NOS 75 ANOS DE TOMÁS HALÍK, A SUA AUTO-BIOGRAFIA


NOS 75 ANOS DE TOMÁS HALÍK, A SUA AUTO-BIOGRAFIA

Neste livro, "Diante de Ti, os meus caminhos" (Paulinas, 2018) que é uma auto-biografia, além da confissão de ter tido, pelo menos, três grandes crises de fé (até ao momento, na sua vida), Tomás Halík dá-nos a conhecer a Igreja clandestina, na Praga comunista, com alguns dos maiores teólogos do século XX a passarem por um conjunto de apartamentos a oferecerem seminários, para que a Igreja, viva, pudesse manter-se actualizada e vivificasse - testemunhos, aliás, numa Igreja acossada, que vieram a dar fruto, com a admiração generalizada do povo checo (na resistência ao totalitarismo). Sempre que sem privilégio, historicamente, uma Igreja ainda mais forte. E, todavia, se exemplar a reacção face ao totalitarismo, mais difíceis as forças no que se lhe seguiu.

Halík, nesta obra, conta, também, a sua educação (liberal/humanista) e o modo como após a sua ordenação sacerdotal sempre se encontrou preparado e disponível para acompanhar os inquietos intelectualmente, fosse no mundo dos estudantes universitários, fosse entre académicos propriamente ditos, ou no meio artístico e jornalístico. Veio, em termos familiares, do meio intelectual burguês de Praga e sempre assumiu que, mais do que deslocado em uma paróquia rural, era nesse meio intelectual que, porventura, o seu potencial evangelizador seria melhor aproveitado. A seguir à queda do regime comunista, foi sondado, por próximos de Vaclav Havel, alguém a quem era muito chegado e por quem mostra uma enorme admiração, para ser Ministro da Cultura. Rejeitou. Também rejeitaria, embora houvesse nisso ponderado, candidatar-se à Presidência do seu país. Diversos jornais fizeram com ele manchetes, apontando-o como um dos favoritos. Sondagens colocaram-no bem posicionado. Halík afirma que sopesou essa possibilidade por o cargo de Presidente, na sua geografia/cultura, não significar nem um executivo à maneira de uns EUA, por exemplo, nem uma figura decorativa e protocolar, mas, essencialmente, e de maneira singular, alguém que deve adicionar ao nível dos valores, que saia do mainstream, e que se afirme como autoridade intelectual e espiritual. Política e ideologicamente, vemos Halík próximo do «centro da direita» (p.311), nos anos 90 atraído pelo «neoconservadorismo» (e seus principais representantes, Michael Novak, George Weigel e Richard Neuhaus; Novak representou "uma variante de direita do pensamento político e social católico" e que procurou "diminuir a tensão" entre o conservadorismo liberal à maneira americana e a doutrina social da Igreja; conta-se que terá sido um dos inspiradores, com Rocco Buttiglione, da Centesimus Annus, de João Paulo II, que recebeu entusiasticamente; Neuhaus foi um manifestante contra a guerra do Vietname, na sua juventude, militou à esquerda, mas veio a mudar o seu pensamento político; ordenou-se sacerdote já depois dos 50 anos), mas abandonando tal território depois da experiência de George W.Bush no Iraque (p.325). Como bom intelectual, imagina-se indeciso, esgotando-se na compreensão, nas razões que os lados das questões que teria de arbitrar colocariam, de modo pertinente, sobre a mesa. Um convite para Oxford, onde ficou durante meses, resolveu de vez o dilema (para o qual contou com o discernimento inaciano: a) percepção dos sentimentos primários face ao problema com que se confrontava; b) o que a razão lhe indica; c) a escuta espiritual). A verdade, porém, é que sempre se sentiu melhor entre gente das artes, da comunicação social, da Academia do que junto dos sacerdotes seus compatriotas - ainda que, rumando a Oeste, percebia, de imediato, que lia os mesmos livros, colocava as mesmas perguntas, tinha os mesmos interesses que os sacerdotes locais. Em casa, em Praga, era solitário (poucos amigos entre o sacerdócio) e parecia-lhe recuar 50 anos (em termos de mentalidades e do tipo de catolicismo que era promovido, o tipo de estruturas existentes). Essa sensação deve, ainda, ter sido reforçada quando, integrando a faculdade de teologia como docente, no pós-comunismo, sentiu não apenas a falta de vitalidade, a apologética, a inexistência de confronto com o exterior, a metodologia anquilosada, como foi alvo de uma perseguição, pelo diretor da Faculdade, que o levou a perceber uma face da Igreja que ignorava e que o implicou em um enorme desgaste interior. Ele que saíra da clínica, onde