E A SELVA AQUI TÃO PERTO
1.Muitas
horas antes de a Administração Trump
experimentar, sequer, balbuciar algum tipo de motivação/justificação para o
ataque ao Irão, já muitos se ufanavam a ilustrar-nos com as suas teses
(particulares) acerca do mesmo (como se não fosse necessária, ou fosse
indiferente, explicação alguma, pela Administração
Trump, acerca do sucedido para sabermos por que o ataque se tinha dado).
Quando, finalmente, Donald Trump, Marco Rubio ou Pete Hegseth se pronunciaram acerca do porquê do ataque ao Irão
fizeram-no de modo tão confuso e contraditório, de forma tão insensata que, em
poucos dias, somavam, já, 4 indicações diferentes (viriam a somar-se outras
seis, entretanto) como o que os impeliu à guerra, o que em ordem cronológica, e
em menos de 7 dias, foram as seguintes: 1)
a necessidade de eliminar o programa nuclear iraniano; 2) neutralizar o programa de mísseis balísticos e a Marinha
iraniana; 3) o Irão iria atacar
primeiro os EUA e era preciso antecipar-se a esse ataque; 4) Israel iria atacar o Irão e o Irão iria responder com ataques a
objectivos norte-americanos (vide, As múltiplas versões dos EUA para irem para
a guerra, ElPaís, 05-03-2026, p.8).
2.Se Trump
afirmara, em Junho último, que a capacidade nuclear iraniana ficara
completamente “obliterada” para os
próximos 10 anos com a intervenção militar levada, então, a cabo, ao longo
de 12 dias e se nenhuma agência de energia atesta que o Irão
tenha a capacidade nuclear alegada (como pretexto de ataque;
diferentemente, a Coreia do Norte,
testando, sistematicamente, misseis de longo alcance para atingir Los Angeles ou Chicago); se a perspectiva de que um ataque do Irão aos EUA estaria
iminente não é corroborada pelos serviços
de inteligência norte-americanos (David
S. Singer, do The New York Times, escreveu: “O presidente americano não foi movido por uma ameaça imediata. Não
havia também uma corrida por uma bomba. O Irão está mais distante da capacidade
de construir uma arma nuclear hoje do que esteve nos últimos anos. Isso graças,
em grande parte, ao sucesso do ataque anterior dos Estados Unidos aos locais de
enriquecimento nuclear iranianos, realizado em junho (…) A própria Agência de Inteligência de Defesa
concluiu no ano passado que levaria uma década até o Irão superar as
dificuldades tecnológicas e de produção para produzir um arsenal significativo
E não havia indícios de um ataque iraniano iminente aos Estados Unidos e seus
aliados ou às suas bases na região.”, vide O Irão foi atacado por estar fraco, não por representar ameaça iminente,
O Estado de São Paulo, 01-03-2026, p.
A18); se o espoletar uma guerra por premonição
ou pressentimento eleva o paroxismo a
níveis delirantes, “o caos” argumentativo da Administração norte-americana foi
ficando cada vez mais carregado – vide
Aron Blake, https://cnnportugal.iol.pt/donald-trump/eua/a-justificacao-para-atacar-o-irao-ja-era-um-caos-agora-acabou-de-ficar-pior/20260304/69a805abd34e28842c815551 -; até porque principiou a tornar-se predominante
a ideia de os EUA teriam sido liderados e levados à guerra pelo PM israelita
(algo que colhe mal junto do eleitorado norte-americano. Na semana que passou
foram publicadas duas sondagens, por CNN
e Washington
Post, respectivamente, sobre a guerra lançada por EUA e Israel ao Irão,
com quase 60% dos norte-americanos inqueridos,
no primeiro dos casos, e 52%, no
segundo, a rejeitarem mais esta guerra. O máximo de apoio que, neste momento,
aquela gera é de 39%, no estudo do Washington Post; segundo o instituto de
pesquisas Marist, para as cadeias públicas de televisão e rádio
norte-americanas, publicada na última sexta-feira, 56% - 86% entre os que se
dizem democratas, 61% entre os que se
denominam independentes; entre os republicanos, 84% subscrevem a guerra,
nesta sondagem - dos norte-americanos opõem-se terminantemente à guerra com o Irão).
