A CIVILIZAÇÃO DO PEIXE-VERMELHO (BRUNO PATINO)

 

«A civilização do peixe-vermelho»?[1]

1.Eis o peixe-vermelho a deambular pelo aquário (que o atrofia). Nas inúmeras voltas que dá, por entre um sorriso deslumbrado da criança que o observa, pela primeira vez, prenda natalícia, no seu exterior, o peixe-vermelho não consegue fixar a atenção durante mais do que 8 segundos (o exato resultado, segundo o cálculo dos engenheiros da Google).

2.E, contudo, o peixe-vermelho não se distingue demasiado desse outro olhar que o fixa: são 9 os segundos de atenção que os membros da geração Y, aquela que nasceu com a conexão permanente e um ecrã táctil sob os dedos, alcançam. Se, com irónica crueldade, e na metáfora que já se antevê, Bruno Patino poderá dizer que “a memória do peixe-vermelho, longe de ser uma maldição, é, para ele, uma bênção, que transforma a repetição em novidade e a pequenez de uma prisão no infinito de um mundo” (pp.12-13), o humano assim formatado também no oceano do scroll das redes sociais será, agora literalmente, aquele que “é distraído da distracção pela distracção” (T.S. Eliot).

3.A experiência de Skinner com os roedores foi o ponto de partida: verificou-se que lá onde o ratinho acionasse o botão, e depois de, numa primeira fase, sempre lhe surgir uma (mesma) ração, umas vezes seguir-se-ia uma enorme quantidade de comida, noutras, nada caía pelo tubo de suprimento; em certas ocasiões, a dose era mínima. O ratinho premia sempre o botão, movido pela possibilidade de recompensa, ainda que não compreendesse o mecanismo, e mesmo que estivesse saciado. O alimento tornara-se secundário, “o condicionamento dera origem à sua servidão” (p.25).
A dependência das redes sociais não foi um efeito casual e imprevisto, induzido, sem consciência, pelos gigantes tecnológicos: é, antes, o resultado programado, estudado, previsto e desejado, cientificamente testado, dos que procuram captar mentes e vencer o campeonato da economia da atenção.

4.O inventor do IPad proibiu a entrada de tal objecto no seu domicílio. Sean Parker, antigo quadro dirigente do Facebook, declarou publicamente: «Só Deus sabe o que andamos a fazer com o cérebro dos nossos filhos». Tristan Harris, antigo designer responsável por questões de ética na Google declarou à revista 1843, editada pela The Economist: «O verdadeiro objetivo dos gigantes tecnológicos é tornar as pessoas dependentes, por meio da exploração da sua vulnerabilidade psicológica» (pp.39-43). Com efeito, a cada minuto que passa há: 480 mil novos tweets; 2,4 milhões de snaps publicados no Snapchat; 973 mil novas pessoas aderem ao Facebook. São enviadas 38 milhões de mensagens, 18 milhões de SMS; 1,1 milhão de swipes no Tinder (movimento lateral do indicador que visa passar para outro perfil nesta aplicação de encontros), 4,3 milhões de vídeos reproduzidos no Youtube, 187 milhões de e-mails (p.23). E “os utilizadores são impacientes: 30 por cento deles não esperam pelo quarto segundo de um vídeo no Facebook, abandonando-o, já solicitados por outros alertas, outras ligações, outras notificações push. (...) O Deezer ou o Spotify mudaram a natureza da indústria: antes era preciso vender discos; agora é preciso dar a ouvir as canções, pelo menos durante 11 segundos. Isto porque a remuneração tem início nesse momento. (…) [A] Netflix (...) encoraja uma escrita que prevê, a partir do quarto episódio, reviravoltas suficientes para que deixemos de poder abandonar a série, sob pena de distorcer o guião e perder subtileza e verosimilhança. (...) O cinema do género blockbuster destinado aos adolescentes passou a oferecer planos ultrabreves que apostam mais na impressão do que no olhar”(p.64).

5.O dia tem agora mais do que 24 horas, porque o tempo morto das viagens em transporte público (ou até privado), ou o tempo importante dos deveres académicos ou profissionais foi partilhado com as redes (nunca o multitasking, durante tempos reclamado, com humor refinado, pelas senhoras, como capacidade exclusiva sua, foi tão partilhado; um tempo para cada coisa, como dizia o Eclesiastes, deixou de existir) – sendo que da utopia de estas, as redes sociais, serem as novas ágoras, de onde uma inteligência colectiva (de tipo universal) brotaria, excelsamente argumentada, resultou uma arena, onde o grito, o exacerbamento, a adjetivação carregada contam mais (para captar a tão famosa atenção). “O tempo que nos foi roubado é o tempo da carência e, portanto, do desejo. O tempo do amor, do Outro e do absoluto” (p.66), ousa dizer Bruno Patino, olhando o fundo do poço.


