APOROFOBIA. A REJEIÇÃO DO POBRE. UM DESAFIO PARA A DEMOCRACIA. ADELA CORTINA

 

Para uma leitura de Aporofobia – a rejeição do pobre. Um desafio para a democracia, de Adela Cortina

Adela Cortina é Professora Catedrática de Ética e Filosofia Política, na Universidade de Valência, autora com vasta obra publicada, e multipremiada, em Espanha e fora do seu país natal, sendo de destacar o Prémio Nacional de Ensaio, em 2014, distinguindo a obra “Para que serve realmente a ética?”. Já após a publicação de Aporofobia – a rejeição do pobre, foi galardoada com prémios literários, na secção crítica e ensaio de Associações de Editores de Madrid - António de Sancha 2018 - e de Crítica Literária Valenciana.


1.Será que existe mesmo uma "aversão natural" ao estrangeiro, ao diferente, ao outro? Em realidade, face aquele que vem de longe, de outra cultura, de outros costumes e hábitos, de outra etnia, de uma cor de pele diversa da que nos é mais comum (observar no nosso dia-a-dia), que frequenta outros templos diferentes daqueles de que nos abeiramos (quando, e se, o fazemos), mas que se dirige para as nossas terras com vista a, durante 15 dias, instalar-se num hotel, frequentar os nossos restaurantes, entrar nos nossos mercados, levar para o seu país de origem o nosso artesanato, o que mais evidenciamos é uma hospitalidade no trato, um entusiasmo no acolhimento, uma vontade de (lhe) agradar e ser prestável, um desejo de que o visitante se sinta confortável, que esteja tão bem como em sua casa. Há, aqui, bem o podemos afirmar, uma verdadeira xenofilia, uma amizade para com o estrangeiro

2.Depois, contudo, há os que vêem de longe, fugindo da miséria, da fome, da guerra, da perseguição étnica ou religiosa, de catástrofes naturais - e a esses, em muitos casos, na melhor das hipóteses, oferecemos-lhes a selva de Calais, um gueto em alguma metrópole.

3.A questão não parece, pois, ser a do estrangeiro, do diferente, do outro - ainda que, note-se, diversos estudos apontem para uma tensão entre pessoas pertencentes a quadros culturais dissemelhantes (Amartya Sen, em "Identidade e Violência", assinala que os ambientes não homogéneos são os mais dados à criatividade e inovação, têm uma energia que falta onde a diversidade rareia, mas concede que se sente, em tais lugares também, uma tensão latente). Mas, vejamos, neste contexto ainda, com redobrada atenção: uma coisa é um medo, um receio, uma tensão entre pessoas oriundas de culturas diferentes. Outra, um patamar (conflituoso) acima: uma aversão, um desprezo, um ódio ao outro por ser quem é. Melhor: por se enquadrar num determinado colectivo em que o encaixamos - neste caso, o refugiado, o pobre. A questão parece, aqui, residir, pois, claramente, (não no estrangeiro, mas) no tipo de estrangeiro de que falamos. Neste caso, entre o estrangeiro turista, e o estrangeiro refugiado há, quase sempre, uma diferença fundamental: o dinheiro que cada um deles possui (e, para a nossa sociedade, abismal diferença quanto, aparentemente, ao que cada um "vale" - como que, desta sorte, identificando, e não já distinguindo, essa mesma nossa sociedade, "preço" (d)e "valor"). Enquanto esperamos vir a beneficiar da estadia do estrangeiro turista, no nosso território, tendemos a imaginar nada receber, a não ser aborrecimentos - quando não supomos mesmo pressão sobre os serviços públicos de que dispomos, acréscimo de desemprego, terrorismo a caminho - com o refugiado que chega à nossa beira. Quando, ademais, passamos a configurarmo-nos como, não já economias de mercado mas verdadeiras "sociedades de mercado" (para me referir à tipologia proposta por Michael Sandel, em "O que o dinheiro não compra", a lógica mercantil, de lucro aplicada a todas as realidades/esferas da vida, sem excepção, sejam a família, a amizade ou outras que se julgava, e julga, dever estar a salvo de tal contabilidade e de uma estrita racionalidade de tipo instrumental), a recusa daquele que vemos como incapaz de nos fazer lucrar (alguma coisa) impõe-se com especial força.
Na síntese de Adela Cortina, "é impossível não comparar o acolhimento entusiástico e hospitaleiro com que se recebem os estrangeiros que vêem como turistas, com a rejeição sem misericórdia da onda de estrangeiros pobres. Fecha-se-lhes as portas, levanta-se-lhes muralhas, impede-se que atravessem fronteiras" (p.13) E, nestes anos recentes, estamos a viver a maior crise migratória desde a II Guerra Mundial - para a Europa dirigem-se pessoas de lugares tão remotos como os da Eritreia, o Sudão, a Somália, a Gâmbia ou o Bangladesh.
Ao longo de Aporofobia – a rejeição do pobre, a Eticista acrescenta outros exemplos (ao modo diferenciado como nos posicionamos face ao outro/estrangeiro): o cigano que vingou na música flamenca e é uma estrela internacional (pensemos em Joaquim Cortés, na ascendência de Paco de Lucía, em Diego el Cigala); o Abramovich que veio devolver a glória aos blues do Chelsea, ou o senhor do Catar que tornou o PSG um potencial vencedor da Champions (cujos rublos, ou petrodólares, respectivamente, quase ansiamos por ver aplicados ao FCP para nos levar de novo à vitória na Liga dos Campeões); os investidores da Volkswagen (vide o peso da Autoeuropa no PIB português), da Mercedes ou da Bosch que criam milhares de empregos, para mais bem remunerados, no nosso país; os enfermeiros ou médicos espanhóis, no Reino Unido, qualificados e bem preparados, acrescentando ao PIB britânico, todos estes estrangeiros, por mais que a sua língua, tez, hábitos e tradições, cultura divirjam da autóctone, da nossa em particular, são bem-vindos. O problema, ou o inferno, são os outros (estrangeiros - que não estes).
 
4.Como acabámos de observar, o problema não é com o estrangeiro, o xenos, ele mesmo - pelo que não será acertado, ou absolutamente rigoroso, quando este é rejeitado, falar, necessariamente, de xenofobia (ainda que ela exista, e de que maneira). O verdadeiro óbice é que o estrangeiro seja pobre ("Áporobos: é o pobre, o apórobos, o que aborrece, incluindo a própria família, porque [esta] vive o parente pobre como uma vergonha (...) enquanto que é um prazer mostrar o parente triunfador, bem situado no mundo académico, político, artístico ou dos negócios", p.21): "é o pobre que aborrece, o sem recursos, o desamparado, aquele que não pode acrescentar nada de positivo ao PIB do país a que chega (...) aquele que, aparentemente, não trará mais do que complicações", p.14; Fobéo: espantar-se; fobia: medo exagerado, aversão).
Ora, para que o radical desta realidade não fique submerso, escondido, escamoteado, impõe-se dar-lhe visibilidade; e para que haja visibilidade é necessária a nomeação (dessa realidade). É uma tarefa que a todos incumbirá, mas, talvez, de modo mais imediato, aos que praticam o ofício das humanidades: o literato, o romancista, o contista, o poeta, o filósofo, o filólogo. Um dos motivos pelos quais as humanidades são essenciais à democracia, escreveu  Martha C. Nussbaum em "Sem fins de lucro. Porque é que a democracia precisa das humanidades?", é que estas evitam, ou devem evitar, que haja invisíveis numa sociedade - pessoas, condições pessoais/sociais, que não conhecemos ou às quais, se pudéssemos, porventura, viraríamos o rosto, que não nos são narradas no interior da comunidade em que nos encontramos, em primeira instância, vinculados. Pessoas, em rigor, bem entendido, não invisíveis, mas invisibilizadas (p.126) (tornadas invisíveis pelo seu não reconhecimento), as quais, portanto, precisam de ser resgatadas, reconhecidas. A Professora de Ética e Filosofia Política na Universidade de Valência, Adela Cortina, ao conceber, regressando ao seu dicionário de grego antigo, juntando intuições, avançando periclitante em um vocábulo talvez inexistente noutras línguas, talvez desajeitado mesmo no seu castelhano (natal), Aporofobia, a fobia/aversão aos pobres, resgatou, para a denunciar e visando eliminá-la, a iniquidade que vitima todos os que por serem pobres são humilhados, maltratados pelos demais. 
A necessidade genesíaca de nomeação - e se há realidades para as quais podemos apontar com o dedo, como cadeiras ou mesas, outras existem, como Democracia ou Estado que aí não cabem: o filósofo Giovanni Sartori dizia-nos, em "Homo Videns", que o homo sapiens evoluiu com o recurso a conceitos abstractos, e que o actual homo videns recua quando não consegue aceder a estes, e apenas vislumbra o que o dedo consegue apontar - é, ainda, um tributo ao labor de um saber e capacidade teoréticas, ou à complexificação de uma cisão simplista entre o que é da teoria e o que é da prática. O achado vocabular de Adela Cortina, Aporofobia, foi fundamental para criar um delito criminal específico, por banda do Ministério do Interior espanhol, com base no qual agentes, cidadãos que humilham pobres, por causa dessa sua condição, são punidos; associações que lidam e procuram ajudar os mais desfavorecidos, como a Caritas ou a Cais, consideraram fundamental a nova palavra para darem a conhecer aquela realidade que se encontrava negligenciada/silenciada; o mesmo sucedendo com muitas outras organizações, com académicos, instituições múltiplas que felicitaram Adela Cortina por lhes permitir aceder a uma categoria sobre a qual haveria, agora, que educar. Em realidade, possuir(mos) um vocabulário de cem palavras ou, um outro, de cinco mil permite(-nos) chegar a realidades, a mundos bem diversos, possuir horizontes e uma possibilidade de (procurar) compreender e perscrutar vidas e universos com instrumentos de alcance nada idêntico.
Aporofobia é um termo cunhado, pela primeira vez, por Adela Cortina, como título de uma crónica, para o jornal "ABC Cultural", em 1995, mas faria um longo caminho de reiteração - em artigos seus de jornal ou em obras escolares (universitárias) - até observar uma delimitada definição nas enciclopédias - incluindo a muito frequentada wikipédia - como sinónimo de "rejeição, aversão, temor e desprezo pelo pobre". Em 2017, foi a "palavra do ano", em Espanha.
 
5.Se algumas (ou muitas) pessoas são, de facto, xenófobas ou racistas, já, por outro lado, considera Adela Cortina, há um potencial universal de aporofobia: "todos os seres humanos são aporófobos, e isto tem raízes cerebrais, mas também sociais, que se podem e devem modificar, se tomarmos a sério pelo menos essas duas chaves da nossa cultura que são o igual respeito pela dignidade das pessoas e a compaixão, entendida como a capacidade de perceber o sofrimento de outros e de comprometer-se a evitá-lo" (p.15). Sublinhe-se: "uma compaixão não sentimental, mas produtiva" (Stefan Zweig); uma ética da razão cordial, igual dignidade que subverta a desumanização.
 
