NOS 50 ANOS DA ÚLTIMA DITADURA (MILITAR) ARGENTINA, OS VOOS DA MORTE - OU DA HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA

 
1.Agora que passam 50 anos do inicio da última ditadura (militar) argentina (a primeira das quais surgindo no início dos anos 30 do século XX, e ao longo dessa centúria múltiplas vezes replicada, à razão de uma vez por década, naquele país da América Latina), fixemo-nos em “O voo”, livro reeditado em 2020 e originalmente dado à estampa em 1995, momento em que um verdugo, Adolfo Scilingo, oficial da marinha, assumia, pela primeira vez, num arrepiante conjunto de entrevistas ao jornalista de investigação Horacio Verbitsky, os voos da morte levados a cabo pela Junta Militar liderada (inicialmente) por Jorge Rafael Videla: em existindo campos de concentração em espaços das Forças Armadas argentinas, nomeadamente na Escola Superior Mecânica da Armada (ESMA), um conjunto de alegados "subversivos", depois de sujeitos a tortura, recebiam, da parte dos seus títeres, uma primeira injecção entorpecedora, de forma a entrarem, já, cambaleantes em um camião que os transportaria, por sua vez, ao aeroporto militar e a um avião (ao serviço das FA); dizia-se-lhes, naquela altura, que iriam ser transferidos a Sul, para prisão diversa daquela em que se encontravam, e que, portanto, lhes seria administrada vacina com vista a resistirem, aqueles, em novo território; nos voos da morte, a equipa militar integraria, ainda, um médico que, em plena viagem, aplicaria uma segunda injecção, de efeito mais forte do que a primeira, de maneira a que os detidos ficassem totalmente inconscientes; desmaiavam, então, por regra, aqueles, e, nesse momento da viagem fatídica, eram despidos; depois, nus, eram atirados, um a um, de um avião, em mar alto. Nem um olhar, nem um grito, dos atirados à morte, com este procedimento infame, capaz de (eventualmente) incomodar os carrascos. Tratou-se, pois, de não informar, sequer - defenestração definitiva de qualquer putativo respeito -, as pessoas, de que iriam morrer (ainda que estas, a certa altura, nas prisões a que eram submetidas, pudessem temer o pior), tal como os nazis faziam nos seus campos de extermínio sob a capa do duche a que os prisioneiros, supostamente, seriam levados, nunca nenhum escapando dos efeitos do Zyklon B.

