DOS REGIMES EM QUE VIVEMOS: DE DEMOCRACIAS A MEDIARQUIAS

 

1.No fim da noite eleitoral, o sábio regressa para, incontáveis vezes, nos recordar que, ao votar, “o país não disse isto ou aquilo”, não há uma “deliberação em conjunto” [do/pelo país], cada um dos milhões de eleitores votou com as suas (singulares) razões, emoções, motivações (não sendo possível, pois, extrair uma leitura comum, do significado da votação, a todos estes). Diferentemente, Yves Citton (La machine à faire gagner les droites, publicado, entre nós, recentemente, pelas Edições 70): nem o país emanou um sentido unívoco do seu voto, nem cada cidadão eleitor a dizer de sua justiça; há, somos/integramos, antes, “públicos”, formados/formatados por medias – que funcionam como estruturas mentais e comunidades interpretativas - sendo, neste âmbito, decisivo compreender, por consequência, que “públicos” forma, afinal, a infra-estrutura mediática tal qual se encontra hoje concebida/estabelecida (hegemonicamente), de pouco adiantando tomar a maquinação, quando aquela é perspectivada como malsã, como inimigo exterior, na medida em que se encontra já, não raramente, internalizada, vertida para o plano das convicções mais arreigadas, qual visão do mundo, em que o cidadão assenta: “a primeira coisa a compreender é que quem elege deputados e presidentes, quem vota a favor e contra constituições e referendos, nunca é diretamente um povo homogéneo, nem uma soma de indivíduos isolados entre si, mas um conjunto de públicos com dimensões e contornos diversos. As nossas democracias são, na verdade, publicocracias (…). Se acabamos por votar (ou não votar) neste ou naquele candidato, é porque ouvimos, vemos e lemos isto em vez daquilo. Por outras palavras, é porque fazemos parte de determinados públicos”. Neste contexto em que incorporamos, na dimensão individual e de público (s), medias (como que levamos medias incorporados em nós, de modo que, por vezes, estes se confundem connosco ou nós com aqueles), considera o Professor de Literatura e Média na Universidade Paris 8 Vincennes-Saint Denis, mais do que em democracias vivemos em mediarquias.

