1.A esperança
é definida pelo Oxford English Dictionary
como “uma sensação de confiança”; sentimento
de expectativa e desejo - não se aludindo, nesta acepção do vocábulo, à
incerteza. Na dilucidação do que se trata quando nos referimos à esperança,
importará, pois, de imediato, distinguir entre spes quae (esperar que) e
spes qua (ter esperança). É, notoriamente, diferente alguém esperar que lhe saia o euromilhões, do que ter esperança em sair de uma situação
difícil de vida em que se encontre (nos domínios da saúde, profissão ou outra).
Neste
âmbito se poderá entrever/avançar e proceder, pois, com Terry Eagleton (Esperança sem
optimismo, Unesp, São Paulo,
2023), a uma diferenciação entre optimismo
e esperança: o optimismo é fácil,
faltando-lhe o compromisso corajoso que a esperança exige. O optimismo, observa
o filósofo, é autossuficiente – acredito que vai correr tudo bem e ninguém me
convencerá do contrário – e, portanto, resiste a ser refutado; a esperança,
diversamente, necessita de ser falível.
Não é, evidentemente, por alguém acreditar que tudo vai correr bem que isso sucederá – ou há bons motivos para crer na
concretização do prognóstico favorável, ou, então, o mais provável é que, o que
virá, correrá mal. Dito de outro modo, a esperança autêntica tem que estar
sustentada por motivos. E se é irracional esperar o impossível (ser cidadão da
Atenas de Péricles), tal não
acontece com o bastante improvável. Quem tem esperança conta que haja
possibilidades contra toda a probabilidade.
2.A
esperança é um sentimento? Uma experiência? É uma predisposição, sustenta Eagleton. Se fosse apenas um sentimento, não seria uma virtude, como Tomás de Aquino considerava (que era). Ernst Bloch, que escreveu um dos mais conhecidos livros sobre a
esperança, inscreve-se na perspectiva de que aquela necessita, mesmo, de ser
aprendida. A esperança poderá ser praticada e mobilizada em autodisciplina. Em realidade,
questionamo-nos, a esperança depende (exclusivamente) de nós, é uma questão
meramente volitiva (ou estaremos, em dada perspectiva acerca daquela, perante
uma virtude moral infusa)? A
esperança envolverá paciência, confiança, coragem, tenacidade, indulgência, perseverança, resignação
(Eagleton) – o que Lutero chama “coragem espiritual”; é a “fidelidade á fidelidade” (Alan Badiou).
Byung-Chul Han, em
O espírito da esperança (Herder, Barcelona, 2024), uma obra de
recepção antológica de alguns dos mais destacados contributos que, ao longo dos
séculos, se produziram para pensar a esperança (sublinhados que aqui relevamos
também), notará, por sua vez, que o querer não chega à célula germinal da
criação. A esperança encontra-se vinculada ao carácter de receptividade, de pressentimento,
de espera, de aceitação. No entender de Hobbes,
a esperança é um desejo com a convicção de que irá concretizar-se.
Para
Bloch, a esperança é uma emoção e para
Byung Chul-Han a esperança é ímpeto
que tempera a existência e ilumina o mundo (estado
de ânimo, sentimento básico que permanentemente define e tempera a
existência humana).
Nasceu-nos um menino: eis
um novo começo. A esperança é primordial e o motor da acção. A esperança
precede a acção. Na esperança há uma síntese entre vita ativa e vita
contemplativa.
3.Um
dos elementos que a esperança comporta e que mais me toca/seduz/a que adiro,
uma das dimensões em que me faz entrar é, se quisermos dizer com as palavras do
ensaísta, a indiferença relativamente à
sua utilidade (ou resultados): “a esperança leva a que nos esforcemos por algo não porque achemos que é
um empreendimento prometedor e de êxito certo, mas porque é, simplesmente, bom.
Não é o convencimento de que algo sairá bem, mas de que algo tem sentido” (Vaclav Havel).
