UMA PLENITUDE NÃO DELICODOCE
Uma
Plenitude não delicodoce
1.A
Rosalía fora assídua e pontual como se dizia na caderneta da minha infância,
sabia-a militante e acólita e, embora não fossemos, já, companheiros de ano
letivo, abeirei-me, envolto em fraternidades e em simultâneos cuidados que
aprendi (necessários) com alguns meninos quando passa(ra)m dos quinze anos –
“parte-se” -, e perguntei-lhe, então, num intervalo em que a vi a um canto,
sossegada, no recreio: “queres vir à prisão? Vamos meditar, juntamente com os
detidos que quiserem participar, numa Via
Sacra para a qual foram feitas reflexões por um padre que trabalhou em
prisões de África. São textos fortes que incidem sobre a vida das pessoas que
estão atrás das grades”. Ainda ecoa em mim, com a memória de um certo espanto e
desconforto (por insuficiente ponderação instantânea minha, reconheço), a
resposta que lhe saiu espontânea e expressiva: “Creeeedo!! Eu tenho medo deles!!”.
Confesso que o primeiro pensamento que me ocorreu não foi o de uma compreensão para com o (adolescente) humano receio de um desconhecido, em instituição à guarda de quem estão aqueles que – porque não eu?, como, muito sabiamente, pergunta o Papa Francisco –, por algum motivo, tiveram um momento de queda (criminal). No imediato, mais profético, menos sacerdotal, acometeu-me, antes, uma certa indignação por alguém, apesar de jovem, manifestamente inteligente, e tão comprometida, ter não só ficado admirada com aquele convite (o que é que ela não percebeu, ao fim de tantos anos?!), como o recusara liminarmente, sem entender que é a mulheres e homens como aqueles (a quem iríamos visitar/com quem iríamos meditar) que o abraço mais urge e por quem a Palavra (incarnada) tem especial predileção (os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes).
Todavia, o discurso e transmissão da fé em chave perfeccionista, a redução do cristianismo a uma moral, a apresentação de um Cristo delicodoce, a tentativa, nuns casos, ou a irrefletida passagem de testemunho, noutros, de O tornar uma figura mais ou menos asséptica (como é possível?!), “o amigo de todos” diluído em chavões que não implicam de um modo crucial explicam, afinal, estou em crer, reacções/posturas como a da Rosalía. Se, desde há anos, o pensava, melhor o vi articulado por Antonio Spadaro, teólogo jesuíta, em Uma trama divina. Jesus em contraponto (Paulinas, 2023) e, logo no Prefácio, sintetizado, com invejável exatidão, pelo Santo Padre: “Para os seus contemporâneos, Jesus faria parte do paradigma do inadaptado, da pessoa que não se adapta, da pessoa desadaptada, que não se ajusta ao que é óbvio. Basta ler nos Evangelhos as reacções que os seus gestos suscitavam. Em Marcos, vemos que os seus familiares saíram a ter mão nele, pois diziam: ‘Está fora de si!’. Outros, como nos conta Mateus, declaravam-no, abertamente: ‘Eis um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’. Às vezes, Jesus tem reacções duras, indignadas: derruba as mesas dos vendilhões do Templo, por exemplo. Não se adapta, não se conforma. (…) Protesta contra aqueles que se sentem tão incluídos a ponto de excluírem os outros, contra aqueles que acreditam que veem claramente a ponto de se terem tornado cegos, contra os que se sentem de tal forma autossuficientes na administração da lei que se tornaram iníquos (…) Temos a tendência para domesticar Jesus, para o tornar amável, mas de um modo que faz com que a sua mensagem se torne inutilmente doce (…) O Evangelho pode ser fonte de genialidade, de surpresa, é capaz de sacudir profundamente. O pior que pode acontecer é traduzir a força da linguagem evangélica em algodão-doce: abafar o impacto das palavras, suavizar a intensidade das frases, domesticar o sentido do discurso”.
2.Em
As intermitências da morte, José
Saramago foi capaz de ilustrar, não sem graça, em termos narrativos - talvez
antes de o ler não houvéssemos considerado detidamente o ponto - como a
ausência, o fim/cancelamento/suspensão da morte (hipótese ou experimento literário central naquele enredo), nesta rigorosa dimensão terrena
em que nos encontramos, e, em particular, em dados estádios da mesma, poderia, afinal, ser (bem) penosa.
Bento XVI, na encíclica Spe Salvi (Salvos na Esperança), aponta, como um dos factores de não aceitação, por banda de muitos humanos a quem foi/é anunciada a ressurreição, daquela (categoria/acontecimento), precisamente a recusa, que muitos daqueles assumem, de uma vida eterna à luz dos cansaços e desilusões, das penas e trabalhos que experimenta(ra)m nas suas existências (livrai-nos que tal dure para sempre!...). Sem embargo, também, nelas, nessas pessoas e suas vidas, aquele jantar de amigos repleto de conversas significativas e comunhão perfeita, o esplendor do olhar de Galafura sobre o Douro, a carícia da amada, o afago da avó, aquele jogo que nos inundou de alegria, a prenda desejada mas impensável vir a aparecer num Natal em família, o cheiro a maresia em caminhada livre contígua a um mar de prata - e quase perdida a linha do horizonte, a pele acicatada pelo vento matinal de Junho, o canto dos cucos, um pôr ou um nascer de Sol, o piano, a viola ou o violino, o silêncio depois de Mozart, o livro que nos leu como nenhum outro, o filme que continua a morder, o quadro ou a poesia que contemplamos sem cessar…: a vida devia ser sempre assim!, dizemos (em tais circunstâncias, ocasiões, momentos). Pois, partindo do anúncio que da ressurreição faz São Paulo, Bento XVI distingue: quando somos atirados à ressurreição é, pois, de Plenitude que se cura - e quando dizemos, e temos a sorte de experienciar, a vida [que] devia ser sempre assim!, acabamos como que por a antecipar. A vida eterna como que aí principia – e bem sabemos, então, que não queremos que termine.
