"OS CORVOS EM BIRKENAU"
Os corvos em Birkenau
vagões que aqui chegavam
partiram para outros lugares. O madeiro dos barracos
(onde os mantinham à espera)
não resistiu às estações. Nenhuma
coluna de cinza os leva (em nuvem) pelo ar.
Não há odor a queimado (nem
gritos sob o silêncio) na plataforma puída
ninguém
aparta ninguém. As
próprias câmaras de gás (hoje
um monte de ruínas) podiam passar a ideia de
que nada se passou. Mas eles
já vestem de negro para não deixar esquecer.
Sobre a erva que renasce (e faz
por cobrir o passado) os corvos velam a morte
colhendo provas de vida
(restos de biologia:)
sementes
vergonha
aqua lacrimae.
João Luís Barreto Guimarães, “Nómada”,
Quetzal, 2019, p.25.
-
não é possível, hoje, mesmo que visitemos o campo de concentração e extermínio
de Birkenau aceder à experiência dos que ali habitaram: já não há o “madeiro
dos barracos”, as “colunas de cinza” após as mortes, o cheiro a carne queimada,
os capos a separarem (apartarem) umas pessoas das outras (nomeadamente,
familiares entre si), os gritos sem ninguém para acudir; as câmaras de gás,
hoje em ruínas, (quase) parecem inócuas;
-
no poema, de uma banda, obriga-se o leitor a perceber o subentendido: o “eles”,
ligando-o ao título – “eles” são os corvos. E os “corvos” são, agora,
personificados. Os corvos são o elemento necessário à memória, a um luto: “já
vestem de negro para não deixar esquecer” (a sua roupagem é, por natureza, negra).
Eles fazem a vigília (“velam a morte”) recolhendo testemunho, prova da vida que
ali habitou (“provas de vida”; mais uma vez, jogo de paradoxos e antítese,
morte/vida);
- e quando o sujeito poético introduz a dimensão “biologia”, o primeiro exemplo parece-nos adequado àquele campo; todavia, vergonha e aqua lacrimae, tendo uma expressão orgânica e biológica – que aqui se quererá sublinhar – suplantam-na na remissão para uma dimensão psicológica, mais ainda, espiritual que não pode, igualmente, deixar de pretender-se sublinhada (“a vergonha”, “a água das lágrimas”), sendo que a expressão em latim vem também contribuir para esse efeito surpresa. Uma bela homenagem, de resto, aos que ali pereceram.
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