ECONOMIA DE CORPO INTEIRO
Economia de corpo inteiro
1.Quando a vida é agarrada pelos
colarinhos, sem enfeites ou delusões, o ofício colado à pele, responsabilidade
assumida de caminhar em conjunto, contributo/compromisso integral com o corpo
social em que se inscreve uma inteira experiência, a Economia perde os
salamaleques da gravata distanciada, para ganhar vida nos lugares, suas falas e
costumes, odores e gracejos, seus hábitos peculiares, uma idiossincrasia,
rostos concretos, fenómenos únicos e irrepetíveis na história, que pretende
servir. O mais recente título de Paulo Reis Mourão, Economia sem gravata deixa, já, implícito, na sua locução/traje sem
afectação, um itinerário que é, bem mais, uma hermenêutica: a de se abeirar do
real sem prescindir de nenhum dos sentidos (a
mística do instante[1]),
de investir o olhar espantado para captar a novidade das coisas (poesia), de
narrar o quotidiano desnudando-o (com o concurso do específico da oikonomia) com o deleite de quem sabe
que o amor agápico - o livro enquanto
oferenda de mil trabalhos e insónias, investigações para que uma comunidade
viva melhor, a partir de uma dada perspectiva (sobre essa comunidade e esse dever-ser) - não carece de rejeitar a
aproximação erótica[2]:
“O eros sem o ágape degenera, caindo em
qualquer coisa meramente instintiva, ao passo que o ágape sem o eros transforma-se numa enfadonha
abstracção idealista”[3].
Sempre próximo do leitor, com quem conferencia em permanência, Paulo Reis
Mourão solicita debate, demanda participação, quer gente conhecedora e
informada nas coisas da cidade, mas,
sobretudo, reclama uma entrega que não se satisfaça com uma esterilidade
platónica: “são românticos na mesma medida em que era romântico um determinado
senhor, do século passado, que toda a vida namorou da rua uma senhora, numa
determinada terra do interior. A verdade é que a senhora casou, teve filhos
reconhecidamente do marido, e sempre o senhor romântico a namorá-la
platonicamente. Não sei quem a teria amado mais, mas a verdade é que o amor
gerador ultrapassa as ideias e pede corporeidade” (p.80). A economia, ciência
social, ciência da escolha, deve ser útil ao cidadão (p.16). Chegar até ele, empoderando-o, dando fruto. Auxiliando
um olhar outro, crítico, sobre a realidade da polis. O imperativo cumpre-se em 230 substantivas páginas.
O académico que vê na ideia de Europa a presença de “um
humanismo que privilegia a pessoa sobre o indivíduo, a multidimensionalidade
sobre a causalidade, a complexidade sobre o reducionismo” (p.185) não deixa de
dar mostras de se filiar nesse ideal quando na metodologia de que se nutre (na
obra em apreço) postula, pois, sem embargo da recusa de qualquer demagogia na
urgência da “minúcia laboratorial, tão importante para a robustez do argumento
final” (p.16), um olhar mais completado, pela densidade do poeta (“na entrega
das suas gentes a uma terra obstinada – só mesmo amando. Na dureza do seu
corpo, quer dos seus olhos negros de credos quer no dourado do castanho dos
seus cabelos quer na tez corada dos que explodem vida. Nesse capital humano, a
região vive”, p.81), o imaginário do contador de histórias (“existem duas
espécies florescentes na agricultura nacional dos locais despovoados: uma é a
planta cannabis; a outra é a Rubus fruticosus, mais conhecida como
‘silvas do caminho’. Nunca provei da primeira nem de seus derivados mas dos
frutos da segunda confesso que retirei no último verão e no último outono
autênticos momentos saborosos. Os frutos ofereciam-se gratuitamente sobre
diversos caminhos e nas bermas de diversas estradas. Penso, aliás,
honestamente, que deveria ser criado mais um movimento de generosos bairristas,
a juntar-se à plêiade de associações infrutíferas que abundam nos espaços
despovoados, que defendesse a qualidade deste bem tão rentável para o nosso
turismo e com elevado potencial agrícola”, p.65), o rigor do antropólogo (“a
dádiva tem cinco motivações principais: altruísmo, egoísmo, justiça, estratégia
e sobrevivência social (…) O indivíduo avaro no extremo não sobrevive nas
nossas sociedades de homo sapiens sapiens”,
p.192), o saber do aficionado da História (“uma das relíquias da minha
biblioteca é o relatório crítico que José Barbosa Leão realizou em 1868 sobre o
orçamento do reino de Portugal daquele ano. Já então, Barbosa Leão reconhecia:
‘Portugal tem três défices principais: o défice público, o défice moral, e o
défice de homens’. Quase 150 anos depois, a nossa Política Orçamental pouco
parece ter evoluído”, p.61), o conhecimento do leitor compulsivo (de Virgílio,
Torga, Aquilino, Camus, Saramago, Manzoni, Fernando de Rojas, Jacques Godbout,
Platão, Aristóteles, Agostinho, Rawls, ou John Steinbeck…).
Não poucos debates marcaram os anos mais recentes, a
Ocidente, relativamente aos curricula
que os cursos de Economia[4]
acolhem (supostamente, segundo os críticos do que seria o status quo, tais currículos estariam muito adstritos a modelos
matemáticos não suficientemente integradores dos contributos de outros ramos do
conhecimento). Economia sem gravata,
selecta de crónicas originárias em conferências, seminários, jornadas,
comunicações diversas, livros e artigos/papers
editados, sobre as mais variegadas temáticas que podem ser interpretadas pelo
vis económico e que concitaram a curiosidade e o empenho do autor, em algumas
das mais reputadas publicações mundiais (da Public
Finance Review à International
Journal of Social Economics, passando pela Government and Policy ou a Environment
and Planning A até à Review of
Religious Research) pode, pois, ser lido, como uma aula prática, com a
auto-exigência da clareza na linguagem, acerca do “propósito de
interdisciplinaridade que defendo” (p.150) e de como este pode ter
hospitalidade/operatividade (no económico).
2.O melhor economista (ou o economista no seu melhor) é um
sábio: do Adam Smith de A teoria dos
sentimentos morais até ao Amartya Sen de A ideia de justiça, confunde-se, sublimado, o economista e o
filósofo, mais ainda, é o sábio que se prefigura no adentrar da condição
humana. Nos dois textos que se seguem à Introdução,
de Economia sem gravata, a dimensão
sapiencial (do ensaísta) adquire contornos eloquentes e oferece-nos não
negligenciáveis (possíveis) chaves de leitura para o quadro de reflexões
posteriores.
Assim, o estudo como fim em
si mesmo, como forma manifestandi do
louvor a um cosmos que interpela incessantemente, resposta e responsabilidade
assentidas na atenção e concentração, no silêncio denodado, agradecido porque
agraciado pelo excesso do dom[5]
que se perscruta nas entrelinhas. Não há nota de teste que equivalha ao
confronto consigo mesmo que o livro anotado até ao fim proporcionou ao leitor;
não há elogio, ou notoriedade, recorte de imprensa ou ida à televisão que seja capaz
de incandescer o vibrato emocional que o pulsar íntimo, parado na frase mil
vezes lida, repetida, decorada – o saber
de cor é um saber de coração - activou no estudante dedicado; não há
crítica corrosiva capaz de obliterar o salto de interpretação, o voo mais
largo, o rasgar de horizonte, a evolução de imagens e concepções sobre a vida[6]
que os sublinhados, noctívagos ou madrugadores, permitiram: “Mesmo que sintais
que poderíeis fazer melhor, descansai. O vosso esforço e o vosso estudo – em
suma, o vosso aperfeiçoamento – bastam. Não espereis pela reação para vos
sentirdes felizes – isso fazem os materialistas, que esperam pela matéria para
serem felizes (…) O estudo vale por si – caminho árduo que cada um empreende
com as próprias forças. Se estudaste, se analisaste, descansa, mereces. Não te
apoquentes com as notas de imprensa, com os artigos publicados ou com as
críticas futuras. Esquece-os. Descansa, mereces, mas descansa na certeza da tua
imperfeição, nessa imprescindível humildade. Se tens a felicidade de preencher
as horas do teu dia aprendendo, estudando e investigando, lembra-te sempre que
o estudo é autorrecompensador” (pp.18-19). Paulo Reis Mourão, que recusa o
“brilho ufano” (p.18), a volúpia narcísica, a verdadeira hybris que pode apoderar-se de quem quer, qual bulimia, dominar
pelo saber, parece aqui ecoar o poema de Fernando Echevarría[7]
(Oração para antes do estudo):
Dai-nos,
Senhor, um coração humilde.
A inteligência de aceitar agora
que só a si o estudo se ilumine
e nele se esqueça o estudante. A cópia
do que estudamos em nós viva, a fim de
que apenas o estudado seja porta.