2.E o que pretende dizer-se quando, neste domínio, se refere uma internalização de pressupostos, nomeadamente veiculados por medias - "geralmente, chama-se media àquilo em torno do qual se constituem públicos. Podemos escrever media para designar os dispositivos técnicos utilizados para transmitir no espaço, registar no tempo e transformar, segundo diferentes parâmetros, os discursos, as imagens e os sons que circulam entre os seres humanos" -, que podíamos tomar como externos (a nós mesmos), mas que, em realidade, em não contadas ocasiões, são doutrina invisível que podemos ser propensos a tomar como coisa neutra e asséptica? Atente-se, sublinha o investigador, nas discussões tidas, no espaço público, e que versam aparentemente sobre imigração: “o debate sobre a imigração não incide sobre a imigração. Está condicionado por um quadro que, previamente, nos convenceu de que toda a miséria do mundo aspira a desembarcar entre nós [“caso ela se coordenasse misteriosamente para desembarcar aqui de um dia para o outro”], de que o desregulamento climático irá provavelmente aumentar o número de migrantes [“a ideologia ecologista-malthusiana, que prevê guerras entre populações sedentas devido ao esgotamento dos poços não é, de modo algum, uma fatalidade”, cf. estudos de Selby, Daoust e Hoffman sobre as «guerras da água» em Chipre, Palestina, Síria, Sudão, lago Chade: “há água suficiente para satisfazer as necessidades básicas das populações envolvidas”], de que o nosso sistema social não tem meios para acolher todos [“penosamente, com lentidão (…) é neste sentido que avançam (a recuar) as primeiras medidas relativas a um fundo de compensação pelas perdas e danos causados pelas alterações climáticas”, partilha de riquezas “para evitar que as misérias dos outros venham incendiar os nossos pequenos jardins”; “os recursos disponíveis são mais do que suficientes para melhorar as condições de vida das populações do Sul e para assegurar um rendimento digno às populações do Norte”], de que as taxas de delinquência são mais elevadas entre as populações de origem estrangeira – motivo pelo qual a escolha se reduz a uma oposição entre uma caridade idealista (que empurra para as esquerdas) e um realismo sitiado (que empurra para as direitas). Do vasto espectro daquilo que se poderia pensar sobre os fenómenos migratórios, de tudo o que seria preciso compreender quanto às suas causas e imaginar quanto às suas dificuldades e potenciais, apenas uma janela muito estreita – chamada «janela de Overton» pelos especialistas em comunicação políticase encontra efectivamente aberta na maioria dos debates mediáticos” [note-se, a propósito do caso francês e da conversação política da imigração nele presente: 29 mudanças legislativas sobre imigração em 40 anos, ou seja, “um espectáculo parlamentar a cada 18 meses”].
Um outro exemplo, a este propósito, quanto ao modo como representamos o delito penal de violação, seu modus faciendi e respectivo agente-tipo: “os nossos imaginários estão também saturados de lugares-comuns perfeitamente enganadores: a imagem comum de um violador (impregnada até à náusea pelas inúmeras séries policiais com assassinos em série) é a de um desconhecido que atrai a vítima para o canto de uma rua escura. Sabe-se, porém, que os dados estatísticos deviam dar-lhe a figura de um pai ou de um marido – e temos aqui um exemplo entre muitos de sobreposições complexas entre ficção e realidade, entre entretenimento e informação”.
Acresce, em esta textura que impregna um olhar que chega necessariamente impuro à interpretação do mundo, que, desde 2010, com a emergência das redes sociais, e “simultânea à ascensão dos videojogos ao primeiro plano das práticas culturais das populações conectadas”, o pano de fundo em que decorre (também) a vida política é o de um “universo lúdico amplamente inédito”, despertando, este, como nunca, “os instintos de jogo do Homo Ludens” o que tem tradução/implicação, (quase) inevitavelmente, na mensagem política, porque o meio (nomeadamente, nesta hora, as redes sociais), como ensinou McLuhan, nunca é inócuo (o meio transformou a própria natureza dos debates; por sua vez, para um determinado tipo de mensagem, é certo, procura criar-se um específico media), algo destacado, igualmente, por Anne Applebaum, no clássico instantâneo em que se converteu “O crepúsculo da democracia” (Citton partilha com Applebaum o destaque da socialidade como um dos elementos que torna atractiva, mais do que conseguem fazê-lo os partidos tradicionais – incapazes, portanto, de mobilizarem a mesma afeição/conexão/vinculação que as direitas populistas, de um modo geral – a pertença à direita populista/radical/extrema; segundo este autor, tal factor é, até, mais relevante na adesão aquelas do que a xenofobia), ou Amoz Oz, em Queridos fanáticos: cada vez mais, no interior desta ambiência, há líderes políticos emergentes, a nível mundial, que são farsantes, paródicos, cínicos. Pablo Stefanoni, em A rebelião passou para a direita, considerou, a propósito, e por seu turno, que as “direitas souberam tornar-se divertidas pela insolência e chocantes pelas provocações, enquanto as esquerdas são muitas vezes percebidas como tristes e empedernidas”. Daniel Innerarity, em Liberdade Democrática, exortou a esquerda a ponderar o carácter “proibicionista” ou “anti-prazer” com que surge aos olhos de uma parte do eleitorado - "a esquerda manda, regula e proíbe enquanto a direita reivindica uma vida mais despreocupada e espontânea. Na confrontação política, os limites são o ar condicionado, o consumo de carne ou a correcção da linguagem, frente às esplanadas, a cidade iluminada e a desregulação". A esquerda aparece altiva e moralizadora para certas partes da população - senão, mesmo, autoritária”, enquanto Antonella Marty, em A nova direita, descortinou, inclusive, a passagem da figura do bully do digital – onde se tornou peça-chave -, para o analógico, por parte de candidatos/challenger e de líderes que assim se impõem e governam.
 