Na síntese, acerca da completa falta de consistência da motivação para
desencadear esta guerra, do Professor de Relações
Internacionais e Investigador na Harvard
Kennedy School Oliver Stuenkel “conflitos iniciados sem metas claras
costumam ser mais difíceis de acabar” (A
aposta mais arriscada de Trump, O
Estado de São Paulo, 01-03-2026, A19).
Richard
Haas,
ex-Presidente do Conselho de Relações
Exteriores, um dos autores da distinção entre guerras
de necessidade e guerras de escolha
vê neste confronto com o Irão uma clara “guerra de escolha” de Trump (muito mais à
semelhança da segunda guerra com o Iraque, em 2003, do que da primeira, em 1991,
a qual teve prévia aprovação do Conselho
de Segurança da ONU e terminou mal os objectivos delineados, e não além destes, foram atingidos). No dizer de Stephen
Wertheim, do Fundo Carnegie, em
Washington, “ao lançar uma ofensiva sem
preparar a sociedade americana para um conflito e sem apresentar uma
justificação convincente, o presidente depende de que tudo seja rápido e sem
custos para a sociedade americana. Mas nada garante isso”, apud. Oliver Stuenkel, A aposta
mais arriscada de Trump, O Estado de
São Paulo, 01-03-2026, p.A19). A incerteza é agravada quando lemos no Financial Times que o principal general
do Pentágono teria alertado o presidente (norte-americano) para limitações nos stocks de munições essenciais e para
riscos adicionais decorrentes da ausência de aliados engajados.
3.Embora
neste elenco, sempre em transformação, de motivos oferecidos pela Administração
norte-americana para nova guerra, num mundo em implosão, ficasse latente a
noção de mudança de regime (como que externalizado para o cidadão comum
iraniano, ou para os curdos armados, como proxies,
pelos norte-americanos, apesar da actual barreira de cerca de 200 mil guardas revolucionários pelo meio – uma
parte da qual, pelo menos, teria de ser convencida a opor-se ao regime), já a intenção de democratização (a alcançar à base de
mísseis e bombas…) e respeito pelos direitos
humanos (no Irão), onde, como é consabido, um tenebroso regime tirânico
persiste há décadas não hesitando em atacar a própria população (crianças
incluídas; dezenas de milhares de iranianos mortos às mãos do regime só em Janeiro último), atribuída, por alguns comentadores, a esta intervenção é
absolutamente inverosímil. Depois da instigação do ataque ao Capitólio e da busca de subversão dos
resultados eleitorais das Presidenciais
norte-americanas de 2020, após o diário colocar em causa de media, tribunais, universidades entre
tantos outros elementos da dimensão liberal
da democracia norte-americana pela Administração Trump, bem como a actuação do ICE, ou o corte, em muitos milhões de
dólares, na ajuda humanitária pelos EUA (que segundo as entidades no terreno e
os especialistas redundarão em milhões de vítimas humanas; entre aqueles a quem foi cortada a ajuda financeira, durante o segundo
mandato de Trump, encontram-se, assinale-se, grupos de defesa de direitos
humanos no Irão – vide Amílcar
Correia, A morte do Ayatollhah não
faz a paz e a democracia, Público,
03-03-2026, p.10), o declarado apoio aos partidos de extrema-direita na Europa
(a qual deixa de ser vista como parceira e passa a adversária no documento de Estratégia de Segurança Nacional e isto por contraponto a Rússia e China, vistas como parceiras, como nota Robert Kagan, na Piauí de Março),
tornava as alegações de uma paixão democrática e humanista em Trump para o Irão
– país com a população mais ocidentalizada da região e país com a primeira
democracia parlamentar da Ásia, destruída por Inglaterra e EUA em 1953 (Jorge Almeida Fernandes, Do fim de Khamenei à mudança de regime, Público, 02-03-2026, p.7) uma verdadeira
ofensa à razão e à inteligência, o secretário
[ministro] de Defesa Pete Hegseth não
deixou margem para dúvidas quanto ao que (não) estava em causa quando “afirmou que essa não era uma das chamadas
guerras de mudança de regime e que os
Estados Unidos não vão seguir ‘as regras estúpidas para o uso da força’ ou
entrar em ‘exercícios de construção democrática’” (apud. Joana Ricarte, Condenar os EUA sem apoiar o Irão, Público, 06-03-2026, p.29).