E luz aberta por onde entrem livres
aqueles cuja alegria é obra
de compenetração que, sem limites,
se entrega. Fica com seu dentro fora.
Ilumina, Senhor, a inteligência de ir-se
esquecendo cada qual no que se mostra.
Na inteireza do que se estuda, do que se aceita estudar, no
modo como se interpreta o estudante que o Professor Universitário (também) é –
“o verdadeiro economista estuda toda a vida como o verdadeiro amante ama em
todos os dias e em todos os momentos da sua vida. O economista hedonista só
analisa enquanto sentir prazer como o amante hedonista só ama enquanto prazer
sensorial. O verdadeiro Economista sacrifica-se pelo estudo como o verdadeiro amante
dá a vida pelos que ama” (pp.19-20) – vai, ainda, uma profundíssima compreensão
do ‘objecto’ sob analogia, o amor:
“o amor não é
apenas um sentimento. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma
maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor. Ao início,
falámos do processo das purificações e amadurecimentos, pelos quais o eros se torna plenamente ele mesmo, se
torna amor no significado cabal da palavra. É próprio da maturidade do amor
abranger todas as potencialidades do homem e incluir, por assim dizer, o homem
na sua totalidade. O encontro com as manifestações visíveis do amor de Deus
pode suscitar em nós o sentimento da alegria, que nasce da experiência de ser
amados. Tal encontro, porém, chama em causa também a nossa vontade e o nosso
intelecto”[8].
Na acentuação, no tríptico sub judice – sentimento, vontade, intelecto -, presente no amor, da
dimensão volitiva, por parte do docente de Economia na Universidade do Minho, a
tónica do compromisso, do não recear fechar portas (dar o nó) que a lógica
pós-moderna quererá manter sempre entreabertas (a nada, ou a ninguém, se
ofertando[9]), fica,
pois, bem vincada. E, outrossim, o (raro) continuum
entre mundividência e vida toda (maxime,
labor; sem cisão de esferas).
A tese de João Caraça, a este
propósito, é a de que a
modernidade foi” moldada por meio de uma cultura da separação”[10].
Esquematicamente, a primeira
separação operada pela modernidade é a que distingue
Teologia/Filosofia; a segunda
separação, Filosofia/Filosofia natural (Ciência). O segundo elemento, de
cada um destes pares, bem entendido, autonomizou-se. Depois, “seguiram-se mais
separações, principalmente decorrentes da superespecialização promovida pelos
sistemas de ensino, agora a serem reorganizados para responder aos objectivos
da economia de mercado com concorrência feroz e níveis tecnológicos mais
elevados”[11].
Neste sentido, portanto, não podemos, agora, já, falar de “duas culturas”,
as humanidades e as ciências duras, um tópico do Iluminismo recuperado
por C.P.Snow, mas de uma miríade de pequenas identidades disciplinares bem
delimitadas: “um maior crescimento e separação, deu-nos muito mais do que
apenas duas culturas (a transferência para o século XX do debate feroz do Iluminismo).
Podemos agora distinguir nas nossas sociedades, para além das culturas da
ciência e das humanidades, uma cultura da ciência social (reforçada com a
invenção do pós-modernismo) e culturas bem definidas na política, nos negócios,
nos media, nas forças armadas, na religião, na
educação, bem como diversas culturas de risco, de violência e autonomia
individual”[12].
Centrando o nosso olhar na dimensão económica, aquela que congrega todas as
atenções/discussões dos nossos dias, o cientista é lapidar na descrição da
realidade: “as sociedades industriais viram inverter-se a relação entre o
económico e o social, em vez da economia estar inserida nas relações sociais,
como no passado, as relações inseriram-se no sistema económico. A economia
separou-se da sociedade, a casa separou-se do trabalho. Nasceu o conceito de
emprego”[13].
Esta lógica de absoluta autonomia, diríamos
mesmo de completa independência (disciplinar) é, igualmente, como nota o
filósofo Charles Taylor,
uma zona em que melhor podemos observar o crepúsculo, um espaço no qual podemos
sentir, absolutamente, o significado do secularismo:
“Assim,
um entendimento da secularidade dá-se em termos de espaços públicos. Estes
foram supostamente esvaziados de Deus ou de qualquer referência a uma realidade
derradeira. Ou, visto por outro ângulo, como actuamos em várias esferas de
actividade – económica, política, cultural, educacional, profissional,
recreativa – as normas e os princípios que seguimos, as deliberações nas quais
nos envolvemos geralmente não nos reportam a Deus ou a quaisquer crenças
religiosas; as considerações a partir das quais actuamos são internas à
‘racionalidade’ de cada esfera – o ganho máximo na economia, o maior benefício
ao maior número de pessoas na área da política e assim sucessivamente”[14].
O trabalho de costura, a tarefa de escuta e de compreensão dos vários
“jogos de linguagem”, a actuação sobre a complexidade imensa dos vários saberes
à luz de um “lebenswelt”, “mundo da vida” consciente e densificado é
aquele que importa fazer – “a tremenda tarefa posta nos ombros das gerações
vindouras é, paradoxalmente, muito simples: sobreviver no meio da integração de
culturas”[15]
-, sendo que, na leitura crente católica, a urgência de uma sabedoria que tudo
permeie está bem patente, por exemplo, na Encíclica Caritas in
veritate[16],
na qual uma resposta cristã aos anseios económicos, políticos, culturais do
nosso tempo tem lugar.
Seguindo, ainda, a proposta de
João M. Duque:
“frente à tão apregoada eliminação da
forte razão universal, a favor, quando muito, de débeis razões contextuais, a
revisão da revisão obriga-nos a defender a permanência de uma razão
unificadora, como referência comum a todas as possíveis racionalidades – caso contrário,
as racionalidades parciais ou contextuais acabariam por se absolutizar a si
mesmas. Contudo, essa razão unificadora teria que assumir a sua realização
concreta em racionalidades parciais, sem que nenhuma dessas se afirme
dominadora das outras. Trata-se daquilo a que se poderia chamar uma razão
transversal ou, ainda melhor, multidimensional, superadora, portanto, da
moderna razão monolítica e unidimensional. Assim entendida, uma legítima
crítica da razão absoluta e unidimensional, como a que foi elaborada pela
pós-modernidade, não implica manter ou reacender a dicotomia entre a razão e o
‘outro’ da razão, na sua mútua concorrência. As dimensões da realidade humana
são, antes, distintas dimensões da própria racionalidade. Assim também a
dimensão crente, ligada à dimensão religiosa. Porque não falar de uma razão
crente ou da racionalidade própria da fé ou da religião, em vez de uma fé ou de
uma religião por distinção – ou mesmo por oposição – à razão?”[17].
A conclusão é a de que
“em contexto pós-moderno não se fala, pois,
de uma razão universal,
mas em múltiplas formas de racionalidade. Evocam-se, assim, âmbitos da
realidade que anteriormente aqui não enquadrariam: razão estética, a razão
ética, a razão crítica, a razão comunicativa, a razão hermenêutica, mesmo a
razão religiosa ou até a razão crente. A comunicação entre esses âmbitos da
racionalidade já não se realiza através da violência de uma razão absoluta, mas
quando muito através de uma razão transversal que instaura uma comunicação inter-racional
respeitadora das respectivas diferenças. O processo de comunicação passa a ser,
assim, um processo dinâmico de movimentação, com base em múltiplas passagens
entre os vários âmbitos da racionalidade. Só assim se torna possível evitar que
qualquer desses âmbitos se afirme como absoluto e exclusivo detentor de
racionalidade, estabelecendo-se assim como norma universal, à qual todos os
outros âmbitos teriam que se sujeitar, caso pretendessem evitar tornar-se
irracionais. Mas também se supera, desse modo, a extrema posição pós-moderna
que defenda uma total incomensurabilidade de todos esses âmbitos, reduzindo-os
a compartimentos ou contextos estanques, não comunicáveis entre si. Entre os
extremos do único absoluto e do plural isolado, a pós-modernidade procura agora
um caminho de conjugação entre identidade e diferença, na articulação das
racionalidades e dos correspondentes saberes – até porque os extremos se tocam
e ambos conduzem a posições absolutistas, necessariamente violentas e
produtoras de graves reducionismos”[18].
Ou, na formulação de Adriano Moreira, após uma razão unitária,
espartilhada depois, em ciências isoladas umas das outras, sem diálogo,
descobriu-se, no século XX, a necessidade de interdisciplinaridade. Cumpre,
nesta hora, integrar visões, em um “esforço total, como o do Renascimento”[19],
alçando-nos à “transdisciplina”[20].
