FILMES DE CULTO: "OS PÁSSAROS", DE HITCHCOCK
A ORIGEM DO MAL
O que leva Os Pássaros, de Hitchcock, a atacarem?
Inquieto-me no sofá com a singularidade de um ataque sem motivação aparente, sem justificação alguma, a irromper através das ditas aves, dos desenhos ou transparências arquitectados pelo mestre-realizador e que tornam a sala num lugar de medo. Sombrio.
Pergunto, depois, a quem viu o filme, o que me escapara, afinal. Esclareçam-me lá: qual a origem do mal? Não, não me digam que a culpa é de Melanie, explicação aventada, sugestão frágil, a meio do filme, com claro intuito de bode expiatório. Não satisfazia.
E ninguém me soube explicar. Ou porque já não se lembravam da película, ou porque era assim e pronto, ou porque ficaram como eu...
Estava nesta angústia da incerteza, do indecifrável, quando me fizeram chegar in Alfred Hitchcock´s, uma obra editada pela Cinemateca, em finais de 1999.
Percebi, então, que a minha abordagem à questão que subjazia, como pano de fundo, a este filme – a origem do mal, a questão da culpa – estava inquinada por uma formatação, por uma forma mentis, por um preconceito, se quisermos, que me levava a olhar para o mal e a exigir-lhe justificação. Que me apresentasse a sua causa.
Pois bem, que aconteceria se não houvesse ninguém que se pudesse culpar? Se o mal acontecesse sem poder ser pessoalizado? Se não houvesse explicação para esse mal? Se o causador do mal não fosse ninguém?
Retomo a questão com que iniciei esta reflexão – porque atacam os pássaros? – e descubro, pois, que não há resposta. É o mal no seu estado absoluto, o mal sem causa, o mal sem culpado. Terrível é o nosso encontro com esse mal, terrível é a descoberta que toda a culpa é desculpa nossa.(...) Diz-se que a física moderna pôs em questão o conceito de causa, como algo de indeterminado e indefenível. Esse conceito tem o seu equivalente, no terreno ético, no conceito de culpa. Em Os Pássaros , Hitch chegou ao ponto de pôr igualmente em questão esse conceito, interrogando-se não sobre a sua aplicabilidade (o seu poder explicativo) mas sobre a sua origem. Fundamentalmente, é um filme sobre o mistério do mal, ultrapassando a instância ética (as noções de justiça, de bem e de mal) para nos deixar sem conceitos, no reino do indizível e do inominável.
Atormentado com igual indagação estava já, no sec.IV, Santo Agostinho. Ao longo das suas Confissões, aquele que foi “o maior santo entre os doutores e o maior Doutor entre os Santos” (na conhecida expressão de Vieira), ocupa-se, não raramente, com a problemática da origem do mal. Desde logo, oferece uma pista quanto à conclusão a que virá a chegar: é a aparência de bem (que há no mal), a atracção psicológica que este exerce, que leva o Homem ao mal. Coloca a hipótese de ser Deus o autor do mal, para logo refutar tal ideia, já que Deus fez todas as coisas boas. Daí que avance para o passo seguinte, em relação ao mal: Qual é a sua raíz e a sua semente? Porventura não existe nenhuma?
Está lançado o mote para a meta a que chega Agostinho: Em absoluto, o mal não existe. Na realidade, todas as coisas que se corrompem são boas. A corrupção, o mal, é, pois, a privação de algum bem. Se em vez de algum fossem privadas de todo o bem, as coisas, pura e simplesmente, deixariam de existir. Resulta daqui que todo o mal é ausência de algum bem; só o bem existe, todas as coisas são boas, mesmo as que se corrompem; o significado de que o mal, em absoluto, não existe é, assim, que ele não tem raíz ou semente: o mal (radical) não existe. Dito doutro modo, o mal não é substância alguma.
Inevitável aqui fixar Hannah Arendt, uma das grandes pensadoras políticas do sec.XX, autora de reflexões sobre o estertor nazi que se afigu(ra)ram fundamentais. Se em as Origens do Totalitarismo, Arendt concebera um mal radical como capaz de explicar um sistema em que todos os homens se tornaram igualmente supérfluos, e no qual os manipuladores deste sistema acreditam na sua própria superfluidade, já em Eichmann em Jerusalém – uma reportagem sobre a banalidade do mal, uma obra que resulta do acompanhamento de algumas sessões do julgamento de um dos elementos da máquina nazi (Adolf Eichmann), em Israel, a autora parece fazer uma inflexão no seu pensamento, para (como disse numa carta a Gershom Scholem, citada na edição da Tenacitas, de Eichmann em Jerusalém), a opinião de que o mal nunca é radical, ele é apenas extremo e não possui profundidade, nem qualquer dimensão demoníaca (...)Ele desafia o pensamento, porque o pensamento tenta alcançar a profundidade, ir à raiz das coisas, e no momento em que se ocupa do mal sai frustrado porque nada encontra. Nisto consiste a sua banalidade. Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical.
Nada mais próximo de Agostinho, como se percebe, apesar da expressão banalidade do mal ter sido cunhada por Arendt dezasseis séculos depois do santo de Tagaste e com ela ter procurado explicar o porquê de muitos (indivíduos) inseridos na sociedade totalitária terem perdido a sua capacidade de pensar e julgar aquilo que é mau de acordo com as suas consciências (e de Eichmann, como os relatos que Arendt nos dará, ser um exemplo paradigmático, a esse propósito).
Parece residir aqui, de facto, um dos maiores perigos da ausência de radicalidade do mal: na paralisia de reflexão e julgamento que parece poder causar. Em todo o caso, não deixamos de ficar com um sinal de esperança, visitando a obra de Hannah Arendt: acontece que em condições de terror a maior parte das pessoas sujeitar-se-á, mas algumas não o farão, tal como a lição dos países aos quais a Solução Final foi proposta é a de que pode acontecer em quase todos os lugares, mas não acontecerá em todos. Humanamente falando, nada mais é exigido, e nada mais pode ser razoavelmente pedido, para que este planeta permaneça um lugar adequado para a habitação humana.
A pouco tempo de Hollywood escolher os melhores filmes do ano, dou por mim a escolher Os Pássaros (1963), como o melhor filme que vi em 2005. Um filme que questiona, que angustia, que nos causa uma espécie de comichão e espantamento, e nos faz partir em busca de respostas (e sobretudo, felizmente, mais perguntas, mais dúvidas) e nos leva por caminhos percorridos por gigantes como Agostinho ou Arendt (com quem podemos, deste modo, procurar aprender mais um pouco) só pode ser um grande filme.
Como derradeira, mas prosaica questão deste artigo, que de imediato partilho com o leitor, fica-me a interrogação acerca do sentido que terá o título que o precede (ou integra), após a exposição que se lhe seguiu. Num tempo de interactividade, em que o sms, o e-mail e a chamada de valor acrescentado tudo decidem, o leitor escolherá.
(publicado no jornal "Lamego Hoje")
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