era psicoterapeuta, para ganhar 4 vezes menos naquela Faculdade, dada a sua vocação. Conquanto aparecesse e fosse permanentemente solicitado para conferências, debates, programas de tv, sendo muito conhecido e reconhecido, não pensou passar dificuldades, como não passou, para encontrar novo emprego, desta feita na Faculdade de Letras (que tinha um núcleo de estudos da religião). Aqui, a formação em Sociologia, por parte do autor, também resultava em uma mais-valia. Halík, o católico jesuíta, muito dado ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso ao longo de todo o seu trajecto, considera o viajar como parte necessária de uma Educação e, na verdade, deu aulas e palestras um pouco por todo o mundo: do Chile aos EUA, do Reino Unido à Polónia, de Roma à Índia (na qual encontrou comunidades católicas que se pareciam com os primeiros cristãos, nomeadamente na solidariedade mútua que praticavam; em Goa, encontrou "muitos monumentos do tempo dos colonizadores portugueses", p.330; por estas terras, em fazendo um sermão acerca dos benefícios do jejum, perto da Páscoa, sentiu a vergonha de falar para quem, em realidade, nunca tivera refeições a sério; os cristãos são cerca de 2% da população indiana, sendo que a aposta dos católicos, em tais paragens, é sempre na educação, e na formação contínua dos sacerdotes, que o chegam a ser muitas vezes após terem um bacharelato noutra área, como Literatura Inglesa; e nem considerações de tipo pragmático, a escassez de mãos no terreno, fazem com que se dispense uma aturada e intensa preparação para que alguém venha a exercer o sacerdócio, porque se entende que isso dará frutos),passando pelo Egipto, Marrocos, Canadá, África do Sul, Nepal, Austrália, Tailândia, Vietname, Taiwan, Birmânia, Japão. E, em 2016, "causou-me muitas impressões profundas uma viagem, bastante curta, mas muito intensa, para algumas palestras em Portugal" (p.349). Onde concelebrou missa com José Tolentino de Mendonça, "com o qual temos muito em comum" (p.350). Em Roma, esteve na sede da Opus Dei, reconheceu o mérito das suas gentes, mas sentiu que não era o seu ambiente. Numa viagem na ilha de Nélson, quase conhece a morte: "foi uma experiência espiritual peculiar que me trouxe mais do que a confirmação de que, quando uma pessoa se vê verdadeiramente aflita, rapidamente se lembra de Deus. Aí venerá-lo-á também aquele que toda a sua vida se gabou de ser ateu. Ocorre-nos se o ateísmo não será apenas uma ilusão de luxo a que se podem permitir somente aqueles que não conheceram a necessidade real ou que eliminaram da sua consciência a experiência pela qual passaram (...) Experimentei um grande alívio de que a minha vida não está sob a minha própria direcção e que a minha força de sobreviver e resistir vem de uma fonte muito mais profunda do que o enredo do meu eu, os meus músculos, os meus pensamentos e os meus nervos. E entreguei-me completamente a essa fonte, «liguei-me a Deus», entreguei-lhe o leme e senti um grande afluxo de força e uma grande libertação. Houve nisso uma certa «resignação», mas nada de passividade. Em vez disso, senti uma enorme intensificação da minha actividade e a sua liberação de qualquer medo pela minha pessoa que me travasse e enervasse (...) Só no momento limite, isso [o confiar da vida a Deus] sai do homem como uma chama, como o inspirar profundo daquele que se está a afogar ou a sufocar. Sem palavras ou grandes pensamentos, como um acto imediato e puro do espírito, no qual o homem está totalmente inteiro, com corpo e alma, passado, presente e futuro" (pp.361-362). Esta mesma experiência poderia ser descrita com recurso a neuromodeladores, ao processo neurofisiológico, mas, apesar das duas chaves de leitura serem possíveis, "não é simplesmente o mesmo com outras palavras. Querem dizer o mesmo, não são simplesmente substituíveis, porque ambas expressam um ponto de vista específico e afectam outros aspectos e níveis do acontecimento que vivemos (...) O que se perde quando não reproduzir a minha experiência na linguagem da fé? Uma coisa é certa: um sentimento de gratidão. (...) O facto de uma pessoa, pelo menos por um tempo após esta experiência, começar a apreciar a vida como um dom que não é evidente, tendo uma forte necessidade de «agradecer», e não só pela salvação, mas também pela vida em geral, isso realmente não pode ser expresso de forma mais completa do que com a linguagem da fé" (pp.365-366).

