SOBRE 'A POSSIBILIDADE DE UMA ILHA', DE MICHEL HOUELLEBECQ
Sobre
A possibilidade de uma ilha, de Michel Houellebecq
Leonidas
Donksis, em livro em co-autoria com Zygmunt Bauman, qualificou “A possibilidade
de uma ilha” (reeditada, pela Alfaguara, em 2018) como a distopia insuperada do
que levamos de século XXI. Durante a pandemia, Houellebecq, cínico mas também
lúcido, escreveu na France Inter que a obsolescência em curso das relações
sociais, ainda que imposta, apenas acelerava uma tendência que já aí estava. Os
contornos paroxísticos que esta assumia, para o escritor francês, conhecem
nesta obra um desenvolvimento minucioso.
1.Principiemos pelo título.
Possibilidades múltiplas de o decifrar. No interior do próprio texto (que
titula), podemos situá-lo num poema de Daniel a Esther: “Existe no meio do
tempo/a possibilidade de uma ilha” (p.352). O que significará, face a um cepticismo
radical sobre o humano (“a criança é uma espécie de anão perverso, de uma
crueldade inata, no qual se reconhecem imediatamente os piores traços da
espécie”, p.56), o mundo (“calvário ininterrupto que é a existência dos
homens”, p.57), qualquer sentido (“o ser humano não foi concebido para a
felicidade”, p.57); face a um tom ácido, sombrio, corrosivo que o texto
comporta (“é triste, o naufrágio de uma civilização, é triste ver soçobrar as
mais belas inteligências”, p.285); face, mesmo, e desde logo, a um cinismo
brutal do seu autor, Daniel – que chega a adquirir contornos de verdadeiro
nihilismo: pense-se, a quando do suicídio do filho, como nada lhe fica na
memória, no sentimento, anotando que não gostava do descendente, que este “era
tão estúpido como a mãe e tão mau como o pai” e cujo desaparecimento “estava
longe de constituir uma catástrofe” (p.26) –, o estranho e surpreendente, a
real insuspeitada presença de esperança, reconhecimento de que o amor é
possível no (seu) tempo (assim se poderá decifrar a frase no poema, ele mesmo
uma implausibilidade, “a poesia estava morta” (p.153), a Esther, a quem se
surpreende a amar). Mesmo no interior de um mundo mau, de gente egocêntrica e
cruel, há, afinal e ainda, uma ilha, o amor (“que o amor incondicional é
condição de possibilidade de felicidade, já os humanos o sabiam, pelo menos os
mais avançados”, p.66). Para um texto sem concessões, impiedoso, há um sopro de
poesia que reluz.
Por outro lado, A possibilidade de uma ilha poderia ser visto como um programa que
visa sondar uma estação que fez da anomia social, da recusa da relação, do
isolamento, do fragmento marcas registadas. Será que o humano consegue viver
sendo uma ilha?, parece perguntar o filósofo/sociólogo/antropólogo que o
ficcionista mostra também ser. De outra perspectiva: se, como celebremente John
Donne afiançou, “nenhum homem é uma ilha” não estaremos, num estádio em que nos
recolhemos/encolhemos para ilhas, perante a morte do humano? Não é essa a
lógica subjacente à (ao desenho da) emergência dos neo-humanos – prolongamentos do ADN dos humanos que os precederam,
mas diversos destes em “qualidade”, “essência” -, por parte do romancista?
Serão estas duas possibilidades
interpretativas inconciliáveis? - poderemos, ainda, perguntar. Será que ao
afirmarmos que mesmo num mundo em decomposição o amor é possível – porventura,
a sua fonte de regeneração, assuma este carácter de eros, philia ou uma
palavra de compaixão – não estamos a contrariar, no seu núcleo, a ideia de morte
do humano?
Se olharmos para a/uma ilha de modo
literal, então vemos que o último neo-humano,
em última instância, descobre o mar e este pode, finalmente, significar um
horizonte infinito, a possibilidade de utopia, lá onde a “narrativa de vida”
(autobiografia de Daniel) parecia inscrever, apenas, um mundo distópico
(Leonidas Donskis coloca, em Cegueira
moral (Relógio d’Água, 2016), não por acaso, e bem, esta obra magistral ao
nível, ou na mesma linha de Nos, de
Zamyatin, Admirável Mundo Novo, de
Huxley ou 1984 de Orwell, embora observe também que Houellebecq diz o que
Spengler diz, ainda que de outro modo).
Combinando estas três perspectivas
possíveis com vista a intentar interpretar o título deste livro de Michel
Houellebecq – e, bem entendido, a própria obra, ela mesma – poderíamos dizer
que num “mundo distópico” a verdadeira “utopia” é o amor (a amizade, uma
palavra de compaixão).
2.Para Leonidas Donskis “o romance de
Houellebecq expõe a morte de Deus de maneira bastante inesperada: Ele morre
quando se eliminam os laços humanos e sociais”. Pois bem, a assimilação da
“morte de Deus” ao desaparecimento de “laços humanos e sociais”, parece-me, bem
mais do que inesperada, congruente: se Deus é amor (compassivo) e se age no
mundo através da minha
responsabilidade (ética) pelo outro, e se Deus só vai ao Homem através do Homem
(e este só sai de si, para o seu semelhante, através de Deus), então a recusa
em me responsabilizar, a recusa, mesmo, em querer saber do outro pode, pois,
ser lida em chave de recusa do amor (e Deus é amor; e o amor, na analogia de
Jean-Luc Marion, como Deus, oferece-se sempre, mesmo que não tenha interlocutor;
e só no outro, de modo mediado, amamos Deus) e, visto Deus mais como
relação/acontecimento do que entidade, como recusa de Deus (para que Deus
morresse era preciso que Deus pudesse morrer). Justamente, sem relação, sem amor,
o humano coloca-se em causa (destrói-se). “De forma interessante, essa
implicação filosófica [a morte de Deus enquanto deslaçamento social] do romance
(…) é um retorno a La scienza nouva
de Giambattista Vico, trabalho em que a existência de Deus é provada por meio
de poderes da comunidade humana e da sociedade civil: sociabilidade, linguagem
e sentimentos. Em suma, quando se enfraquecem ou se destroem os alicerces da
sociabilidade humana, e a esfera da linguagem e dos sentimentos, entregam-se os
seres humanos a Satanás” (Leonidas Donskis, no citado livro A cegueira moral, em co-autoria com
Zygmunt Bauman).
