O CRISTIANISMO E O OCIDENTE (DAVID BENTLEY-HART)

 

O cristianismo e o Ocidente. David Bentley Hart

Para o filósofo norte-americano, teólogo ortodoxo oriental, David Bentley-Hart, de todas as transições que a civilização ocidental atravessou ao longo da sua história só uma, em rigor, pode ser apelidada de “revolução”: o triunfo do cristianismo. Em uma época sem memória, procuremos situar, par e passo, o que mudou, com a emergência cristã, na visão que a humanidade tinha da realidade e as consequências práticas de tal adquirido, nas vidas individuais e coletivas, nos últimos dois mil anos.

Um dos modos possíveis de atestarmos o contributo que o cristianismo ofereceu à civilização ocidental – e podemos definir civilização como “sociedade complexa assinalada pelo desenvolvimento urbano; a estratificação social, que tem no seu topo uma elite cultural; sistemas simbólicos de comunicação; uma divisão e domínio patentes sobre as circunstâncias naturais envolventes” - passa por comparar a sua emergência e as realizações que inspirou com a sociedade (romana pagã) que o precedeu. Nas palavras de David-Bentley Hart, “Templeton Felow” no Instituto de Estudos Avançados de Notre Dame, Professor em diferentes universidades norte-americanas, tradutor do “Novo Testamento” para inglês (publicado pela Yale University Press, 2017; tradução com “imensa verve, nervo, talento”, nas palavras do Professor Frederico Lourenço), “entre todas as muitas grandes transições que assinalaram a evolução da civilização ocidental, quer tenham sido convulsivas ou espirituais, houve apenas uma - o triunfo do Cristianismo - que pode ser apelidada no seu sentido mais pleno como uma «revolução»: uma revisão de amplitude verdadeiramente grande, e que se prolongou no tempo, da visão prevalecente que a humanidade tinha da realidadede tal modo difusa na sua influência e vasta nas suas consequências a ponto de ter de facto dado origem a uma nova concepção do mundo, da história, da natureza humana, do tempo e do bem moral” (“Ilusões dos ateus. A Revolução Cristã e os seus adversários da moda”, Frente e Verso, 2016, pp.9-10; esta obra mereceu, igualmente, a chancela da Yale University e foi distinguida com o Prémio Michael Ramsey, em Teologia). Indiquemos e enumeremos, pois, de que alterações ou contributos, de enorme magnitude, aqui falamos: i) a libertação que o cristianismo ofereceu em relação ao fatalismo: face a uma concepção trágica da existência, o humano sujeito, sem se poder opor ou modificar, às disposições de elementos ocultos que o comandariam, bem como ao universo em que se situa, o cristianismo vem (re)afirmar a liberdade acometida ao humano, a perspectiva de um livre-arbítrio que pode e deve transformar o mundo, em especial no compromisso com os menos afortunados (“o conceito de liberdade, assumido como óbvio pela maior parte de nós e que é provavelmente a «ideia» central da modernidade, tem uma história (…) [no caso do aporte cristão, mesmo quando não em exclusivo] somos livres quando alcançamos o fim para que se orienta a nossa natureza mais íntima (…) Tornamo-nos livres (…) de um modo semelhante a como o escultor «liberta» a forma do mármore (…). Isto significa que somos livres não apenas por podermos escolher, mas somente quando tivermos escolhido bem (…) quanto mais nos libertamos da ilusão e dos caprichos, tanto mais perfeita se torna a visão e, na realidade, menos há para escolher. Vemos e agimos num único movimento unificado da nossa natureza em direcção a Deus”, pp.46-47); ii) o cristianismo confere, pois, uma enorme dignidade (valor) à pessoa, considerando-a, mesmo que com iniludíveis condicionamentos, essencialmente capaz de um acto livre. Logo, responsável e, reitera-se, digno. O humano não é, pois, nesta visão do mundo (e modo de o habitar), uma marioneta nas mãos de deuses e a vida não se assinala como uma farsa; iv) A ciência, por sua vez, emerge, também, em contexto cristão: “o que queremos hoje dizer com o termo ciência - os seus métodos, os seus princípios reguladores e orientadores, o seu desejo de unir teoria e descoberta empírica, a sua confiança num conjunto unificado de leis físicas, e assim por diante - só veio à luz, por algum motivo, e mal ou bem, dentro do Cristianismo e às mãos de crentes cristãos. (...). Para que não o esqueçamos, o nascimento da