3.Com vista à dilucidação do que se trata quando se visa explicar e desmontar tal maquinaria mediática, o investigador trata, ab initio, de distinguir entre uma «classe hacker» - “todos aqueles de entre nós que alimentam a Internet com os conteúdos que lhe dão vida” – e uma vetorialista – “todos aqueles que estão em posição de controlar os vetores (os tubos) através dos quais circulam as nossas comunicações e que colhem os frutos daquilo que enviamos através desses mesmos canais”, para colocar questões pré-políticas: “em que tubo estou eu a ser impelido a empurrar ao entrar neste [num] debate? Em que medida é ele uma armadilha que aproveitará o meu impulso para estrangular ainda mais eficazmente as minhas melhores intenções? Mais concretamente: quem possui, quem controla e quem lucra com os vetores dentro dos quais nos exprimimos?”.
São perguntas maiores/radicais aquelas que obrigatoriamente devem colocar-se, no dizer de Yves Citton, caso pretenda mudar-se a natureza e o tom dos debates: “infra-estrutura técnica e material: de onde vem a electricidade que alimenta os servidores e os terminais? Onde são extraídas as suas matérias-primas? De que cadeias logísticas depende o seu funcionamento, a sua manutenção, a sua renovação? Quem está em posição técnica de bloquear os seus acessos, de reconfigurar as suas conexões, de espiar ou desviar os seus fluxos? Infraestrutura semiótica: que códigos e que linguagens regem os comandos dados aos dispositivos? Quem domina esses códigos? Que formas estéticas são favorecidas por que tipos de redes? Que regimes de atenção são invalidados por que escolhas de linguagens? Infraestrutura jurídica: a que regimes de propriedade estão sujeitos os médias? Quais são os seus efeitos? Que outros modelos seriam concebíveis? Através de que mediações legais se pode obrigar a classe vetorialista a respeitar os interesses comuns? Infraestrutura económica e financeira: em que modelos comerciais assenta a existência de médias? De que forma a mercantilização da atenção compromete o desenvolvimento da nossa inteligência colectiva? Que modos alternativos de financiamento dos médias podem contrariar a sua venda a quem oferecer mais?”.
 