O sociólogo fino de A possibilidade de uma ilha, o Daniel
(auto) biógrafo nota, como um dos traços do seu tempo – este tempo histórico há
muito ultrapassado, quando o lemos pela lente de um neo-humano, no quarto milénio, mas que na verdade coincide com este
nosso tempo actual – “a perda do sentido do sagrado” (p.27), acompanhado da
“diminuição da alegria de viver” (p.27). Sim, “vamos vivendo, atravessamos a
vida sem alegrias nem mistérios, o tempo parece-nos breve” (p.11). Em
realidade, “as noites já não vibram de terror nem de êxtase” (p.11). Tudo
transparece na “claridade do vazio” (p.38), lá onde houve a “condenação á morte
da moral” (p.44) e se assume que “os humanos não têm dignidade nem direitos,
que o bem e o mal são noções simples, formas pouco teorizadas do prazer e da
dor” (p.39). Em tom reflexivo, o humorista milionário observa: “havíamos
simplificado tanto, suprimido tanto, quebrado muitas barreiras, tabus,
esperanças aberrantes, aspirações infundadas; restava tão pouco, realmente”
(p.21). Mais detidamente, “que pudesse surgir uma nova religião no Ocidente já
era em si mesma uma surpresa, a tal ponto a história europeia dos últimos
trinta anos fora marcada pelo desmoronamento em massa, a uma velocidade
surpreendente, das crenças religiosas tradicionais. Em países como a Espanha, a
Polónia e a Irlanda, uma fé católica profunda, unânime, maciça estruturava a
vida social e o conjunto dos comportamentos dos últimos séculos, determinava a
moral e as relações familiares, condicionava o conjunto das produções culturais
e artísticas, das hierarquias sociais, das convenções, das regras de vida. No
espaço de alguns anos, em menos de uma geração, num lapso de tempo
inevitavelmente curto, tudo desaparecera, se evaporara no vazio. Hoje em dia,
nestes países, já ninguém acreditava em Deus, não se debruçava minimamente
sobre o assunto, nem se recordava de ter acreditado; e passara-se tudo sem
dificuldade, sem conflitos, sem violências nem protestos de qualquer ordem, sem
sequer uma verdadeira discussão, com a mesma facilidade com que um objecto
pesado, sustentado durante algum tempo por um entrave exterior, retoma a
posição de equilíbrio logo que pode” (p.289)
Michel Houellebecq mostra compreender na perfeição o significado mais denso de uma tradição religiosa: “os acontecimentos políticos ou militares, as transformações económicas, as mutações estéticas ou culturais podem ter um papel a desempenhar, por vezes um papel muito importante na vida dos homens; mas nada, nunca, pode ter uma importância histórica comparável ao desenvolvimento de uma nova religião, ou ao desmoronamento de uma religião existente” (p.302)
3.Encontro, por acaso, o Domingos que, em recusando
usar telemóvel, email ou qualquer dispositivo que o torne mais acessível,
e em lhe perguntando se não sente necessidade de falar com ex-colegas, amigos,
conhecidos responde-me que “a solidão é a melhor coisa que há!”. E repete - “a
solidão é a melhor coisa que há”. Talvez, de um modo tão franco e tão brutal,
raramente, ou nunca, tenha escutado, de viva voz, semelhante recusa de um
contacto. Embora não fosse a primeira vez que ouvia uma pessoa assumir como
desiderato de uma jubilação – tão antecipada quanto possível – uma fuga
mundi, o deixar isto e ir viver sozinho para a
montanha (e do ponto de vista
literário, Paolo Cognetti, assumiu-o intensamente), não apenas um
desabafo, mas uma convicção, um projecto, fazendo da auto-suficiência, e da
prova de conseguir viver sem os outros (vou demonstrar que não preciso dos
outros para permanecer), uma mostra de músculo e de um estoicismo que
continha, igualmente, em potência, e aqui talvez Houellebecq não tenha
considerado a perspectiva, uma (forte) crítica à sociedade em que se investe (e
não conterá, sempre, qualquer fuga mundi esse protesto, ou
pelo menos, uma desadaptação que encerra um desgosto com o estado da arte do
mundo?).
Em realidade, quando os neo-humanos -
que Houellebecq forja para o quarto milénio – surgem assiste-se ao “desaparecimento do riso e das lágrimas”
(p.53); estes clones dos humanos – através da preservação do ADN daqueles
– não compreendem, já, a emoção
religiosa, nem a caça, nem o êxtase místico dos seus antecessores (p.38);
eles são “puramente racionais” [de uma racionalidade instrumental], sem
sentimentos ou emoções, sem arrebatos, isolados, sem formarem uma comunidade.
Esta recusa do outro, o amor como
constrangimento, a relação como algo a superar, e a formulação de
um mundo povoado por átomos, conta-se entre as mais incisivas páginas/reflexões
(desta obra) sobre os limites do paroxismo que já a sociedade que Daniel, o
humorista que escreve uma auto-biografia lida pelo seu sucessor neo-humano (um novo
humano, um humano de tipo diferente, uma coisa outra que não o humano como
o conhecemos), habitara trazia incubado. Daniel – em certo sentido, como que
assumindo-se como o louco nietzscheano capaz de dizer a
verdade por revelar e, ao mesmo tempo, como o profeta [Daniel] que golpeia a
sua sociedade: “sou cínico, amargo, só
posso ter interesse para pessoas algo predispostas à dúvida, pessoas que
começam a viver num ambiente de fim de festa” (pp.32-33) reconhece que a
certa altura da sua vida “já não tinha
amigos” (p.56), até porque “a
partir de certa idade, entre
dois homens inteligentes, já tudo foi dito” (p.76). E, embora vivendo
com Isabelle, “não tínhamos ninguém com
quem partilhar a casa, nem um copo de vinho” (p.56).
