'MOVIMENTO DO MUNDO'
Movimento do mundo
como quem diz tabuadas. Eu errava pelo mundo e
(escuta:
era engraçado) quanto mais errava mais
estava certo (a
própria vida parecia que me queria
preso a si). Num mundo de pernas para o ar
os sábios são os morcegos –
eu regressava do mundo e nunca estranhava
o regresso (a
cor do mar era a mesma
a luz do céu era a mesma
a inveja era a mesma). Vista de cima
para baixo
toda a ilusão é pequena –
pela janela da escola ouvia dizer tabuadas
como quem diz orações.
- houve um tempo em que nas Igrejas se diziam orações de forma mecânica, rotineira, burocrática; estas esgotavam-se em si mesmas, como se outro significado nelas não houvesse que o dizê-las; decoradas, mas sem existir uma apropriação das mesmas, do seu sentido, como se o ritual se esgotasse em si mesmo (“dizer orações como quem diz tabuada”);
- num jogo antitético, podemos ver, diversamente, que aos 7/8 anos, as crianças estão tão concentradas, tão empenhadas, é para elas tão importante dizer e saber a tabuada, esta adquire uma tal transcendência então, que tal parece uma oração, o que, pode, aliás, ser corroborado quando em casa se repete, sozinho, em voz baixa, essa multiplicação dos números (“da escola ouvia dizer tabuadas como quem diz orações”);
- “errava pelo mundo e (…) quanto mais errava mais estava certo”: observe-se a capacidade do uso da ambiguidade e da polissemia do verbo errar e do jogo de significados alcançado com este. Por um lado, “errava pelo mundo” como “andava”, “viajava” pelo mundo; por outro, a possibilidade, é certo, de leitura no mesmo cumprimento de onda, “quanto mais viajava mais estava certo” (viajar, andar, errar pelo mundo é bom; o caminho faz-se caminhando, quanto mais se caminhar mais caminho se fez; quanto mais andava pelo mundo mais percebia que estava correcto), mas também de uma outra: “quanto mais erro mais acerto”; em chegando o conhecimento, a verdade, o certo, por vezes, por tentativa-erro, preciso de errar para acertar; quanto mais vezes errar, paradoxalmente, mais próximo estou de acertar, além de que no erro se aprende, ou o erro como mestre, logo, aprendizagem, acerto;
- a introdução do elemento surpresa quando o sujeito poético principia por enumerar características físicas do Universo “a cor do mar era a mesma/a luz do céu era a mesma” e apõe “a inveja era a mesma” [talvez o “quando regresso do mundo”, signifique do estrangeiro e, aqui, “inveja” se identifique como “característica portuguesa”];
- “num mundo de pernas para o ar”, supõe-se que face ao que se imaginaria a ordem correcta das coisas, nomeadamente ao nível axiológico, ao nível dos valores – até porque é isso mesmo que se pretende dizer na locução popular “isto está tudo de pernas para o ar” – o morcego que assim se coloca em termos físicos, ou, noutra leitura, quem sabe habitar as trevas é “sábio” (“…sábios são os morcegos”)
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