4.Reconhecendo que os jornalistas são muitas vezes, e em simultâneo, acusados de fazer o jogo dos donos das grandes corporações mediáticas – “cerca de 30 financeiros partilham entre si o controlo de quase todos os mass media franceses, seja a grande imprensa, as principais editoras, as rádios ou os canais privados de televisão” – e de, por outro lado, terem “causas de esquerda, desligadas dos verdadeiros problemas do povo” (a promoção de um liberalismo económico e cultural/de costumes, ao mesmo tempo, dir-se-ia; John Gray considera, sem embargo, que quando se julgava que houvesse a extensão do neoliberalismo a todo o planeta, ele que era muito mais um sistema internacional do que apenas um conjunto de políticas tomadas a nível nacional, o que sucedeu foi uma mudança de regime nos EUA, com Trump não apenas a atacar o livre-comércio como a adquirir participações em indústrias estratégicas tornando os EUA uma economia dirigista governada pela família e amigos Trump - cf. Ideas, ElPaís, 15-02-2026), o académico avalia, também, práticas que são do domínio do impensado e da “inocência” (ou seja, não arquitectadas, de antemão, para uma dada finalidade “perversa”) de profissionais de media como, por exemplo, reportagens ou programas (nomeadamente, de direto) de vox populi onde se pergunta a uma pessoa na rua o que pensa sobre determinado tema/assunto, esperando que em trinta ou, mesmo, dez segundos responda acerca do mesmo (e ainda que se procure apresentar, ou que sejam representadas, sobre cada tópico em questão, a cada momento, posições opostas, aparece sempre a banalidade, o irreflectido, o irresponsável até como quase inevitável à luz do imponderado exigido pelo formato daquele programa de tv). Sem tempo para reflectir, a pessoa produz, frequentemente, respostas de natureza primária, quando não reaccionária – assim se contribuindo, no proliferar de tais formatos, para reforçar/fazer prosperar, na esfera pública, posicionamentos/balizas desta índole. Noutra ilustração do que pensa como práticas jornalísticas a superar, Yves Citton aponta ao modelo dos nossos telejornais: “salvo algum acidente, o silêncio nunca dura mais de dois ou três segundos: é necessário que haja sempre fala, um bombardeamento de imagens [e texto] em fluxo contínuo, sem deixar aos espectadores o mínimo tempo para reflexão. Nada deve constituir um enigma, sugerir um fora de campo: todo o espaço de sentido deve ser completamente saturado de respostas plenamente satisfatórias”.  
Ademais, encontra na repetição da árvore a ausência de uma floresta cujas ramificações são, em múltiplas situações, bem mais relevantes para se compreender uma dada realidade do que o aspecto que, podendo ser mais chamativo, é destacado e isolado sem se perceber que, enquanto factor explicativo daquilo em que se cura inteligir com um mínimo de densidade, é minguado elemento (a propósito, ocorreu-nos, sobre a grave crise pós-2008, financeira e logo económico-social, em especial na Zona Euro, e o modo como foi subsumida em reportagens in loco, em países onde as repercussões sociais daquela crise mais fizeram sentir-se, de conhecidos pivots da televisão portuguesa, o modo como Viriato Soromenho Marques concluía, no seu Portugal na queda da Europa: "A transformação da responsabilidade sistémica em responsabilidade moral caiu bem na propaganda lançada por vários interesses instalados. Para um público europeu, que, na sua maioria, é iletrado em economia e desconhecedor das complicadas malhas do funcionamento da UE e da Zona Euro, culpar o excesso de jardineiros gregos pela crise era mais fácil do que estudar, desmontar e reformar o terreno minado dos tratados europeus, onde a verdadeira raíz da crise se esconde").
 
