DOCUMENTÁRIO DA SEMANA: "MR. NOBODY AGAINST PUTIN"
1.Um novo currículo “patriótico” chega às escolas russas no (imediato) pós-invasão da Ucrânia, em Fevereiro de 2022. Entoação de hinos, reescrita da história, bandeirinhas da Federação Russa a rodos, exercícios marciais tomam conta da vida da escola e dos que a habitam: alunos, professores, diretores, funcionários diversos.
Somos colocados perante várias filmagens em sala de aula (da remota cidade mineira de Karabash, nos Montes Urais): a professora que tropeça, múltiplas vezes, nas palavras da propaganda, que desconhece, não está habituada a usar, os vocábulos são(-lhe) manifestamente estranhos ao (que era o) dia-a-dia escolar - «desmilitarização», «desnazificação» - de tal modo que, agora que é obrigada a reproduzi-los, se vê na contingência de os repetir uma e outra vez até serem verdadeiramente pronunciáveis (para devidamente ficarem registadas nas filmagens que farão prova, conforme ordem do Ministério da Educação, de que a escola segue as diretrizes da tutela); o professor de História russa, Abdulmanov, convicto propagandista do regime e membro do partido, admirador de Béria e de alguns dos mais ferozes sequazes estalinistas, que virá a vencer o prémio de professor do ano (com o respectivo apartamento luxuoso como presente, na sua localidade) que garante que em Paris, repelida a energia russa, já se pagam 150 euros para encher o depósito automóvel e, em menos de nada, as pessoas andarão de novo, como em séculos pretéritos, a cavalo pelas ruas, afiançando aos seus alunos que o dever de fervor patriótico é o mesmo da reverência materna; as crianças, de rosto fechado, entre o estranhamento e o entediado com coisas que dificilmente compreendem...embora em idades nas quais, evidentemente, o ascendente do professor é particularmente sentido.
2.Numa das cenas que resume o filme, vemos Putin, numa das televisões russas, a afirmar que “não são os comandantes que vencem as guerras; quem vence as guerras são os professores”. Aos professores russos está, portanto, acometida a sinistra tarefa, desde Fevereiro de 2022, de serem propagandistas/doutrinadores do regime, mais terrivelmente, de exortarem e persuadirem as crianças/adolescentes que lhes incumbe ajudar a formar a irem morrer pela mãe Rússia.
Ora, é este desabar de um mundo moral – de uma missão, ajudar a crescer/viver mais intensa/abundantemente os mais jovens, à sua oposta: contribuir para que a máquina de guerra russa tenha sempre gente nova que caia por ela – que constitui a tragédia muito particular dos mestres, grupo em que se insere o professor/narrador/realizador do documentário (a par de David Borenstein). “Amo o que faço, mas não sou propagandista”, diz Pavel Palakin, Pasha, aquele que se pode apresentar enquanto Mr. Nobody porque frente ao Leviatã a pessoa ‘não é ninguém’, não conta para coisa alguma. “E o que se pode fazer face a este sistema?”. A resposta final será fugir da Rússia. É isso que fará o professor (levando consigo sete discos rígidos de filmagens).
3.Com o passar dos anos de guerra, alunos concluem a formação escolar e integram a frente de batalha (a ida para a recruta regada a lágrimas está longe da euforia guerreira que o estereótipo poderia fazer passar, tal como as demonstrações de afecto são calorosas, mesmo que se pudesse imaginar apenas gelo e "recusa da degeneração"). Mr. Nobody ironiza, com profundo humor negro: “tiveram bons professores”.
A revolta percorre-o e enquanto responsável pelo documentar em imagens/filme os momentos mais relevantes da escola tenta jogar o jogo do regime, aparentemente propagandeando-o, para melhor o denunciar/sabotar, realizando alguns gestos simbólicos – como colocar o X, símbolo de solidariedade com os refugiados ucranianos, a fita-cola nos vidros da escola, de um modo absolutamente visível a considerável distância do estabelecimento de ensino – que levam colegas a dizer-lhe que todos são adultos ali e também eles estão a sofrer com o que se passa, mas Putin faz aprovar novas leis, para supostos traidores à pátria (com casos exemplares escolhidos para as tv’s), com prisão perpétua, para que toda a dissidência seja severamente punida (o professor vai pelas ruas temendo um espancamento, uma prisão).
Os alunos apercebem-se da tendência democrática do professor e, com medo (de poderem ser associados a qualquer espécie de resistência ao regime), vão-se afastando deste. E fica todo um conjunto de expressões por verbalizar, todo um grito soterrado da aluna do Secundário que viu o irmão, enviado para a frente ucraniana, desertar para ser, de novo, capturado pelos camaradas e, dali a nada, morrer. Como, na atual Rússia, é muito perigoso filmar funerais de soldados mortos, (apenas) o som que escutámos de um destes é o testemunho mais profundo do desespero e da dilaceração (de uma mãe) face a uma guerra sem sentido que acaba com vidas e vidas tão precocemente e enche também de luto centenas de milhares de famílias russas.
Uma das virtudes do documentário é habitar a zona porosa/ambígua em que se dá o apoio da população à guerra na Ucrânia – após todos os media serem inundados de propaganda -, apenas minorias se oporem a esta nas ruas das grandes cidades, mas, e ao mesmo tempo, o fervor dos comícios pró-guerra na Ucrânia, as estradas repletas de carros com bandeiras russas à janela não passar sem o reconhecimento de que…(tendem a considerar seguramente muitos russos) não podia ser de outra forma: “Conhece alguém que esteja contra esta guerra? Não, não conheço. Não conheço. Das minhas relações, não há ninguém. Mas quem se atreveria?” (o professor, Mr. Nobody, a interrogar cidadãs de Karabash na esteira do primeiro comício pós-invasão da Ucrânia, e respectivas respostas).
O autor do documentário, ao jeito de fixação de um diário registado em vídeo, olha para Putin como “um idiota”, que mais valia “que estivesse parado, sem fazer nada” e que apenas visa, com a guerra, defender-se a si e ao seu regime – nada mais. Os professores da escola, na sua maioria, a mãe deste professor (que trabalha na biblioteca), compreendem bem o que se passa, não há uma atitude de adesão, mas de conformismo com o sistema (perpassa-nos o tom do livro “Quanto menos soubermos, melhor dormimos”, de David Satter, com a mentira a ser interiorizada e a funcionar-se com o que se sabe não corresponder à realidade - localidade pequena e com poucos empregos, Karabash...). Um sistema que cria os seus “Pioneiros” e que organiza manifestações com crianças a levarem grandes reproduções de fotos de seus antepassados que morreram em nome da Rússia – “com a pouco subtil mensagem às crianças que também elas um dia, se necessário, deverão morrer” por Putin.
Ver a Rússia por dentro, desde as entranhas, de uma pequena localidade e da sua escola, com mobiliário moderno, embora edifícios já erodidos pelo tempo (as paredes, as escadas...), os complexos habitacionais vindos desde a época soviética, sejam marca da cidade e da escola, o modo como as crianças se vestem, se comportam, escutam, observar os professores que se queixam da baixa das notas agora sobrecarregados com todo o tipo de matérias que nada têm a ver com o que soía – como havemos de preparar as aulas e ter tempo para ministrar os conteúdos previstos, se o nosso papel é de ser propagandistas? – e um final de ano letivo, com uma carta de papel enviada ao futuro, como o filme construído ao longo destes anos de guerra – lá atrás imagens da escola em 2005, em que era possível outra coisa – e que testemunhará a esperança de um justo.
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