4.E
haverá relação entre uma ideia de progresso
(histórico) e a esperança? É difícil negar que houve progressão na história da humanidade; algumas coisas, com efeito,
tornaram-se inegavelmente melhores (somos mais ricos, mais livres, mais
educados do que em qualquer outra era; hoje, indignam-nos o racismo, o sexismo
e o abuso infantil). E mesmo a partir dos acontecimentos mais terríveis, e sem
nunca se perder de vista o horror e as vítimas deste, há quem insista no que
neles houve de resistência (ao fluir do mundo): existiram campos de concentração e extermínio, mas
também existiu quem lutasse para lhes pôr fim. Neste contexto, olhada de certo
prisma, a história poderá revelar uma humana resiliência que poderá ser motivo
esperançoso. Neste âmbito, Phillipe
Sands, acerca do nosso tempo, afirmará: “Creio que ainda não sabemos para
onde vamos. É evidente que vivemos um momento difícil: perpetram-se crimes e a
capacidade da lei para os castigar é limitada. Mas não é a primeira vez que nos encontramos nessa situação. O mundo esteve
pior nos anos 30 e logo recuperou. Assim, pois, sou pessimista a curto-prazo, mas optimista a longo prazo” (La Vanguardia, 15-02-2026, p.10).
5.Se
num empreendimento com vista a, de algum modo, poder contribuir-se para o
florescimento do(s) outro(s), ou se na procura de visões políticas/culturais/sociais
(“as visões com que sonhamos despertos
são, definitivamente, sonhos nos quais actuamos. Sonhamos o vindouro, o que,
todavia, ainda não existe”, Chul-Han), plataformas
políticas/de cidadania, ou em um pensamento (outro) que abra, com esperança,
espaço à esperança (em uma vida melhor, ou, pelo menos, em um bem-estar socialmente mais alargado),
tomamos esta, a esperança, como algo de bom – segundo Samuel Johnson a própria
esperança é felicidade e as suas decepções menos terríveis do que a sua
extinção -, ao longo do humano caminhar,
porém, tal posicionamento esteve longe de ser subscrito por todos: os antigos gregos
consideravam a esperança mais uma desgraça
do que uma bênção, um mal que saiu da
caixa de Pandora. A esperança pode
conduzir-nos ao erro, sublinha Platão;
Eurípedes qualifica a esperança como
uma maldição sobre a humanidade. Mais
próximos de nós no tempo, Alexander Pope
tomará a esperança como uma fantasia
terapêutica, Schopenhauer considera
a esperança a origem do mal, perturbando a nossa tranquilidade com falsas
esperanças, Sartre refere-se à
“esperança obscena”; para Camus, a
esperança é como que uma evasão da vida, uma resignação - e ser resignado não é
viver. A esperança contém tanto a dependência
como a incompletude – afirmavam os estóicos. Samuel Johnson evocará,
trazendo à colação um muito particular caso, uma espécie de terceira via na resposta à questão sobre
se a esperança é um bem ou algo de negativo: um segundo casamento é a vitória
da esperança sobre a experiência.
6.Diversamente
dos autores vindos de mencionar, Byung
Chul-Han não vê uma clara descontinuidade, antes um entrelaçamento entre desespero e esperança: a esperança
absoluta nasce face à negatividade do
desespero absoluto.
A
esperança não apenas emergirá, não raro, de uma angústia imensa ou de um (quase)
desespero como terá que conviver com eles. Uma esperança fácil não entra nestes
considerandos: a esperança absoluta é uma esperança desesperançada ou a
esperança do desesperançado (que não raro emerge quando se desmorona o contexto vital, valores e normas pelos
quais nos regemos. Contextos que definem o bom, o belo e o valioso). Elpis,
a deusa da esperança, é filha de Nix, a deusa da noite.
7.Um
tropo muito repetido quando se fala de um olhar esperançoso é o enunciado por Gramsci, quando propõe a combinação de
“pessimismo da razão e optimismo da
vontade”. Ora, será que as duas capacidades, razão e vontade, serão
facilmente cindíveis? Poder-se-á tomar em mãos a tarefa de procurar melhorar
(pelo menos) um pouco as coisas, com uma leitura em tons absolutamente carregados
da realidade? Para Bloch, podemos agir positivamente (mesmo com interpretação
pessimista do que vai à nossa volta), mas não de forma esperançosa, se
pensarmos que a situação é desesperante/desesperada. Wittgenstein vincula, ainda, a esperança à linguagem: já imaginaram
um animal não humano “esperançoso”?
Há,
para Byung Chul-Han, reitere-se uma ideia já aflorada noutro ponto deste
trajecto, uma potência no pensamento (o pensamento é o único que nos abre a
porta do totalmente outro), e em concreto no pensamento filosófico, que permite
supor nele um parceiro da esperança (o que nunca ocorrerá com a IA): “no filósofo, no pensador, pulsa o desejo do outro, está possuído pelo
outro, quer possuir o outro, é um erotómano. O pensar é uma pulsão movida pelo eros. O eros como relação vital com o diferente. A inteligência artificial
ao não ter amigos nem amantes não é capaz de pensar”. Pensar é fazer de idiota, porque é fazer surgir o
que ainda não está nas possibilidades já dadas. É gerar o novo.