2.O modo dramático com que a sociedade argentina recebeu, naquele ponto intermédio da década de 90, o relato de Scilingo, descrito, com minúcia, por Horacio Verbitsky em “O voo” (Las Quarenta, 2020; excelente e muito útil a cronologia e contextualização da política argentina desde 1930; o levantamento dos personagens principais daquela história e dos documentos anexos que provam como Scilingo invetivou as autoridades a pronunciarem-se e reconhecerem o mal feito), deveu-se não propriamente ao desconhecimento do que durante a ditadura (1976-1983), cedo denunciado em gazetas clandestinas da oposição e organizações de defesa dos direitos humanos, se havia passado (em 1984, uma comissão presidida pelo escritor Ernesto Sábato referiu a existência de, pelo menos, 9 mil pessoas desaparecidas e atiradas ao rio ou ao mar, com violação dos direitos humanos de forma orgânica e estatal e algumas das mais elevadas figuras da ditadura foram a juízo), mas ao reconhecimento, inédito, de um elemento do conjunto de corporações que perpetraram actos que violavam todas as convenções e a dignidade humana na “luta contra a subversão” (nem a indicação da eficiência sobre a vontade e liberdade individuais no âmbito das FA, nem a obediência cega justificam atos inumanos). Mais de uma dúzia de anos volvida sobre o termo do regime autoritário passou, pois, a haver um relato e não dois na sociedade argentina, acerca dos anos de chumbo. O estabelecimento dos factos sobre os voos da morte – a que viria a somar-se o conhecimento dos bebés roubados às famílias dos montoneros e entregues a proles conformes ao regime, com a alegação de que, assim, se evitava que a criança/jovem fosse inoculada com o vírus da subversão fez com que a alegação da existência daqueles deixasse de ser uma narrativa dos «párias» e dos «loucos» e passasse a ser, finalmente, a História assumida por todo o país. Assistiu-se, concomitantemente, naquela hora, ao desatar de um redemoinho de paixões, o passado agitou-se como um fantasma (o que queria esquecer-se e era tabu regressou), a catarse social emergiu, a possibilidade de justificar-se o massacre cessou. O reconhecimento do sucedido e novas revelações – o sargento Víctor Ibáñez, no dia seguinte a ser conhecido o testemunho de Scilingo, identificou meia dezena de vítimas dos voos de morte - acerca dos anos de terror sucederam-se, incluindo, em termos intensos, na imprensa conservadora (o corredor que dava acesso às salas de tortura, na ESMA, chamava-se “Avenida da Felicidade”; enquanto se torturava selvaticamente colocava-se um disco com o volume no máximo). O bispo de Viedma, na Patagónia, Miguel Esteban Hesayne que havia enfrentado os militares e que denunciara as torturas, por aqueles praticadas, como anti-cristãs – realizaria uma “estremecedora mensagem pascal” chamando à responsabilidade a própria Conferência Episcopal Argentina – que se acharia dividida –, em especial por não receber as mães dos chamados “desaparecidos”. Desde Abril de 1977, as Mães da Praça de Maio, todas as quintas-feiras reclamavam frente à sede do Governo pelos seus filhos (detidos-desaparecidos).

3.Com vista a angariar fundos para publicar anúncio em jornal a solicitar informação sobre os filhos desaparecidos, bem como a rezar pelos mesmos, reuniam-se em Igrejas religiosos e laicos. Vigiados pelo regime, e sem que nenhuma outra acusação sobre estes impendesse, foram alguns sequestrados (em plena Igreja de Santa Cruz, em Buenos Aires), torturados, violados e mortos. Entre estes, ainda em Dezembro de 1977, nas vésperas do Natal, duas monjas francesas – as quais teriam, até ao fim das suas vidas, mantido o interesse pelo bem dos seus algozes, em impressiva dádiva –, Alice Domon e Léonie Duquet (em 1976, por sua vez, um grupo de padres palatinos foram mortos na Igreja de São Patrício, e catequistas sofreram, igualmente, as agruras da guerra suja). O caso suscitou estupor em França, alvo de aprofundada investigação, repercutindo-se internacionalmente, uma vez mais, o horror que a Junta Militar dirigida, até 1981 (as FA saíram do Governo a 10 de Dezembro de 1983), por Videla, perpetrava. Ademais, cedo corpos mutilados – quase sempre sem unhas nos pés e mãos, por vezes sem alguns dos membros – foram dando à costa no Uruguai (a 6 de Setembro de 1976 ali aportaram os cadáveres de três jovens manietados e mutilados; entre Março e Outubro daquele ano, 25 corpos com aquelas características surgiram no Uruguai). Pesem as mal aventadas e infamantes (para com as vítimas) desculpas – pelo regime afim do argentino, no Uruguai - para justificar o surgimento dos sucessivos cadáveres, a tragédia argentina ficava destapada.