3. O zoon politikon, ser
de palavra e relação, que no verbo decide o que é justo e nele (em tal
deliberação) mobiliza todas as suas faculdades, é também aquele que se desgasta
nas comparações com os demais, se inferniza crendo que o parceiro tem um não sei quê a mais do que ele próprio.
A felicidade depende, com efeito, dos outros, das relações que estabelecemos,
das instituições que forjamos. Para termos valor – que não preço – necessitamos
do outro. Mas não devemos interpretar essa benevolência de outrem (para
connosco) como o resultado de um desempenho performativo que esconda a
necessidade de completude, a nossa fragilidade, a imperfeição que nos
constitui:
“o homem é um esplêndido ator. O drama que representa é viver
segundo aquilo que os outros esperam dele, e não o facto de ser realmente capaz
de realizar a sua história, quer dizer, a verdade. O problema é que o outro
espera sempre de nós algo diferente do que somos; isto comporta,
inevitavelmente, que demos e manifestemos sempre aquilo que não temos e que,
afinal, não somos. A questão será sempre parecermos aos outros que somos perfeitos, não manchados por limites ou
fragilidades, isto é, que vivamos através daquelas performances que eles esperam de nós e que nos tornam bem-aceites.
Amados. Aprendemos isto desde pequeninos em relação aos nossos pais, para,
depois, vivê-lo com os professores, os educadores, os empregadores, o nosso partner, com nós próprios e com Deus.
Mas não se pode viver assim; não se pode resistir a um esforço continuado de
nos mostrarmos adequados, performantes,
perfeitos, para tranquilizar os outros a fim de lhes dar prazer”[21]
Numa palavra, como sabe o
sábio, “a solução passa por nos aceitarmos como somos” (p.23), e “deixarmos de
desejar tanto e passarmos a gostar mais” (p.23). É nesta recusa da ansiedade do status, da não vindicação
de uma realização vinculada ao consumo/riqueza (que motivará a crítica aos que
trocaram “os pães pelos bolos”, mas igualmente aos tolos yuppies que andam de Gant
e Burbery por baixo de capote e
samarra, em alegada dinamização cultural de aldeias, p.75), mais fundamentalmente, do elogio da
imperfeição como necessidade de graça, de permanente e constante esforço de
melhoria, de uma atitude de confiança na vida que se faz lição:
“«Vai pela tua estrada.
Torna-te tu próprio. Descobre a forma autêntica e incontaminada que o Senhor te
atribuiu. E tem a coragem de viver o aspecto original de ti mesmo. Quem eras
antes de os teus pais te educarem? Quem eras em Deus, antes de nasceres?».
Lembra-te do teu núcleo divino. Se entrares em contacto com ele, poderás
percorrer livremente a tua estrada (Anselm Grun, O livro da arte de viver)”[22]
4. Com a exigência de máxima dedicação ao trabalho (que deve ser
útil e servir uma comunidade, pessoas concretas das quais se deve estar
próximo, sabendo-lhe trejeitos e sotaques), a consciência de quão a vontade
(individual) intervém na construção de um mundo outro (vontade que,
evidentemente, pressupõe liberdade e, logo, responsabilidade e dignidade) a
noção das limitações que (felizmente) nos cabem, a confiança como parceira, os
precipitados que atravessam toda a edificação teórica que perpassa Economia sem gravata não devem
surpreender, a saber: i) defesa pronunciada do princípio da subsidiariedade (“numa época em que se pede
exageradamente às esferas públicas, eles demonstram como o verdadeiro segredo
do triunfo está na vontade individual e no aperfeiçoamento pessoal, e não na
dependência do patrocínio”, p.56); ii) marcado apelo à responsabilidade individual (“pior que a Peste é o Abandono, pior
que a doença o egoísmo e mais contagiante que a epidemia é a Desumanidade”,
p.91; numa espécie, a contrario, de
exortação ao risco: “preferimos o ninho ao voo picado. Preferimos sonhar em
casa do que passar o Bojador. Preferimos o Velho do Restelo a Vasco da Gama.
Preferimos jogar consola do que calçar chuteiras”, p.130, ou ainda “se formos
honestos, procuramos o que queremos. Se não, pediremos o que não queremos e
teremos o que não desejamos”, p.110); iii) personalismo
na resolução dos problemas (“e, no entanto, a resposta mais louca veio de
homens como São Francisco de Assis, o Padre Damião ou Madre Teresa (num rol
mais vasto onde também estão muitos outros não católicos) que não temeram
beijar o leproso, tocá-lo e recordar-lhe que é pessoa”, p.91).
5. Se Alfredo Bruto da Costa
constata a perversão de uma sociedade que, simultaneamente, transfere para o
Estado a resolução de problemas como os da pobreza (desresponsabilizando-se,
individualmente ou no associativismo, do auxílio aos mais pobres), e que
demanda uma fiscalidade sempre decrescente (que redundaria em menores recursos
estatais e, logo, menores possibilidades de actuação para pôr cobro, ou
mitigar, os constrangimentos para que é solicitado)[23], assim
se desaguando no pior de dois mundos (para quem se encontra em situação
desfavorecida), Paulo Reis Mourão faz o elogio do Terceiro Sector, conhece-lhe
a História rica de afectos e efectividade, prefere a proximidade à decisão
centralizada (“recordam, sobretudo aos decisores públicos, que, na maioria das
vezes, quem está no terreno – a sociedade – antecipa a melhor resposta mais
cedo do que muitos gurus da secretaria. A sociedade – empresários,
trabalhadores, estudantes, Organizações Não Governamentais, Instituições Particulares
de Serviço Social – sente primeiro o problema social e primeiramente desenha
soluções (muitas, numa escala micro) que são mais adequadas do que muitos
programas que vão demorar tempo e recursos a implementar com eficácia
duvidosa”, p.58; vide, também, p.78),
o pessoal ao institucional (“quando
as relações se tornam institucionalizadas, tornam-se menos pessoais,
deteriora-se o lado humano, ostraciza-se e marginaliza-se o doente, o
infectado, o outro que deixa de ser o nosso próximo”, p.90).
Este ponto nevrálgico no modo
de olhar a cidade não deixa de poder
ser ensejo, outrossim, para aludirmos a uma tensão bem antiga no interior do
pensamento social cristão (portanto, um estimulante debate intra-mundividencial,
conversação que aquele que tantas vezes integra júris, coordena mestrados,
argui provas, como o académico que assina o livro em discussão, pretende não
destrutiva, como que a dizer-nos que essa é pecha que não raros diálogos, no
nosso espaço público, contêm): se o grande documento de reflexão global acerca
da actual crise – que começou por ser financeira, despoletada, a partir dos
EUA, em 2008 –, por parte de Bento XVI, é a encíclica Caritas in veritate, não menos relevante, porém, quanto ao modo
como o Santo Padre tendeu a ler a participação social dos cristãos é a carta
encíclica Deus Caritas Est,
nomeadamente na sua segunda metade.
Já nesta encíclica – a primeira do anterior
Pontificado – se percebe a tensão, sempre presente ao longo da história, com
mais de um século, das encíclicas com pendor social, dos diversos Sumos
Pontífices Católicos, no que respeita ao binómio caridade/justiça. Uma das mais
importantes considerações de Bento XVI, na parte segunda da encíclica Deus Caritas Est, prende-se com a
necessidade de sempre, e em toda a sociedade, o afecto, o amor, a caritas, o agapê ter lugar, por mais justa que se
apresente uma dada organização social[24]:
“O amor – caritas – será
sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento
estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem prescinde do
amor prepara-se para se desfazer do ser humano enquanto ser humano. Sempre
haverá sofrimento a precisar de consolação e ajuda. Sempre haverá solidão.
Existirão sempre situações de necessidade material, para as quais é
indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo. Porque o homem
não precisa só de ‘pão’ - de ajuda material -, mas também de uma dedicação
pessoal que faça com que se sinta amado, porque, em suma, é o amor que faz
viver. Também deste ponto de vista, a ‘a Igreja nunca poderá ser dispensada da
prática da caridade enquanto actividade organizada dos crentes, como aliás
nunca haverá uma situação em que não seja precisa a caridade de cada um dos
cristãos, porque o ser humano, além da justiça, tem e terá sempre necessidade
de amor’”.[25]
De resto, a própria situação de pobreza, por
que tantos passam no seio das nossas comunidades, é vivida de modo bem diverso
no quadro de uma grande cidade onde a anomia reina, ou em um meio próximo, onde
a família, os amigos e os conhecidos nos tocam[26],
diariamente - o que demonstra bem quanto o amor é absolutamente decisivo.