Há
quem sustente, diferentemente, que o pensamento
esperançado não se articula em conceitos – Benjamin submete as coisas até um nível onírico profundo para delas
retirar a linguagem secreta da esperança. Só a poesia, em definitivo,
concluirão outros tantos, se abeirará do núcleo da Esperança. Enquanto o poeta
fale, continuará a haver esperança no mundo. A esperança é fermento da escrita;
a poesia é uma linguagem da esperança. Ingebor
Bachman vê na esperança condição de
possibilidade da vida (enquanto há
esperança, há vida).
Se,
no encalço da esperança, poderíamos principiar por nos interrogarmos “esperança
em quê? esperança de quê?”, neste instante deste breve excurso, poderá ser
pertinente perguntar “Quem é o sujeito da esperança?” (esperança em quem? Quem dará corpo à esperança? E com um cepticismo
antropológico sem nuance alguma podemos ter esperança?).
8.
Chul-Han observa que quando uma pessoa
tem esperança, confia em algo que o transcende. Nisso se parece com a fé. Quem
tem esperança é sustentado por algo
diferente.
No
dizer de Gabriel Marcel, o nosso desejo
transcende por completo os objectos a que se atém; só descansa em Deus (como Santo Agostinho confessara), fundamento último e maior da Esperança. A esperança
absoluta é, por sua vez, subsumida ou entrevista nas esperanças particulares: “a
esperança consiste em afirmar que existe no âmago da vida, para além de todos
os detalhes, de todos os inventários e estimativas, um princípio misterioso que
está em convivência comigo”. Bloch objectará que tais considerandos não se
fundam na experiência e mantém-se em zona de absoluta segurança metafísica, o que os torna difíceis de distinguir do
optimismo (faltaria o temor e tremor,
a queixa de Jesus na Cruz ao Pai),
mas a afirmação cristã será sempre a de que não haverá ressurreição sem morte,
Domingo de Páscoa sem sexta-feira santa.
Os Salmos
garantem-nos que a esperança não será
destruída e São Paulo afiança
que aquela não engana. São Tomás de Aquino acrescenta que o
humano não espera por algo que ultrapassa completamente as suas próprias
capacidades.
Na
encíclica Spe Salvi, Bento XVI
regista como, em termos bíblicos, os termos “esperança” e “fé” são
intercambiáveis – do conhecimento de Deus, e de um Deus que ama cada um, que
cada um seja e se saiba amado daí emergiria a Esperança, sendo que a Esperança,
em sentido cristão, é uma esperança comunitária - e como só com a perspectiva
de que o futuro (escatológico) não representa uma queda no vazio o presente se
torna vivível (“não é que conheçam em
detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida não acaba no
vazio. Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna
vivível também o presente”).
Fora
da perspectiva cristã, reconhecerá Bloch, os mortos não têm esperança. Seria
necessário, com efeito, um futuro que pudesse compensar o horror do passado. A
ressurreição não anula, de modo algum, a verdade da crucificação.
Esperança, fé e amor
são aparentados, “três belas irmãs” (Achim
vor Arnim). A esperança é receptiva à graça. A esperança espera mesmo para
lá da morte. A esperança gerará um conhecimento próprio. Conhece o que,
todavia, não é. Amplia o campo de possibilidades. Tenho esperança para poder
entender. O modo de conhecer da esperança é prospectivo. A esperança descortina
o harmónico, onde a razão é surda.
Karl Rahner vê
na esperança um abandono radical do ego, um compromisso com aquilo que está
fora do nosso controlo e da nossa provisão. Na síntese de Byung Chul-Han, a
esperança cristã inspira a nossa imaginação e desperta uma capacidade
inventiva, para romper com o antigo e abrir-nos ao novo. “A esperança cristã sempre teve efeitos revolucionários na história
cultural das sociedades que a albergam” (Jurgen Moltmann). O que, e entre variegadas consequências da índole
mais diversa, significou, para milhões de pessoas, ao longo dos últimos dois
mil anos, quer em âmbitos/gestos de natureza individual/comunitária, quer em
sede de criatividade e programas com repercussão/ressonância institucional e
política, uma alegria, um regaço, um tecto, um mantimento, um trabalho, um
sustento, uma atenção, um cuidado.
Pedro
Miranda
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