6.Quando os adeptos do PSV (de Eindhoven), em 2016, antes de um jogo internacional com o Atlético, atiram moedas aos mendigos, numa praça de Madrid, solicitando, obrigando-os a rastejar, muitas mulheres aparecem-nos nas imagens, pelo chão, humilhadas, em busca da esmola. Não é que estas mulheres, alguma delas, cada uma delas, tenha feito algo de mal aos adeptos, a algum adepto, do PSV: é que esses tiffosi encarceraram-nas (mentalmente; sitiando-se, acrescente-se, eles mesmos, nessa fixação) em uma dada categoria, categoria essa que desprezam. Neste caso, vêem essas mulheres como "pobres". Mas a categoria podia ser "homossexual", "islâmico", "cristão", "negro", "mulher", "asiático", por exemplo. Acontece que, para voltar a Amartya Sen, a nossa identidade é formada por múltiplas filiações - a pessoa, quase sempre, estabelece vínculos com uma localidade, um país, possivelmente uma religião, uma ideologia, talvez um partido político, está ligado a uma profissão, um ofício, uma ciência, uma arte, dentro desta aprecia mais uma dada corrente, um autor ou conjunto de autores, segue com especial atenção um dado realizador, um núcleo de actores ou actrizes, tem clube desportivo, uma banda favorita, um pintor ou uma escola de pintura, possui uma dada orientação sexual, etc. Dizer, em exclusivo, acerca de alguém que é "pobre" - sendo, de resto, e todavia, sublinhe-se com intensidade, que “pobre” não deve ser visto como fazendo parte de uma identidade, desde logo e até por não ser uma escolha do próprio -, ou "o homossexual", ou "o muçulmano" como se a sua pessoa, a sua personalidade, identidade ou condição (social) se esgotasse numa única filiação ou característica - se bem que os constrangimentos causados pelo factor pobreza possam ser de tal modo condicionadores que esse seja, de facto, "o" factor determinante numa pessoa; mas o que pretende aqui destacar-se é que a riqueza e complexidade que a pessoa é, mesmo que por empatia e constatação nos foquemos na sua actual condição social (pobre; condição essa, a actual, desejavelmente em superação), excede sempre uma mono-descrição - é não se aproximar da complexidade que cada rosto concreto constitui. Pior, quando o "rótulo" em que encaixamos o outro vem acompanhado de um acervo de narrativas que ao longo de anos inoculámos, um conjunto de mitos ou "lendas negras" que, a nossos olhos, o demonizam, ou o tornam (como que) "sub-humano". Por exemplo, a ideia de que os pobres são, na verdade, ricos encapotados que mais não visam do que roubar o nosso dinheiro; "nosso" dos que não somos pobres - e nos vemos como "essencialmente" diferentes daqueles. Falar não das pessoas concretas, mas de "o pobre" revela - porque, como sabemos, o modo como falamos, a nossa linguagem, as metáforas ou imagens a que recorremos são expressão do modo como pensamos -, não raramente, que nos sentimos outros (com outro valor) face ao "pobre", isto é, quem discursa face a este, desta forma, e, sobretudo e muito particularmente, quem o humilha "está convencido de uma desigualdade estrutural entre a vítima [dos seus insultos] e ele" (p.38).  Tais práticas, no entanto, degradam (é) quem as realiza (p.25). A origem do ódio radica naquele que odeia e não no odiado - "a fonte da qual surgem o ódio e o desprezo é o que [assenta no que] odeia, não [n]o desprezado" (p.30) e a igualdade deve ser construída desde a educação e desde a conformação das instituições políticas e económicas.
 
7.Em 2015, registaram-se, oficialmente, 17 delitos por aporofobia, em Espanha. O número tem crescido, sucessivamente, todos os anos, mas conseguir determinar-se que um agente cometeu um delito com este específico móbil nem sempre se afigurará tarefa fácil, seja para a polícia que carece de formação ulterior - com vista a percepcionar/descortinar/identificar tais ocorrências -, quer, mesmo, para o julgador. De aí, uma parte de possível justificação dos números oficiais reduzidos relativamente à ocorrência deste concreto delito (no país vizinho). Dados dos EUA indicam que nos últimos 15 anos, 85% dos agressores de pessoas sem-abrigo tinham menos de 30 anos, e 93% eram homens (p.40). Em um estudo realizado durante cerca de meio ano, em meses dos anos 2014 e 2015, em Espanha, com sem-abrigo, 47% responderam ter já sofrido algum delito relacionado com aporofobia; 60% afirmaram que esses incidentes ocorreram de noite ou de madrugada, enquanto dormiam; em 28,4% dos casos, os agressores eram jovens que estavam em festa (p.41); 2/3 das experiências foram presenciadas por outras pessoas; em 68% das situações, as testemunhas nada fizeram; destas, só 2,7% chamaram a polícia; uma percentagem muito escassa de sem-abrigo apresentou queixa. Este último ponto foi motivado pelo facto dos sem-abrigo temerem represálias e entenderem que não adiantaria nada apresentar queixa (p.41).
Adela Cortina pretende, ainda, a este propósito, que haja penas com severidade suficiente (para punir o delito de aporofobia), de modo a comunicar que as pessoas (a comunidade) não aceitam que se pisem aqueles valores (de consideração pelo igual valor de todas as pessoas). Mais, advoga: a sociedade civil tem que reclamar “um lugar para todas as pessoas; que ninguém seja obrigado a mendigar; que ninguém seja submetido às máfias” (p.42). Procurar erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades e cultivar o sentimento de igual dignidade, eis desideratos fundamentais na cidadania da segunda década do séc.XXI.
 
8.A utilização do vocábulo “pobreza” pode recobrir realidades bastante diversas, pelo que importa precisar do que falamos quando dizemos que alguém é pobre. Adela Cortina – tal como, por exemplo, Alfredo Bruto da Costa, no grande estudo que organizou/coordenou sobre a pobreza em Portugal, em 2008, “Um olhar sobre a pobreza. Vulnerabilidade e Exclusão social no Portugal Contemporâneo” – segue a proposta do Nobel da Economia Amartya Sen: a pobreza é, aqui, entendida como falta de liberdade, a impossibilidade de levar a cabo os planos de vida que uma pessoa tenha razões para valorar. Portanto, neste enquadramento não se subsume a pobreza à ausência de recursos básicos – alimentação, vestuário, calçado… – por parte de uma dada pessoa; é que ainda que satisfeitas as necessidades plasmadas normativamente como essenciais (num dado estádio em que uma sociedade ou civilização se encontram), se suportadas por outrem, a pessoa permanece pobre (porque se mantém em/na dependência). Neste contexto, a autora sustenta a urgência de medidas estruturais que capacitem a pessoa – dar-lhe instrumentos, formá-la devidamente e permitir-lhe a inserção no mercado de trabalho, nomeadamente – para se autonomizar e sair da pobreza; isto, em vez da resolução do problema se focar em medidas de cariz paliativo. O mesmo é dizer: políticas de tipo assistencialista, se promovidas estruturalmente, não permitirão à pessoa ultrapassar a armadilha/ratoeira de pobreza em que se encontra; a assistência urgente é, por certo, necessária – e, creio, não deve ser negada em função da transformação a operar -, mas o que se deseja é que ultrapassada uma fase em que esta é indispensável, possa a pessoa, pelos seus próprios meios/recursos/capacidades/instrumentos, emancipar-se e alcançar formas de rendimento (salário, nomeadamente) que a façam ultrapassar a situação de pobreza.
 
9.Se entendida de um modo não restritivo, e enquanto atitude vital, a aporofobia seria, ainda, a rejeição das pessoas que se encontram, em uma dada/em cada situação, pior colocadas (mesmo que não necessariamente pobres). É contra estas, efectivamente, “que se dirigem os discursos de aversão e rejeição, inclusivamente de ódio, que se permitem lançar os bem situados, seguidos sempre dos seus lacaios” (p.55). Este mesmo discurso, não o olvidemos, possui um carácter performativo: magoa pelo facto de existir; no momento em que é pronunciado, agride (imediatamente); não necessita, para fazer mal, de ulteriores acções (mediações) que incidam sobre os grupos, ou pessoas sobre as quais se manifestaram (por exemplo, não carece de agressões físicas para ter um efeito punitivo sobre os destinatários da alocução); são um mal em si mesmo. Falar é actuar. A perda de reputação, a exclusão, a privação da participação social, o estabelecimento de uma relação de assimetria entre quem produz o discurso e aquele a quem este é dirigido são males suficientemente nefastos: “como bem diz [Charles] Taylor, a vitória do carrasco consiste em conseguir que a sua vítima se despreze a si mesma, à força de experimentar o desprezo alheio” (p.58).
 
10.As noções religiosas de pecado original, ou o conceito kantiano de mal radical exporiam uma compreensão assente em um cepticismo/pessimismo antropológico que avalizaria a ideia de que estando os humanos predispostos para o/ao egoísmo, a tendência para ir atrás dos bem situados seria algo próprio da natureza humana. A pergunta que se impõe, neste contexto, é, pois, a seguinte: haverá raízes biológicas para rejeitar os pobres?
A indagação, recorrendo à (investigação realizada na) “ciência-estrela do nosso tempo”, as neurociências, impor-se-á, ainda que principie por uma pergunta muito filosófica sobre a natureza do cérebro: será este uma máquina que responde mecanicamente a um meio, ou um sistema autónomo activo, que faz valorações? (p.69). A Professora de Ética concluirá pela segunda das hipóteses, e registará que há tendências conflituantes no interior do cérebro – é como se estivéssemos perante duas equipas a actuar e negociar entre elas. Animal dissociativo, o humano, quando colocado perante informação que o perturba, coloca-a entre parêntesis; o afã de sobreviver, de controlar o entorno básico, de buscar o familiar, o conhecido, situá-lo-ia na esfera do autointeresse (e daí a aporofobia biológica). E, no entanto, o facto de haver uma predisposição não implica que vá suceder – que a pessoa vá operar - de certo jeito, até porque o cérebro tem uma grande plasticidade e pode reforçar outras tendências evolutivas (p.74): há um lado egoísta, mas também um outro cooperante, no cérebro e na evolução (p.80). O cérebro é bio-social e, portanto, influenciável socialmente (p.81). Ou, na síntese de Rob Riemen, em O regresso da princesa Europa,pp.61-62
Tudo isto me pareceu irritante. Primeiro, a ciência e a tecnologia eram absolvidas quanto ao seu papel na suprema barbárie [holocausto], agora, subitamente, as possibilidades tecnológicas eram equiparadas a uma lei natural à qual não se podia escaparIsto é não compreender a essência de se ser humano, ou pelo menos da humanidade como é entendida pelo humanismo europeu: a humanidade é livre. Podemos fazer escolhas. É esta a própria essência de ter moralidade, do conhecimento do bem e do mal. O facto de a natureza humana conter muita agressividade e, de todos sermos capazes de homicídio, pilhagem e violação, não significa que tenhamos de aceitar tal agressividade segundo o princípio de que simplesmente nos temos de habituar a ela, é assim que as coisas são e não podemos escapar-lhe. A civilização é precisamente a capacidade de dizer «não»”.
 