Ao longo da Deus
Caritas Est, Bento XVI usa como método o citar de posições
opostas/adversárias daquelas que defende (perspectivas diversas do
cristianismo; num primeiro momento, por exemplo, e acerca do eros, Nietzsche é evocado). Também no
que se refere ao pensamento social católico, o Santo Padre convoca a crítica
marxista por contraponto à perspectiva pela qual se empenha:
“Desde o Oitocentos, vemos
levantar-se contra a actividade caritativa da Igreja uma objecção, explanada
depois com insistência sobretudo pelo pensamento marxista. Os pobres — diz-se —
não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justiça. As obras de caridade
— as esmolas — seriam na realidade, para os ricos, uma forma de subtraírem-se à
instauração da justiça e tranquilizarem a consciência, mantendo as suas
posições e defraudando os pobres nos seus direitos. Em vez de contribuir com as
diversas obras de caridade para a manutenção das condições existentes, seria
necessário criar uma ordem justa, na qual todos receberiam a sua respectiva
parte de bens da terra e, por conseguinte, já não teriam necessidade das obras
de caridade”[27] (DC 26)
Reconhecendo o Papa, em um primeiro instante,
que “algo de verdade existe nesta argumentação”[28],
logo escreve que não pouco, simultaneamente, contém de errado: “a resposta da
encíclica [a esta objecção marxista], frequentemente antecipada por João Paulo
II, é que a justiça não pode ser substituída pela caridade, mas precisa de ser
por ela completada. A caridade purifica a justiça”[29].
Outra das principais críticas vindas do campo
marxista, neste âmbito, é a seguinte: numa situação de poder injusto, quem
ajuda o ser humano com iniciativas de caridade, coloca-se de facto ao serviço
daquele sistema de injustiça, fazendo-o tornar-se, pelo menos de algum modo,
suportável. Neste contexto, fica refreado o ânimo e potencial revolucionários
e, com eles, a reviravolta para um mundo melhor: a caridade ajuda a conservar o
status quo. Ora,
“a esta objecção, a encíclica
responde apelando para uma afirmação da teologia da história: não se podem
sacrificar as pessoas do presente em vista de uma utopia do futuro. Daí que a
actividade caritativa cristã trate de ser independente de partidos e ideologias.
‘Não é um meio para mudar o mundo, de maneira ideológica, nem está ao serviço
de estratégias mundanas, mas é actualização, aqui e agora, daquele amor de que
o ser humano sempre tem necessidade’. Neste contexto, está incluído um dos mais
belos parágrafos da encíclica: ‘Na verdade, a humanização do mundo não pode ser
promovida renunciando, de momento, a comportar-se de modo humano. Só se
contribui para um mundo melhor, fazendo o bem agora e pessoalmente, com paixão
e em todo o lado onde for possível,
independentemente de estratégias e programas de partido. O programa do cristão
– o programa do bom Samaritano, o programa de Jesus – é um ‘coração que vê’.
Este coração vê onde há necessidade de amor, e age de
acordo com isso. Obviamente, quando a actividade caritativa é assumida pela
Igreja como iniciativa comunitária, à espontaneidade do indivíduo é
preciso também acrescentar a programação, a previdência, a colaboração com
outras instituições idênticas’ (DC31 b)”[30]
Bento XVI afirmaria, ainda, que a Igreja não
procurou, somente, dar esmola aos pobres[31],
mas, igualmente, promove-los socialmente[32].
E sabemos como isso é essencial: uma visão de combate à pobreza, assente,
exclusivamente, em uma abordagem assistencial – a garantia, a todos, do que a
sociedade conceba, a cada tempo, como mínimo(s) de dignidade humana – é
extremamente redutora. Enquanto cada pessoa, cada cidadão não se autonomizar e
alcançar a independência, mesmo que satisfeitas as necessidades normativamente
plasmadas como básicas, continuará a ser pobre.[33]
E, para nos cingirmos, por um momento, à nossa realidade mais próxima, há um
ciclo vicioso associado à pobreza em Portugal: porque as pessoas são pobres,
como têm parcos recursos (económicos, mas também educacionais/culturais
familiares), tendem, muitas vezes, a adquirir pouca qualificação (académica);
pouco qualificadas, terão empregos com baixos salários e serão pobres. Com
baixos salários, os descontos mensais resultam diminutos, o que, dadas as regras
vigentes no domínio da Segurança Social, se traduzirá por minguadas pensões. Ou
seja, como não raramente acontece, uma pessoa pode manter-se pobre da infância
à velhice[34].
E, aliás, uma meritocracia, baseada numa
igualdade de oportunidades que seja manto diáfano que esconda uma desigualdade
preexistente, de modo a apenas, ou sobretudo, recompensar os que possuem
contextos familiares afortunados ou dotes genéticos (como diria Crosland, assim
descrito por Raymond Plant, em Direita e
Esquerda? – Divisões Ideológicas no séc.XXI[35]) seria injusta.
De entre as vozes que fizeram uma leitura
crítica – pontuando par e passu
méritos e insuficiências, a seu ver - da encíclica de Bento XVI, conta-se o
Professor, da Universidade Católica de Lovaina, Johann Verstraeten. Depois de
realçar o extraordinário aquis
(mormente na correcção que faz ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja) que a
encíclica consolidara, realçou um entendimento segundo o qual a dimensão de
justiça/institucional devia ter maior relevância (no magistério):
“Até aqui [vai] a evolução
positiva da Caritas in veritate. O problema é, sem embargo, que a dita evolução
fica eclipsada pelo principal foco de interesse da encíclica, que, em última
instância, coloca a justiça num papel secundário. Em primeiro lugar, como
consequência da sua ‘interpretação metafísica do humanum, na qual a relacionalidade
é elemento essencial’ (CV 55). Por outras palavras: o ‘homo relatus’, cuja vida
se baseia na reciprocidade, é apresentado como alternativa ao ‘homo socialis’.
Em segundo lugar, a justiça fica subordinada à gratuidade (…) David Hollenbach
acerta no ponto quando assinala que, como consequência da redução do amor à
caridade como dom e gratuidade, a encíclica passa por cima das consequências do
facto de um amor cristão ‘baseado na relação recíproca em comunidade’ implicar
‘igualdade e portanto justiça’. Com Hollenbach, importa perguntar ‘se a postura
da encíclica é suficiente para abordar algumas questões práticas chave
relativas ao programa de desenvolvimento de hoje em dia, especialmente a
mitigação da pobreza’ (…) Espera-se demasiado do ‘prestar ajuda aos pobres’: ‘carece-se
de uma ética baseada no amor como igual consideração, expressa em forma de
justiça com os outros […] e não a caridade como dom, para determinar se a ajuda
está a beneficiar realmente quem se pretende ajudar’ (…) Daí a conclusão de
Hollenbach, com a qual estou inteiramente de acordo: ‘em lugar de os
transcender com um espírito de dom ou gratuidade, a justiça é a exigência chave
do desenvolvimento» em países nos quais os governos ‘caem na corrupção, no
suborno e no tribalismo’.
De acordo com a critica de
Hollenbach, desejo concluir dizendo que tanto o Compêndio como a Caritas in
veritate requerem uma revisão à luz da intuição de Paul Ricoeur, de que a vida
boa sempre se vive ‘com e para os outros, em instituições justas’.
Fazer um apelo a novas formas
de interacção entre os indivíduos (fraternidade, relacionalidade) e a uma
economia baseada no amor e na gratuidade talvez seja uma correcção válida dos
pressupostos do pensamento económico neoclássico, mas não é suficiente. Na
economia globalizada real, a gratuidade e a reciprocidade são fenómenos muito
marginais. Em muitos contextos concretos, a opressão e instituições injustas impedem
as pessoas de viver uma vida digna. Mudar tais contextos é, antes de tudo, uma
questão de justiça (…) Isto requer tanto a criação de novas formas de práticas
económicas fraternas, como mudanças institucionais fundamentais. A cultura da
reciprocidade exige também ‘[partilhar] desde a base’, não só relativamente aos
programas de ajuda (CV 58), ou relativamente a incluir os pobres com recursos
económicos (CV 35), mas também na realização da missão social da Igreja e no
desenvolvimento do seu ensino [sabedoria] social. Despoletado pela experiência
vital dos pobres, será um autêntico ‘dia-logos’ o que constitua [constituirá] a
fonte de uma economia baseada na justitia in veritate”[36].
Nos anos mais recentes, os textos do Papa
Francisco acentuam a necessidade tanto de mudança de estruturas, quanto de
principiar por uma transformação do próprio indivíduo e do seu contributo para
a mutação dos fenómenos sociais mais negativos[37].
Para Francisco, o amor inclui, de facto, as macro-relações, isto é, “o amor, cheio de pequenos
gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as
acções que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o
compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só
as relações entre os indivíduos, mas também «as macrorrelações como
relacionamentos sociais, económicos, políticos».”[38].