5.Se o professor universitário francês exclui a necessidade de – do recurso explicativo a - uma conspiração global de vetorialistas (“a classe vetorialista detém o nervo da guerra: não só a acumulação de recursos financeiros que permite comprar tal plataforma de dimensão planetária. O nervo da guerra também deve ser procurado no acesso direto aos sensores e metadados que permitem monitorizar os nossos comportamentos atencionais em tempo real”) – na humana história, conspirações houve [do forjar dos “Protocolos dos sábios de Sião” ao affaire Dryfus], mas foi em momentos de desorientação e de incredulidade face às ideologias/grandes narrativas vigentes (até dada altura) que se dá uma explosão de conspiracionismo como a que, de resto, hoje, de novo, assistimos: o final do século XVIII, em torno da Revolução Francesa, ou o final do século XIX, com uma aceleração técnica da globalização foram dois momentos especialmente férteis na história da conspiração, quase sempre ligada, refira-se, ao antissemitismo - para explicar a promoção mediática de direitas populistas ou de um liberalismo económico a outrance (até pelas especificidades nacionais que, por vezes, tornariam não transplantável uma mesma e exata mensagem e sob a mesma forma para outras geografias/história/cultura), não deixa o autor de apor que aqueles, os vetorialistas, não têm porque ir contra os seus próprios interesses (nomeadamente, económicos; vide o caso Jeff Bezos com o Washington Post e Donald Trump). Se no interior de um dada área política, a pluralidade implica correntes e tendências não unívocas (no pensar da res pública) a permeá-la (no que pode tomar-se, prima facie, como uma riqueza), José Pacheco Pereira notara, para o caso português, uma sobrerepresentação televisiva – e quando muitos dão por esgotada a televisão, um estudioso e especialista nos media como Yves Citton mostra bem a sua importância e a articulação desta com outros media na mesma engrenagem - de actores que se auto-identificam como sociais-liberais no espaço social-democrata, o que na elaboração de Citton seria dito da seguinte forma: “a Máquina (…) deixa-os eleger apenas candidatos que jogam o seu jogo, mesmo quando usam as cores de partidos sociais-democratas” [no dizer de J.Gray, louvando-se no historiador Perry Anderson, o neoliberalismo, como o grande paradigma político-económico-cultural dominante nas últimas décadas, e o populismo, vinham já a digladiar-se sem se saber o que daí resultaria, assinalando-se que, em nossos dias, nada existe de comparável aos antigos modelos keynesiano e hayekiano, mas o Brasil de Getúlio Vargas ou a China pós-Maoísta seriam exemplos de regimes que avançaram sem nenhuma "doutrina sistemática". A actual debacle do neoliberalismo teria começado na Rússia do pós-guerra fria, com o que Gray chama uma espécie de uma variante radical de keynesianismo militar, sendo que a carnificina com a guerra levou a compensações de familiares de soldados colocados na frente de batalha que fizeram aqueles parentes, de regiões pobres russas, comprar carros novos e abrir restaurantes, com a desmilitarização da economia, assim, a gerar um risco de desintegração de um Estado esvaziado. De acordo com este cientista político, a Rússia de Putin só pode funcionar como máquina de guerra, de maneira que em vencendo na Ucrânia mais remédio não lhe restará do que procurar expandir-se].
Pessoalizando a questão, Yves Citton registará, não sem certa ironia (a que junta a piada inocenteaquele media pensa como eu”), que “apesar de geralmente me opor à ideologia neoliberal que conquistou o planeta ao longo das últimas quatro décadas, obrigo-me todas as semanas, há mais de 30 anos, a ler The Economist, para regressar à fonte daquilo que estrutura os nossos debates políticos à escala global. Seria presunçoso acreditar que a leitura semanal neoliberal não contribuiu para neoliberalizar (pelo menos parcialmente) a minha percepção do mundo”. 
O advérbio de modo convocado, neste instante da reflexão do pensador francês, parece admitir, e o capítulo final do seu livro contém um programa experimental-reformista (com o qual, evidentemente, não tem de se subscrever, pelo menos na sua totalidade, para se haurir de uma dada desmontagem de uma maquinaria que se quer mais amiga da coabitabilidade na Terra), que observando/combinando-se medias diversos, incluindo na pré-compreensão do mundo, que constituem públicos (pelo menos, em parte) diferentes, dando condições (jurídicas/económicas) para uma real independência/imaginação editorial (e, na sugestão de Citton, com a emergência de um novo “semanário global, The Ecologist” para disputar agenda e modos de aproximação ao real do semanário que frequenta ininterruptamente há três décadas), escrutinando práticas jornalísticas anquilosadas e que promovem, sem o verem, a dimensão reacionária no humano, regulando claramente a captura de metadados, escrutinando como os algoritmos viciam e remetem a um celerado/deliberado enviesamento do debate público (“são estruturalmente privilegiados pela dinâmica da captologia