11.A filósofa lembra o Nietzsche de A Gaia Ciência para escrutinar a ideia, ali expressa, de que nos ajeitamos melhor com a má consciência, do que com a má reputação (se quisermos, preferimos ter a nossa consciência a acusar-nos, do que ter a má opinião dos outros sobre nós). Em assim sendo, se o que for injusto resultar (para nós) vantajoso, provavelmente, fá-lo-emos. Interrogação - perversa ou realista (?) interrogação -, neste âmbito: “e se a consciência moral mais não fosse de que o cálculo prudencial de perceber até onde pode chegar a busca pelo benefício próprio sem provocar a rejeição do corpo social”? (p.85). O triunfo do naturalismo parece impor esta definição, face aquela outra que observava ser a consciência moral uma voz interior, o daimon (de que falava Sócrates). E, se o naturalismo estiver certo, a conclusão derradeira a registar é da impugnação da educação, no sentido em que se questiona como educar sujeitos morais, se carece de sentido formar a sua consciência (?). Durkheim e Jonathan Haidt concordam em considerar Moral (como) tudo o que é fonte de solidariedade, aquilo que força o homem a regular as suas acções por outra coisa que não o seu egoísmo (p.86), sendo que o segundo destes autores propõe, mesmo, uma completa definição: “os sistemas morais são conjuntos (…) de valores, virtudes, normas práticas, identidades, instituições, tecnologias e mecanismos psicológicos evoluídos, que trabalham em conjunto para suprimir ou regular o auto-interesse e fazer sociedades o mais cooperativas possível” (p.86). A moralidade consistira, então, no conjunto de valores, princípios e costumes que levam a controlar o egoísmo e a reforçar a cooperação e solidariedade, em princípio entre os seres humanos mais próximos, paulatinamente também no conjunto da humanidade (p.87).
A convivência entre seres egoístas tornar-se-ia inviável, pelo que a moralidade deve ser vista como um produto da selecção natural. Darwin observa, a propósito, que aquilo que nos diferencia dos animais inferiores é o sentido moral ou a consciência. Se entre os humanos e os animais haveria uma coleção de disposições protomorais – reciprocidade, consolo, aversão à iniquidade, empatia, seguimento de regras de conduta reforçadas por terceiros -, “o nosso sentido moral ou a nossa consciência é um sentimento muito complexo: origina-se nos instintos sociais, é conduzido em grande parte pela aprovação dos nossos semelhantes, regido pela razão, o interesse próprio, e, nos últimos tempos, por sentimentos religiosos profundos, e confirmado pela instrução e pelo hábito” (Darwin).
Porquê o altruísmo, porquê o gene altruísta (para contrapor ao título de uma obra de Richard Dawkins [O gene egoísta])? Porque vingou o altruísmo, porque foi necessária esta característica para o humano se adaptar e permanecer? Ser altruísta não proporcionará vantagens aos indivíduos dentro de um grupo, mas permitiria a selecção entre grupos, porque os grupos internamente mais solidários/coesos, resistiriam melhor à luta pela sobrevivência. Portanto, não é que um altruísta, isoladamente concebido, adquirisse vantagem sobre um egoísta, na luta pela sobrevivência; é que o humano, necessariamente gregário, vingou porque o seu grupo venceu a batalha e, para a vencer, necessitou (este grupo) da presença de grande altruísmo no seu seio, solidariedade, coesão dos seus membros. O surgimento da consciência moral requer a consciência de que existem as leis do grupo e de que violá-las vai comportar castigos físicos ou espirituais e, em qualquer caso, o desprezo dos companheiros, com a perda da reputação (p.90) – o corarmos, ruborescermos – nomeadamente, em função de uma norma grupal, p.ex. - é algo universal. E único na espécie humana. Assim se afirma, de novo, a reputação como essencial para a sobrevivência (da pessoa); com efeito, a preocupação com o elogio ou crítica alheios é um factor fundamental para desenvolver virtudes sociais (consciência da lei, e vergonha por infringi-la parecem encontrar-se nas origens da consciência do bem e mal moral, p.91).
 
12.Acontece, porém, que nem sempre as leis do grupo são justas – e, se temos consciência moral, e se a consciência da lei e a vergonha de infringi-la estão na sua origem, então bom seria que a lei, que a regra de grupo, fosse rejeitar condutas aporófobas e, simultaneamente, aposta no empoderamento dos indivíduos. O desprezo deveria dirigir-se à estupidez e ao vício; não à pobreza. Se estas fossem as regras, as crianças poderiam aprendê-las por osmose.
Além das leis do grupo poderem ser injustas, não menos relevante, (no grupo) castiga quem pode e não necessariamente quem tem razão (p.91).
Na explicação naturalista acerca da consciência moral não parece, como pudemos constatar, haver espaço para aquele entendimento que a situa(va) como voz interior que nos diz como devemos agir, sejam quais forem as consequências (p.96). Mas, será que não obriga, ainda hoje, a consciência moral a um ponto de obrigação incondicional que não se submete ao jogo da reputação? A consciência é igual, sem um plus, a “regras da sociedade”? Não existe qualquer dissemelhança entre estas e aquela? A história prova que assim não é: há quem sacrifique a sua comodidade e/ou paz em função de normas que considera mais humanas (agindo motivado pela “lei de Deus”, por uma “lei de humanidade”, ou por uma “lei de autenticidade” tais pessoas não seguem, em dado momento, a regra do grupo). O naturalismo não explica, desta sorte, os criadores morais, os inovadores morais que lançaram propostas superadoras das leis sociais – casos de Jesus de Nazaré, ou de Buda, por exemplo.
Para Kant, a chave de todo o edifício moral é a auto-obrigação – os deveres para consigo próprio, anote-se, nascem da civilização; não existiam nas sociedades “bárbaras” (pp.97-98). Essa capacidade é a chamada autonomia ou liberdade moral. Força interior que não está ligada à sobrevivência mas ao desejo de viver bem, de acordo com a lei da própria razão, segundo a lei de Deus, de acordo com o fundo incorruptível da pessoa (p.99). Sem essa obrigação, ficamos sempre à mercê do grupo, da reputação. Nas palavras de Adela Cortina, “educar para a autonomia, educar para forjar uma consciência que se tece através do diálogo e da argumentação e por isso não se deixar alucinar pela força da pressão social nos casos em que essa pressão é arbitrária, continua a ser indispensável para que não se extinga a vida moral”(p.99).
 
13.Se na Metafísica dos Costumes, Kant aconselhava a manter a fé num Deus que castigasse o perjúrio, hoje, em sociedades tidas como secularizadas – ainda que essa classificação não esteja isenta de problemas - o garante último, para um grande número de pessoas, desse comportamento correcto, parece residir na consciência pessoal. Se assim é, supõe-se que esta seja algo muito importante (p.100). E a formar em diálogo com os próximos e os outros, mesmo distantes ao nível cultural e étnico.
Sucede que a educação se tem mostrado insuficiente: a sociedade não educa - ou não alcança eficácia quando, e se, o faz - para a dignidade da pessoa. Já quase duas décadas nos separam da provocação de Peter Sloterdijk, em “Regras para o parque humano”: já não há leitores para as cartas enviadas por amigos; os meios de desinibição de massas deram origem a uma “matilha vociferante do espectáculo”; o projecto do humanismo – “ler amansa a alma” – falhou; são necessárias antropotécnicas para o formatar devidamente[1]. E, agora, a formulação bioética subsequente: “são eticamente aceitáveis as intervenções [nomeadamente biomédicas] de melhoria [da pessoa], ou são-no apenas as terapêuticas?” (p.104). E, no caso de a resposta ser afirmativa, “é moralmente obrigatório melhorar as capacidades «normais», sejam cognitivas, físicas, refiram-se à memória ou à atenção, caso exista essa possibilidade”? Mas, o que se entende por melhoria? Melhorar uma capacidade existente, ou criar uma capacidade nova, actuando directamente no corpo ou no cérebro – eis a resposta.
Se temos uma nova batalha, desde há alguns anos, entre transhumanistas (como Jonas Hughes) – que pretendem melhorar, com recurso à engenharia genética, a meios bio-médicos, o humano, hoje em dia despindo as vestes de qualquer eugenia de tipo totalitário, mas reclamando-a em nome do igualitarismo e do liberalismo cultural – e Bioconservadores (como Leon Kass e Francis Fukuyama) que consideram que apenas são aceitáveis as intervenções terapêuticas, bioeticistas como George Annas e Lori Andrews chegam a afirmar a existência de um “crime contra a humanidade a modificação genética herdada, nos humanos”.
Quem é contrário a tais modificações, considera, por princípio, que a busca da melhoria humana destrói a virtude da gratidão pelo dado (pelo dom, pelo gratuito, pelo não merecido) (p.109); contra-argumentam os que favorecem essas alterações biomédicas: não há razão para se considerar sagrado o que se considera o funcionamento normal (do humano). Como separar o normal do não normal? Um outro argumento contrário a intervenções bio-médicas de melhoria humana: quem quer levar a cabo tais experiências, pretende um completo domínio da existência humana; a perfeição. Réplica: o que se quer é melhorar, não é alcançar a perfeição. No fundo, regista um novo argumento contrário a tais intervenções, o que se busca é a imortalidade, uma quimera sensivelmente distópica; Tréplica: o que se quer não é a imortalidade, mas uma melhor qualidade de vida. A melhoria, assumem em definitivo os Bioconservadores, levaria a uma sociedade estratificada, de castas, e não solidária, que desprezaria os que carecem de algumas capacidades (p.109).
Talvez quem se considere de uma visão (dita) realista diga, como podemos ler neste livro, que a melhoria cognitiva, com o avanço científico, vai mesmo ocorrer, pelo que, entretanto, temos que alcançar uma melhoria moral, por efeito biomédico, para que aqueles que conseguem esse acréscimo (cognitivo) não se sobreponham aos demais (p.112). É que a verdade é que continuamos com a moral dos pequenos grupos, que cooperamos internamente (com a nossa tribo), mas não com os de fora. Temos uma obrigação moral, por consequência, de melhorar a motivação moral. A oxitocina promove a confiança, os inibidores selectivos da recaptação de serotonina incrementam a cooperação e reduzem a agressividade e o Ritalin reduz a agressividade violenta. Mas será este o caminho para melhorar a motivação moral? Objecções: a investigação ainda está no princípio – não conhecemos resultados cabais – e intentar uma mutação genética não é o mesmo que uma inalação de oxitocina.
Além de que o consentimento da pessoa é condição sine qua non para tais intervenções. E o que fazer com aqueles que não estão interessados em agir moralmente? O Estado podia dar incentivos para quem quisesse ser cobaia, ou elaborar um plano de melhoria moral para toda a população, ou, ainda, o Ministério da Educação elaborar um protocolo para tratar de melhorar a motivação moral das crianças (p.121). Algumas destas ideias, como a segunda, estão próximas de ideais de Estados totalitários, mas, sobretudo, Adela Cortina não acredita quehaja um meio biomédico para (…) alcançar (p.123) a dita melhoria moral (ou motivação moral). Assim sendo, a pergunta surge pouco mais do que retórica “não há nenhum outro caminho, para lá das intervenções biológicas para conseguir uma humanidade convencida dos melhores valores de palavra e obra? Ou sucede que não existe o chip moral, não há fármaco nem implante que substitua a paciente formação voluntária do carácter das pessoas, das instituições e dos povos? A chave parece continuar a ser formar a consciência pessoal e social através da educação formal e informal e da construção das instituições adequadas” (p.123).
 