Mas a questão não se coloca, apenas, sob o prisma das estruturas e implica os
comportamentos e a responsabilidade pessoais e o que pode, pois, ser realizado
em cada comunidade (do desperdício da comida, à ausência de reciclagem, p.ex.,
como denuncia na encíclica Laudato si).
Diríamos, mesmo, que apesar da tensão, que não se deve ignorar (e sobre a qual,
por vezes, em surgindo específicas questões, há que tomar partido; em certo
sentido, e de modo analógico, o texto acerca das vantagens e desvantagens da
profissionalização do voluntariado pode indiciar algumas opções com que podemos
ser confrontados, pp.215-216), há uma complementaridade aqui que convém
registar.
6. O princípio da subsidiariedade
implicará que quem mais próximo está dos problemas, ou quem possa ser
afectado por soluções que consigo contendam, possa decidir o que considera
melhor/mais adequado. Ora, olhar desde baixo,
com os olhos de quem possa ser afectado com o que será decidido na res publica é um imperativo que a Evangelium Gaudium não esquece [EG 51,
tal como a encíclica Laudato Si, 49].
Paulo Reis Mourão será, neste âmbito, o intelectual comprometido que lança
advertências, tão politicamente incorrectas quanto pertinentes, aos decisores
públicos. Sendo natural do Interior, transmontano e cidadão do mundo, reclama a
descentralização das despesas e das receitas. A ideia passa, reiteradamente, já
se vê, por as bandeiras (por si) defendidas terem (que ter) consequências, sem
carácter puramente retórico ou panfletário: pretende-se que os municípios de
uma região (não portuense, pede, p.80) longínqua do Terreiro do Paço possam
beneficiar de investimentos do Estado, mas cura-se, em simultâneo, de
responsabilizar os agentes locais (“Muitos pedem o centralismo da despesa
pública e a descentralização da receita; outros (os românticos do interior)
pedem o inverso – a descentralização da despesa (“Venha a nós o vosso reino”)
mas a centralização da colecta (Venha lá de Lisboa)” (p.80). Neste contexto,
ainda, podemos considerar o que é dito, nesta obra, a propósito das vias de
comunicação – idealmente, geradoras de maior atractividade dos concelhos do
interior -, na medida em que, contrariando aquela que parece ser a opinião
dominante, tende a mostrar o modo como a actividade económica perdeu com essas
novas acessibilidades, em Trás-os-Montes (e, na conjuntura que vivemos, o novel
Túnel do Marão coloca, com grande acuidade, esta problemática) e, de modo
inovador, julgamos, entre nós, em tais matérias, sugere-se referendos locais
(p.47) para que as populações sejam consultadas acerca de possíveis novos
traçados a propor (-lhes) para as suas terras (p.78), ademais sustentando, como
boas práticas (internacionalmente, observadas), o benefício, com o adquirido
(uma determinada percentagem, p.47) em portagens de equipamentos rodoviários
que delimitem certos territórios, para
compensação das suas populações (as gentes de Vila Pouca de Aguiar, por
exemplo, apresentam queixas quanto ao desvio de visitantes do seu centro, a
partir do momento em que um viaduto impressionante, verdadeiro “mono na
paisagem”(p.64) dilacerada daquele concelho). Mas mais: Reis Mourão propõe um
considerável cepticismo face aos novos parques
tecnológicos, antigos parques
industriais travestidos de nova nomenclatura, sem que a geração de emprego
pudesse ter sido verificada (anteriormente) com semelhantes edificações e,
portanto, sendo a nova vaga susceptível de gerar sérias dúvidas quanto ao
sucesso de tais empreendimentos públicos (na conjuntura local de que o autor é
originário, também este texto merece revisitação); demonstra como os shoppings, colocando em causa o comércio
tradicional e criando emprego numa fase inicial, com o fim dos franchising podem deixar um desemprego
superior ao circunstanciado ao tempo da sua promoção (p.76; o que se passou com
muitos Dolce Vitta, a nível nacional,
parece vir dar razão ao argumentado); considera um perigo, e mesmo um sintoma
de sub-desenvolvimento (pp.76-77 e 125), uma presença massiva de trabalhadores
em autarquias do interior, expostos, assim, de sobremaneira a quando de crises
estatais (nomeadamente, de índole económico-financeira) que impelem ao corte da
despesa pública (não se precavendo, antes, tais ocorrências, naquela que devia
ser a busca de dotar estas pessoas de outra capacitação para inserção no
mercado laboral). E que dizer dos mercados municipais? Sobre eles, o Professor
que é poeta, deixa-nos um texto verdadeiramente exemplar (de como fazer
economia): porque profundamente marcado por um conhecimento muito próximo de
vários destes espaços (Vila Real, Murça, Ribeira de Pena, Campo de Ourique,
Peso da Régua, Coruche, Póvoa do Varzim, Guarda), permitindo aceder a múltiplas
realidades de que se investe o objecto sob estudo - proceder a comparações,
encontrar os bons exemplos ou os erros a evitar; porque muito consciente do que
neles se joga mais radicalmente (“desvaloriza-se assim a outra tradição, a de
se realizar a compra no mercado local, próxima do consumidor e do produtor,
local de influência política e discussão caseira. Reflexo próximo acontece na
perda de status do adro paroquial,
antes local de reunião de vizinhos e fregueses, agora local de passagem dos que
vão à missa dominical e de muitos outros que fogem dela”, p.42); porque
anotador do curso das iniciativas com vista à sua revitalização (colocação de
concertos de música popular, exibição de ranchos folclóricos, peças de
dramaturgos populares, feiras de granitos, locais beneficiários da
“descamarização” dos serviços, remodelação dos equipamentos); porque capaz da
evocação das melhores experiências internacionais (gabinete dos Presidentes de
Câmara, na Noruega, em tais lugares se acomodam). Em realidade, quase que
desespera, já, a existência de elefantes
brancos, no Portugal de vistas curtas, que acentuam a fadiga tributária e desvirtuam a nossa casa comum: “os espaços abandonados geram compaixão” (p.44; a frase
quase que nos remeteu, ainda, para o cinema de Ermano Olmi, e o carácter
impressivo das suas Igrejas abandonadas) assinala aquele que atenta em “tantos
carrosséis e projectos de carrosséis abandonados nos largos de muitas aldeias e
vilas. Símbolo de ausência de atenção dos decisores públicos aos locais sem
crianças” (p.45)[39].
O investimento quer-se reprodutivo (aquele que não humilha, mas reproduz
iniciativa: “um bom investimento não é uma esmola. Não humilha mas humaniza.
Não gera dependência mas antes reproduz a iniciativa”, p.94).
Os anos de austeridade que vivemos reforçaram o centralismo
(p.172). E a distribuição muito desigual do bolo
(das verbas nacionais) pelos municípios diminui esse mesmo bolo (e, bem assim, o inverso se regista: uma menor disparidade faz
o bolo aumentar, p.155). A
investigação permitiu, também, concluir que municípios com mais vereadores do
partido que domina o executivo legislativo são favorecidos no PIDDAC por
munícipe (p.155) e há mais investimento per
capita nos concelhos cuja Assembleia Municipal é dominada pelo mesmo
partido que o da maioria em São Bento. Municípios com menos de 60 mil
habitantes são preteridos pelos maiores concelhos, ainda que os primeiros sejam
da cor do Governo (p.146). Para que se pudesse fixar população no interior
seriam necessárias medidas como a) pagar melhor; b) existência de benefícios
fiscais; c) aposta nas culturas agrícolas da Região (Transmontana). E a verdade
é que o último período de crescimento demográfico, no Reino Maravilhoso, foi o que correspondeu a 1930-60 (p.69). Três
foram os governantes apontados como tendo logrado propiciar aumento
populacional em Trás-os-Montes: Fernão Mendes de Bragança (parente de Afonso
Henriques, recheou a região de forais, isenções fiscais, honorários atrativos),
o Marquês do Pombal (umbilicalmente ligado à Região Demarcada do Douro) e
Rafael Duque, ministro da Economia em 1936, gerador de redistribuição
territorial, em função da gestão dos baldios e da construção de hídricas no
interior do país). Entre 1991 e 2001, a região transmontana perdeu 28 mil
habitantes e entre 2001 e 2011 sangrou com a perda de outros 34 mil
concidadãos. A Siberização de Trás-os-Montes – por analogia, claro, com a
Sibéria, onde a densidade é de 3 habitantes por quilómetro quadrado mas onde,
em três cidades principais, vivem milhões de habitantes, registando-se, nesses
três espaços, densidades próximas de Nova Iorque ou Bombaim (p.100) – é agora
uma realidade, com os únicos concelhos a registarem crescimentos populacionais,
na primeira década dos anos 2000, a serem Vila Real e Bragança (p.100).