Depois de, para surpresa do próprio, ter sido
surpreendido pelo amor, quando, anos mais tarde, descobre Esther, como que
sucumbe a um abismo de gerações – Esther, muito mais nova, terá múltiplos
relacionamentos, e desprezará a concepção e sua materialização de ficar para
sempre com Daniel - que é, em realidade, bem mais do que isso, um
salto, um mergulho qualitativo para
um humano a caminho de neo: em percebendo que o seu quadro mental
de apego a uma pessoa (a uma mulher), em que a sexualidade não estava desligada
e jamais dispensava o afecto (“sempre
necessitara de afecto para me sentir sexualmente feliz”, p.182; o sexo
pelo sexo não chegava), se tornara uma tonteria para a gente
mais nova – um retrato corrosivo e certeiro de uma determinada cultura que
perpassou/perpassa, de facto, uma parte da juventude nas últimas décadas; mas
não a vejo como a cultura; sem contemplações, Daniel constata,
a partir do masculino, a ironia das coisas: “o projeto milenar masculino de despir o amor de qualquer conotação
afectiva, tinha agora a sua concretização” (p.277) -, assume a sua ingenuidade –
paradoxo maior, de quem se afirma como uma espécie de super-homem sem
nenhuma ilusão, acerca do universo, dos humanos e de si próprio, mas como que a
dizer que isto é ainda mais negro, mais sombrio do que o narrador
julgava e, portanto, convocando, claramente, uma dimensão moral(ista) ao seu olhar – e discorre: as novas gerações recusavam o amor, a paixão, o sentimento de
exclusividade, de dependência (p.277); “deambulei entre eles como uma espécie de monstro
pré-histórico com as minhas imbecilidades românticas, os meus apegos,
as minhas ligações” (p.277); “quanto
ao amor, não havia nada a esperar: eu era sem dúvida um dos últimos homens
da minha geração a amar-me suficientemente pouco para ser capaz de amar outra
pessoa, embora raramente” (p.344) Ora, “para esta geração a sexualidade não passava de um divertimento agradável”
[sem vínculos outros a ela associados]. Que “não implicava nenhum compromisso sentimental especial”
(p.277). Com uma crueza, uma
ironia corrosivas e uma sofisticação cortantes, Houellebecq, ou Daniel,
oferecem-nos a nova mundividência em que o sonho – na verdade, a distopia – é
igualar a ausência de vínculos, de relações, de apego, de ligação a liberdade,
a ser (-se) livre [ausência de vínculos é = a liberdade]. A captação do momentum sociológico
adquire uma pertinência que cremos incontornável: “o amor nunca fora com certeza mais, como a
compaixão para Nietzsche, do que uma ficção inventada pelos fracos para
culpabilizar os fortes, para introduzir limitações à sua liberdade e à
sua ferocidade naturais” (p.277); os humanos “haviam conseguido, após décadas de condicionamento e esforço, haviam
finalmente conseguido extirpar dos seus corações um dos mais velhos sentimentos
humanos” (p.277): “em nenhum
momento da vida conheceriam o amor. Eram livres” (p.277). Era, assim,
muito pouco provável que a nova espécie fosse uma “espécie sociável” (p.343): “a sociabilidade passara de moda, desempenhara o seu papel histórico”,
mas “reduzira-se hoje a um vestígio
inútil e incomodativo” (p.343). Em suma, “hoje em dia, que tudo se extinguiu, todas as tribos se dispersaram,
encontramo-nos isolados mas semelhantes, e perdemos a vontade de nos unirmos”
(p.118).
4.Se não estamos prometidos ao amor, se a relação não
é, já, o alfa e o ómega da existência, se não queremos, de modo algum, estar
juntos, se não queremos saber do outro, que coisa é essa a vida? Que sabor tem
(se é que algum possui), que sentido lhe descortinamos? E, numa palavra, o que
é (nestas circunstâncias) ser humano?
Somos apenas biologia, na desencantada cosmovisão de
Daniel: “um belo arranjo de partículas,
uma superfície lisa, sem individualidade” (p.275); um animal amoral à procura do seu pedaço de
prazer (p.276); “considero-os
[aos humanos] mais inteligentes do que os macacos e, por isso mesmo, mais
perigosos” (p.24); o homo homini lupus: “de dois animais egoístas e racionais, o mais
egoísta e o mais racional dos dois acabara por sobreviver, como acontecia
sempre entre os humanos” (p.392) “acontece-me abrir as grades para socorrer um coelho, ou um cão vadio;
nunca para socorrer um homem” (p.24); “por eles, não experimento nenhum dó, nem nenhum sentimento de pertença
comum” (p.24); “odiava a
humanidade” (p.341); “assisto
sem um lamento ao desaparecimento da espécie” (p.24). A questão da
individualidade coloca-se, aliás, ainda com maior acuidade, relativamente
aos neo-humanos (clones), já que, porventura, pode sopesar-se
– indagação cada vez mais colocada em tempos de Inteligência Artificial e fusão
desta com o humano - que sejam “ficções
resultantes de softwares” (p.280), “seres incompletos, seres de transição cujo destino residia em preparar o
advento de um futuro numérico” (p.185). Sem emoções, sem riso e sem choro, sem amor e sem apego, o novo-humano, levado às últimas
consequências, aperfeiçoado – diríamos no grotesco que o livro
consegue mostrar – seria (será?) um número. Repare-se que não só há
sentimentos que se tornam incompreensíveis para a nova humanidade
(e as primeiras gerações de neo-humanos surgem no século XXIV)
– “estes dois sentimentos, a crueldade
e a compaixão, não têm obviamente muito sentido nas condições de absoluta
solidão em que se desenvolvem as nossas vidas” (p.54) -, como,
suplementarmente, “nada sobrara das
produções literárias e artísticas da humanidade, porque os temas que lhe
estavam na origem tinham perdido pertinência e o seu poder de emoção evaporara-se”
(p.370) e “nada sobrara dos sistemas
filosóficos e teológicos pelos quais os homens haviam batido, morrido e matado
