NA MARGEM (RAFAEL CHIRBES)

 

Na Margem


A meio de Agosto, morreu Rafael Chirbes, por muitos considerado um dos maiores escritores europeus na actualidade, autor do muito estimável Na margem, dito maior romance publicado até agora sobre a crise dos últimos sete anos, foi prémio narrativa 2013, em Espanha. Com tradução do vilarealense Rui Pires Cabral, e a chancela da Assírio e Alvim, foi, para mim, uma excelente companhia estival.
Com efeito, um dos prazeres deste Verão foi ler a sua escrita despudorada, carnal, sem contemplações, corrosiva, de um sarcasmo capaz de nos interpretar sem complacência. Conseguindo captar a coloquialidade, na sua forma mais bruta e nua, com a força que essa autenticidade carrega, mais desveladora de um modo de pensar e sentir (de um personagem, de um olhar sobre o mundo) do que uma purga eventual de interjeições politicamente incorrectas (inscrevendo-se nessa tradição, portanto), ao mesmo tempo que o artifício literário (“dizer o homem é inocente é um oximoro”), a capacidade de analogia, de comparação (“fugiu-lhe uma ideia como um flato”), de gerar uma imagem, de forjar um humor desarmante, se afirmava, em simultâneo. 
Sem ser um romance de ideias, em A margem começamos por nos encontrar com as periferias geográficas, os fins do mundo que ninguém conhece, para logo serem humanas: os imigrantes que acorrem ao sul de Espanha - com o pano de fundo de um choque de civilizações, via religiões; os desempregados que ficam com o frigorífico vazio e não têm como alimentar os filhos; os que são gozados, cruelmente, nas tascas das aldeias onde o infortúnio do outro é conhecido (e comemorado); as vítimas dos ‘patos bravos’ de uma aposta total no imobiliário que marcou a Península nas últimas décadas; a vida, explicada e detalhada, de uma prostituta; a decadência física e moral, motivada pela doença; a ausência de liberdade em uma inteira vida, o ter de viver sempre encurralado, sempre de mão a pedir o emprego na oficina do pai e, depois, o manter-se dependente deste quando aquele envelhece e não pode ser deixado só - a pobreza da infância à velhice; as empregadas domésticas que da Colômbia vieram para Espanha para ganhar mal e porcamente. Ao lado da margem, claro, os yuppies, os novos-ricos, os bon-vivant que conhecem toda a sorte de vinhos, se especializam a debitar e discorrer sobre todas as marcas, que assinam as melhores revistas da especialidade, e os chef's, quais novos ídolos que fazem jorrar michelins, os novos Nobel, a cultura que existe quando aquela com maiúsculas era, primacialmente, cultura animi...e se a alma desapareceu.... 
Há as guerras ancestrais entre Abel e Caim, há inveja, ódio, ciúme, chico-esperteza: as reuniões pela herança, as desavenças, em família, pela disputa de heranças, e há a fama pela fama, de quem não se destacou por nada na vida, mas vai à televisão uma vez e isso basta para se tornar numa figura. Normalmente, uma figurinha. A nossa espuma. Pelas vozes dos personagens, mundivisões diversas se apresentam na sua forma canónica: de um lado, ‘a tua ética é o que tens no bolsoa moral não é para os pobres (os pobres não têm moral)’; do outro, ‘o homem é o lobo do homem’. Como que despida de qualquer ilusão, colocando-nos, não raro, e desde as linhas iniciais, num ambiente putrefacto - mas também o Orwell de O caminho para Wigan Pier não sublimou os retratados, cujas condições em que viviam denunciou -, a carne devolvida ao leitor num espelho cru e até num gracejo cínico, assim a mordacidade viva, contundente, forte para melhor revelar uma condição e um tempo. Como numa sociedade decente não pode haver invisíveis, a literatura tem esse condão de poder iluminar a empatia, se a experiência de cada um de nós não nos levasse a embater, directa ou indirectamente, com essa noite. Desempregado eis a condição retratada (cito um personagem de Chirbes a fechar o reparo do dia):

Pesa muito esta angústia, o dia inteiro a maquinar, a dar voltas à cabeça, a tentar fazer render os quatrocentos euros do subsídio de apoio à família mais os seiscentos do salário da mulher, a fazer contas impossíveis, as despesas sempre mais altas do que as receitas, por muitos malabarismos que faças, como vais poder pagar os livros e os cadernos dos miúdos, que este ano somam mais de setecentos euros, a roupa da temporada, porque a do ano passado já não lhes serve e além disso está esfarrapada, os sapatos, o seguro do carro, a hipoteca da casa (…) e tudo isso se transforma num pesadelo todas as noites, que desconhecias quando as coisas corriam bem, mas que se torna o único assunto quando começam a correr mal: como encher o frigorífico. Só quando estás na penúria te apercebes de que tens de comer todos os dias, grande palerma. Pois com certeza. Isso toda a gente sabe. Aquilo que, em condições normais, nem sequer notas, converte-se no teu grande desafio quando não tens um euro no bolso: to-dos-os-san-tos-di-as-tens-de-comer: tens de pousar na mesa a panela, e os miúdos têm de levar o pacotinho de sumo para a escola, e a sandes de mortadela ou a lata de atum; essa lata redonda, metálica, pequenina, com umas lascas ou uns fiapos de peixe que mal dão para rechear um papo-seco: e não é coisa de hoje, mas de todos os dias, porque eles todos os dias lancham e todos os dias jantam. E tem de se mudar a fralda à bebé todas as manhãs. Deito-me e sonho que me afogo e acordo aos gritos, esbracejando, de punhos cerrados. A minha mulher assusta-se. Posso saber o que tens?

Boa semana.

(reparo do dia, Agosto de 2015, universidadefm)

Pedro Miranda


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