física e da cosmologia modernas foi obra de Galileu, Kepler e Newton, que romperam não com a prisão constrangedora da fé (os três eram todos cristãos com uma variável adesão da fé), mas sim com o tremendo fardo da autoridade milenar da ciência aristotélica. A revolução científica dos séculos XVI e XVII não foi uma restauração da ciência helenística, mas a sua derrota definitiva”, pp.98 e 106); v)  ao desespero cósmico – para o cristianismo, a humanidade, e cada um dos seus membros em concreto, não é “uma trágica procissão que vai do nada ao nada” (na expressão hodierna de Unamuno), mas (é) criação (criatura), e criação por amor (não um produto do acaso) que caminha para uma plenitude e um encontro definitivo - o “face a face” com Deus; neste entendimento, a noção de que não vimos do nada e, com a ressurreição de Cristo e a sua junção a todas as vítimas anónimas e inocentes da História na cruz, também sabemos que não cairemos no nada, pelo que o desespero não deve ocorrer (justiça final); encontramo-nos como que “ao colo”, a vida tem sentido (mesmo nos momentos de maior absurdo) porque estamos e nos concluiremos em Deus; vi) a imensa dignidade que conferiu à pessoa humana (na formulação genesíaca do humano criado à imagem e semelhança de Deus; não já o respeito, apenas, pela espécie humana, mas agora, por influência cristã, por cada humano, cada pessoa em concreto na sua estrutura de papéis, dignidade divisada, em especial, nos debates da semelhança do humano com Deus e na sua figuração no juízo final, contributo essencial e imprescindível, como sublinhou Jurgen Habermas (cf. J.Habermas, “Um ensaio sobre a constituição da Europa, Almedina, 2012, pp.27 e ss.: “a Antiguidade já havia estabelecido uma estreita relação entre dignitas e persona, porém, a pessoal individual, na sua estrutura de papéis, só emerge nos debates medievais sobre a semelhança do ser humano com Deus. Cada um aparece como pessoa insubstituível e inconfundível no Juízo Final”.); e desta constatação/qualificação (mesmo e quando com formulação secular(izada)), a pedra basilar dos nossos ordenamentos jurídicos e seus precipitados: proibição da pena de morte; proibição de tortura; direito a prestações sociais que evitem o colocar em causa a humana dignidade, etc.); vii) a sua subversão dos aspectos mais cruéis da sociedade pagã e viii) a sua desmistificação do poder político (se só Deus é Santo, este diferencia-se de quaisquer ídolos que queiramos fazer, ou em que alguém pretenda arrogar-se e obrigar-nos a aceitar; os imperadores de todos os tempos vêem-se, assim, desalojados de um estatuto que o cristianismo reserva, em exclusivo, para Deus); ix) a sua capacidade de criar uma comunidade moral onde nunca antes tinha existido nenhuma (como explica uma das grandes especialistas na sociedade romana, Mary Beard, em SPQR (Bertrand, 2016), na religião romana não há algo como "um sistema de crenças", nem, tão pouco, um livro sagrado. Há um conjunto de rituais a observar para agradar aos deuses, e, em algo correndo mal, das sementeiras às colheitas, é na forma, na correcta observação (formalista) do rito, que se coloca a questão. A religião não está ligada, pois, na Roma pagã, a uma dada moralidade pessoal, nem a uma salvação pessoal)e, ainda, x) a elevação, pelo cristianismo, da caridade prática sobre todas as outras virtudes. Regressando a Bentley Hart, no seu A revolução cristã e os seus adversários da moda: “O culto pagão nunca foi mais tolerante do que na sua tolerância - sem quaisquer rebates de consciência - da pobreza, da doença, fome e falta de abrigo; dos espectáculos de gladiadores, crucificações, exposição de nascituros indesejados, ou da execução  pública de prisioneiros de guerra ou criminosos em ocasiões festivas; na realidade, de quase todas as formas imagináveis de tirania, injustiça, depravação ou crueldade (…) Os antigos deuses não inspiraram - e, por sua natureza, não o podiam fazer - a construção de hospitais e abrigos, nem fizeram do dar de comer aos famintos e dar de vestir aos nus um caminho de iluminação espiritual, nem promoveram um qualquer conceito coerente de dignidade intrínseca a cada ser humano; eles nunca poderiam ter ensinado os seus seguidores a pensar na caridade como a mais elevada das virtudes nem como uma forma de união com o divino” (p.177-181). Evidentemente, ao