Acresce
que, como logo no dia inicial dos ataques, Gideon
Rachman, diretor-executivo do Finantial
Times e especialista em Política
Internacional (com obra publicada em Portugal sobre relações
internacionais, em especial acerca desta era do “homem-forte”), alertava não existe qualquer precedente histórico de
“mudança de regime” com recurso exclusivo à força pelos ares/bombardeamentos
aéreos; vide, Trump não tem planos
factíveis para o futuro do Irão após ataques à cúpula do país, Folha de São Paulo, 01-03-2026). Colocar
tropas no terreno implicaria, evidentemente e outrossim, maior risco de perdas
humanas norte-americanas (e a mais recente posição de Trump é contrária a tal
possibilidade, embora, mudando tantas vezes de posição o presidente
norte-americano, nada, também neste âmbito, possa ser dado como certo, mesmo
sendo eleitoralmente mais complicado, como é óbvio, justificar mais mortes de
seus compatriotas neste contexto e saibamos do escrutínio de Novembro próximo).
A
impreparação no desencadear desta guerra fez manchetes na imprensa mainstream liberal, como é o caso da
mais recente edição da The Economist (“A war without a
strategy”), e foi detalhada pelo antigo secretário
de estado de assuntos europeus e hoje analista de Geopolítica em alguns periódicos de referência global, Bruno Maçães, nos seguintes termos: “os EUA não têm um “pós”, nem bem preparado,
nem mal preparado. Não têm qualquer “pós”. Numa frase cómica – que seria
bastante cómica se não fosse tão trágica -, Donald Trump, há dois dias,
explicou que tinham uns sucessores preparados, em segunda linha, mas eles também foram assassinados na ofensiva. E
hoje disse que havia uns sucessores em terceira
linha, mas também foram assassinados. A operação parece-me feita para as
televisões, feita para as redes sociais, que vem na sequência da operação na
Venezuela, que é um triunfo espectacular no momento, para uma audiência que
está habituada a espectáculos cinemáticos, mas na Venezuela tudo continua na
mesma, o sistema é igualmente repressivo como era antes de Maduro [nota: desde
o sequestro de Maduro, oito rádios venezuelanas foram silenciadas pelo regime.
Trump referiu-se a Delcy como “a presidente eleita”], e aqui pior ainda. Aqui,
não vai haver uma sucessão dentro do regime. Mais uma vez, caminhamos para o
caos (…) [Estamos perante] uma
guerra descontrolada, que vai acabar muito mal…a não ser que Trump a acabe
amanhã!” (Sic Notícias,
03-03-2026). De resto, o embaixador João
Vale de Almeida – que lançou, recentemente, o interessante “O divórcio das
nações” [D.Quixote, 2025] -, antigo
chefe de gabinete de Durão Barroso
na Comissão Europeia, embaixador da
UE no Reino Unido ao tempo do Brexit,
seria claro ao pronunciar-se quanto ao facto
de ter sido Donald Trump a rasgar um acordo com o Irão que dava sólidas
garantias de monitorização das veleidades nucleares, e do não avanço destas,
pelo regime de Teerão, ainda no seu primeiro mandato, e que a actual expedição
militar nunca teria ocorrido com Joe
Biden (contrariando os que afirmavam uma continuidade para lá das diferentes
administrações norte-americanas, a este nível; vide, SicNotícias,
05-03-2026).
Segundo
o Professor Peyman Jafari, docente
de História e Relações Internacionais
na Universidade William and Mary, os
dois cenários mais prováveis, nesta altura, relativamente ao futuro do Irão são
i) os Guardas da Revolução ganharem mais poder e radicalizarem-se (ainda
mais), buscando-se mais um homem-forte,
autocrata, para criar ordem, ou ii) colapso total e caos (vide Trump
não quer perder, e preferirá destruir todo o Irão a perder, Público, 06-03-2026, pp.26-27). Como a
história está cheia de surpresas e o improvável não é impossível, a emergência
democrática no Irão seria o resultado extraordinário (apesar de) de um “acto de agressão armada, como eu acho,
e acho que acham praticamente todos os
Professores de Direito Internacional,
desde a American Society of International Law a toda a doutrina principal
do Direito Internacional” (José Azeredo Lopes, antigo ministro da
Defesa e Professor de Direito
Internacional, na Universidade
Católica Portuguesa). A noção de um dever
de proteger – que, a meu ver, não devia, efectivamente, ser, pura e
simplesmente, eliminado dos propósitos de uma sã comunidade internacional –
remete para uma dimensão ética, para um compromisso multilateral, para uma
legitimidade, para uma dada intencionalidade que, evidentemente, se encontram
nos antípodas da visão do mundo e da forma de o habitar – a simples e bruta,
selvática lei do mais forte, com a qual se ufanam, reiteradamente – dos que
perpetram esta guerra (que é de guerra que se trata, e não de qualquer espécie
de operação especial, como muitos
legisladores norte-americanos, ao estilo da pior linguagem, já denunciada por Orwell, de tiranos como Putin, procuraram
recobrir a acção para a furtar ao controlo do Congresso).
