente está em causa num país como os EUA ? Estupefacto com o que quotidianamente observa e regista nos seus Diários (Fevereiro-Julho de 2025) acerca da (degradação da) vida política/democrática durante o (segundo) mandato Trump , o autor/ cientista duvida mesmo, agora, da teorização (própria) sobre as condições de existência e permanência de uma democracia , teses que elaborou, paciente e diligentemente, ao longo de um robusto trabalho académico. As conclusões extraídas, durante esse processo e labor, partindo de um pensamento indutivo são, actu...

O MESTRE QUE ESCOLHEU OS DISCÍPULOS E A ARGAMASSA DE FULIGEM PARA PINTAR OS PAPIROS (E ASSIM AS CARTAS DE PAULO)

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  O MESTRE QUE ESCOLHEU OS DISCÍPULOS E A ARGAMASSA DE FULIGEM PARA PINTAR OS PAPIROS (E ASSIM AS CARTAS DE PAULO) 1. Para a escritora Lídia Jorge , o principal legado que a catequese , e a Igreja de Boliqueime , lhe trouxeram foi ter passado a ter a noção de que nunca está sozinha . Uma questão “muito substantiva, central na minha vida foi [procurar saber] quem é Cristo? ”, uma inquietação que continua ainda hoje . Recuando à sua infância, no diálogo com o bispo D. Alexandre Palma , nas I Jornadas da Associação Bíblica Portuguesa , que ocorreram a 7-8 de Novembro último, em Lisboa, no Centro Cultural Brotéria , recordou, nomeadamente, que “ a missa do galo era alguma coisa fundamental, central na vida [pessoal/comunitária]. As velas [por exemplo] eram impressionantes para uma criança ”. Teve, no decorrer da sua meninice, a ideia de roubar, do templo que frequentava, o menino Jesus para que ele não viesse a ser o Cristo crucificado . Ainda hoje se interroga nestes termos: “por ...