mais vezes ainda” (p.370). A única coisa de útil – e revelador de grande
engenho, a inteligência como única qualidade e reduzida esta ao cálculo, da
humanidade – que ficara haviam sido os elementos de tipo tecnológico (p.370) (o
que manifestamente combina com um humano autómato, maquinal, frio, além de
fazer coro com o deslumbramento e endeusamento do tecnológico, dos nossos
dias). Desde os humanos – ainda antes dos neo-humanos –
inaugurara-se “uma tradição de
desenvoltura em relação aos dados científicos que viria a conduzir ao
aniquilamento da filosofia” (p.338). Neste quadro, neste entendimento
acerca do Homem, neste apreender do estádio civilizacional em que nos
encontramos, neste posicionamento face à vida e o mundo, “que fazer, então? (…) Viver? É exactamente
neste género de situações que, esmagados pelo sentimento da sua própria
insignificância, as pessoas se decidem a ter filhos” (p.56); “o único projecto da humanidade consiste em se
reproduzir, em prolongar a espécie (p.220). Mesmo sendo como é óbvio insignificante, a humanidade persegue-o [ao
objectivo de prolongar a espécie] com
um encarniçamento aterrador. Mesmo sendo infelizes, atrozmente infelizes, os
homens opõem-se com todas as suas forças, a tudo o que possa alterar o seu
destino; querem ter filhos, e filhos semelhantes a eles, a fim de escavarem a
sua própria sepultura e de perpetuarem as condições da desgraça” [neste caso, a
afirmação do profeta da religião dos Eloimitas, aquela que irá prosperar, na
narrativa de Daniel, e já veremos porquê] (p.220); “o ciúme e a vontade de procriar têm a mesma
origem que é a dor de ser. É a dor de ser que nos leva a procurar o outro, como
um paliativo [o outro serve para "eu" consumir]; temos de ultrapassar esta fase a fim de
atingir o estado em que o simples facto de ser constitui em si mesmo um
permanente motivo de alegria; em que a intermediação passa a ser apenas um
jogo, livremente aceite, não constitutivo do ser. Numa palavra, devemos
alcançar a liberdade da indiferença, condição de possibilidade da
serenidade perfeita” [repare-se como de uma mundividência assente na
perspectiva de uma existência em favor de uma promoção dos mais frágeis para a
qual/os quais há que trabalhar, interceder, transformar, se passa para uma
outra em que a indiferença passa a ser condição da serenidade perfeita, não
admirando, neste contexto, o que o autor escrevera sobre a queda de uma dada
religião e suas consequências – referindo-se, naturalmente, ao cristianismo na
Europa – e na emergência de filosofias orientais no Ocidente]. Houellebecq cita
Henri de Régnier: “viver avilta”
(p.49).
O prazer
sexual “era superior a
todos os outros prazeres, em requinte e violência; era o único prazer, o
único objectivo da existência humana” (p.320); uma existência contínua devotada aos prazeres
“era este o sentido do movimento da história, era esta a sua direcção a longo
prazo, que não se limitaria ao Ocidente” (p.343) Mas nem o prazer sexual
escapará ao impulso narcísico; este, o fechamento absoluto da possibilidade da
relação, conduzirá, afinal, para utilizarmos os termos de Byung Chul-Han, à
agonia de Eros: “há um
breve período ideal, durante a dissolução das sociedades de forte moral
religiosa, em que os jovens sentem verdadeiramente vontade de uma vida livre,
desregrada, alegre; depois cansam-se, a competição narcísica vai-se sobrepondo
aos poucos e, por fim, têm ainda menos relações sexuais do que no tempo de
forte moral religiosa” [de aí que me pareça que o tempo de Bacantes,
a que se referia George Steiner, se tenha esgotado um tanto e aquele confronto
geracional, acima descrito, ou salto qualitativo no que é o humano, se tenha
que mitigar e, por isso, a meu ver, não é a cultura].
Em todo o caso, a perspectiva de que o sexo, (e) a
perpetuação da espécie são os únicos desideratos da existência aponta bem ao
deserto real, á ausência de bússola porque o humano passa (a ocidente, mas, na
visão de Houellebecq, nesta obra, uma tendência universal), ou, no caso da
visão das coisas por parte de Daniel, à ausência de qualquer arremedo de um
(excesso do) dom presente na vida (ou o dom que a vida constitui, ela mesma).
Atente-se na descrição do último estádio em que os humanos se encontraram antes
de darem lugar ao neo-humanos, em rigor, como se percebe, em quase
tudo abrindo caminho para estes – que mais não são do que o estertor, a
consequência última, a ratio destes últimos dias levada ao limite,
a concretização da distopia que vivemos: “consta que os humanos, pelo menos os humanos do último período, aderiam
com grande facilidade a todos os novos projectos, um pouco independentemente da
direção do movimento proposto” (p.338); “a mudança em si mesma era aos seus olhos um valor” (p.338). Para
quem desconhece o Norte, qualquer caminho é bom, ou retomando o célebre adágio
de Chesterton (formulado aqui livremente): quem não acredita em nada,
está disposto a acreditar em qualquer coisa.
E, face à ausência de rumo, para que queremos prolongar
a existência? Já paramos para pensar sobre para que serve a imortalidade, o
sonho repetido semanalmente nos jornais? O que vamos fazer numa vida (terrena)
na qual não encontramos sentido, nem valor? Manter indefinidamente os prazeres,
reproduzirmo-nos até a pedra de Sísifo nos tornar louco esse trabalho que nos
impusemos, ou do mito retiramos que justamente, in casu, humano é a
cada prazer um outro se suceder, sem nunca nos aborrecermos com prazer algum
que antecede o próximo, numa lógica de perpetuação que, em todo o caso,
diferentes ensaístas e romancistas, entre os quais Saramago, acreditavam, ainda
que com humor, que não iam acabar bem?