E dada a ausência de
gente, com ela a influência perdida, o seu sentir e identidade (cultural)
profanados (ex: o esquecimento/marginalização, pelos governantes em particular,
do centenário de Miguel Torga).
7.Um dos deliberadamente mais controvertidos
artigos insertos em Economia sem gravata
é aquele que nos fala do governante ideal (p.25). Melhor, daquele que não é,
definitivamente, na concepção do autor, o governante ideal: o sábio. Como
reiteradamente constatámos, Paulo Reis Mourão não é platónico: não subscreve,
ainda e quando ao nível da política, a ideia de um rei-Filósofo como o
desejável dirigente da cidade.
Principia o seu discurso, a este respeito, por negar a existência do “bom chefe
eterno” (p.26): se o exemplo-escola, neste domínio, costuma ser o de Winston
Churchill, cuja excentricidade de gostos – do uso nem sempre moderado dos
charutos ou do álcool, até o trabalho na cama, com sono fora de horas – não
conviria aos tempos puritanos dos media
do coração, dos jornais politicamente correctos, ou de muita puerilidade da
discussão pública (na qual se troca o essencial pelo acessório), questiona-se
neste livro, de modo retórico, se Afonso Henriques ou D. João II, monarcas que
muitas vezes pareceram congregar unanimidades nos portugueses vindouros, seriam
hoje bons líderes. As qualidades que possuíram valeram, muito, a seu tempo, mas
cada momento reclama virtudes próprias também – embora algumas perenes, cremos,
como as da temperança, justiça, espírito de equidade, capacidade de
mobilização… -, pelo que a possibilidade de anacronismo em certas análises não
pode ser descartada.
O sábio, na leitura de Paulo Mourão, tende a
ser subsumido à figura do académico. E, nesta medida, entende que ao
intelectual cabe aconselhar, participar, mostrar, capacitar, investigar, mas
não escolher e decidir. Os intelectuais que falharam na governação suportam a
asserção. Mas, do mesmo modo, talvez outros observarão que quase nenhum governo
(no mundo) pode, hoje, dispensar (ou dispensa) académicos, dada a complexidade
dos assuntos com que tem que lidar e, até, a necessidade de algum conhecimento
especializado para poder decidir. De resto, é o autor que se dirige ao
candidato a autarca “obrigando-o” a “saber ler um Balanço e uma folha de
Demonstração de Resultados. Saber ler cada rubrica do Orçamento e dos Planos
Plurianuais. Perceber o fundo de maneio e a liquidez autónoma da autarquia.
Perceber, desde logo, a estrutura do passivo e do endividamento em particular”
(p.141). Algo que “só uma minoria domina” (p.141). Se a declinação tecnocrática
poderá ser arguida por alguns, como marcando aqui presença, a resposta,
contudo, deve merecer séria ponderação: “desconhecer esta dimensão é só abrir a
porta que se pode fechar numa cela de prisão – porque muitos crimes e burlas
fiscais a nível da autarquia recaem muitas vezes no inocente desleixado e não
no prevaricador que usufruiu indevidamente do dinheiro de todos nós”(p.141). Se
sufragamos o posicionamento de Jacques Ranciére de que a política é o lugar de qualquer um[40], não existindo
título de nobreza, profissional, académico, etc. que possa ser requerido a
alguém, ou impedir quem quer que seja de exercer um cargo político, não é menos
certo que teremos de nos interrogar acerca do modo como as instituições que nos
balizam, a legislação que nos conforma, toda a ecologia que envolve o político
(hodierno) permite que este desiderato, hoje por hoje, alcance a operatividade
que justificava merecer. Sem dúvida que para dominar as competências assinaladas
não será estritamente necessário ser (-se) um Académico. E para não poucas
missões são demandados conhecimentos que tornem o seu exercício mais profícuo –
logo, o domínio de algumas competências não violaria o lugar de qualquer um. Todavia, o facto de muito poucos os
possuírem, como ficou assinalado, algo nos dirá sobre a preparação requerida
para as obter. Poderá, outrossim, especular-se sobre se o Académico coincide
com o sábio, ou mesmo com o intelectual. Ortega e Gasset diria que nos dias de
hoje, dada a especialização, no ensino, (ser) (e)levada à potência máxima, os
novos bárbaros[41] são os médicos, os
engenheiros, os advogados… – profissões que exigem estudos de nível superior,
embora não torne, é certo, os seus titulados académicos tout-court. Mas tal, porventura, permitir-nos-á sopesar até que
ponto será todo o académico que não deverá descer à cidade, ou se será o intelectual puro e duro (que não deverá
fazer). E se o sábio (espécie idêntica a intelectual, ou diversa deste?) não nos
transportará, mais, para uma dimensão axiológica, um terreno de uma leitura
mais densa da realidade, em um registo singular (de que, aliás, vale a pena
pensar se a política não carecerá; contudo, igualmente, é certo, indagar-se-á
se esse sábio não o deixará de ser assim que não possa ter o recuo suficiente
para a sua leitura em profundidade [portanto, com necessidade de sair do
terreno], ou se, afinal, não mostra ser sábio quem, efectivamente, e perante
uma imensidão de soluções possíveis, consegue a melhor decisão, aquela que a
história mostrará como determinante, sobretudo em momentos especialmente
críticos: ex, a estratégia de apaziguamento, ou a guerra e o combate aos nazis?
De aí, de novo, o paradigma churchilliano).
De resto, exceptuando momentos absolutamente cruciais, ou políticos
comprovadamente não probos, será fácil consensualizarmos o que significa um
“bom governante”? A partir de que critérios? Pensemos em um exemplo: Margaret
Thatcher. Ainda hoje, campos ideológicos polarizados divergem na interpretação
dos mandatos da ex-governante britânica. Boa governante, ou má governante? A
resposta, possivelmente, será: depende. Depende dos ângulos que escolhermos
olhar para aquilatarmos do que foi o seu exercício executivo.
Seja como for, antológico é o conselho que o
homem que pensa os negócios públicos
dá ao (candidato a) príncipe (local):
este deve (tu “deves”, dirige-se-lhe o autor, no imperativo, sem mediações
outras, imprimindo um vincado cunho à injunção) saber a história do município
(“não basta saber o nome da freguesia ou do concelho. É importante conhecer
como evoluíram, especialmente no último meio século. Que pessoas se ganharam e
que pessoas se perderam. Que lutas foram vencidas e que lutas não foram ganhas.
Que conflitos estão latentes, que conflitos estão encerrados e que conflitos
estão em aberto. Desconhecer a História do espaço gera autarcas para-quedistas,
contribui para o descrédito da função política e alimenta a ideia do
carreirismo”, p.140), conhecer profundamente a sua dimensão social (“é
importante conhecer a sociologia do espaço. Conhecer ainda a estratificação por
género, por idade e por qualificações. Conhecer o desemprego e, sobretudo, o
desempregado (que também vota). Mas conhecer ainda os colaboradores, funcionários,
avençados e quadros da autarquia. Conhecer todos e cada um. Os seus receios e
as suas capacidades. Os seus bloqueios e as suas expectativas. Serão eles, não
as tropas do exército, mas as mãos, os ouvidos, os pés e o músculo do autarca.
Hostilizá-los será um primeiro passo para se ser um mau autarca. Prometer
trabalho a outros pondo fora os que estão dentro só contribuirá para dividir a
população”, p.140) e dominar a vertente económico-financeira (nos termos atrás
explicitados).
8. Obra escrita sob o prisma económico não podia passar ao
lado dos nomes maiores da disciplina, das suas principais teorizações e como
estas nos ajudam a ler/interpretar a realidade. Dois exemplos, a este respeito,
são paradigmáticos: o contributo dos estudos de Paul Krugman relativamente ao
(à compreensão do) comércio internacional e seus efeitos é ilustrado pela
castanha pilada, sedutora, em cachos que se saboreiam como se continuam
conversas com(o) cerejas, pacote adquirido no supermercado vizinho, a pedir outra
dose…made in China. Sim, esta
castanha, espontaneamente adquirida, vem de fora de Portugal, a globalização
pode ter este efeito de diminuir a procura da castanha portuguesa, substituída
por uma outra mais urbana (castanha-caju ou os pistachos), beneficiária, esta,
do mesmo modo, dos preços diminutos que propõe ao consumidor (em função da
produção em grande escala e em virtude das instituições de pagamento
portuguesas). Saber que tipo de consumidores preferir; para que mercados, com
cooperativas e feiras a sério, produzir, serão modos de os produtores
(portugueses, em especial) serem actores conscientes e competitivos em tempos
fortemente concorrenciais – eis a globalização e seus desafios (com uma imagem
que vai para lá do nível macro e tem gente lá dentro. Por rejeitar o nível
macro como único prisma a partir do qual se confronta com a realidade, por se
abeirar do precipício da troca com os transeuntes com que se cruza, Paulo
Mourão recusa prestar culto ao deus PIB, cuja desconstrução como indicador das
competências dos agentes num espaço é fundamental: “o PIB pode diminuir e os
trabalhadores podem ter aumentado a sua produção, logo o seu esforço; o PIB
pode aumentar dispensando trabalhadores e inclusive bons trabalhadores; o PIB
pode aumentar e gerar menor Rendimento Nacional; o PIB pode aumentar e todos
viverem pior”, p.202).