actualmente dominante os seguintes conteúdos: (a) os que mobilizam os afectos mais intensamente marcantes; (b) os que se inscrevem em posicionamentos previamente balizados; (c) os que acentuam as oposições mais polarizadoras; (d) os que se afastam mais das posições medianas, percebidas como previsíveis; (e) os que conseguem encapsular o estado do campo por meio de uma síntese impactante; (f) os que fazem sobressair uma singularidade que agita o campo sem o fazer explodir”), punindo a desinformação e as plataformas que a permitem ou potenciam, fazendo uso dos novos meios, os “automédias” (sem telemóvel e câmaras, não teria chegado até nós o caso de George Floyd, porque impor-se-ia a versão da autoridade como incontestável, observa o ensaísta), assimilando a crescente dificuldade de descortinar a verdade de uma imagem e criando novas formas de verificar a indexicalidade (“As redes neuronais generativas minam a indexicalidade. A vertigem autoinfligida de uma vida política urdida à força de alternative virtuality games é tanto mais ameaçadora porquanto estamos a entrar num mundo mediático destinado a ser impregnado de deep fakes. A investigação e verificação dos factos tornar-se-ão ainda mais difíceis (qualificadas, dispendiosas) porque os generative pre-trained transformers (GPT) permitirão, em breve, que qualquer pessoa inunde a esfera mediática com simulações contrafactuais perfeitamente realistas. Se o desenvolvimento incessante (e ecologicamente insustentável) da Inteligência Artificial generativa seguir o rumo antecipado (…) colocará ao alcance de qualquer adolescente o arsenal das «operações psicológicas» até agora confinado a serviços secretos fortemente financiados. Isso enfraquecerá ainda mais a confiança indexical nas imagens e nos sons que circulam nos nossos ecrãs, pois a distância entre «vi/ouvi» e «logo, aconteceu» não poderá senão alargar-se, tornando-se cada vez mais difícil de aferir (…) O século XX manteve sempre uma certa desconfiança em relação às imagens fotográficas, desde o apagamento estalinista da figura de Trotsky até à «prova» fotográfica da presença de armas de destruição massiva em solo iraquiano. O anunciado (e glorificado) alastramento das Inteligências Artificiais infiltradas em todos os nossos actos de comunicação imporá, sem dúvida, a invenção de formas inteiramente novas de verificar a indexicalidade de uma imagem ou de um som, formas essas que ainda desconhecemos por completo”), promovendo o exame crítico dos media (digitais) bem cedo nos bancos da escola, nunca deixando de relevar o quão as Humanidades aportam a uma vida (pública também) examinada – já em 2015, no Japão, o ministro da Educação, Hakubun Shimomura apelava aos reitores das universidades que abolissem os departamentos de ciências socais e humanas, o que levaria 26 universidades nipónicas a realizar tal sugestão, num exemplo-escola do anti-intelectualismo epocal, reiterado, hiperbolicamente, nos EUA pretendidos por Trump, ou no Brasil idealizado por Bolsonaro; mesmo em França, em 2025, e sem prejuízo de tal poder resultar da adequação ás métricas existentes e da aplicação não errada de parâmetros em aferição, do auto-questionamento das Humanidades e do futuro dos seus diplomados, caem/são desacreditados dezenas de mestrados em Filosofia, Letras ou Sociologia [“As ciências sociais e humanas são erigidas como inimigas porque os seus reenquadramentos estatísticos forneceriam um precioso contraveneno aos excessos afectivos desencadeados pela mediatização de casos sensacionalistas. As Humanidades são atacadas (…) porque as suas práticas de interpretação, de discussão e de debate permitem precisamente um distanciamento crítico em relação aos enquadramentos que naturalizam e invisibilizam as aberrações sistémicas que reproduzem tacitamente as tendências patogénicas do presente (…) A principal virtude das ciências sociais e humanas é fornecerem, simultaneamente, materiais argumentativos e espaços de debate multiperspectivas, indispensáveis às transformações culturais que se avizinham”] -, específico imposto sobre volume de negócios das plataformas em posição dominante para todas as operações desenvolvidas na UE, elaboração de pequenos vídeos de acesso livre sobre grandes temas de acesso livre que consigam original infografia, humor e leveza, após investigação na massa de dados disponíveis, acolhimento de pessoas em perigo apesar de tal poder ser criminalizado, promover mais experiências do que crítica que, a prazo, pode reforçar o existente, renovação de marcos conceptuais e vocabulares a partir dos quais entender o que se passa à nossa volta, entre muitos outros esforços a desenvolver, pode abrir-se alguma brecha para pensar (outra coisa).

Pedro Miranda


[no reparo do dia da universidadefm, de 16-02-2026]


    

   

                                    


                                                                                           


         


                   




                                                    




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