E nem se diga que outra
hipótese para a democratização
iraniana inexistia, porque, por um lado, o que faltam são evidências históricas
de que com o tipo de ataque lançado se alcança a democracia (bem ao invés, muitos estudiosos da sociedade iraniana
notam, poder, com as operações em curso, reforçar-se o fechamento do regime; registe-se que, de acordo com o
noticiado pelo Washington Post, a Inteligência norte-americana entende que nem
um ataque em larga escala conseguirá a mudança de regime - vide Intel report warns large-scale war
‘unlikely’ to oust Iran’s regime (Washington
Post, em linha, 07-03-2026) e,
por outro, ainda que o conflito bélico pudesse ser alavanca, como sublinhou o
historiador Timothy Snyder, havia
claras/mais razoáveis e respeitadoras da vida humana alternativas de acção: “Mas existem maneiras mais eficazes de combater o sistema político
autoritário e corrupto do Irão. O governo dos EUA poderia lançar uma campanha
paciente de pressão e sanções, juntamente com apoio à oposição e propostas para
ajudar a resolver a crise hídrica do país, um problema ambiental crescente, que
tem contribuído para a agitação social. Mas infelizmente o governo Trump jamais
seria capaz de oferecer uma estratégia tão abrangente e competente. Tudo o que
ele pode oferecer é militarismo, autoritarismo e corrupção.” (O interesse por trás do ataque ao Irão, O Estado de São Paulo, 08-03-2026,
p.A14).
Quanto ao que esteve na base
da decisão da ofensiva militar americana-israelita, regresse-se a este ponto, a
investigadora Joana Ricarte aponta
duas possibilidades efectivas: a motivação doméstica (eleições durante o
presente ano, com a guerra normalmente a unir em torno de um líder, e desviar
de atenções sobre os sucessivos escândalos em que Trump e Netanyahu se
encontram envolvidos; no ABC [01-03-2026],
Juan Manuel de Prada chamou mesmo “Coligação Epstein” às duas forças que
se mobilizaram neste caso) e a geopolítica (controlo de recursos e zonas de influência na região, enfraquecimento dos interesses,
económicos, políticos e estratégicos de rivais naquela região, nomeadamente os
da China; Stuenkel regista que “dos
cinco países com as maiores reservas comprovadas [de petróleo] – Venezuela,
Arábia Saudita, Irã, Canadá e Iraque –, a Arábia Saudita é o único que os EUA
não invadiram, bombardearam ou ameaçaram anexar ao longo das últimas décadas”).
David Singer vê na vontade de Trump eliminar
de vez um confronto de décadas com o Irão o radical
desta acção. Timothy Snyder considera duas hipóteses como as mais
prováveis na origem da decisão de bombardear o Irão: a) destruir a democracia
americana ou b) Trump procurar (mais) enriquecer-se. No segundo destes
âmbitos, o prestigiado historiador observa:
“as
inverosímeis justificações oficiais para a decisão de iniciar outra guerra no
Oriente Médio apontam para a segunda explicação possível: corrupção. Quem se
beneficiaria diretamente com a mudança de regime no Irão? Na medida em que a
política externa esteve envolvida na decisão dos EUA, suspeito que tenha sido a
dos aliados mais próximos do governo Trump na região (…) A política do Oriente
Médio tem sido moldada há muito tempo pela rivalidade entre Irão e Israel, bem
como entre o Irão e os Estados árabes do Golfo, especialmente a Arábia Saudita.