Como que (mediaticamente) apresentado – ainda que a título
póstumo – como o duelo ao pôr do sol, Hayek
vs Keynes mereceram, nos anos mais próximos, anos de crise e propostas de
resolução da mesma, centenas de artigos em jornais, edição de livros, promoção
de documentários. A reconfiguração institucional na União Europeia, com a
introdução do Tratado Orçamental,
significou, outrossim, segundo não poucos comentadores, a liquidação das
políticas contra-cíclicas, o dobrar a finados do keynesianismo. Eis como Paulo Reis Mourão se posiciona neste
debate: “acreditamos, quando investimos em Educação, que fazemos um bom investimento.
E aplaudimos (eu faço-o) o pai de família que se endivida para financiar os
estudos dos filhos. Já não aplaudo os pais de família que se endividam para
financiar os luxos dos filhos. Nesta mesma perspectiva, o pensamento keynesiano
(que nunca aplaudiu o défice eterno) foi um pensamento que promoveu tolerância
no endividamento público sob a assunção de que este seria eficiente, que
geraria valor futuro, que melhoraria as condições dos cidadãos. O problema,
assinalado por von Hayek, é que quando se começa a endividar por bons motivos,
como quando se começa a beber pequenas quantidades para motivos sociais ou como
quando se começa a consumir drogas leves, a paragem pode ser tardia”, p.193).
No diálogo que estabelecemos com o que lemos, traduziríamos do seguinte modo:
para o autor, há investimentos, os que são reprodutivos (a Educação, da
metáfora familiar), que dão sentido (“eu aplaudo-o”) a um endividamento
estadual, num determinado ano, conduzindo, eventualmente a algum défice
público. No entanto, o Estado não pode, ou não deve, endividar-se todos os anos
(a ideia de que Keynes não ratificaria um “défice eterno”). A benevolência,
mesmo nos casos mais edificantes, para com o endividamento e o défice não deve
ser grande, porque podem tornar-se permanentes. Se bem lemos, há aqui, por
banda do investigador, um afastamento das posições mais ortodoxas de ambos os
campos referidos em cartaz (nem uma
recusa, in limine, de todo o
endividamento e consideração de um défice momentâneo; nem aceitação acrítica de
um Estado permanentemente deficitário nas suas contas).
Ainda em matéria de leitura do tempo presente, realce para a
comparação, nomeadamente quanto ao serviço da dívida, das diferentes ocasiões
em que Portugal foi intervencionado (por instituições internacionais, do FMI à
troika). Em 1979-83, os juros (a que o Estado português esteve sujeito) demoraram
5 anos a abrandar. As políticas sociais foram reformuladas, e o recurso ao
Terceiro Sector necessário. Intervenção após intervenção, o país começa a
crescer mais tarde: taxas positivas de crescimento durante a primeira
intervenção (em Portugal, por parte do FMI); 2 anos até à existência de
crescimento, na segunda das vezes em que tivemos que recorrer à assistência
financeira externa, e 3 a 4 anos na terceira vez em que nos vimos
intervencionados. Paulo Reis Mourão tanto rejeita o repúdio da dívida por
Portugal, como considera que uma sociedade que só acumula desemprego,
deterioração do nível de vida e desânimo não é suportável (p.103).
9. Com as migrações como questão fundamental das nossas
sociedades, o Professor estudou os principais factores que explicam a imigração
em Portugal: a lusofonia; a imagem de um Portugal acolhedor; a existência de
refugiados (e de pedidos de asilo) são factores preponderantes. E assinalou
como fulcral, neste âmbito, o reconhecimento das expectativas que os imigrantes
desejam ver realizadas, tal como o não precludir a promoção de espaços de
criatividade (potenciando, cremos, o que a diversidade cultural pode oferecer
de melhor)[42].
De entre os valores que marcam a Europa, a liberdade de
expressão, a igualdade entre as pessoas e a primazia da pessoa sobre a função
(p.87) que exerce são inegociáveis (sendo que este último aspecto capta muito
bem a preeminência que há do homem sobre o trabalho e a posição social do
trabalhador, sublinhada pela encíclica Laborem
Exercens, de João Paulo II: é o facto de o trabalho ser feito pelo Homem, e
não o tipo de trabalho que o homem faz, que dignifica aquele; a prioridade à
dimensão subjectiva, sobre a objectiva, em âmbito laboral, tão poucas vezes
recordada). Esta reflexão sobre a identidade europeia justifica, na economia do
livro, dois artigos, o segundo dos quais, sublinha a dignidade imanente ao
humano (ser de direitos inalienáveis, independentemente das suas
características) e a aspiração ao longínquo, a vocação para o Transcendente (“a
aspiração ao longínquo é o desejo de alcançar o que está para lá do tempo e
para lá do limite físico. O homem europeu não deseja responder ao imediato, ao
superficial, ao contemporâneo. O seu conceito de proximidade e,
concomitantemente, de próximo leva-o ao encontro dos outros intemporais e do
outro “nós” nos outros lugares”, p.185).
Na sua tese de doutoramento, o economista mostra as cartas
que estavam debaixo da mesa (política/orçamental), aquelas que só o
especialista detecta, explicando-nos como somos vítimas (e em que consiste) a
“ilusão fiscal”: “a ilusão fiscal por via orçamental acontece quando o
contribuinte paga mais impostos indirectos do que directos, quando a despesa
pública é financiada sobretudo por dívida de longo prazo, quando os mecanismos
de tributação anestesiam o contribuinte e quando o contribuinte realiza sobretudo
a liquidação da sua quota na receita pública por via das retenções na fonte”
(p.161).
10.Não sendo possível fazer inteira justiça à variedade de
temáticas que compõem todo o acervo desta publicação, assim se dá nota do que
pensa e com que nos presenteia o universitário criativo (que explica por sinais
de pontuação o modo como parte para cada investigação, p.30), o cidadão e amigo
que poderia falar “diferaintemainte” em Lamas de Olo, elogiar a excelência da
universidade em “Berãga”, estudar o novo turismo no “Puerto” e regressar a casa
por “Famalicom”, pois que faz economia sabendo os nomes das ruas e dos homens
que as habitam: “sem oralidade termina o sotaque”(p.49), que será, cada vez
mais, macrorregional tendendo para a fusão, dada até a comunicação entre grupos
que não são socialmente estanques.
E que se interessa pela dimensão religiosa (também como
susceptível de estudo pela lente económica): em períodos de crise, diz-nos, as
entidades religiosas actuam de forma mais próxima e rápida (p.196) do que o
Estado ou o mercado.
Em outro topos, a
vocação sacerdotal está muito mais dependente dos valores predominantes num
dado espaço/tempo do que é tributária de um dado ciclo económico (p.208).
Como que a fechar um círculo aberto na aurora da obra, só um
presente parece ser capaz de saciar, melhor, de gerar nova sede no autor e nos
que continuaremos a escutá-lo: o livro (“a melhor herança é um livro. Um livro
só basta. Mais forte que o ADN, mais poderoso que a resistência telúrica, mais
influente que o prestígio social. Um livro não comporta um peso hereditário mas
ele é a transmissão encarnada da liberdade para a liberdade”, p.222). A
despedida fez-se, assim, relembrando, qual epitáfio, a missão precípua que
presidiu às letras gravadas sobre a pedra.
Pedro Seixas Miranda
P.S.: Declaração de
interesses: quem subscreve as notas vindas de publicar tem o privilégio da
amizade, e até de uma co-publicação, com o mestre autor de Economia sem gravata, sendo mencionado nos Agradecimentos iniciais e em artigo que alude ao paper assinado em conjunto.
[1]
Cf.J.T.MENDONÇA, A mística do instante, Paulinas, Prior
Velho, 2014.
[2]
Cf.BENTO XVI, Carta encíclica
Deus caritas Est, nº7.
[3]
T.HALÍK, Quero que tu sejas! Podemos acreditar no Deus do amor?, Paulinas,
Prior Velho, 2016, 59.