Pedro
Miranda
Confesso que o primeiro pensamento que me ocorreu não foi o de uma compreensão para com o (adolescente) humano receio de um desconhecido, em instituição à guarda de quem estão aqueles que – porque não eu?, como, muito sabiamente, pergunta o Papa Francisco –, por algum motivo, tiveram um momento de queda (criminal). No imediato, mais profético, menos sacerdotal, acometeu-me, antes, uma certa indignação por alguém, apesar de jovem, manifestamente inteligente, e tão comprometida, ter não só ficado admirada com aquele convite (o que é que ela não percebeu, ao fim de tantos anos?!), como o recusara liminarmente, sem entender que é a mulheres e homens como aqueles (a quem iríamos visitar/com quem iríamos meditar) que o abraço mais urge e por quem a Palavra (incarnada) tem especial predileção (os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes).
Todavia, o discurso e transmissão da fé em chave perfeccionista, a redução do cristianismo a uma moral, a apresentação de um Cristo delicodoce, a tentativa, nuns casos, ou a irrefletida passagem de testemunho, noutros, de O tornar uma figura mais ou menos asséptica (como é possível?!), “o amigo de todos” diluído em chavões que não implicam de um modo crucial explicam, afinal, estou em crer, reacções/posturas como a da Rosalía. Se, desde há anos, o pensava, melhor o vi articulado por Antonio Spadaro, teólogo jesuíta, em Uma trama divina. Jesus em contraponto (Paulinas, 2023) e, logo no Prefácio, sintetizado, com invejável exatidão, pelo Santo Padre: “Para os seus contemporâneos, Jesus faria parte do paradigma do inadaptado, da pessoa que não se adapta, da pessoa desadaptada, que não se ajusta ao que é óbvio. Basta ler nos Evangelhos as reacções que os seus gestos suscitavam. Em Marcos, vemos que os seus familiares saíram a ter mão nele, pois diziam: ‘Está fora de si!’. Outros, como nos conta Mateus, declaravam-no, abertamente: ‘Eis um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’. Às vezes, Jesus tem reacções duras, indignadas: derruba as mesas dos vendilhões do Templo, por exemplo. Não se adapta, não se conforma. (…) Protesta contra aqueles que se sentem tão incluídos a ponto de excluírem os outros, contra aqueles que acreditam que veem claramente a ponto de se terem tornado cegos, contra os que se sentem de tal forma autossuficientes na administração da lei que se tornaram iníquos (…) Temos a tendência para domesticar Jesus, para o tornar amável, mas de um modo que faz com que a sua mensagem se torne inutilmente doce (…) O Evangelho pode ser fonte de genialidade, de surpresa, é capaz de sacudir profundamente. O pior que pode acontecer é traduzir a força da linguagem evangélica em algodão-doce: abafar o impacto das palavras, suavizar a intensidade das frases, domesticar o sentido do discurso”.
Bento XVI, na encíclica Spe Salvi (Salvos na Esperança), aponta, como um dos factores de não aceitação, por banda de muitos humanos a quem foi/é anunciada a ressurreição, daquela (categoria/acontecimento), precisamente a recusa, que muitos daqueles assumem, de uma vida eterna à luz dos cansaços e desilusões, das penas e trabalhos que experimenta(ra)m nas suas existências (livrai-nos que tal dure para sempre!...). Sem embargo, também, nelas, nessas pessoas e suas vidas, aquele jantar de amigos repleto de conversas significativas e comunhão perfeita, o esplendor do olhar de Galafura sobre o Douro, a carícia da amada, o afago da avó, aquele jogo que nos inundou de alegria, a prenda desejada mas impensável vir a aparecer num Natal em família, o cheiro a maresia em caminhada livre contígua a um mar de prata - e quase perdida a linha do horizonte, a pele acicatada pelo vento matinal de Junho, o canto dos cucos, um pôr ou um nascer de Sol, o piano, a viola ou o violino, o silêncio depois de Mozart, o livro que nos leu como nenhum outro, o filme que continua a morder, o quadro ou a poesia que contemplamos sem cessar…: a vida devia ser sempre assim!, dizemos (em tais circunstâncias, ocasiões, momentos). Pois, partindo do anúncio que da ressurreição faz São Paulo, Bento XVI distingue: quando somos atirados à ressurreição é, pois, de Plenitude que se cura - e quando dizemos, e temos a sorte de experienciar, a vida [que] devia ser sempre assim!, acabamos como que por a antecipar. A vida eterna como que aí principia – e bem sabemos, então, que não queremos que termine.
(publicado originalmente na revista "Pensar(es)", da Escola Secundária Dr. António de Araújo Correia)
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