Dado que essa característica estrutural
é muito mais duradoura do que as declarações vacilantes e contraditórias de
Trump, é um ponto de partida melhor para rastrear os objetivos do governo
americano. E esses objetivos parecem ser promover interesses políticos pessoais
– ou melhor, obter ganhos pessoais. (…) As monarquias do Golfo que se opõem ao poder do Irão têm presenteado
Trump e sua família com bons negócios. Os Emirados Árabes investiram em um
empreendimento de criptomoedas da família Trump. A Organização Trump lucrou
consideravelmente em negócios com a Arábia Saudita. E, por vezes, monarcas do
Golfo cortejaram Trump diretamente, como quando os cataris lhe deram um jato de
luxo. A lista é muito longa, e agora o governo dos EUA está a usar a força
militar contra um inimigo comum dos países que enriqueceram Trump e sua
família. Esse contexto deve ser incluído em todas as reportagens sobre a
guerra. A corrupção descarada e assombrosa deste governo levanta a dúvida sobre
as forças armadas dos EUA estarem agora ao serviço de um mercenário” [numa
investigação exaustiva ao primeiro ano do segundo mandato de Trump, a The New Yorker identificou 4 mil milhões
de benefício pessoal ilegítimo por parte do presidente norte-americano].
Por sua vez, o Nobel da Economia Daron Acemoglu nota na guerra desencadeada pelos EUA-Israel ao Irão “uma agenda que busca remover todas as restrições sobre o comportamento futuro de Trump e seus aliados.” (Daron Acemoglu, A guerra de um autocrata contra o Irão e a Anthropic, O Estado de São Paulo, 07-03-2026, A15). Este autor vinca um aspecto para o qual nem sempre se tem chamado a atenção relativamente à morte de um líder com actos de natureza sinistra e odiado por muitos iranianos, mas ainda com peso na sociedade iraniana como será o caso de Khamenei, porventura transformado, mesmo, agora, em mártir: “em razão de seu papel religioso, Khamenei desfrutava de respeito e autoridade entre os muçulmanos xiitas no Irã, onde eles constituem a grande maioria da população, e no exterior. Para muitos, sua morte o transforma em um mártir – a última coisa de que o Irã ou a região precisam”. No mesmo sentido, em ensaio na London Review of Books, Eskandar Sadeghi-Boroujerdi, doutorado por Oxford, Professor em St. Andrews, com livros publicados sobre o Irão: “O assassinato de Khamenei pode ter alterado os cálculos internos. Durante anos, ele foi visto, mesmo por críticos dentro do sistema, como alguém que procurava cautelosamente o equilíbrio entre os centros de poder rivais. A sua morte remove uma figura que, apesar de toda a sua rigidez, por vezes atuava como um freio a impulsos mais ousados – como ampliar a retaliação para incluir os estados do Golfo que fazem parte do arquipélago imperial americano (…) Aqueles que detestam o clero podem, ainda, revoltar-se com o espetáculo de jatos estrangeiros nos céus iranianos e com a declaração explícita de que seu Estado será desmantelado. O ataque externo não apaga as queixas internas, mas pode reorganizá-las. A raiva contra o regime pode ser temporariamente subordinada à raiva contra o agressor. O que em tempos de paz parece uma ruptura irreconciliável pode, sob bombardeamento, assumir a forma de uma frágil solidariedade. A capacidade da República Islâmica de mobilizar pessoas diminuiu em relação ao seu auge revolucionário, mas não desapareceu. Ela permanece hábil em recodificar o conflito em termos civilizacionais e defensivos, usando uma retórica de soberania, martírio e resistência que vem sendo cultivada há décadas e adquire força renovada quando mísseis caem (…) Muitos iranianos, e não poucos sírios, celebraram abertamente sua morte, vendo nela o fim de um legado interno macabro e de uma política regional que ajudou a sustentar a catastrófica guerra civil na Síria. Mas seus seguidores – e não são poucos – o consideravam mais do que uma figura política. Para eles, ele era um marja' al-taqlid ('fonte de emulação'). A sua posição não se comparava à do Grande Aiatolá Sistani no Iraque, mas a sua autoridade estendia-se muito além das fronteiras do Irão, alcançando milhões de fiéis xiitas. A forma como ele morreu pode salvar, ou mesmo elevar, um legado que se tornou profundamente contestado internamente e alvo de ressentimento no exterior (…). Mas na teologia política xiita, o martírio carrega uma força particular. A memória de Karbala e a morte do Imam Hussain não são motivos abstratos, mas parte de uma linguagem política e prática religiosa vivas, nas quais o sofrimento nas mãos de um poder injusto adquire autoridade moral. Ser morto por um inimigo externo não apenas remove um líder; pode transformá-lo. Nenhum