4.Depois de meses infiltrado no grupo, fazendo-se passar por familiar de um dos desaparecidos, e pretensamente angustiado com o destino daquele, o agente Alfredo Astiz, oficial da Armada que levaria à captura do grupo em que se encontravam as religiosas francesas, fê-lo com recurso a uma apropriação grotesca do texto evangélico e do gesto de Judas: beijou os seus alvos como sinal de identificação para serem levados, da Igreja, para sevícias e morte. Numa capacidade inversa, sábia, de ler os clássicos da cultura ocidental, já depois da confissão de Scilingo, vários familiares de desaparecidos-detidos, como Emílio Mignone, evocaram, entre outros, a Antígona, de Sófocles, para reclamar o direito a enterrar o corpo-cadáver: “mas a sinceridade a que se entregou a sociedade necessitava também de uma sanção jurídica. Invocando pautas culturais que remontam à Idade da Pedra, à Antígona de Sófocles, o direito interno e o direito internacional, vários familiares de desaparecidos solicitaram à justiça que declarasse o direito à verdade e ao duelo e à obrigatoriedade do respeito pelo corpo. Emílio Mignone, subscritor de uma dessas petições, sustentou que esse era um património cultural da humanidade desde que um homem do Neanderthal foi enterrado numa cova sobre um leito de ramos de pinho e coberto com um manto de flores. Acrescentava que arqueólogos e antropólogos reconheciam no culto dos mortos um signo de humanização ainda maior do que o emprego de ferramentas ou o uso do fogo”.