A teologia sobre (ou pós) Auschwitz sempre o interessou de um modo decisivo e continua a marcar: "A chamada «teologia de Auschwitz, tanto judaica como cristã, é uma inspiração muito significativa para a minha espiritualidade e pensamento teológico. E eu procurava honestamente uma resposta para a pergunta: «onde estava Deus em Auschwitz?» Para a minha pergunta, aceitei as respostas de dois pensadores judeus. Primeiro, Deus estava lá no seu mandamento «Não matarás!»! E em segundo lugar, a pergunta correta deve ser: onde estava o homem em Auschwitz? Quando transferimos a nossa responsabilidade humana para Deus, fazemos dele uma tela de projecção dos nossos desejos ou da nossa dor, raiva e indignação moral. O «Deus da ponte de comando», algures acima das ondas da nossa dor, que, como se fosse um deus ex machina, atracasse sempre onde nós humanos tornamos o mundo que nos tinha confiado um inferno, realmente morreu, e isto para muitos, claro, aconteceu no contexto de tragédias como as guerras mundiais, Auschwitz e Gulag. Tal deus era uma projecção humana" (p.297).

No livro, narra-se, igualmente, o primeiro encontro de Halík com João Paulo II, e como este, em levando o checo e outro convidado ao seu apartamento, principia, com estes, por orar, muito intensamente (o que impressionou o homem que veio de Praga: "Depois, chegou o secretário Dziwisz, deu-nos as boas-vindas e levou-nos ao apartamento papel. O Santo Padre entrou e levou-nos, como em todas as outras visitas, primeiro à sua capela e, ali, ajoelhou-se diante de nós em frente ao tabernáculo para uma longa e silenciosa oração. Na verdade, foi o momento mais poderoso. Vi o Papa mergulhar em oração, como se uma pedra caísse num poço profundo, parecendo que nos estava a puxar consigo para as profundezas. Pensei: então é a partir daqui que toda a Igreja é governada", pp.187-188), na capela que este continha (numa outra ocasião, João Paulo II pergunta a Halík que livros de Havel lhe aconselha; este, escolhe três títulos; "esses, já li. O Papa lê à noite"). Foi com João Paulo II que Halík seria nomeado para um Conselho para o Diálogo com os Não-Crentes, já depois de incentivado a um doutoramento em teologia (que versou a doutrina social da Igreja).

Creio que um pequeno passo, já no final destas suas deambulações autobiográficas, descreve na perfeição o seu modo de se posicionar e de entender o lugar do cristianismo: "Toda a literatura patrística está repleta de referências à cultura antiga, à mitologia, poesia e filosofia. Se nos primeiros séculos entre os cristãos prevalecesse o medo da abertura amigável para com a cultura e a espiritualidade do seu tempo, o Cristianismo teria provavelmente permanecido uma insignificante seita à margem do Judaísmo, nunca se tendo tornado a corrente moral e espiritual que mudou a face cultural da Europa e de outras grandes partes do Planeta, de forma mais intensa e duradora do que qualquer outra doutrina" (p.344).