chefe de Estado iraniano moderno teve tal fim. Naser al-Din Shah foi assassinado em 1896 por um radical interno. Os últimos monarcas Qajar morreram no exterior, em Paris e San Remo. Os Pahlavi terminaram suas vidas no exílio, em Joanesburgo e Cairo. A morte de Khamenei, por outro lado, será narrada pelos canais oficiais como o sacrifício supremo diante do ataque estrangeiro. Na morte, ele poderá adquirir uma clareza e coerência que lhe faltaram em vida”. Por seu turno, para Ali Vaez, diretor para Irão do International Crisis Group e Professor da Universidade Georgetown (vide O Estado de São Paulo, 08-03-2026), “a república islâmica nunca mais será a mesma sem Khamenei, e um certo grau de transformação do regime já ocorreu. O Aiatolá era tão predominante em todos os aspectos da vida e da política que, sem ele, o país se transformaria naturalmente. Mas certas visões de mundo de Khamenei sobreviveram. Portanto, qualquer outro líder teria dificuldade em se submeter aos EUA. É bem possível que o próximo líder seja mais pragmático, porque Khamenei, depois de 37 anos, tornou-se muito rígido e ideológico (…) E geralmente, nessas circunstâncias, os linha-dura têm mais chances de ascender do que as forças mais moderadas da política iraniana. Portanto, tenho dificuldade em imaginar que um clérigo mais moderado consiga ascender. É mais provável que seja um linha-dura, mas que não daria continuidade ao trabalho de Khamenei. Ele será mais fraco e levará tempo para consolidar o poder. O próximo líder não será supremo e será subordinado à Guarda Revolucionária (…) Se os EUA desmantelarem completamente o Estado iraniano e destruírem sua capacidade de governar, há dois cenários. Um é o surgimento de um ‘Napoleão Bonaparte’ iraniano, um homem forte, que muito provavelmente virá das fileiras da Guarda Revolucionária. O segundo cenário é uma guerra civil e caos. Não vejo quase nenhum cenário em que o filho do xá possa retornar ao Irã e liderar uma transição para um sistema democrático. Ele não tem base, nem capacidade organizacional dentro do Irão (…) Acredito que o risco de guerra civil está enraizado no fato de o Irão ter as mesmas linhas de fratura sectárias que levaram outros países da região ao abismo da guerra civil. A república islâmica tratou muito mal as minorias do Irão. Por isso, há mais raiva contra o regime entre curdos, balúchis, árabes e azerbaijanos do que em qualquer outro segmento da sociedade. E algumas dessas minorias estão armadas, como os curdos e os balúchis. Portanto, existe um risco real de que elas peguem em armas contra o governo e haja uma guerra civil no Irão”.
4.Pelo
mundo, e em particular pela Europa, o aumento
do preço dos combustíveis, o choque
da energia, o aumento da inflação
(porventura, em produtos básicos), a chegada
de novos refugiados, a ameaça
terrorista incrementada, as viagens
mais caras apresentam-se como consequências e desafios a enfrentar em
função de novo conflito bélico – no qual, logo no primeiro dia, se deu um
ataque, a uma escola que tirou a vida a quase 200 pessoas, a maioria delas
crianças, e sendo que, de acordo com a investigação levada a cabo pelo The
New York Times (bem como imagens verificadas pela BBC e no exame da Reuters),
tal resultou, de facto, de um ataque, reiterado (!), norte-americano (houve, entretanto,
e escandalosamente, quem qualificasse como “danos colaterais” a morte destas
crianças…; muitos observadores têm
notado que o ataque em curso ocorre não
porque o regime iraniano tivesse/tenha capacidade nuclear, mas, precisamente,
por não a ter - e na hora de maior enfraquecimento daquele [a politóloga e analista iraniana Nazanin Armanian, condenada à morte pelo
regime de Teerão, e por isso no exílio, considera a intervenção militar em curso não só prejudicial para o povo iraniano
por lhe legar um país destruído, “como sequestra a essência de um movimento
popular democrático e republicano” que num prazo de dois anos considera que
poderia derrubar o regime, vide A
decisão de Israel é restaurar Reza Pahlavi no trono do Irão, Expresso,
06-03-2026, p.11. No mesmo sentido, um dos alertas de Robert A. Pape, da Universidade de Chicago, especialista em
campanhas de bombardeamento: as
agressões externas tendem a aproximar o governo e a sociedade. Mesmo quem
critica ou rejeita seus líderes costuma reagir cerrando fileiras quando o país
é atacado o que, ademais, parece, tristemente, convidar o mundo, como se vê
no exemplo francês, a multiplicar a sua capacidade nuclear com todos os riscos
de destruição, para lá da mútua dissuasão que benignamente se antolha, que
acarreta - a somar aos múltiplos que incendeiam o planeta.