5.No tempo de vida de Daniel, o nosso,
como vimos de dizer, havia-se criado o M.E.A (Movimento de Exterminação de
Anões) que defendia o desaparecimento da raça humana, funesta ao equilíbrio da
biosfera (p.57). Construíam-se residências proibidas a menores de 13 anos, dado
que o humano já não suportava crianças, as preocupações que geram, os cuidados
que demandam (p.58). Os principais critérios/pilares em que assentava a
sociedade eram “juventude, beleza e força”, ou seja, segundo o narrador, “os
critérios do amor físico são exatamente os mesmos do nazismo” (p.63). A beleza
desempenhava no início do séc.XXI o mesmo papel que a nobreza no Antigo Regime
(p.180), com a respectiva “manutenção minuciosa do corpo” a que os humanos
devotavam uma parte cada vez maior do seu tempo livre (p.267). Para além das já
citadas, a ambição, a riqueza e o sexo faziam parte do menu das virtudes
requeridas no dealbar do séc.XXI (p.21). Ou, ainda, os valores da competição,
da inovação e da energia. Crueldade, egoísmo cínico, violência. Dizia-se não à
fidelidade e ao dever (p.44). E, na quebra de todos os tabus, caminhava-se para
o parricídio ou o canibalismo. Procedia-se, de resto, então, a um trabalho de
uniformização das vidas, a alimentação vegetariana generalizava-se, bem como as
futilidades New Age; os animais
domésticos substituíam as crianças (p.63). O progresso científico e tecnológico
permitia um inédito controlo social (p.27) e os homens estavam, agora,
reduzidos ao estatuto de objecto sexual (p.30) (aliás, sempre provocatório
Houellebecq, “em geral, os homens são considerados pénis ambulantes”, p.195). Não
faltava a publicidade em doses maciças, a manipulação: “aumentar o desejo até
ao insustentável tornando a sua satisfação cada vez mais inacessível”, eis a
sociedade ocidental (p.72). Repare-se que “levar um indivíduo inexoravelmente a
desejar e ansiar é ao mesmo tempo privá-lo do seu poder de autocontrolo e
apropriar-se da dignidade de outra pessoa: vemos um ser que já não se assemelha
a ele mesmo, deformado e inflamado pelo desejo” (L.Donskis). O consumismo era a
regra (p.27). O mundo das revistas
cor-de-rosa conhecia um sucesso estrondoso junto do público, moldando
hábitos e normas, contribuindo para a vitória do homem light: “o que procuramos criar [diz Isabelle que trabalhava
numa destas revistas do coração] é
uma humanidade fictícia, frívola, que nunca mais será acessível à seriedade nem
ao humor, que viverá até à morte numa procura cada vez mais desesperada do fun e do sexo; uma geração de kids definitivos. Conseguiremos lá
chegar sem dúvida” (p.32). Onde não há sentido, até da busca, da pergunta se
afasta o cidadão que assim fica entre o permanente engraçadismo para não se entediar – mas não sabendo que há alguma
discussão séria, porque nada é sério, nada é para levar a sério - e o sexo (a
única finalidade da existência, de acordo com o profeta). “Nem um pêlo de
cultura, nem um grama de actualidade, nenhum humor” (p.34). Neste contexto, não
admira que as mães copiem as filhas (p.36), nem que Daniel, “um neurótico
ocidental” (p.174) faça questão de registar na sua auto-biografia “a primeira
conversa que eu tivera a sério nos últimos anos” (p.179), bem como a “primeira
vez desde há vinte anos que comecei a chorar” (p.276) [aqui fica, de novo, o
prelúdio para o desaparecimento das lágrimas e do riso nos neo-humanos]. O sistema
estava programado para acabar com o dissenso, o pensamento crítico, a
alternativa; tudo desaguava num consenso mole e manso, sem nenhum rebate de
consciência, sem a emergência da figura do intelectual, ou quejandos: “o
sistema espectacular, destinado a produzir um consenso abominável, abatera-se
há muito sob o peso da sua própria insignificância” (p.225). Mais fundo ainda,
estamos perante a “impossibilidade geral das coisas” (p.287): “Houellebecq
evidencia mais um fenómeno actual: o novo determinismo, essa incapacidade de
acreditar que até pessoas racionais, críticas e de mente liberal possam mudar o
curso da civilização” (Leonidas Donskis). Em realidade, anulava-se a opção
política, pela “evidente neutralidade do real” [aqui ressoa a crítica nuclear a
toda a tecnocracia]. O comportamento
humano “devia tornar-se tão previsível como um frigorífico” (p.366). Como que
assinalando uma etapa em que o chamado populismo
estaria para conhecer um momento de êxito larvar, um amigo de Daniel adverte
com contundência: “o que é preciso (…) é que tenhas a ralé do teu lado (…) com
a ralé do teu lado, serás inatacável (…) o que a ralé respeita é essencialmente
o dinheiro (…) Tu tens dinheiro, mas não mostras. Tens de reluzir um pouco
mais” (p.41). Se bem que os ricos gostem de estar com os ricos (p.114), o mesmo
não sucedendo com os velhos (sem vontade de se encontrarem os da sua geração,
p.170). Como anteriormente, de forma repetida, se sublinhou, hoje “já não temos
um objectivo determinado” (p.11). Assiste-se, igualmente, à “dificuldade do
sentimento amoroso” (p.27).
Companhia inseparável de Daniel é o cão
Fox – e também ele irá perdurar, mesmo após a sua morte (devido ao material
genético recolhido). Mas perceba-se: “o cão era uma máquina de amar por efeito
do treino” (p.158). Daniel, “um observador acerbo da realidade contemporânea”
(p.21), perdera a virgindade aos 17 anos (p.20), numa sociedade saturada de
sexo por todos os lados (“a sexualidade talvez fosse sobrestimada”, p.152; os neo-humanos que não entendem o amor, no
seu isolamento não integram ainda “a inacreditável importância que os humanos
atribuíam ao contacto sexual”, p.266; note-se que nas memórias de Daniel, são
incontáveis as descrições de actos sexuais, como se o estético – a forma – se
ligasse à ética – o conteúdo).
Face a este zeitgeist, após a queda do cristianismo, e com as melhorias de vida
no mundo árabe a promoverem mudanças políticas (p.292) e, concomitantemente,
nos hábitos de todos os muçulmanos, em todo o mundo, num sentido dos prazeres
serem satisfeitos, também o Islão cairá (ele que vivera agarrado ao machismo e não sobreviverá ao feminismo e à revolução sexual).
