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OLHARES SOBRE O MUNDO

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    “Toda a política é, inexoravelmente, internacional, mesmo que o paroquialismo de muitos líderes políticos continue a imperar” (Bernardo Pires de Lima)   1. A quando do mais recente alargamento da NATO , com Suécia e Finlândia a passarem a integrar aquela Organização , o posicionamento da Rússia, sem sobressalto algum, foi o de desvalorizar aquelas adesões, apesar de as mesmas acarretarem mais uns milhares de quilómetros de fronteiras da Federação Russa com tal entidade. Ora, tal desvalorização pode ser lida, como Bernardo Pires de Lima a lê (“O ano zero da nova Europa”, Tinta da China , 2024), enquanto evidência de que a Rússia, em realidade, não toma a NATO como uma ameaça – ou, mais rigorosamente, que a Federação Russa não interpreta a Organização do Tratado do Atlântico Norte enquanto risco para a sua segurança interna, nem se auto-compreendeu como sendo um alvo militar, em registo ofensivo ( pró-activo , e não reactivo ), por parte da NATO . Diversamente, poré...

OBSESSÕES E OUTROS ERROS

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1. Aponta-se, comummente, o facto de “ Os Lusíadas ”, de Luís Vaz de Camões , encerrarem com a palavra “ inveja ”, e visto o poema ter “a reputação de ser sobre Portugal”, para se deduzir aquela como a “ característica mais portuguesa do país ”. Essa observação, porém, como nota Miguel Tamen (“Erro Extremo – III”, Tinta da China , 2025), não pode deixar de confrontar-se com o facto de “ Os Maias ”, de Eça de Queiroz , acabar com “ subia ”, “Menina e Moça”, de Bernardim Ribeiro , terminar com “ LAUS DEO ”, ou “A Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Dinis , finar com “ A Morgadinha dos Canaviais ”. Isto significa que para a inferência assinalada poder proceder ter, desde logo, que i) se conferir “ um valor descritivo menor ” às obras vindas de mencionar face a “Os Lusíadas”, ii) em qualquer dos casos, contudo, medida a “fiabilidade” da aferição do “carácter nacional” pelo derradeiro dos vocábulos apostos neste(s) escrito(s). E esse é, efectivamente, um problema dificilmente superável...

O CONSENSO PÓS-NEOLIBERAL

  O NOVO CONSENSO “O consenso pós-neoliberal está aqui, mas não o procure nas políticas económicas do presidente dos EUA, Donald Trump. Após uma década de reacções adversas é hora de aceitar que o neoliberalismo está morto, mas também que um novo consenso está a tomar o seu lugar. Importa sublinhar que segmentos significativos da esquerda e da direita nos EUA estão de acordo no que diz respeito às linhas gerais de política económica. As discussões nas universidades e think tanks são hoje estimuladas por um consenso que se afasta de modo substancial da ortodoxia neoliberal dos últimos 50 anos. O primeiro elemento do novo consenso é o reconhecimento de que a concentração do poder económico se tornou excessiva. (…). Alguns reclamam diretamente da desigualdade de rendimentos e de riqueza e dos seus efeitos corrosivos na política. Outros, preocupam-se com o poder de mercado e as implicações adversas para a concorrência. Para outros ainda, o problema principal é a financeirização e a dis...

FILMAÇO - "FOI SÓ UM ACIDENTE"

  Da capacidade do particular se fazer universal: o que fazemos com quem nos fez profundamente mal? Como convivemos com o passado intensamente ferido? Em quem nos podemos transformar se formos, agora, o verdugo (“ a premissa - homens e mulheres vitimados invertem os papéis com os seus algozes – é a essência do direito e da cultura ”, Manohla Dargis )? De que modo o mal (e o desejo de vingança) nos pode capturar e colonizar? (“ podemos ser livres sem compaixão ?”, Elsa Fernández ). Enquanto dão voltas e voltas (absurdo) à cidade, à espera que Godot decida a justa reacção a Eghbal , torcionário do regime (responsabilidade individual e colectiva unidas, ainda que Panahi aponte, sobretudo, ao sistema: numa outra estrutura, este homem seria diferente, agiria de outra maneira), a vontade de o comer vivo, a consciência culpada de o fazer (perda da alma, mas possibilidade real de no futuro o próprio sistema os devorar pela réplica dos crimes por si perpetrados), o dilema do perdão (nunca...

EMBRIAGUEZ DE PODER DE TRUMP

  “Borracheira de poder de Trump O resultado da Operação Resolução Absoluta parece ter subido à cabeça de Donald Trump . A ação militar envolveu um ataque aéreo e terrestre à capital venezuelana e o sequestro de seu chefe de Estado. Ela não possuía a autorização constitucionalmente exigida pelo Congresso para ações militares contra um país estrangeiro e violou a Carta da ONU e a imunidade soberana concedida aos chefes de Estado dos países membros da organização internacional; mesmo assim, a Casa Branca prosseguiu com a ação baseando-se unicamente em um mandado de prisão emitido por Nova York. Assim, o resultado da operação militar tornou-se uma ameaça universal do uso da força bruta sem quaisquer princípios democráticos em suas ações: na Venezuela, onde busca controlar o país de mãos dadas com o próprio chavismo que denegriu, a Casa Branca descartou ignominiosamente a oposição democrática, não exigiu a libertação de presos políticos, o retorno de exilados ou a abertura de um pr...

MUNDO: ESTADO DA ARTE

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  1. Em “O fim da paz perpétua” ( Zigurate , 2024), o Professor José Pedro Teixeira Fernandes faz notar a ironia resultante do facto de Immanuel Kant ter nascido em Konigsberg, haver influenciado, decisivamente, a construção da democracia liberal , da Sociedade das Nações , da Organização das Nações Unidas , da União Europeia , ou do Direito Humanitário e, essa localidade, antiga capital da Prússia (praticamente destruída com os bombardeamentos dos Aliados durante a II Guerra Mundial), hoje Kaliningrado, quinze mil quilómetros quadrados, um milhão de habitantes, a meio caminho entre a Polónia e a Lituânia, ter sido absorvida pela Rússia, mas não assim os ideais Kantianos – entre os quais, os de paz perpétua -, trocando, aliás, os russos, aqueles princípios por uma abordagem clausewitziana (que muitos acreditavam já não aplicável à interpretação das hodiernas relações entre Estados), a qual significará entender, sem quaisquer estados de alma ou considerandos de natureza éti...