5.E o
que se está a passar nas ruas de Teerão, nestes dias? Faraam Shakarian (O medo pela
repressão amordaça os iranianos: queremos viver depois da guerra, ElPaís, 08-03-2026, pp.10-11) reportando
a partir da capital iraniana traça este retrato: há na cidade escombros que
fazem lembrar Gaza; muitas pessoas fugiram da metrópole e foram para zonas à
partida menos propensas a ataques aéreos, nomeadamente as zonas mais turísticas
do Irão; pelas janelas, há cidadãos que gritam pela monarquia enquanto um grupo
de motociclistas empunham bandeiras islâmicas e gritam que “Khamenei voltará”
(numa referência à sua predilecção pelo filho como sucessor – o que veio a
verificar-se), ilustrando-se, desta forma, a polarização existente na sociedade
iraniana; as autoridades bloquearam a internet; muitos iranianos informam-se
pelos canais por satélite, incluindo canais em língua farsi com sede em Londres
ou nos EUA, por descrédito da televisão do regime. Pese a guerra, crianças
continuam a jogar à bola em complexos residenciais em Teerão; as cadeias de
supermercados controladas pelo Estado, que vendem os produtos a preços mais
baixos, estão cheias; as consultas do dentista continuam completamente
preenchidas e há filas na padaria.
Pablo Morán, chefe internacional da Cadena Ser, viveu na primeira pessoa os bombardeamentos em Teerão e narrou-os da seguinte forma (A fraternidade dos iranianos foi o meu salvo conduto para fugir, ElPaís, 08-03-2026, p.11): um dos alunos do professor que conheceu na sua estadia em Teerão, de 13 anos, foi baleado e morto pelo regime nos protestos de janeiro último, e a filha do docente recupera depois de baleada com bala de borracha. Os jovens, que o jornalista foi, deliberadamente, escutar à universidade, estavam frustrados pela falta de horizontes e achavam que nada tinham a perder em participar nos protestos contra o regime. Logo após os ataques israelo-americanos, “não vi histeria”, Teerão manteve a ordem e esvaziou-se (fora os controlos policiais). Morán conversou com um miúdo, fanático da liga espanhola de futebol, já numa cidade para onde foram imensas famílias para se colocarem ao abrigo das bombas (uma mesquita, perto da casa destes, foi atingida pelos bombardeamentos). Esta família estava muito decepcionada com “uma Europa vassala do Presidente Trump” e valeu ao repórter a posição espanhola para se sentir irmanado com estes (Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro francês, de centro-direita, cujo histórico discurso na ONU rebatendo todos os argumentos que pretendiam justificar a segunda guerra do Iraque [2003] o tornou respeitado em todo o mundo, diria à BMFTV que o PM espanhol, Pedro Sanchez, “salvou a honra da Europa”). Ali Vaez, diretor para Irão do International Crisis Group e Professor da Universidade Georgetown, considera “provável que a situação [na guerra com o Irão] piore antes de melhorar. Não vejo nenhum dos lados disposto a recuar neste momento.”
