VISITA DO ROBOT À ESCOLA

 

VISITA DO ROBOT À ESCOLA
Mal entrei na sala de aula
notei um interesse renovado
nos seus rostos, como se alguém
tivesse vindo salvá-los do inferno
das equações matemáticas
e dos sistemas filosóficos.
Mesmo os que se encontravam
curvados, movendo os dedos
pelos ecrãs endireitaram-se
nas cadeiras e observaram-me.
A um canto a professora fingia
um interesse pessoano por todas
as recentes invenções tecnológicas
ou mudanças semestrais
nos programas escolares.
Então, abri o livro e comecei a ler,
sem pose e numa voz erradamente
chamada de robot, o poema da pág.34.
Finda a leitura, as perguntas oscilaram
entre as entediantes sobre a
influência do 15G na vida quotidiana
e as admiráveis e criativas:
«em que idade começou a sentir
desejo por outro corpo?»
«alguma vez sentiu medo na escuridão
do quarto, à hora em que os pensamentos
se amontoam como gelo à deriva?»
«ao percorrer as vinhas da encosta
teve a tentação de sentar-se no chão
a comer as uvas americanas
acabadas de colher?»
«foi difícil aceitar ter de
fazer uma revisão de dois em dois
anos e mudar o mecanismo do coração?»
«já apagou deliberadamente da memória
episódios que sabia irem provocar dor
pela vida fora»?
Jorge Gomes Miranda, "Emoção artificial", Gradiva, 2023, pp.14-15.

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