14.Para os gregos antigos, uma vida boa não depende de riquezas. É certo que são necessários alguns bens para que a pessoa possa dedicar-se a uma vida contemplativa; mas a felicidade não depende de riquezas. Já o romano Séneca postulou, inclusive, que as riquezas podem ser obstáculo a uma vida consagrada ao espírito. As reflexões de Séneca são ainda hoje relevantes para quem pratica um modo de vida alternativo ao capitalismo – ainda que não conste que o próprio autor se tenha devotado à pobreza (p.132). Em todo o caso, a pobreza de que nesta obra se cura é aquela involuntária (e não uma outra, voluntária, que no entender de alguns poderia levar a uma pretendida ascese).
Quase até aos nossos dias, entendeu-se que a pobreza era um mal, mas um “mal inevitável”; havia a convicção de que “sempre haveria pobres” e que a “pobreza não era causada por nenhuma injustiça social que seria obrigatório remediar” (p.132). Efectivamente, a ideia de que a pobreza involuntária tem causas sociais e que o pobre tem direito a ter oportunidade de levar adiante uma vida boa apenas surgirá no final do século XVIII. Até há um par de séculos, a situação geral da humanidade era de pobreza. Depois, com a tecnologia, o emergir do carvão, as forças do mercado, a divisão do trabalho, o parlamentarismo, das teorias do contrato social, a situação altera-se: em nossos dias, “há recursos suficientes para erradicar a fome” (p.133). Em síntese, nos últimos 200 a 300 anos, assistimos à passagem do entendimento da pobreza como uma questão (apenas) pessoal ou grupal, a uma outra compreensão que a toma na sua dimensão social.
O imperativo categórico kantiano, a pessoa olhada como fim em si mesmo, seria a melhor expressão do fundamento do direito dos pobres a serem empoderados – e da devida actuação do Estado nesse sentido. Nos seus Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, formulados no ano 2000, a ONU colocou a meta de ausência de pobreza extrema e da fome para o ano de 2015; nos Objectivos do Desenvolvimento para 2030, sobe um patamar nas pretensões: não já o fim da pobreza extrema, mas sim da pobreza tout-court.
Adela Cortina distingue o combate à pobreza, enquanto manifestação da protecção da sociedade (evitar, eliminando ou mitigando a pobreza, problemas de segurança, de coesão social, de delinquência) (p.135), daquele realizado em função da promoção da própria pessoa que passa por uma situação de pobreza (protecção vs promoção). O primeiro Tratado sobre a pobreza surge em 1526, numa altura em que cresciam prodigiosamente o número de pobres, mendigos, mulheres dedicadas à prostituição, feiticeiras e bruxas (p.135). Todavia, já 500 anos a.C., Confúcio considerava a pobreza uma das “seis calamidades” que havia que tratar para salvar a ordem social (p.136). O “Tratado de Socorro aos Pobres” foi da autoria do humanista Juan Luis Vives, com o objectivo de averiguar o número de pobres, o tipo de pobres existentes, e propor medidas para os aliviar – tudo isto realizado, sempre e em todo o caso, para protecção da sociedade. Naquela segunda década do século XVI, podia ler-se no Tratado: “é coisa vergonhosa, para nós cristãos, a quem nenhuma coisa tanto nos encarrega como a caridade, e só ela creio que nos encarrega, consentir entre nós a cada passo tantos pobres e mendigantes. Para onde quer que coloques os olhos verás mil pobrezas e mil necessidades, mil mãos forçadas a pedir, por pobreza” (p.136). Talvez o mais surpreendente neste livro seja a defesa, nele realizada, de que a luta contra a pobreza não deveria ficar a cargo de instituições caritativas ou da esmola individual, mas sim a cargo dos poderes públicos, nomeadamente os municípios (p.136). Para a ensaísta, aqui estará prefigurado, em gérmen, o Estado de Bem-Estar ou Estado Social.
Porém, será necessário esperar até aos anos 60/70 do séc.XX para que medidas anti-pobreza – subida de salários, sistemas de educação, mercados financeiros – permitissem a promoção do pobre. Será só, ou sobretudo, a partir do pós-guerra e muito na década de 60 que da protecção da sociedade se passa à promoção do pobre. É preciso, neste âmbito, não cair em anacronismos e perceber, ainda, que a chave de compreensão do mundo moderno é a era do indivíduo e seus direitos, pelo que, diversamente, não poderíamos pretender que o mundo medieval ou, mesmo, o Renascimento, onde as chaves de leitura eram outras, firmassem sobre a pobreza conclusões que não era possível retirar a partir da sua pré-compreensão do mundo.
 
15.A professora de Filosofia sublinha o grande contributo e o carácter pioneiro das religiões monoteístas na luta contra a pobreza: “em realidade, foram as religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islão – as que colocaram, em primeiro termo, que a pobreza é um problema, e que contribuir para a sua eliminação, partilhando os próprios bens, é um compromisso que se segue com a [para quem tem] fé” (p.137). Essa partilha fazia parte da ortopraxis (a correcta prática do crente). Situando-se numa área cultural muito marcada pela tradição judaico-cristã, a ensaísta guia-nos pelas mais conhecidas passagens do Antigo e do Novo Testamentos para concluir, sem dúvidas, que aí se espelha a opção preferencial pelos pobres de que fala a Doutrina Social da Igreja Católica. E mostra como os textos dos Evangelhos inspiraram[2] multidões de revoltas, no mundo medieval, de movimentos cristãos que reclamavam a atenção aos pobres e a purificação da Igreja (com o célebre caso de Thomas Muntzer, ao qual aludirá o próprio Karl Marx).
 
16. Aporofobia – a rejeição do pobre conclui-se com um acervo de propostas da autora com vista à erradicação da pobreza - por um lado -, e pelos caminhos para a edificação de uma sociedade cosmopolita - por outro.
A redução das desigualdades como modo de reduzir a pobreza e fazer aumentar o crescimento; eliminar uma economia clientelar; evitar práticas de corrupção; afirmar um sistema fiscal proporcional [progressivo] como um instrumento básico; reforçar as políticas sociais; criar ou reforçar rendas básicas de cidadania; enfoque na responsabilidade social das empresas, bem como pluralismo de modelos destas, são as propostas no campo do que poderíamos chamar economia política.
A criação de uma sociedade cosmopolita em que todos se sintam cidadãos – que deita raízes no sonho dos estóicos, que sabem que são simultaneamente cidadãos do seu país e do mundo, passa pelo cristianismo, cristaliza na Ilustração e é um dos grandes desafios do nosso tempo (p.151) – é o tópico derradeiro deste livro. Nessa tradição, a virtude da hospitalidade, um dever de hospitalidade que corresponde a um direito à hospitalidade, desejavelmente impõe-se e institucionaliza-se (diz respeito às instituições jurídicas, políticas, e sociais e ás obrigações do Estado). A hospitalidade recolhe o conteúdo do vocábulo “filoxenia”, o amor e o afecto aos estranhos, e tem a sua origem no latim «hospitare» que significa «receber como convidado». Atitude amável por parte daquele que acolhe estrangeiros e visitantes, a hospitalidade – “a disposição para acolher em casa um estrangeiro e necessitado de ajuda era um signo de civilidade ou de religiosidade” (p.152) – era inquestionável. Rejeitar o estrangeiro necessitado de ajuda é que carecia de explicação (ao contrário de hoje, em que se inverteu o ónus da prova: é preciso agora demonstrar, em detalhe, porque devemos receber o estrangeiro mesmo que este se encontre muito necessitado). Tanto no mundo ocidental como no Oriente. Os relatos de hospitalidade abundam na Ilíada, na Odisseia, em mitos como o de Filémon e Báucis e na Bíblia. Esta mesma atitude aquela que levou, em definitivo, no nosso tempo, a que muitas famílias, ainda assim, quisessem acolher, e tenham acolhido, vários refugiados em suas casas. Mas também no campo da hospitalidade, a dimensão pessoal não chega e é necessária uma institucionalização.
Contudo, o cosmopolitismo nem sempre foi valorado de forma positiva; não raramente, o cosmopolita foi entendido como um individualista radical que rejeita qualquer compromisso com a comunidade - posicionamento que levaria ao reforço do interesse pessoal (p.157). No “Dictionnaire de La Academie”, de 1762, diz-se que um cosmopolita não é um bom cidadão. Os cosmopolitas são criticados por Rousseau na sua obra.
Quem, sem embargo, actualmente propende a uma sociedade cosmopolita, como é o caso de Adela Cortina, procura promovê-la – pelo menos é essa a proposta desta autora - com os seguintes fundamentos: a) direito de propriedade comum da Terra, não existindo ninguém, originariamente, com mais direito do que outro a estar em determinado lugar do globo; b) o facto de os homens não poderem estender-se ao infinito sobre a superfície da Terra, por esta ser esférica, implica a obrigação de se suportarem mutuamente (de serem suporte uns dos outros) (p.161).
Numa palavra, formar, à altura do nosso tempo, cidadãos compassivos capazes de assumirem a perspectiva dos que sofrem e, sobretudo, comprometer-se com eles (p.168) é um desígnio iniludível. 
Aporofobia – a rejeição do pobre. Um desafio para a democracia – Um possível balanço
 
Obra comprometida com as grandes questões do seu/nosso tempo, com uma atenção muito particular à problemática das migrações, dirigida à polis e, portanto, aos cidadãos (para lá das pessoas, mesmo que esta distinção pessoa/cidadão não se deva afirmar sem a devida adversativa – a dimensão institucional, para lá da pessoal, é postulada, em permanência, enquanto proposta para combater alguns dos principais constrangimentos que vivenciamos hoje por hoje), politicamente empenhada, Aporofobia – a rejeição do pobre, de Adela Cortina, constitui-se como proposta de combate à pobreza, integrando um amplo leque – mais vasto, porventura, do que as abordagens mais convencionais na matéria – de elementos que considera determinantes para o bom andamento deste combate. Às abordagens mais integradas nos campos ou âmbitos da economia e filosofia políticas (pensemos, por exemplo, para falar de dois autores, prémios Nobel da Economia, e de duas obras, relativamente recentes, com os e as quais, cremos, haveria, em Adela Cortina, alguma comunhão de ideias nesses domínios, Joseph Stiglitz, com “O preço da desigualdade”, ou Paul Krugman, com “Consciência de um liberal”), matérias que neste livro são igualmente acomodadas, a autora aduz a pertinência de tomar em grande consideração as perspectivas que confinam com a biopolítica, a urgência de levar em linha de conta os limites, a plasticidade cerebral-biológica, e, bem assim, a ecologia a desenvolver para promover uma adicional motivação moral em benefício dos desfavorecidos. Se é verdade que a pesquisa antropológica e a recusa (da concepção) do (humano enquanto) homo economicus, do agente racional que apenas prossegue o seu interesse – e este interesse entendido em termos estritamente egoístas – havia merecido, em anos recentes, forte contraditório em um conjunto de obras – Sen, em A ideia de Justiça, segue Francis Edgeworth, afirmando que o ser humano é “um egoísta impuro, um utilitarista misto”[3]. Em suma,
 
A suposição de um ser humano completamente egoísta viria a assenhorar-se de grande parte da corrente económica dominante, ao passo que muitos dos grandes cultores da disciplina já viriam a expressar sérias dúvidas acerca da veracidade de uma tal suposição (…) É frequente pensar-se erradamente em Adam Smith como um defensor da suposição exclusiva busca do interesse próprio, sob a forma do ‘homem económico’. A realidade, porém, é que Adam Smith nos oferece uma discussão particularmente elaborada dos limites dessa suposição de uma universal busca do interesse próprio. Adam Smith realçava o facto de que o ‘amor de si mesmo’, como ele chamava ao impulso subjacente aos comportamentos exiguamente auto-interessados, é apenas uma das muitas motivações que os seres humanos podem ter. Ele distinguia claramente entre diferentes razões que podem levar alguém a contrariar os ditames do amor de si mesmo, aí se incluindo, entre outras, as seguintes: simpatia (…), generosidade, espírito cívico[4],
 
sendo o mesmo raciocínio válido para a teorização de Francis Fukuyama, em  As origens da ordem política, p.57:
 
“Podemos catalogar isto como a grande falácia hobbesiana: a ideia de que os seres humanos eram primordialmente individualistas e que apenas formaram sociedades num ponto mais tardio do seu desenvolvimento, devido a um cálculo racional segundo o qual a cooperação social era a melhor forma de alcançarem os seus fins individuais (…) A premissa também está implícita na economia neoclássica contemporânea que constrói os seus modelos segundo a assunção de que os seres humanos são agentes racionais que desejam maximizar os seus proveitos ou rendimentos individuais. Mas foi de facto o individualismo, e não a sociabilidade, que se desenvolveu ao longo da história humana. Se o individualismo parece hoje um sólido pilar do nosso comportamento político e económico, é porque desenvolvemos instituições que se impõe aos nossos instintos comunais mais básicos. Aristóteles estava mais correcto do que estes teóricos liberais dos primórdios da modernidade, quando afirmava que os seres humanos são políticos por natureza”,
 
ou Ha-Joon Chang, em 23 coisas que nunca lhe contaram sobre economia, todavia, no caso de Adela Cortina, mais do que um apelo à história da Filosofia, e a considerações dos seus principais cultores acerca da condição humana, intervieram, neste contexto, arrazoados de ordem biológica-cerebral[5] (e, nesse concreto tópico, creio que há novidade em trazê-los a debate com vista à eliminação da pobreza).
 