Pedro Miranda


P.S.: A propósito de “crises de fé”, como aquelas que experimentou ao longo da sua vida, escreve Tomás Halík, neste seu "Diante de Ti/Os meus caminhos": “É extremamente importante saber que tais momentos em que tudo na vida espiritual de uma pessoa é abalado, como se Deus tivesse morrido, a sua fé tivesse escurecido e a pessoa realmente tivesse batido no fundo, são valiosos e importantes. Este momento deve ser recebido como uma experiência religiosa fundamental. É algures aqui onde termina a posse das «ideias religiosas» e a verdadeira fé pode começar. Sim, há pessoas que no momento do silêncio de Deus se afastam da fé porque chegam à conclusão de que Deus «não existe». Seria mais honesto afirmar que a sua actual noção de Deus «não funciona». Sim, um Deus que «funciona» de acordo com a ideia do homem, na verdade não existe ou, pelo menos, não é Deus, é um ídolo, e é melhor libertar-se dele. Essas pessoas têm a sua parte de verdade, mas ficam a meio caminho. O objectivo de superar os ídolos é libertar espaço para um encontro com um Deus vivo. É esse o momento do «eclipse» que no caminho espiritual se pode tornar um encontro decisivo com um Deus vivo. Muitas vezes, só à distância podemos ver que foi o próprio Deus, e não qualquer obstáculo interior ou exterior, que «bloqueou» o nosso caminho espiritual interior. Escondeu-se no silêncio e na escuridão, reduzido a nada, mas é lá onde é preciso encontrarmo-nos com Ele. (...) João da Cruz fala para as pessoas cujo «Deus morreu», cuja fé escureceu, que caminham na noite. Como um terapeuta espiritual experiente, ele reinterpreta essa situação. Não se aterrorizem com remorsos moralizantes! Deus não vos pune com esta escuridão pelos vossos pecados. Isto não significa que tenham negligenciado a fé. E isso de modo algum significa que o vosso caminho anterior tenha sido inútil. Neste momento sombrio, o toque do abandono de nosso Senhor na cruz é o momento de transformação e purificação, da tua morte e ressurreição. No início, o mundo ficou em silêncio quando tu, apaixonado, voaste para o encontro amoroso com Deus, livre, como se corre com amor no coração pela noite de verão. O mundo, os sentidos, as coisas, tudo dormia, sem te incomodar e sem te distrair, tudo estava coberto pela escuridão. Mas agora é Deus que está em silêncio, a escuridão alcançou o santuário do teu espírito. Mas não tenhas medo, aguenta-te neste caminho escuro. Não será que esta escuridão possa ser um encadeamento causado pelo excesso da luz? Será que esse momento «sombrio» significa que estás a enfrentar o sol? (...) [João da Cruz] tenta mostrar-lhe que esta crise é uma oportunidade e uma visitação. Não moraliza nem oferece soluções baratas. Devemos aceitar essa situação porque é uma das formas através da qual Deus comunica com o homem. É até uma das maneiras mais profundas de contacto com o coração do homem. Chega às pessoas feridas e áridas. A quebra da devoção actual é, por sua vez, uma oportunidade para deixar morrer a forma infantil e ingénua da fé e experimentar a queda dos ídolos. Temos uma tendência constante para idealizar Deus através de conceitos e imagens. É apenas no momento da queda, do questionamento e do silêncio de todas essas imagens que podemos perceber que Deus está muito longe, por trás e acima disso, sendo maior que tudo o que possamos imaginar sobre Ele. (...) Há muito tempo, uma religiosa disse-me uma frase que na época não entendi: «Quanto mais velha sou, mais Deus me parece próximo e, ao mesmo tempo, distante de mim». Às vezes, só depois de muitos anos de vida espiritual e de pelo menos três fortes crises de fé, percebemos que esta não é uma «certeza» imutável e estática, mas, sim, um caminho pelo qual a luz e a escuridão se alternam. Se é que é possível avistar Deus, pelo menos um pouco, tal como Elias «viu» no monte Horeb, será então provavelmente no momento da sobreposição do dia e da noite.”

Tomás Halík, “Diante de Ti, os meus caminhos”, Paulinas, 2018, pp.265-268.




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