5.A denúncia de Scilingo (na qual diria que não tinham detido, afinal, “subversivos transcendentes”, podiam ter alcançado os mesmos objectivos “sem matar”, ou que “fizemos coisas piores do que os nazis”, quinze a vinte pessoas arremessadas ao Atlântico Sul, durante dois anos, quase sempre às quartas-feiras, excepcionalmente às quintas-feiras, foram os choques eléctricos, as violações sexuais, os abusos sobre grávidas, os bebés roubados às famílias), atentando-se, seriamente, nas suas palavras, no acervo de entrevistas compulsado por Verbitsky, sugere motivações diversas: o peso da culpa e a impossibilidade de manter o silêncio público sobre a enormidade do sucedido – revelou que nas duas sinistras missões que levou a cabo nos voos da morte, um com 17 e outro com 13 prisioneiros, respectivamente, as 30 pessoas detidas a bordo terminaram sem vida (no dizer, à época, de Zygmunt Bauman: o que esperavam, depois de ele ter atirado 30 pessoas ao mar? Que fosse tratar do jardim?); a recusa de Videla e outros dirigentes como Emílio Eduardo Massera (comandante em chefe da Armada desde 1975 e membro da Junta Militar entre 1976 e 1978) em reconhecerem as ordens institucionais dadas, tratando os casos mais espinhosos com que eram confrontados como “excessos” individualmente cometidos; ausência de respostas, apesar das várias cartas por si enviadas, do poder político, às suas denúncias; o ter escorregado, e quase caído, abatendo-se sobre si o abismo (e tornando vívido o humano terror que se lhe deparava, e, afinal, o humano prisioneiro que transportavam), do avião em uma das duas viagens aberrantes em que esteve envolvido…
Após os voos, conta Scilingo, baixo, nariz grande, bigode, aos 45 anos (18 após os acontecimentos), copos repletos de whisky passaram a ser a sua dieta, acompanhada de soníferos. Os capelães militares que o procuraram sossegar, alegadamente lhe transmitindo que o papel que ali exerciam, os militares, era de separar o “trigo” do “joio” e que tal possuía alguma ressonância bíblica, não só não o sossegaram, como, posteriormente, consideraria aviltante tal interpretação do texto sagrado…Contou a barbaridade em que participara, apenas, à mulher e, anos volvidos, a dois amigos – que ficaram em silêncio. Passou muito tempo até o confirmar à própria mãe e a Verbitsky disse muita coisa que nunca contara a quem quer que fosse. Consultou o psicólogo do Hospital Naval, sendo que o vice-almirante Juan Carlos Anchézar certificou que Scilingo não padecia de transtornos psiquiátricos…
Num relato que morde, em “O voo” acompanhamos o muito complexo e problemático processo de tentativa de pacificação de uma sociedade em luta com um passado recente tenebroso – a pressão dos sectores militares, no limite do insuportável (isto é, com políticos a aprovarem leis debaixo de baionetas), para a impunidade e até para a promoção de membros que haviam sequestrado, em 80% dos casos com testemunhas, em casas, nas oficinas, à saída dos empregos, nas ruas, torturaram e enviaram à morte seus semelhantes, tremenda, com leis que se emendam, se fazem e desfazem, refazem e são colocadas de novo em causa, indultos e reabertura de processos, jurisdições particulares e jurisdições universais – e a necessidade de um país conseguir um módico de prosseguir, a venalidade e o pragmatismo, por vezes, uma maior exigência e idealismo, noutras, do poder político – Carlos Menem, Presidente da República democraticamente eleito, que 45 dias antes do livro de Verbitsky com Scilingo sair negava os factos e as pessoas que dali a nada seriam consensuais (mais, a tortura era a lei, e a lei tinha sido cumprida, referia), reivindicaria para si muitas das revelações posteriores de sectores militares (que disse a seu mando), castigaria Scilingo. Este, de resto, tanto houvera tido uma tentativa de suborno em troca do seu silêncio, como seria alvo de uma revanche, na rua, sendo alvo de espancamento de cortes no rosto, no qual, aliás, foram escritas palavras com as iniciais de jornalistas que o haviam entrevistado.
Durante a última ditadura militar argentina e a sua guerra suja, observamos como uma alta patente militar, o Comandante-chefe da Armada, pôde atirar de um avião o marido da sua amante; como militares afectos ao regime possuem irmãos que se encontram no movimento que mais o contesta, e como procuram interceder por estes; como há quem se negue a praticar o mal e pactuar com ele, mesmo que isso signifique suspender ou abandonar uma vocação e/ou profissão (Jorge Búsico era capitão de fragata e foi um dos poucos oficiais que deixaram a Armada em desacordo com os métodos da guerra suja); como na zona cinzenta de que falara Primo Levi se poderá, porventura, contar o Núncio Pio Laghi, companheiro de partidas de ténis de Massera e conselheiro do seu sucessor, Armando Lambruschini, que nunca denunciou o regime, mas conseguiu salvar algumas vidas; como passadas várias décadas após o sucedido, e já durante a segunda década deste século, um filho descobre no pai um dos anestesistas dos “terroristas” que vão ser embarcados nos voos de morte, e corta relações com ele até ao fim da vida; como ademais de aviões, também barcos e helicópteros terão servido para destruir vidas humanas através de um mesmo processo; como pessoas que estavam convencidas da luta enquanto ela se desenvolveu e que depois caem na conta do sem sentido do levado a cabo; como torturadores houve que reconheceram que gostavam de torturar e da mentalidade existente entre militares de que quem não gostava de torturar era um débil; como alguma das vítimas terá estado consciente até ao momento em que foi atirada do avião abaixo; como se aplicou uma picana eléctrica a um bebé de vinte dias
Com a invocação de uma jurisdição internacional e um pedido de arresto, e com Baltazar Garzón como juiz, Scilingo – que viria a fazer greve de fome - viria a ser julgado e condenado em Madrid (por tortura, genocídio e terrorismo), em primeira instância (na qual negaria os factos por si revelados em 1995, sendo que Verbitsky levou a tribunal todo o material de gravações, e demais correspondência, inclusive registo epistolar posterior ao início daquele julgamento, em que o réu continuava a corroborar o que dissera na década anterior), em Abril de 2005, a 640 anos de prisão e, em 2007, a pena foi elevada a 1084 anos pelo Supremo Tribunal espanhol. Em 2014, Verbitsky visitou, na prisão, em Madrid, o seu entrevistado. Ao fim de 22 anos de cadeia – e como preso exemplar -, passou para um centro de inserção social da Comunidade de Madrid.
Já após a pandemia da Covid-19, portanto muito próximo de nós no tempo, o estado argentino recuperou, comprando a privados nos EUA, o Skyvan que fazia voos de morte (e, neles, rotas e planos de voo, e seus integrantes, nos anos da Junta Militar).

Pedro Miranda




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