Primeiro, com os integristas a darem
lugar aos moderados. A seguir, com o
seu puro e simples desaparecimento (“os integristas islâmicos deram lugar aos
muçulmanos educados e cultos e depois ao desaparecimento destes”, p.40).
Significava isto o fim da religião, no mundo? Por um lado, o homo symbolicus e o homo religious parecem não ceder, o homem novo, apesar de tudo, ainda não desabrochara por completo e
mantinha intactas algumas características milenares, pese a ingenuidade dos
iluminismos e vanguardas mais radicais: “contra todas as campanhas
racionalistas e advertências”, a religião permanecera (p.188). Só que, bem
entendido, uma religião adaptada aos tempos (que na imortalidade de um corpo tal quale pode considerar-se que se nega
a si mesma). Os Eloimistas vinham anunciar que os humanos haviam sido criados
pelos Elohim, seres que criaram os humanos e regressarão (“Os Elohim que nos
tinham criado eram cientistas de nível muito elevado”, p.208) e a nova religião
– e “nunca na história uma religião ganhara algum ascendente dirigindo-se
apenas ao intelecto (em vez da emoção e sentimento)”, p.204) – seria, como não?,
“hedonista e libertina” (p.229). O Eloimismo não impunha nenhum constrangimento
moral, “reduzindo a existência humana às categorias do interesse e do prazer”
(p.293), fazendo a apologia dos valores sociais dominantes, com práticas como
orgias, uma manipulação e ausência de escrúpulo completos. Anunciando a
imortalidade (e na luta contra a morte parecia aproximar-se das religiões
monoteístas mas) pelo prolongamento do material genético. Erradicando toda a
dimensão espiritual, a vitória era a promessa ilimitada da vida material, isto
é, a satisfação ilimitada dos desejos físicos. Em chegando à – ou perto da –
terceira idade, os crentes (Eloimistas), e as adesões são em massa, suicidam-se
(em público); querem passar para um corpo novo (jovem). E a morte desaparecerá
sem que se saiba o que fazer (com a vida eterna terrestre) senão prolongar
indefinidamente os prazeres do estádio (androide)
anterior – para isso serve a vida. É
o modo muito conseguido como Houellebecq retrata uma cultura, como aquela em
que nos situamos, que “está pronta para conviver com tudo, menos com o
envelhecimento. Mais cedo ou mais tarde essa cultura vai tentar quebrar os
últimos tabus, os que se relacionam com a pedofilia, o canibalismo e o incesto.
Não são eles que nos fazem tremer de medo – a morte e a extinção é que causam o
verdadeiro terror nos nossos corações, sobretudo numa época em que a ciência, a
tecnologia e genética nos aproximam cada vez mais da fabricação da vida e da
imortalidade. Terrível não é a expectativa de que todos iremos morrer, mas a
possibilidade de perdermos por uma ou duas décadas o momento em que os
geneticistas criarão uma raça de abastados super-homens que deixarão todas as
suas riquezas a um grupo tecnológico ou de engenharia social, caracterizado
como seita escatológica e esperando o fim do mundo (como os elohimitas da
imaginação de Houellebecq) (…) Quando a vida em si se torna o único problema, a
extensão da própria vida (…), assim como os sonhos de imortalidade alcançada
não pela realização de uma promessa transcendental, mas pela ciência, pela
genética, pelas tecnologias e pela racionalidade instrumental, tornam-se a
única realidade significativa. Não a liberdade nem a autorrealização, mas a
ampliação da vida terrena e uma imortalidade mecânica – se isso for possível
(…) Uma fantasia como a da imortalidade é um testemunho não apenas da morte da
religião, de uma fé exaurida e dissipada, mas também de uma sociabilidade
evanescente” (L.Donksis).
Daniel recorda os acontecimentos, no
início do século XXI, em França, com os mais velhos a morrerem por falta de
cuidados, nomeadamente com o calor (Daniel refere-se ao ano de 2003, p.78). E
como tal, de imediato, “entrara nos hábitos”, ano após ano, corolário da
indiferença generalizada bem como do economicismo científico que se abatera: a falta de cuidados era, Houellebecq é
feroz, “um meio afinal natural de resolver uma situação estatística de velhice
avançada forçosamente prejudicial ao equilíbrio económico” (p.286). Sempre sem
concessões ou contemplações, o narrador leva a sua lógica até ao limite, num
exercício de um humor cáustico e ácido, hiperbólico e contundente: os velhos
deviam revoltar-se “contra os jovens, obrigando-os à prostituição para
reembolsarem os sacrifícios” por si feitos, por aqueles (p.179). Tínhamos
chegado ao desejo de retorno ao estádio primitivo em que os jovens se livravam
dos velhos sem moderação. Era um refluxo brutal, típico da modernidade, para um
estádio anterior a todas as civilizações (p.177). Era, assim, um sinal imenso
da queda da civilização, pois “toda a civilização podia ser avaliada em função
do destino a dar aos mais fracos” (p.177). [a propósito do pessimismo cultural,
Donskis traça analogias também entre Houellebecq e Thomas Mann].
Esta sociedade defendia a “ideia de que
todas as espécies, independentemente do seu grau de desenvolvimento, tinham
igual «direito» de ocupação do planeta (…) [e] alguns adeptos (…) tomam
sistematicamente o partido dos animais contra o homem, experimentam um maior
desgosto perante a notícia do desaparecimento de uma espécie de invertebrados
do que perante a fome devastadora da população de um continente” (p.368). Nesta
ideologia, vai o “desejo da humanidade se revoltar contra si mesma” (p.369).