longo dos últimos dois milénios esta revolução não fez com que a Terra, nem sequer o Ocidente, fosse transformada no paraíso – “a liberdade é, também, liberdade para o mal” (Bento XVI, Spe Salvi). E, por certo, uma imensidão de maus testemunhos, mesmo entre os que vêem no Cristianismo uma tradição extraordinária, foram dados. Mas ignorar a fonte da qual emanaram e se ergueram muitas das vozes, dos gestos, dos quotidianos, da cultura e conformação institucional que defenderam, por antonomásia, o humano é suprimir um legado que cremos essencial para um futuro fundado em alicerces que provaram: “sendo nós pessoas modernas de inclinação secularista - observa com grande acuidade Bentley Hart -, que acreditam que as raízes da sua solicitude pela igualdade humana não chegam a um nível mais profundo do terreno da história do que a assim chamada Idade do Iluminismo, tendemos com frequência a imaginar que os nossos valores nada mais são do que impulsos racionais de qualquer consciência sã livre de preconceitos. Mas isso é absurdo. Não existe algo como uma moralidade «iluminada», se por tal se quiser dizer uma ética escrita no tecido da nossa natureza, que qualquer pessoa pode descobrir simplesmente pela luz da razão desinteressada. Há, antes, tradições morais, modeladas por eventos, ideias, inspirações e experiências; e nenhuma moralidade está privada das contingências de histórias culturais particulares. Seja o que for que julguemos querer dizer por «igualdade» humana, só somos capazes de presumir o peso moral de uma tal noção porque, a um nível muito mais profundo dos estratos históricos da nossa comum consciência ocidental, retemos a memória de um momento inesperado de despertar espiritual, uma resposta encantada e maravilhada a um único evento histórico: a proclamação da Páscoa” (p.181). Concretizando, ainda, e quanto ao respaldo último, fundamento radical dos direitos humanos, justiça económica e social: “a modernidade não é simplesmente uma condição «pós-religiosa»; é o estado de uma sociedade que foi especificamente cristã e que «perdeu a fé». Os pressupostos éticos intrínsecos à modernidade, por exemplo, são fragmentos mitigados e ecos inquietantes da teologia moral cristã. Até mesmo os mais ardentes laicistas de entre nós habitualmente se mantêm fiéis a noções como os direitos humanos, justiça económica e social, providência para os indigentes, equidade legal ou dignidade humana básica que a cultura pré-cristã ocidental teria considerado não tanto como estultas, mas como ininteligíveis. É simplesmente um facto que nós, filhos distantes dos pagãos, não seríamos capazes de acreditar em nenhuma destas coisas - elas nunca nos teriam ocorrido - se algum dia os nossos antepassados não tivessem acreditado que Deus é amor, que a caridade é o fundamento de todas as virtudes, que todos nós somos iguais aos olhos de Deus, que deixar de alimentar os famintos ou de cuidar dos que sofrem é pecar contra Cristo e que Cristo entregou a sua vida pelos mais pequenos dos seus irmãos.” (p.56). Ou, como um muito qualificado defensor do liberalismo político, Jurgen Habermas, (se) questiona (não sem deixar perceber inquietude bastante): “Maria Herrera Lima realiza, com razão, a constatação empírica de que os cidadãos religiosos não se comportam de maneira diferente daquela parte da população que é não religiosa. No entanto, a questão que me interessa não se encontra no nível das acções e dos argumentos do indivíduo. Ao nível dos recursos culturais, expressa-se a auto-compreensão normativa da modernidade sobretudo na orientação para a verdade que possui a ciência, no universalismo igualitário do direito e da moral, assim como na autonomia da arte e da crítica. A minha pergunta, na actualidade, é a seguinte: é suficiente o potencial desta grandiosa e, tal como espero, inalienável cultura ilustrada, para gerar, nas condições das sociedades complexas, os argumentos necessários em situações de crise para uma acção solidária socialmente?” (Jurgen Habermas, “Mundo de la vida, política y religión”, Trotta, 2015, p.117).

A razão é sempre culturalmente enxertada e o Natal pode ser ensejo para aprofundarmos de onde vêm, afinal, as nossas mais fundas convicções erguidas na cidade.

Pedro Miranda

(publicado no jornal I)

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