[4]
Cf. E.SALGADO, Debate sobre a formação ideal dos
economistas pega fogo, in http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1070/noticias/uma-briga-com-muita-economia, consultada a 9/8/2014, ou Semana Economica, La enseñanza de la economia en debate: es hora de un nuevo currículo?,
in http://semanaeconomica.com/article/entre-parentesis/146452-la-ensenanza-de-la-economia-en-debate-es-hora-de-un-nuevo-curriculo/, consultado a 21/10/2014.
[5]
“Se existe um fundamento primordial de
uma atitude religiosa frente à vida, não são as noções acerca de Deus ou dos
deuses, mas uma consciência profundamente experimentada de que a vida é um dom (...) Não basta reconhecer teoricamente que a vida é um dom, há que
experimentá-lo profundamente. Como é óbvio, essa «experiência profunda» não
precisa de tomar a forma de um encontro místico excepcional; é mais uma questão
de «misticismo quotidiano»: com cada ato e experiência da própria vida
descobrimos essa realidade e sentimo-nos gratos por ela”, HALÍK, o.c., 253.
[6] Louvando-se em Teilhard de
Chardin, o Professor João Paiva considera tarefas indeclináveis da ciência como
da teologia esta contínua evolução, mesmo no que concerne à imagética e
formulações atinentes às chamadas questões últimas, maxime Deus. Cf. J.PAIVA, A
Bíblia e a Ciência: responder às questões dos catequizandos, in https://www.youtube.com/watch?v=m_4V9F3MMWc, consultado a 18/07/2016.
[7]
F.ECHEVARRÍA, Oração para antes do estudo, in
J.T.MENDONÇA e P.MEXIA (org.), Verbo.
Deus como interrogação na poesia portuguesa, Assírio e Alvim, Lisboa, 2014,
103.
[8]
BENTO XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est, nº17.
[9]
Cf.E.ROJAS, O homem light. A vida sem valores,
Gráfica de Coimbra, Coimbra, 1994.
[10]
J.CARAÇA, A
separação de culturas e o declínio da modernidade, in M.CASTELLS, J.CARAÇA
e G.CARDOSO (org.), As culturas da crise
económica, Esfera do Caos, Lisboa, 2012, 69.
[11] Ibidem..
[12] Ibidem,
70-71.
[13] Ibidem,
68.
[14] C.TAYLOR, A
era secular, Instituto Piaget, Lisboa, 2012, 14.
[15]
J.CARAÇA, A
separação…, 71.
[16] Cf. PAPA BENTO XVI,
Carta Encíclica Caritas in Veritate (29 de junho de 2009) in AAS 101,
8 (2009) 641-709.
[17] J.DUQUE, Dizer
Deus…, 124-125.
[18] IDEM, 143-144.
[19]
A.MOREIRA e V.GONÇALVES, Este é o tempo, Clube do Autor, Lisboa, 2014, 174.
[20] Ibidem.
[21]
P.SCQUIZZATO, O elogio da imperfeição, Paulinas, Prior
Velho, 2016, 13.
[22]
Ibidem.
[23]
Cf .A.BRUTO DA COSTA
(coord.), Um olhar sobre a pobreza. Vulnerabilidade e exclusão social no
Portugal contemporâneo,
Gradiva, Lisboa, 2008.
[24]
J.DUQUE, Educar
para a lógica da caridade, in http://www.cristoeacidade.com/styled-11/styled-10/page135/page137/page137.html, consultado a vinte de Maio de 2012:“Para
terminar e para relacionarmos este projecto directamente com elementos
importantes da cultura contemporânea, convém ter noção de que a verdadeira
fraternidade, enquanto lógica da caridade, é vivida essencialmente na
proximidade, na relação interpessoal real, e não apenas na virtualidade de uma
relação imaginária, numa distância construída mediaticamente. Isso distingue a
fraternidade – enquanto responsabilização e compromisso na proximidade, com
pessoas de carne e osso, cujo rosto interpela e incomoda, directamente – da
denominada ‘solidariedade mediática’, que muitas vezes não passa de uma ilusão
de responsabilidade, sem real envolvimento da vida pessoal, porque não implica
a doação da vida pelo outro. Numa cultura tendencialmente virtualizada e
mediatizada, a dimensão da proximidade é fundamental num processo educativo que
conduza a uma prática real da solidariedade, que provoque o êxodo real de
si-mesmo para o outro real e concreto, com que me encontro quotidianamente”. Em
um exemplo muito vivo de como esta consideração é premente, na iniciativa Escutar a cidade, da Igreja Católica, no
âmbito do Sínodo Diocesano de Lisboa, José MACHADO PAIS, Desenlaces, solidão e solidariedade, in https://www.youtube.com/watch?v=aGtnUc3kVPI, consultado a vinte e oito de Março de 2015:
“[o sem-abrigo] disse-me: ‘às vezes, é mais importante uma palavra do que uma
moeda’”.
[25] PAPA BENTO XVI, Deus é amor. Carta encíclica de Bento XVI,
28, Paulinas, Prior Velho, 2006.
[26]
Cf. A.BRUTO DA COSTA (coord.), Um olhar sobre a pobreza. Vulnerabilidade e
exclusão social no Portugal contemporâneo, Gradiva, Lisboa, 2008.
[27]
PAPA BENTO XVI, Deus
é amor.
[28]
Ibidem.
[29]
J.ROMÁN-FLECHA, Deus é amor. Comentários à encíclica de Bento XVI “Deus Caritas Est”,
Gráfica de Coimbra, Coimbra, 2007, 225.
[30]
Ibidem, 225-226.
[31] Quando
olhamos para o nível de (sub) desenvolvimento de alguns países pensamos no
estado da sua educação, saúde, segurança social, transportes públicos, etc. Em
várias nações africanas, ou do sudeste asiático, por exemplo, podemos constatar
que, em cada uma daquelas áreas, as insuficiências são gigantescas. O que,
porém, nem sempre notamos, por entre as causas de tais situações, é o nível de
tributação da riqueza produzida em tais paragens. Se, nos países ricos, a média
poderá rondar uma escala os 35-40% desde os anos 1980-1990, na África
subsariana e no sul da Ásia essa fiscalidade baixou para 10% no mesmo período.
Com tais níveis de tributação, impossível é ir além (do pagamento) das funções
de soberania. Piketty deixa este subsídio
quando fala das limitações que, por vezes, encontra na economia do
desenvolvimento: sem um substantivo estado fiscal e social, muitos serviços do
Estado não serão bem prestados e, em assim sucedendo, é o próprio Estado, ele
mesmo, a ser colocado em causa. Cf. T.PIKETTY, O capital no século XXI, Temas e Debates, Lisboa, 2014, 735.
[32]
Importa referir como, em países onde o número
de pobres é imenso, a fiscalidade conhece os seus limites e a redução da
pobreza apenas é susceptível de ser alcançada através do crescimento económico.
K.DERVIS, Considerações adicionais sobre
protecção social. Comentário, in J.STIGLITZ e M. KALDOR (org.), Em busca de segurança, 128.
[33]
Cf. A.BRUTO DA COSTA (coord.), Um olhar….
[34]
Ibidem.
[35]
Cf. J.C.ESPADA, M.PLATTNER, A.WOLFSON, Direita e esquerda? Divisões ideológicas no
séc.XXI, Universidade Católica, Lisboa, 2006.
[36]
J.VERSTRAETEN, Economia e Religião, in Concilium (343), Novembro 2011.
[37]
Cf. PAPA FRANCISCO, Exortação
Apostólica Evangelium Gaudium, nº 54
e ss. A ideia de uma fé autêntica pretender, necessariamente, mudar o mundo,
surge a par da denúncia do paradigma tecnocrático, tanto quanto evocadas são as
figuras de Teresa de Calcutá ou Francisco de Assis no serviço ao próximo (EG
182 e 183).
[38]
PAPA FRANCISCO, Carta
Encíclica Laudato Si, nº231.
[39]
Um ex-governante, secretário
de estado Adjunto e do Orçamento, reconhece os erros cometidos nesta matéria de
obras públicas não necessárias: “É verdade que algumas vezes o dinheiro foi mal
gasto – e estou a pensar em obras públicas redundantes”, E.SANTOS, Sem crescimento não há consolidação
orçamental, Sílabo, Lisboa, 2012, 22-23.
[40]
Cf.J.RANCIÉRE, O ódio à democracia, Sílabo, Lisboa,
2006.
[41]
Cf.O.GASSET, A missão da universidade, Angelus Novus,
Lisboa, 2003.
[42]
Amartya Sen, referindo-se ao
Carnaval de Notting Hill, frisa a dupla dimensão patente na presença simultânea
de diferentes grupos pertencentes a culturas/identidades diversas: por um lado,
tensão; por outro, uma criatividade inigualada em ambientes de cariz homogéneo.
Cf. A.SEN, Identidade e violência. A
ilusão do destino, Tinta da China, Lisboa, 2007.
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