6. Daniel faz-se à vida como “one man
show” (p.20), nada mais apropriado aos tempos (híper-individualistas), sendo o
“bobo” – e o narrador reflete acerca do humorista como o colaboracionista que
evita(va) ao mundo revoluções dolorosas e inúteis, pois que responde ele, com
as suas piadas, sketches e outros motivos, com violência à violência (do mundo)
- que converte todo o tipo de estereótipos sobre comunidades (particulares) em
motivo de escárnio, fazendo do obsceno um veículo de atracção de massas. No
mesmo espectáculo, congrega piadas anti-islâmicas e anti-semitas (p.41). Ele
que passa pelo cinema (p.41), tem um último espectáculo precisamente intitulado
“100% de ódio” (p.50). Chega a ter 6 milhões de euros (p.27). E não lhe escapa
o que isso significou quanto ao modo como encarou o trabalho: “fora de certo
modo uma espécie de puta, adaptara-me ao gosto do público” (p.174). A escrita,
contudo, nesta narrativa de vida que enceta – e quanto à narrativa da vida, não
há regras (p.26) –, e em particular a quando da perda no/do amor, dava-lhe “a
ilusão do auto-controlo” e isso “permitia-me não desabar” (p.340). Até porque
“é graças à memória que o sono não destrói de modo nenhum a sensação de
identidade” (p.25).
As memórias de Daniel não são, em
qualquer caso, um mero adentrar sociológico num dado espaço-tempo; elas são, em
grande medida, uma reflexão existencial de quem parte da premissa de que “a
vida não tinha [tem] nada de divertido” (p.174). “Na primeira parte da vida, só
sabemos da felicidade quando a perdemos; depois, sabemos que quando começamos a
viver uma felicidade a acabaremos por perder. Na terceira fase, a antecipação
da perda de felicidade inibe a própria vida” (p.143). A juventude “era o tempo
da felicidade, a sua única estação” (p.321). A maior parte das pessoas nasce,
envelhece e morre sem conhecer o amor (p.144). A humanidade, já se sabe, está
longe de ser grande coisa, na mundividência de Daniel1: “é uma tendência da
sociedade (…) uma tendência geral para a barbárie, não há nenhuma razão para
esta seita [elohimita, no interior da qual se registam homicídios e lutas
fratricidas pelo poder] escapar” (p.299). Fox, o cão, era “o único ser digno de
ter sobrevivido” (p.393), segundo o clone neo-humano
do narrador que, acerca da vida, ela mesma, não era propriamente mais optimista
que o seu antecessor: “o simples facto de existir era só por si uma desgraça”
(p.390); “apreendia o meu corpo como um veículo de nada. Não fora capaz de
ascender ao Espírito; continuava, no entanto, à espera de um sinal” (p.386).
Este ser “nunca tivera decisões nem iniciativas a tomar, esse processo era-me
totalmente estranho” (p.365), numa vida, aliás, organizada/regida pela Irmã Suprema, uma guia à laia de big brother (totalitário). E que lá pelo
séc.XXIV vivia completamente isolado, rodeado de umas criaturas, os
“selvagens”, que na economia do livro de Houellebecq como que são o mais
aproximado dos (antigos) humanos: a “brutalidade das suas relações, com a
ausência de compaixão pelos idosos e pelos mais fracos, pelo apetite
indefinidamente renovado de violência, de humilhações hierárquicas ou sexuais,
de crueldade pura e simples” (p.386). Havia, aqui, uma perenidade que se
entendia observar: “as cenas a que eu assistira perto de Alarcón, ela vira-as
repetir-se, quase as mesmas, em Nova Iorque – embora as tribos se encontrassem
a distâncias consideráveis e não tivessem há sete ou oito séculos nenhum
contacto” (p.386).
Interessado no religioso porque, como
pontuou com grande sagacidade, ele tem a capacidade/natureza de permear/influenciar/determinar
todos os sectores da vida social, Daniel que encontrara um católico com
dificuldades de relacionamento sexual em virtude da sua filiação religiosa, no
entanto “quando discutia com um cristão ou muçulmano no liceu tinha sempre a
impressão de que a sua crença era de ‘segundo grau’: era evidente que eles não
acreditavam, diretamente e no verdadeiro sentido, na realidade dos dogmas
apresentados, mas de que se tratava de um sinal de reconhecimento, de uma
espécie de palavra-passe que lhes facultava o acesso à comunidade dos crentes”
(p.212). O seu clone, quando passa por “condições extremas” lamenta “a ausência
de Deus, ou de uma entidade da mesma ordem” (p.384) a quem se dirigir [assunto
de há muito arrumado no séc.XXIV; ao mesmo tempo, a resposta necessária face ao
mal, no sentido de Pascal: é absurdo que Deus não exista – na medida de uma
reparação final (necessária/urgente); embora também “é absurdo que Deus exista”
em face do mal, para o francês; de qualquer modo, fica uma dada concepção e
imagem que muitos possuem de Deus (como bombeiro)].
Num sublinhado curto, mas incisivo
Daniel alude àqueles que “pelo simples facto de serem pais seriam [viriam a
ser] julgados culpados” (pelos filhos) (p.327). Como que de tal sorte
sublinhando ser essa a condição da parentalidade; dada a sua intrínseca
imperfeição, a sobrevinda da crítica, o elenco de faltas ou falhas [pelo dedo
acusador da descendência…que dali a nada se transformará em acusada, assim mude
de papel]. Mal nasce, o pai ou a mãe, é culpado, pois que não foi – nunca será
– perfeito. A sua “culpa” inapelável e nunca superada.
Em uma visão sombria da vida, dos
humanos e do estádio civilizacional em que se encontra (em que nos
encontramos), Daniel não pode contemplar ou conferir, como não contempla nem
confere, qualquer carácter salvífico às suas memórias: as pessoas, mesmo que
soubessem que o humorista/escritor estava a redigir acerca de um grande
acontecimento “não se importariam, porque estavam habituadas a uma vida
insípida e a um comentário” (p.302). O comentário
insere-se na lógica do achismo quotidiano,
que sobre cada assunto tem uma opinião, para no fundo não levar nada a sério,
no meio da cacofonia (de que participa); o comentário
da sociedade dos comentadores que
merecia ser substituída pela sociedade
dos artistas, bem mais inspiradora, seguramente (Tolentino de Mendonça).
Numa conferência, na Culturgest, há cerca de um ano, Maria
Filomena Molder recordava que, em “As
razões de ser, Fernando Gil dizia que viver
não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis o que a frase
quer dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder o
fôlego”), os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos, são
elementos da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa relação
entre a confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes de
termos nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança a
nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar
viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do
recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à
vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela
esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária.