6.Mas faz mais, deixa o diagnóstico, promete batalha e cura, a derrota não é inevitável. Ideias: se os casinos limitam a entrada de utilizadores demasiado frágeis e estabelecem uma idade mínima, também é possível rejeitar a ideia de auto-regulação dos gigantes tecnológicos em função do bem social. A negociação, nos níveis nacional, europeu e mundial é possível. Até porque a dependência, as depressões e a fadiga resultantes das redes são prejudiciais às próprias plataformas. Limitar a captação da atenção pelo brain hacking dos algoritmos e do grafismo equivale a trocar uma queda da rentabilidade imediata pelo fomento da perenidade de tais plataformas (p.109). A separação do que é do foro da publicidade, face ao que é rigorosamente informação impõe-se como nos media clássicos. Abandonar a lógica da irresponsabilidade editorial dos fornecedores de alojamento.
Se a BBC foi criada, no início do século XX, para se evitar o domínio dos interesses privados e do mercado publicitário, bem se compreendem os projectos de uma Contra-Internet como o fundador desta, Tim Berners-Lee, já lançou (isto é, uma rede descentralizada, baseada em trabalho colaborativo, mobilização deliberativa, economia da partilha) ou como se sustenta no Media Lab do MIT, outras iniciativas como encorajar a produção de algoritmos de descoberta e de emancipação são necessários. Serviços públicos de comunicação, com vocação universal, sem estarem dependentes da publicidade, podem empoderar estas plataformas, constituindo uma contra-oferta: algoritmos que ofereçam a abertura a outras opiniões, a outros campos culturais, a outro tipo de histórias. E ferramentas de controlo do tempo passado nas ofertas pelos mais novos (e pelos mais velhos), alertas em caso de consumo excessivo, desenvolver interfaces que sosseguem mais do que solicitem, limitar os alertas, baixar o som…Em suma: “tratar-se-á de ter acesso, já não à conexão, mas à desconexão; acesso, não à música, mas ao silêncio; não ao diálogo, mas à meditação; não à informação imediata, mas à reflexão aturada. Os seminários de desintoxicação tecnológica multiplicam-se. (…) Paul Valery anunciava um futuro em que, para se ser livre, seria necessário construir claustros isolados onde as ondas não entrassem, para ali se ignorarem os efeitos de massas, de novidade e de credulidade. A profecia do escritor tornou-se uma necessidade civilizacional. O estabelecimento de zonas não conectadas, à imagem das zonas para os não-fumadores, é uma questão de saúde pública. As escolas, espaços de saber, de oração, de debates, de reuniões: receber, celebrar e transmitir, para retomar a célebre trilogia de Emmanuel Levinas, tudo isto se faz eliminando a dependência digital. O que compreenderam perfeitamente os empreendedores de Sillicon Valley, que põem os filhos em estabelecimentos tech free, isto é, sem tecnologia. (…) A Universidade de Stanford, que deu à luz o digital, as plataformas e a sociedade conectada, passou a impor a ausência de telemóveis nas aulas e, cada vez mais, a ausência de computadores” (pp.112-113).

Não sei se listagens destas se aproximam daquelas, outras, bem-intencionadas declarações de dietas, prometidas a cada início de ano, enquanto se degusta o último bolo-rei; o que é certo é que, mesmo sem miríficos saltos quânticos, as estatísticas dizem que bebemos hoje bastante menos bebidas açucaradas do que ainda há pouco. O que faz bem à saúde – e esta tem que considerar-se sempre na lógica uni-dual que nos atravessa: precisamos de estar bem física e mental/psicológica/espiritualmente.

Bem-vindos ao admirável mundo de 2020, quem sabe o ano zero de uma pequenina redução do açúcar tecnológico.

Boa semana.

Pedro Miranda

(crónica apresentada na rádio universidadefm)



[1] Cf. Bruno Patino, A civilização do peixe-vermelho, Gradiva, Lisboa, 2019. Bruno Patino é diretor editorial da Arte France e diretor da Escola de Jornalismo do Instituto de Estudos Políticos de Paris. Especialista em questões digitais, publicou, com Jean-François Fogel, Un presse sans Gutenberg. É cronista da Rolling Stone.


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