7. Segundo
o instituto sueco V-Dem (Variedades de democracia), há 88 democracias e 91 ditaduras (fora os
regimes híbridos) no mundo (Sónia Sapage, Democracias 88, ditaduras 91, Público,
04-03-2026, p.6). Um dos raros políticos que vimos, de entre o que se poderá
chamar espaço social-democrata europeu, defender a operação contra o Irão, o ex-PM
Matteo Renzi (vide entrevista a ElPaís, 07-03-2026), questionado pelo
diário de referência espanhol sobre porque atacar o Irão e não a Arábia Saudita
referir-se-ia a Bin Salman como “um reformista” (por oposição a um regime fundamentalista em Teerão). A
fragilidade de escolha dos regimes a derrubar (mesmo que se aceitasse o
pressuposto do derrube), a prioridade no derrube, também passa por aqui: seguramente,
poucos observadores da cena internacional se refeririam a Bin Salman abstraindo
da brutal purga interna e seus métodos, do assassinato, com recurso a
esquartejamento, de um jornalista incómodo como Khashoggi, como “reformista”…Entre
as ditaduras brutais no mundo, a iraniana, opressiva e assassina do seu povo
também (“Muitas pessoas nutrem um ódio
profundo e visceral pelo regime. Anos de má gestão econômica, corrupção,
repressão e oportunidades desperdiçadas corroeram o contrato social. As
convulsões dos últimos anos, incluindo os protestos que se seguiram à morte de
Mahsa Amini em 2022 e o horrível massacre de milhares de manifestantes em
janeiro, revelaram divisões geracionais, de classe e ideológicas que podem se
mostrar intransponíveis”, Eskandar Sadeghi-Boroujerdi): “Mas nada disso justifica abrir uma nova
guerra no Oriente Médio sem o apoio de aliados internacionais e nenhum tipo de
apoio interno. Os EUA ainda são considerados uma democracia em que a opinião
pública deveria, em princípio, importar, mas com Trump arriscando uma
carnificina em toda a região, a fachada de democracia parece cada vez mais
frágil” (Acemoglu). Se vários estudiosos desta problemática destacam como o
direito internacional seria/será o último
reduto contra a lei da selva e
especialmente relevante para potências médias e pequenas – como Portugal -,
mesmo o ideal de um acrescido dever/responsabilidade de proteger não pode
ser assacado a quem não tem semelhante intenção (como expressamente o assume,
desde logo), não possui qualquer história e presente de um mínimo ético (todo o
contrário), se encontrava em negociações com o país atacado no momento do
ataque (e, segundo os mediadores, aquelas encontravam-se bem-encaminhadas), não
envolve um consenso razoável internacional, não esgota as alternativas de uma
mudança de regime pelo não uso das bombas e de fazer muitas vítimas inocentes
(a começar pelas meninas da escola primária de Minab, Shajareh Tayyebeh,
na manhã de sábado, no início das aulas. A maioria destas tinha entre sete e
doze anos) e o ataque não se oferece como recurso necessário e suficiente para a democratização, liberdade e direitos humanos para os iranianos. É por isso também, com tudo o que fica dito, que esta guerra é não só ilegal como ilegítima: “Antes desta guerra, o regime dos aiatolás
estava mais fraco do que em qualquer outro momento de seus 47 anos de história
– e poderia ter caído sem nenhuma bomba americana explodir” (The Economist, Trump precisa de parar antes que a guerra se torne um caos, in O Estado de São Paulo, 08-03-2026, p.A16).
Muitos
apontam, ainda, as promessas eleitorais de Trump contra o intervencionismo no
estrangeiro, a rejeição perentória de realização de guerras para mudança
de regime e construção de nações,
a participação em “guerras eternas” (por referência ao passado recente no
Afeganistão e no Iraque). Na chamada “base MAGA”, e em alguns dos seus mais
conhecidos representantes, a crítica à guerra contra o Irão tem sido
contundente (Tucker Carlson, Megyn Kelly, Nick Fuentes, Marjorie
Taylor Greene têm sido dos mais vocais, neste âmbito; todavia, as sondagens
mostram um apoio dos republicanos muito claro a mais esta expedição trumpiana):
“é uma política destrutiva e fracassada
que Trump jurou abandonar para sempre. Assim como suas promessas mentirosas de
restaurar a dignidade da classe trabalhadora americana, a promessa foi
descartada assim que ele assumiu o cargo” (
Por estes dias, a máxima de Churchill tem sido, bastas vezes, evocada - “O estadista que cede à febre de guerra deve perceber que, uma vez dado o sinal, ele não é mais o mestre da política, mas escravo de eventos imprevisíveis e incontroláveis” - e a notícia de que o Comando Central dos EUA pediu ao Pentágono o envio de mais oficiais de inteligência militar para a sua sede em Tampa, na Florida, durante, pelo menos, 100 dias, ou, “provavelmente” até Setembro só reforça a sua pertinência.
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