Será terrível colocar em causa essa confiança, esse princípio da existência.
Mas depois é necessário um esforço de despertar para a vida. Esse
esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas numa
disposição para a vida. Lembra-te
de viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe)”.
Se tivéssemos que nos recolher a autores para quem a vida é
um bem, na qual importaria depositar confiança, há um dom que importa agraciar
e talentos a colocar a render, então, evidentemente, como pontos de partida, a
ideia da vida como “desgraça”, a existência como incessante “dor de ser”, a
imagem que retiramos desse mundo na mediação humana – sempre com lobos ferozes por rostos e companheiros,
em vez de seres que fazem do amor, do apego, o essencial e entendem a alma, a
dimensão espiritual como algo que lhes permite tocar os valores eternos – bem,
verdade, beleza - não seria, evidentemente, à cosmovisão expressa pelo narrador
Daniel que recorreríamos.
Todavia, se a partir de um ponto de vista em que queremos
perseverar nessa confiança na vida e no mundo, se a mundividência postulada
passa pela necessidade da relação, de um forte vínculo e preocupação com o
outro, então a crueza, a brutalidade, a violência extrema de um universo
povoado de átomos que são indiferentes ao que quer que seja – sem riso e sem
lágrimas -, incapazes de se perguntar por qualquer sentido – nenhuma conversa
séria – e deixando de fruir das grandes indagações filosóficas e teológicas que
marcaram a sua caminhada (algo agora simplesmente inacessível, com o
aniquilamento da religião, sob o signo do cristianismo, e da Filosofia, pelo
culto do cientismo, do tecnológico),
nesse mundo onde todo o dissenso foi castigado, nesse cosmos de humanos que não
passam de exclusiva biologia, então, dizíamos, a denúncia sem equívocos de
Michel Houellebecq adquire uma grandeza incontestável em virtude do seu talento
literário (e de um background onde
avultarão, nesse sombrio sobre a existência, Nietzsche ou Schopenhauer).
A propósito deste romance, e da distopia que ele encerra – o
fim do amor, das relações como a libertação/emancipação da humanidade; o
isolamento como a nova condição, num humano maquinal e petrificado, no qual
apenas a razão instrumental permanece
- Leonidas Donskis faz suas as palavras de Slawomir Mrozek: “o amanhã é o dia
de hoje exceto por chegar um dia depois”. “A
possibilidade de uma ilha, de Houellebecq, é uma teoria sociológica da
morte da sociedade, uma teoria apresentada sob a forma de literatura e que
desenvolve uma narrativa convincente. A morte da sociabilidade na fase tardia
da modernidade não é uma fantasia. As pessoas já não querem estar juntas. Já
não têm razão alguma para ficar umas com as outras”. Assim, “tudo o que resta
da sociedade são indivíduos atomizados, solitários, fragmentados, com um frágil
poder de associação. O seu único problema é consigo mesmo e com a sua morte e
extinção. Uma cultura viva cria as suas próprias formas de vida. Uma cultura
moribunda já não cria mais nada, apenas se interpreta” (Donskis). Num universo
muito marcado pelo determinismo, o
fatalismo assacado ao fim das próprias relações humanas, de cada relação que
entabulamos, parece querer surgir como resposta - na narrativa de Houellebecq.
Contudo, testando-o até ao extremo, circunscreve um limite que irrompe enquanto
esperança, e esta com(o) uma força da natureza que não adquiriria num texto
delicodoce: “a história das relações humanas é sempre cíclica: elas começam,
desenvolvem-se e depois definham silenciosamente. Só uma pessoa amada ou amiga
pode romper o ciclo e superá-lo. Vencer o ciclo das relações humanas e a sua
morte constitui a própria essência do amor e da amizade” (L.Donskis). Como
Daniel sabia, “acabamos sempre por morrer de amor ou falta de amor” (p.146). Um
amor inscrito em/mediado por Esther: “não sobreviveria à sua partida [para Nova
Iorque, para uma Academia de Piano, e para representar uma peça de Sócrates]”
(p.273). A perda do amor seria uma verdadeira “catástrofe” e aí estava a
angústia pronta a devorar (p.274). É na debilidade da ferida, na inocência
talentosa – e talento é algo que falta aos sem carácter, desenvolve – que Daniel
se oferece na beleza da lágrima, na redenção do sentimento, na verdade do viver
[num inusitado golpe romântico, de alguém que, porém, assume as suas
“oscilações ciclotímicas entre o desânimo e a esperança”, p.349]: “ao mesmo
tempo, tornara-me um perfeito cachorro, que um simples torrão de açúcar teria
bastado para apaziguar (…) mas ninguém me ofereceria esse torrão de açúcar”
(p.341). Numa palavra, “um pouco sentimental, um pouco cínico” (p.327).
Podemos, pois, dizer que nesta obra “ainda assim, Houellebecq
deixa-nos uma palavra de esperança (…) As suas palavras sobre o amor como
mistura de desejo e compaixão transformam-se na esperança do homem líquido
moderno (…) O breve e infeliz amor de Daniel por Esther (…) isso é esperança.
Se a extinção dos poderes de comunidade, sociedade e sociabilidade representa o
começo do fim do mundo, e se os indivíduos que se usam uns aos outros, mas não
se querem ver nem ouvir, aceleram a autodestruição mútua, então esse ciclo só
pode ser superado por uma vitória, mesmo que apenas momentânea, sobre o
determinismo: por exemplo, uma inesperada palavra de compaixão” (L.Donskis).
O desiderato de despertar para a vida pode ribombar com um tremendo som estridente de um chicote usado sem clemência – “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq é a primeira grande distopia do século XXI, até agora sem rival, destinada e feita sob medida para a era da modernidade líquida, desregulamentada, obcecada pelo consumo e individualizada” (Donskis) - pela pena de um autor que, em qualquer caso, mesmo no mais tenebroso dos cenários, encontrou espaço para a alteridade.
Pedro Miranda
(publicado no Boletim Cultural, da Escola Secundária Camilo Castelo Branco)
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