 Isto é, a um receituário (programático) que, com opções e interesses a promover diversos, sempre há-de ocorrer, inevitavelmente não isento de controversão, no que a medidas fiscais, de política social ou, por exemplo, de rendas básicas de cidadania diz respeito, Adela Cortina deixa-nos, com o seu livro, a perspectiva de que uma luta de tipo filosófico-político, ideológico, não chega. Averiguar do modo de potenciar cerebralmente, de acrescer à motivação moral, eis problemas que têm que ser afrontados caso queiramos combater, radicalmente (ir à raíz), a pobreza.
Neste documento, a Professora de Ética principia por desenvolver, consistentemente, o conceito que cunhou - justamente a aporofobia - quer para denunciar a sua existência nas barbas da nossa normalidade quotidiana (a banalidade do mal no desprezo, impensado/irreflectido do pobre, do mendigo, do sem-abrigo), obrigando-nos a abanar as cascatas de “senso comum” em que estamos imersos (António Hespanha), quer sacudindo a hipocrisia larvar na desculpa da ostracização do outro, por ser estrangeiro, de outra cultura – afinal, vemo-lo agora com clareza, fundamentalmente por ser pobre. Na desocultação, na reinterpretação do “novo normal” – a hospitalidade havia pertencido à condição dos deveres óbvios para com o estrangeiro, enquanto tomamos em 2018 por adquirido que deste devemos desconfiar ao extremo -, na impugnação da fácil divisão teoria-prática e na cabal demonstração de que não há nada mais prático do que uma boa teoria (e, já agora, nada mais teorético do que uma boa prática) - a criação de um delito específico de ódio ao pobre - se ancora um dos grandes méritos desta obra. Em realidade, a originalidade do termo criado por Adela Cortina, a visibilidade que deu ao pobre, e às agressões de que padece, o desenvolvimento de diversos precipitados que contendem com a aporofobia, incluindo a interpretação extensiva do termo (enquanto atitude vital), são manifestamente meritórias.
A aproximação holística – repare-se como o livro recorre à pesquisa propiciada por alguns dos maiores investigadores de áreas como a antropologia evolutiva, a psicologia, as neurociências, a sociologia, a economia – poderemos firmá-la na hodierna forma mentis do informado e conhecedor cidadão da segunda metade da segunda década do século XXI. Não só, aliás, a interdisciplinaridade se busca desde há muito, como se promove, agora, ainda, a exigência de transdisciplinaridade (Adriano Moreira). Sendo que, no caso em apreço, o que subjaz ao estudo/investigação feita nas várias disciplinas (mencionadas), o que é transversal no propósito de as convocar é contribuírem para o integral respeito pela dignidade da pessoa, de cada rosto concreto, tomando, por consequência, a eliminação da pobreza como prioridade.
De entre as disciplinas visitadas, aquela que a última década e meia, porventura, impôs, mesmo, como inevitável (a atender) foi a da área das neurociências. Muito do seu tempo, este ensaio percorre autores e obras que investigam o que se passa no nosso cérebro, sem deixar de registar a ambiguidade de que esta zona de estudos se encontra revestida - Cortina nota como o impressionante fluxo de financiamento, direcionado às neurociências, enquanto ciência-estrela deste início de séc.XXI, parece, por vezes, mais ligada a uma dimensão de marketing que promete mais resultados do que aqueles que pode alcançar, ou que tem logrado; ainda muito desconhecemos daquele quilo e duzentos gramas a que chamamos cérebro.
E, neste domínio, vai um dos pontos talvez mais assaz curiosos/desafiantes do livro: a indagação biológico-naturalista de acções que torpedeiam os pobres. De uma banda, a autora sabe, e vinca, que negligenciar o corpo, a biologia, a natura, reclamando para um terreno mais ou menos etéreo (desencarnado), exclusivamente volitivo, de escuta do daimon, de uma voz interior, de (exclusiva) formação do espírito, âmbito abarcado/tratado, em termos disciplinares, pela filosofia ou, por exemplo, por doutrinas abrangentes (maxime, religiões), pela pedagogia, psicologia ou a literatura, seria arriscar, no limite, decair em um dualismo antropológico, hoje superado. Por outro prisma (mas com o mesmo dualismo presente), à (simplista) ansiedade do espírito do tempo de matematização do mundo[6] – as mais avançadas tecnologias que nos permitem observar as ressonâncias cerebrais dar-nos-iam, igualmente, a ver, e permitir-nos-iam remediar, as maleitas do humano, estas lidas em chave exclusivamente naturalista – responde com a inevitável ambiguidade/complexidade que nos permeia: há no cérebro, e na evolução, prefigurações, tendências que são ambivalentes, há a procura do familiar, do próximo, da tribo, mas há também um gene altruísta e, seja como for, o cérebro é de natureza bio-social, plástico, modifica-se, podemos operar sobre ele.
Como referido na sumária apresentação em epígrafe, a obra de Adela Cortina intitulada Para que serve realmente a ética?, venceu o Prémio nacional de ensaio, em Espanha, no ano de 2014. Nele, a académica, buscando uma correcta antropologia, uma descrição adequada da pessoa humana, deixa-nos esta curta, mas incisiva história:
conviria recordar a lição daquele chefe indígena que contava aos seus netos como, nas pessoas, há dois lobos: o do ressentimento, da mentira e da maldade, e o da bondade, da alegria, da misericórdia e da esperança. Terminada a narração, uma das crianças perguntou-lhe: 'avô, qual dos lobos acreditas que ganhará?'. E o avô respondeu: aquele que alimentardes”.
Desta breve, mas intensa narrativa, sobejam duas leituras imediatas: apesar de todas as condicionantes sociais e culturais, “o carácter é o destino do homem”, quer dizer, mesmo que escassa, temos alguma quota-parte (nossa) no (nosso) desempenho prático, nas atitudes, comportamentos, modos de ser, correctos ou inadequados, que oferecemos aos outros; sendo assim, devemos, por consequência, cultivar, praticar, desenvolver essas mesmas características positivas. Em Morte aparente no pensamento, Peter Sloterdijk diz-nos que, justamente, a vida prática – a procura da melhoria do desempenho, o treino, a repetição com vista a alcançar melhores padrões de resultado, seja do ponto de vista físico, seja psicológico ou espiritual -, apesar de descurada pela teoria, ganha fundas razões para ser estruturante na condição humana, em o prestígio alcançado em diferentes civilizações. Os primeiros monges cristãos autodesiganavam-se atletas de Cristo.
A compreensão sobre quem somos – uma simples “superfície biológica”? (como afirma um personagem de Houellebecq); ou, como escreveu Berdjaev, a pessoa não é, como o indivíduo, um fenómeno natural, mas ordem do Espírito que se revela no destino da existência? – subjaz, como pano de fundo, a uma formulação que, creio, se situa no consenso do complexo ser uni-dual no qual o Espírito não é sem matéria – a lesão (cerebral) de Phineas Gage, sobre a qual podemos ler, entre outros, em O erro de Descartes, de António Damásio, implicou um (subsequente) pior desempenho ético daquele concreto homem; o sistema moral não funciona sem, não prescinde da natura; em linguagem religiosa, a graça supõe a natureza -, mas esta não aniquila o Espírito, a voz interior, o daimon.
No perímetro do humanismo exclusivo (e excludente), o desencantamento de um cosmos povoado de espíritos – benignos e malignos -, agentes espirituais que tudo preenchiam, com os quais o humano se confrontava, inapelavelmente, em uma miríade de etapas ou acontecimentos[7], quotidianamente, a identificação da presença de todos as sombras e fúrias no interior do sujeito, especificamente na sua mente (“a única localização de pensamentos, sentimentos, arrebatamento espiritual está no que designamos como mentes”[8]), ofereceu um substracto hermenêutico para a mutação paradigmática que deslocou o terreno do contacto com/presença do sobrenatural – por vezes, mediada, ou orientada num determinado sentido, por relicários, ladainhas, velas benzidas, mezinhas, santos…– para a pura explicação imanente (no sujeito; as mentes são humanas, limitadas e são espaços internos). É deste (último) modo que assumimos, actualmente, que as coisas são (ainda que nelas não necessariamente nos detenhamos, reflexivamente – o que nos permite tomar, com maior exactidão, a medida do pulsar nosso contemporâneo).
Em anos recentes, António Damásio destacar-se-ia, no sublinhar das limitações da abordagem cartesiana (ou, pelo menos, da leitura, pelo neurocientista, desta): as emoções não só não devem ser colocadas de parte, como são essenciais à boa decisão (razão); uma lesão cerebral pode implicar o afectar de funções/tarefas (cerebrais) que, por exemplo, contendem com o bom desempenho ético (visto, tradicionalmente, como estando em uma outra ordem – suprassensível)[9]. A identificação cérebro-mente voltava, assim, à ordem do dia.
O filósofo Miguel Real, descrevendo o estado da arte no interior desta temática, deixa-nos um acervo interessante de mistério por resolver: o que os behavioristas, cognotivistas (partem dos estudos lógico-matemáticos das ciências da informação), ou neurólogos (partem da anatomia do cérebro), para quem a paixão, a inteligência, a razão só têm uma sede – o cérebro, pois claro – não conseguem explicar ou responder, prende-se com três questões essenciais: a) a criação de valores universais; b) a criação do conhecimento sobre valores universais (a criação de conceitos universais e de meta-conhecimento sobre conceitos universais – eternidade, infinito, números, letras do alfabeto; c) a existência de conceitos sem imagem como suporte do significado (ordens, séries, conjuntos, números não naturais)[10]. A (pura) relação corpo-mente é, manifestamente, insuficiente para lhes dar resposta. “Amor” e “Deus”, para exemplificar, não encontram expressão nestas teses; enquanto criação da própria humanidade – mesmo supondo tal hipótese – existe a ideia de Deus: ideia de Deus enquanto símbolo de infinito, eternidade, omnipotência, omnisciência, perfeição. Amor que não abrange a minha mulher, o meu filho, os meus amigos – pois este amor se encontra já nos primatas –, mas amor de toda a humanidade, amor aos próprios inimigos – este amor não encontra expressão lógica: “não há expressão lógica para a frase: ‘o amor de Deus’ ”[11].
Esta criação de valores universais, de que, aliás, a Bíblia é repositório, não tem lugar na investigação neurológica. Nenhum dos métodos de carácter lógico-matemático nos permite aceder a um ponto indeterminado como Deus. “Deus seria a expressão do cálculo como do calculador”; Deus é “fora de série”, Deus é “paralelo ao mundo”, Deus é “transcendente ao mundo”, dir-nos-iam.
Esta criação de valores universais, de que, aliás, a Bíblia é repositório, não tem lugar na investigação neurológica. Nenhum dos métodos de carácter lógico-matemático nos permite aceder a um ponto indeterminado como Deus. “Deus seria a expressão do cálculo como do calculador”; Deus é “fora de série”, Deus é “paralelo ao mundo”, Deus é “transcendente ao mundo”, dir-nos-iam.
Sistematizando, poderemos dizer que, face ao problema em apreço, temos, na formulação deste autor, x) a posição monista – que é comportamentalista, fisicalista, biológica, culturalista – que afirma: “os cérebros causam a mente”. A mente identifica-se com o espírito. Na formulação – culturalista – de Popper há três dimensões – corpo, mente, espírito –, sendo, todavia, o espírito criação da mente; (aquilo) tudo o que a mente criou; xx) a posição religiosa clássica – para a qual a alma ou espírito acresce ao corpo (tese dualista ou descontinuista); xxx) a posição transcendentalista (defendida por Miguel Real): o corpo humano é a casa do espírito. Este transcende o corpo, mas não se realiza sem ele. O espírito, a existir sem corpo, tem de operar uma transfiguração: não é mais o espírito humano.
No desenvolvimento oferecido pelo filósofo português, a mente nasce contra o corpo, isto é, emerge da necessidade de prevenir o mal (a doença, a carência, a morte, o sofrimento, a incerteza quanto ao futuro, os ataques do inimigo…). O espírito forma-se para dar sentido à união corpo-mente, estabelecendo finalidades para a existência do corpo e da mente, criando a esfera dos valores morais e conceitos intemporais. Em suma, precisamos do nosso corpo. Da mente. Do espírito. O eu englobará, de acordo com esta teorização, três níveis: razão, entendimento, intelecto (logos, ratio). Quem pretender retirar desta equação o espírito tem que responder aos três desafios – a), b), c) – formulados, de modo fisicalista (e até ao momento não houve esse eureka!).
Miguel Real, ouvinte atento de Corelli e de Mozart, sabe, afinal, que aos reducionismos - passíveis de serem achados em várias áreas do saber, e, por isso, patentes, por vezes, também no campo das neurociências – falta esse espectro capaz de nos ler e explicar na emoção que sentimos perante um quadro, uma composição musical, a arte pela arte, a beleza pela beleza. A greve de fome é o inexplicável pelo cérebro tanto quanto é, já se vê, atentado contra o corpo (o suicida, paradigma da inexplicação cerebral): a greve de fome só se entende por solidariedade de valores.
Anselmo Borges, colocando-se perante o mesmo repto - o de procurar compreender a relação mente-cérebro -, reflectirá nestes termos:
 
