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UMA PLENITUDE NÃO DELICODOCE

  Uma Plenitude não delicodoce 1.A Rosalía fora assídua e pontual como se dizia na caderneta da minha infância, sabia-a militante e acólita e, embora não fossemos, já, companheiros de ano letivo, abeirei-me, envolto em fraternidades e em simultâneos cuidados que aprendi (necessários) com alguns meninos quando passa(ra)m dos quinze anos – “parte-se” -, e perguntei-lhe, então, num intervalo em que a vi a um canto, sossegada, no recreio: “ queres vir à prisão? Vamos meditar, juntamente com os detidos que quiserem participar, numa Via Sacra para a qual foram feitas reflexões por um padre que trabalhou em prisões de África. São textos fortes que incidem sobre a vida das pessoas que estão atrás das grades”. Ainda ecoa em mim, com a memória de um certo espanto e desconforto (por insuficiente ponderação instantânea minha, reconheço), a resposta que lhe saiu espontânea e expressiva: “ Creeeedo!! Eu tenho medo deles!! ”. Confesso que o primeiro pensamento que me ocorreu não foi o de um...

A PROPÓSITO DE "A VIAGEM DO ELEFANTE" - NOS 100 ANOS DE SARAMAGO

  Do estatuto do narrador. A propósito de "A Viagem do Elefante", de José Saramago O habitual elefante em loja da porcelana linguística mais convencional e purista está de volta, numa provocação estética e desafio literário de não pouca relevância: é o estatuto do narrador que emerge como repto ao leitor do último “conto” – assim pretende o autor ver classificada a sua mais recente obra – do Nobel da Literatura português. Habituados a operar com a distinção narrador-autor, com o primeiro a não ser subsumível nem tão pouco diluível no segundo, é com algum embaraço que assistimos à verdadeira osmose promovida por Saramago, entre estas duas “entidades”. Para efeitos de melhor explicitação, pensemos, ainda, na poesia e na análise centrada no “sujeito poético”: não atribuímos os pensamentos, as ideias, os sentimentos ao autor Pessoa ou Cesário Verde, por exemplo, mas referimo-nos ao “sujeito poético”, “sujeito” com o qual, de resto, os autores não têm de concordar ou se aproxima...