A questão da subjectividade pertence ao núcleo da reflexão humana. Embora algumas correntes filosóficas falem da sua dissolução, penso que o sujeito é ineliminável. Argumento, mostrando que a condição de possibilidade de objectivar – no caso do Homem, de se objectivar – é o sujeito, de tal modo que, por mais que objective de si mesmo, o Homem nunca se objectivará completamente, já que continuará a ser o sujeito que (se) objectiva. Manfred Frank também afirma que nunca será possível reduzir a consciência e o espírito a processos neuronais, e isso ‘por razões de princípio’. Há uma questão de princípio: como explicam as neurociências a passagem de processos físicos inconscientes a processos mentais conscientes? ‘Não é possível substituir o saber sobre nós mesmos por um saber objectivo sobre o mundo.’ A subjectividade cai fora do mundo, não pertence ao mundo dos objectos. O ‘eu’ do autoconhecimento não é redutível àquilo a que nos referimos com nomes ou caracterizações. ‘A autoconsciência é um conhecimento único, reflexivo, no qual uma pessoa se refere conscientemente a si mesma, mas a si mesma em posição objectiva. Como poderia ela, porém, captar este eu-objecto como ela mesmo enquanto sujeito, se, antes desta apresentação objectiva, não tivesse tido uma consciência inobjectiva de si?’ Esta consciência inobjectiva quer dizer vivida, pré-reflexiva (…) A tese de neurocientistas que afirmam não haver, por detrás do alegado livre-arbítrio, senão processos neuronais, que determinam a vontade, contradiz não só a compreensão jurídica de responsabilidade, mas também a nossa própria autocompreensão: queremos ser autores racionais de mudanças no mundo – tentamos ‘tomar decisões racionais’. (…) E há esta virtude admirável: resistir moralmente à maioria. Os opositores ao Terceiro Reich ‘merecem o nosso sumo respeito’, precisamente porque foram poucos e capazes de enfrentar a morte. Aí, ‘os neurocientistas têm muito para justificar no sentido de dar conta do normativamente correcto dessas decisões a partir de processos neuronais’. Tudo o que é essencial, quando pensamos na humanidade, ‘vinculamo-lo ao pensamento da subjectividade e não à nossa representação do cérebro. São sempre pessoas, sujeitos, que consideramos como criadores de literatura, cultura ou religião’. Afinal, ‘temos cérebros e somos eus’. Daí poder formular-se o imperativo categórico de Kant nestes termos: ‘Nunca trates os seres humanos como coisas, mas sempre como sujeitos e pessoas. Se o mundo consistisse só em objectos, não haveria ninguém a quem dirigir o preceito: ‘porta-te decentemente com os outros sujeitos’[12].
 
Por sua vez, o médico e neurocientista Miguel Castelo-Branco, explicando o conceito de delusão – “algo é visível ou percebido mas não consegue perceber uma outra realidade subjacente”[13] – indaga, com expressividade, mas ainda de modo (algo) retórico:
“será que a ciência pode estabelecer a espiritualidade religiosa como uma delusão que pode ser explicada, e transformá-la na explicação perceptível de uma ilusão da qual se pode escapar? Se assim fosse, como explicar as ‘delusões’ duradouras do budismo, hinduísmo, cristianismo, islamismo e judaísmo? Elas desafiam a explicação científica, escapam ao seu reducionismo e revelam-se como transcendentais”[14].
 
A conclusão do investigador, porventura temperada pelo signo da provisoriedade, é a de que “talvez a ciência possa simplesmente explorar a fenomenologia da espiritualidade”[15]. Em seu entender, “a emergência de estados mentais a partir de relações físicas ou biológicas parecem envolver um tipo de processo que não pode (pelo menos por ora) ser extraído através de um esquema dedutivo”[16], quer dizer, “continua porém por definir como é que se opera uma transição metodológica da ‘explicação’ epifenomenal à ‘descrição’ iluminada da experiência espiritual e religiosa”[17]. Maria Filomena Molder recorda Kant: “A ciência da natureza não há-de nunca revelar-nos o interior das coisas”[18]. E, posicionando-se sobre os limites da ciência, aduz:
A ciência não conhece o limite como limiar, não tem a experiência do umbral, cria as suas próprias limitações, que nada deixam de fora (deixando tudo o resto de fora) (…) Não há, na verdade, qualquer tensão na ciência em relação àquilo que fica fora dela, pois fora dela não há nenhuma coisa que a transcenda, o exterior da ciência é impensável, irrepresentável, pela própria ciência. Nessa medida, não se podem estabelecer limites éticos à ciência ou aparecerão sempre estranhos ao universo dos seus métodos, operações e objectivos. A matemática não pode conduzir à metafísica (nem tem necessidade disso) (…) A matemática nunca nos revelará o ser interior das coisas, que lhe é heterogéneo, mas também não é isso que ela pretende. Ao invés, a metafísica instituída pela própria natureza da razão não é um resultado de uma escolha arbitrária nem de um crescimento do progresso da experiência. O anseio da razão de chegar à plenitude, de ir até ao ponto de contacto do espaço cheio da experiência com o espaço vazio do qual nada podemos saber, conduz-nos aos limites e àquilo que os exorbita (as ideias transcendentais), e isso implica-nos até à medula[19].
 
Superação de reducionismos, dizíamos[20]. Só atenta/considerada/levada em linha de conta esta voz interior é que se completa e complementa o entendimento do modo como o gene altruísta foi seleccionado – quer dizer, como a evolução implicou os grupos mais coesos e solidários interiormente: se o egoísta, num duelo, poderia mostrar-se mais adaptado e fazer sucumbir o altruísta, não assim já quando saímos do exemplo académico e observamos o real e gregário humano, que só em grupo se dá, e em grupo sobrevive -, mas, num gesto de derradeira liberdade, o (ao grupo) supera ainda, na medida em que, pelo menos em alguns que frequentam a humana condição, a inovação moral, a criação moral ou, mais prosaicamente na maioria dos casos em que isto sucede, a recusa da submissão grupal (seja nas piores das praxes, seja na renúncia a aceitar a condenação de inocentes, etc.) foi, e é, uma realidade. A história é a melhor aliada da rejeição da compreensão da consciência moral em termos puramente sociológicos (a voz da consciência mais não seria, para certo entendimento, do que as regras da sociedade; ora, Jesus de Nazaré disse que o Sábado era para o Homem e não o Homem para o Sábado; exortou os que nunca pecaram a apedrejar a apanhada em adultério; condenou os vendilhões do templo; rompeu com a família e, para os que o lêem/interpretam como o Cristo de Deus, com a própria morte – não menor rompimento cultural (Joaquim Carreira das Neves, em “Deus existe? Uma viagem pelas religiões”). Podemos estar a viver o século das reputações e não o das consciências, mas há um fundo incorruptível em nós – considerará a autora. A consciência moral, na pluralidade assim desenhada, poderá, até, incluir um cálculo prudencial, integrar o conhecimento das regras de grupo e o castigo pela subversão das mesmas, sublinhando a importância da reputação (na sua formatação), mas implicará ainda o reconhecimento de uma voz interior, liberdade mesmo que condicionada; responsabilidade, dignidade.
De resto, numa obra que é ensejo também, como frisámos, para equacionar grandes dilemas ético-filosóficos hoje presentes em nossas sociedades – natureza do cérebro, trans-humanismo vs Bio conservadorismo, livre-arbítrio vs determinismo, promoção do pobre vs protecção da sociedade, caridade vs justiça, etc. -, sempre diríamos/acrescentaríamos, em tal contexto, que a natureza da referida voz interior é susceptível, depois, por certo, de diversas interpretações/leituras da realidade (da mesma). Quando Adela Cortina escreve que, para se garantir a inexistência de perjúrio, (outrora) se remetia para Deus (a pessoa, e a ordem social, assentavam na garantia da não violação dos seus preceitos, nomeadamente, em ambientes judaico-cristãos, os codificados sob o Decálogo; e remetendo a um Deus que puniria comportamentos desse jaez – nas Preces, de Flannery O’Connor: Deus, tira-nos o Inferno, e nós transformamos a Terra num Inferno, potencialmente em continuidade genética com o Se Deus está morto, tudo é permitido, atribuído a Dostoievsky, presente em Os irmãos Karamazov, mesmo que em paráfrase; e, todavia, José Tolentino de Mendonça sugere que o cristianismo está muito para lá de uma máquina de fabricar castigos e recompensas: “amar sem ser por nada”),e agora ficamos apenas remetidos à consciência individual (de cada um), talvez valha a pena matizar/problematizar. Desde logo, com o teólogo Andrés Torres Queiruga, em A teologia, a partir de «o Deus que cria por amor», in Anselmo Borges (org.), Deus ainda tem futuro?, pp .263, na medida em que este assinala que o que “profeta descobre não é uma realidade externa ou sobreposta, mas a única realidade humana (e do mundo); a especificidade do seu contributo não é acrescentar-lhe um suplemento «sobrenatural», mas vê-la na sua integridade e profundidade, ao descobri-la fundada e animada pelo Deus que cria salva”, “vê-a não com um órgão estranho ou mediante um intervencionismo milagroso, mas com uma razão humana que, criada e habitada também ela por Deus, consegue captar a sua presença”, e precisada pelo teólogo Tomás Halík, em termos como os que se seguem, em Diante de ti. Os meus caminhos, pp.19-23:
os místicos, nomeadamente o meu amado Mestre Eckhart, afirmam uma coisa imensamente profunda e ao mesmo tempo imensamente perigosa: Deus e eu somos um só. Sim, esta perspectiva pode ser perigosaQuando Deus se funde com o nosso eu, de modo a trocarmos Deus pelo nosso eu, perdemos a nossa alma. Ao separarmo-lo estritamente de nós próprios e começarmos a ver Deus como algo completamente exterior e separado da nossa alma, perdemos o Deus vivo, substituindo-o por um fetiche, puro objecto, uma «coisa entre as coisas»É tarefa constante da teologia mostrar esta inoculação dinâmica da imanência e da transcendênciaTalvez possamos dizer sobre a fusão do nosso eu com Deus aquilo que disse o Concílio de Calcedónia sobre a relação da humanidade e divindade em Cristo: são inseparáveis e, mesmo assim, não estão misturadasSe levo a sério o segredo da Encarnação, coração da fé cristã, se o entendo não só como um acontecimento acidental do passado, mas, sim, como a chave para a compreensão de todo o drama da história da salvação, história da relação entre Deus e os homens, então, na verdadenão posso pensar a humanidade e a divindade em separado. Ao dizer «eu», digo o homem sem Deus não é inteiro”. 
Este situar do problema da consciência moral recorrendo, prima facie, à natura permite ajudar a explicar ou compreender, como vimos de dizer, tendências que no indivíduo existem que podem contribuir para práticas egoístas da sua parte (e, nestas, as de seguir, senão bajular, os melhor situados, e desprezar os que se encontram em pior situação) e, nesta medida, evitar uma abordagem estritamente de tipo moralista; mas, ainda assim, a ensaísta, ao convocar a voz interior ao problema, implica-nos numa liberdade (recusa do determinismo), mesmo que condicionada, e, portanto, não deixa de responsabilizar o sujeito (no que significa, igualmente, respeitar, mesmo que com palavras de censura, ou, in limine, uma punição penal, a sua dignidade). Mas a complexidade do problema remete, outrossim, para uma dimensão social (complexo biológico-pessoal-social): é que se o cérebro é bio-social, a parte que na consciência moral há de gene altruísta obediente ao grupo, devia levar-nos a conceber como norma do grupo a rejeição da estupidez e do vício, sendo que maltratar os débeis costuma combinar ambas as características. Esta dimensão social (societária), no que à Educação diz respeito, implicaria, seja na apropriação familiar (privada) da mesma, seja no que à acepção, nesta, de Instrução importa, de criar uma ecologia favorável a reforçar os mecanismos de empatia, respeito pela igual dignidade das pessoas.
Temos que contar com o que os estudos sobre o cérebro nos dizem acerca do funcionamento deste para ajudar a explicar os comportamentos; mas notamos como há uma ambiguidade e complexidade no humano que faz com que mesmo com as tecnologias mais avançadas olhemos para o cérebro e não possamos saber exactamente o que vai resultar em comportamento da pessoa ao longo de anos (apesar dos Relatórios Minoritários, de Philip K.Dick ou de Steven Spielberg, que lemos, ou que vemos no cinema, respectivamente). Ah (!), há uma voz que escapa à captura, e é por isso que nem juntando todos os Frankenstein, agora em versão benevolente, pensando que, para a moral, vale a engenharia genética, a intervenção biomédica, se obterão resultados pretendidos. Não podemos poupar-nos ao esforço, à paciência, à dedicação, ao empenho de procurar formar, da melhor maneira, o carácter daqueles que nos são acometidos (não há o comprimido para tornar alguém boa pessoa e, com erros pelo meio, vamos ter que continuar a formular estratégias sem recurso a intervenções biomédicas para o alcançar). E dizer isto é um outro modo, igualmente, de percebermos como muito dificilmente em moral poderemos falar, sem extrema prudência, de progresso (um substantivo a guardar, sobretudo, para a técnica). Essas intervenções poderão acrescentar cognição? Pois um dos problemas do nosso tempo não é mesmo a inteligência separar-se da consciência? (Yuval Harari)
Claro que se pode, neste entretanto, fazer realçar como partindo do pressuposto de que a educação falhou na tentativa de suplantar tendências aporófobas cerebrais e sociais – e, com efeito, foi desse pressuposto que se partiu, neste livro, até pela empírica constatação, e enérgica denúncia, da situação de aporofobia em nossas sociedades -, acabámos, afinal, por (presumida/concluída) ausência de alternativas, acabar de novo a identificar a educação como…solução. Seria, desta sorte, um trabalho de Sísifo, capaz de personificar e cristalizar um determinado significado da condição humana: o homem (elevado) veio para “cair e levantar-se, sorrindo” (Agostinho da Silva, Sete cartas a um jovem filósofo). Não desistir, aperfeiçoar, congeminar uma outra, e melhor educação (ou paideia), ou favorecer aqueles tipos de educação, conjugação de razão e sentimentos, destacando as emoções positivas e eliminando as negativas, que se mostraram mais frutíferos – para o que se pretende, neste âmbito – ao longo dos tempos (atualizando com os acquis do nosso tempo, mas face ao humano que mantém muito de outrora)[21].
Talvez se possa dizer que, em um livro em que o desafio de responder aos grandes dilemas da actualidade se coloca com intensa acuidade, e conhecida, no Velho Continente, na lição de Adriano Moreira, em A circunstância do estado exíguo, a tripla cidadania que nos incumbe – nacional, europeia e mundial – falta Europa (sua encruzilhada institucional, os problemas de paz e guerra que germina, na dimensão política potencialmente lacunar, ou excessiva, consoante as visões divergentes nesta – no caso dos debates públicos em Portugal, nos anos mais recentes, vários dos mais relevantes contributos versaram esta matéria, de Portugal na queda da Europa, de Viriato Soromenho-Marques a João Ferreira do Amaral, em Porque devemos sair do euro?. passando por Vítor Bento, Euro forte, euro fraco ou José Medeiros Ferreira, Não há mapa cor-de-rosa. A história (mal) dita da integração europeia). Sobre esta, um recente ensaio controverso – e com uma postura bem diferente da de Adela Cortina, sobre a vinda de estrangeiros para a Europa; e identifico-me com a visão da autora; se bem que nas propostas finais, relativamente à questão da imigração, haja claros pontos de convergência entre Cortina e Murray -, da autoria de Douglas Murray, A estranha morte da Europa, o autor afirma que a) a narrativa que moldou o continente europeu foi o cristianismo; b) hoje, a fé (cristã) é muito débil na Europa; c) não se inventa ou constrói um sistema (de crenças) alternativo ao cristianismo em poucos anos; d) nem, tão pouco, haveria garantia alguma de que, caso fosse logrado, seria melhor para o humano (do que é a mundividência cristã); e) logo, este sistema de crenças devia ser apoiado mesmo por quem não comunga os seus pressupostos, digamos, metafísicos.
Um dos axiomas, creio que assim o poderemos dizer, de Aporofobia é a defesa da dignidade da pessoa. Como reconhece Jurgen Habermas, em Um ensaio sobre a Constituição europeia, fazendo a genealogia do conceito[22], este, no que concerne ao respeito não só, ou não já (apenas) à espécie humana, mas a cada membro concreto da mesma, deve muito à tradição judaico-cristã (e aos debates trinitários e à apresentação de cada um no Juízo Final[23]). Segundo George Steiner, a dignidade da pessoa é, aliás, um “preconceito religioso”. E Peter Singer fala, em Ética Prática, de especismo.
Se se perde a crença de suporte de um carácter sagrado (criado à imagem e semelhança de Deus) de que se reveste o humano (Habermas fala no explosivo liame entre moral e política, presente nos direitos humanos, via dignidade da pessoa) por muito que o queiramos preservar, consegui-lo-emos? (e, por outro lado, evidentemente, não se pode obrigar ninguém a acreditar em um tal alicerce). O respeito pela dignidade da pessoa será, já hoje, e virá a ser no futuro uma verdade evidente, óbvia, um axioma?
E, mesmo que concordemos em falar em dignidade, terá ela o mesmo conteúdo observada da Europa (ou do que se chamou Ocidente), ou em outra constelação de valores, noutro continente ou civilização? Poderemos saber os valores que deveríamos ter, se não tivéssemos aqueles que temos? Não estamos imersos em um lebenswelt (pré-reflexivo), óculos que nos marcam e condicionam? Não é a razão permeada culturalmente? Não é a nossa defesa da universalidade uma perspectiva…particular? Escreve David Bentley-Hart, em Ilusões dos Ateus. A revolução cristã e os seus críticos da moda, p.256:
 
“Sendo nós pessoas modernas de inclinação secularista, que acreditam que as raízes da sua solicitude pela igualdade humana não chegam a um nível mais profundo do terreno da história do que a assim chamada Idade do Iluminismo, tendemos com frequência a imaginar que os nossos valores nada mais são do que impulsos racionais de qualquer consciência sã livre de preconceitos. Mas isso é absurdo. Não existe algo como uma moralidade «iluminada», se por tal se quiser dizer uma ética escrita no tecido da nossa natureza, que qualquer pessoa pode descobrir simplesmente pela luz da razão desinteressada. Há, antes, tradições morais, modeladas por eventos, ideias, inspirações e experiências; e nenhuma moralidade está privada das contingências de histórias culturais particulares. Seja o que for que julguemos querer dizer por «igualdade» humana, só somos capazes de presumir o peso moral de uma tal noção porque, a um nível muito mais profundo dos estratos históricos da nossa comum consciência ocidental, retemos a memória de um momento inesperado de despertar espiritual, uma resposta encantada e maravilhada a um único evento histórico: a proclamação da Páscoa.
 
Ou, dito de outro modo por Jurgen Habermas, citado por Manuel Fraijó, em Avatares de la creencia en Dios, pp.185:
 
O cristianismo representa para a auto-compreensão normativa da Modernidade não apenas uma forma precursora ou um catalisador. O universalismo igualitário, do qual procedem as ideias de liberdade e convivência solidária, assim como as formas de vida autónoma e emancipação moral da consciência individual, direitos humanos e democracia, é, diretamente, uma herança da ética judia de justiça e da ética cristã do amor. Inalterada na sua substância, esta herança foi assimilada sucessivamente de maneira crítica e interpretada de novo. Qualquer outra coisa seria palavreado pós-moderno.

Pedro Miranda

(publicado no jornal I)

[1] Yuval Noah Harari, em Homo Deus, sobre como, hodiernamente, se encara a procura da felicidade: “a solução bioquímica consiste em desenvolver produtos e tratamentos que proporcionem aos humanos um sem fim de sensações prazenteiras, de modo a que nunca nos faltem. A sugestão de Buda era a de reduzir a nossa ânsia de sensações agradáveis e não permitir que estas controlem a nossa vida (…) Hoje em dia, a humanidade está muito mais interessada na solução bioquímica. Não importa o que digam os monges nos Himalaias, ou os filósofos nas suas torres de marfim; para o gigante capitalista, a felicidade é prazer. Ponto. (…) Tanto a investigação científica como a actividade económica orientam-se a este fim, e cada ano produzem-se melhores analgésicos, novos sabores de gelados, colchões mais cómodos e jogos mais aditivos para os nossos smartphones, de modo a que não padeçamos de nem um só instante de tédio enquanto esperamos o autocarro” (p.55). Contudo, gelados e telefones inteligentes não bastarão e, no limite, será a remodelação do homo sapiens que se visará (a ascensão a deuses), através de: a) engenharia biológica (não haveria razão, segundo este posicionamento, para que o sapiens seja a última estação); a engenharia cyborg (fusão do corpo orgânico com dispositivos não orgânicos, como mãos biónicas, olhos artificiais, ou milhões de nanorrobots, que navegarão pela nossa torrente sanguínea, diagnosticarão problemas e repararão danos: “um cyborg poderia existir em numerosos lugares ao mesmo tempo. Uma médica cyborg poderia realizar operações cirúrgicas de emergência em Tóquio, em Chicago e numa estação espacial em Marte, sem sair do seu escritório em Estocolmo. Só necessitaria de uma conexão rápida à internet, e uns quantos pares de olhos e mãos biónicas. Mas, pensando bem, porquê pares? Porque não quartetos? De facto, inclusivamente estes são realmente supérfluos. Por que é que um médico cyborg teria que suster na mão um bisturi de cirurgião quando poderia conectar a sua mente diretamente ao instrumento. Talvez isto pareça ficção científica, mas já é uma realidade. Recentemente, uns monos aprenderam a controlar mãos e pés biónicos não conectados ao seu corpo mediante elétrodos implantados no seu cérebro. Pacientes impossibilitados são capazes de mover extremidades biónicas ou de utilizar computadores só com o poder da mente. Se uma pessoa quiser, já pode controlar à distância os dispositivos eléctricos de sua casa utilizando um capacete eléctrico que «lê a mente». O uso do capacete não requere implantes cerebrais. Funciona ao ler os sinais eléctricos que passam através do couro cabeludo. Se alguém quiser acender a luz da cozinha, coloca o capacete, imagina algum sinal mental pré-programado (por exemplo, que a sua mão direita se move) e o interruptor aciona-se. Podem comprar-se estes capacetes pela internet por apenas 400 euros. No início de 2015, a várias centenas de trabalhadores do centro de alta tecnologia Epicenter (Estocolmo) foram implantados microchips nas mãos. Os chips têm o tamanho aproximado de um grão de arroz e armazenam informação personalizada de segurança que permite aos trabalhadores abrir portas e usar fotocopiadoras com um simples movimento de mão. Esperam que em breve possam efectuar pagamentos da mesma forma (…) «na atualidade (…) necessitamos de códigos, pin, contra-senhas: não seria mais fácil simplesmente tocar com a mão?»”, pp.57-58); c) engenharia de seres não orgânicos (produção de seres totalmente não orgânicos: “as redes neurais serão substituídas por programas informáticos com capacidade de navegar tanto por mundos virtuais como não virtuais, livres das limitações da química orgânica. Depois de quatro mil anos a vagar dentro do reino dos compostos orgânicos, a vida saltará para a imensidade do reino inorgânico e adoptará formas que não podemos imaginar nem sequer nos nossos sonhos mais fantásticos” (p.58). Em realidade, não é possível imaginar-se, agora, com a mente e os desejos que possuímos como será a vida de quem possuirá uma outra mente e desejos, mas podemos concluir que quando e se a tecnologia nos permita remodelar a mente humana o homo sapiens desaparecerá, a história humana chegará ao seu fim e iniciar-se-á um processo completamente novo (p.59). As mudanças surgem a uma velocidade inaudita e nada parece poder deter tal aceleração (nem a morte), e para colocar o pé no travão necessário seria saber onde o travão se encontra. De acordo com Noah Harari, a nova ordem – felicidade, divindade, imortalidade – serão só para alguns, e nos bairros mais sórdidos permanecerá a eterna luta com a pobreza, a doença e a violência. E mesmo a demanda daqueles novos valores está longe de ser um projecto com a certeza de êxito. Não podemos prever, com certeza, mesmo olhando para o passado. Este, de resto, serve para verificarmos o pouco natural, óbvio, inevitável do nosso estádio: estamos assim, numa dada etapa, mas se olharmos para trás com atenção, poderíamos ter seguido outras linhas, encontrarmo-nos em estações diversas desta, não era inevitável nem óbvio que fossemos assim. Olhar para trás permitir-nos-á, pois, propiciar caminhos diversos da tendência que se encontra agora à nossa frente. Enunciar um caminho, um diagnóstico cultural – como o de uma nova ordem que se vê despontar – surge, ultima ratio, como denúncia dessa mesma ordem, ou, quando menos, de consequências (nefastas) que pode adquirir o novo horizonte.  Num paradoxo tremendo, levar a apologia do humanismo (o culto da humanidade), que nos tem guiado nos últimos 300 anos, até ao seu extremo (alçar, à letra, o humano a deus, capaz de se criar e modificar, por completo), poderá significar o fim desse mesmo humanismo (porque poderia já não ser do humano que falaríamos). Aqui a nuance face a Sloterdijk: onde este vê na falência do humanismo – ler amansa a alma – a necessidade de antropotécnicas, Harari vê nas antropotécnicas o culminar e o apogeu do humanismo que nesse mesmo limite se negaria (a si mesmo, porque com as antropotécnicas mais arrojadas, e até técnicas não ligadas já ao antropos, superaria o humano).
[2] David Bentley HartIlusões dos ateus. A Revolução Cristã e os seus adversários da moda, Frente e Verso, 2016, pp.9-10 e 177-18:O meu objectivo principal foi o de chamar a atenção para a peculiar e radical natureza da nova fé naquele contexto: como foi enorme a transformação do pensamento, da sensibilidade, cultura, moralidade e imaginação espiritual introduzida pelo Cristianismo na era da Roma pagãa libertação que ofereceu em relação ao fatalismoao desespero cósmico e ao terror em relação às potências ocultasa imensa dignidade que conferiu à pessoa humanaa sua subversão dos aspectos mais cruéis da sociedade pagãa sua (infelizmente apenas parcial) desmistificação do poder políticoa sua capacidade de criar uma comunidade moral onde nunca antes tinha existido nenhumae a sua elevação da caridade prática sobre todas as outras virtudes (...) o meu argumento consiste, antes de mais, em afirmar que entre todas as muitas grandes transições que assinalaram a evolução da civilização ocidental, quer tenham sido convulsivas ou espirituais, houve apenas uma - o triunfo do Cristianismo - que pode ser apelidada no seu sentido mais pleno como uma «revolução»: uma revisão de amplitude verdadeiramente grande, e que se prolongou no tempo, da visão prevalecente que a humanidade tinha da realidadede tal modo difusa na sua influência e vasta nas suas consequências a ponto de ter de facto dado origem a uma nova concepção do mundo, da história, da natureza humana, do tempo e do bem moral. No meu entender, devo acrescentar, tratou-se de um evento incomensuravelmente mais admirável quanto à sua criatividade cultural e mais exaltante na sua possibilidade moral do que qualquer outro movimento de espírito, vontade, imaginação, aspiração ou realização na história do Ocidente. E estou convencido de que, considerando a radical diferença entre o Cristianismo e a cultura que ele lenta e inexoravelmente substituiu, a vitória que acabou por obter foi um evento de uma tal improbabilidade ao ponto de colocar em causa os próprios limites da nossa compreensão da causalidade histórica [pp.9-10] (...) Para lá das suas observâncias rituais mais repugnantes [entre as quais a oferta de sacrifício de pessoas aos deuses], as religiões do Império [Romano] eram desprezíveis - a um grau muito elevado - principalmente pelo que não faziam, e de facto nunca consideraram que valia a pena ser feito (...) O culto pagão nunca foi mais tolerante do que na sua tolerância - sem quaisquer rebates de consciência - da pobreza, da doença, fome e falta de abrigo; dos espectáculos de gladiadores, crucificações, exposição de nascituros indesejados, ou da execução  pública de prisioneiros de guerra ou criminosos em ocasiões festivas; na realidade, de quase todas as formas imagináveis de tirania, injustiça, depravação ou crueldadeAs seitas autóctones do mundo romano simplesmente não faziam qualquer ligação entre devoção religiosa e algo de vagamente semelhante a uma moral social desenvolvida. No máximo, a sua benignidade podia chegar ao ponto de oferecer hospedagem aos peregrinos ou partilhar refeições sacrificiais com os seus devotos; contudo, mesmo esses magros serviços eram raros e de natureza esporádica, e nunca corresponderam a nada como uma obrigação religiosa de cuidar dos que sofrem, alimentar os famintos ou visitar os prisioneiros. E nem sequer a autoridade do sagrado, na sociedade pagã, servia de alguma forma para mitigar a brutalidade da sociedade no seu todo - muito pelo contrário, na realidade - e seria difícil exagerar essa brutalidade (...) Tácito relata a história do assassínio de Pedânio Secundo em 61 d.C. por um dos seus próprios escravos, o que levou à aplicação do antigo costume de em tais casos dar a morte a todos os escravos da casa - um costume que implicou, nesta ocasião, a execução de aproximadamente quatrocentos homens, mulheres e crianças. É de louvar que tenha havido um considerável protesto público contra a morte de tantos inocentes, mas o Senado concluiu que os antigos hábitos deviam ser respeitados, até pelo exemplo que a matança iria constituir, e em nenhum momento do debate, ao que parece, foi invocado qualquer conceito de justiça divina ou de virtude espiritual (...) o que deve ser sublinhado é que a ordem social que era servida e sustentada pelos cultos imperiais tinha por base, não de modo acidental, mas essencial, uma crueldade difusa, implacável e polimorfa, e que rebelar-se contra tais cultos significava rebelar-se contra essa ordem (...) Foi somente porque aqueles espectáculos [luta de gladiadores] se opunham, por sua natureza, à fé cristã e eram contrários às normas da Igreja que eles foram finalmente suprimidos. Em si mesmo, isto marca uma enorme e irreconciliável diferença (e, necessariamente, um antagonismo) entre sensibilidades morais do Cristianismo e aquelas das religiões que este substituiu. Não nos deveria então surpreender nem perturbar demasiado a descoberta de que os cristãos de finais do séc.IV não estavam inclinados a concordar com Símaco que todos os caminhos religiosos conduzem à mesma verdade, dado que muitos desses caminhos podiam ser percorridos com bastante sucesso sem nunca se olhar para o lado para ligar as feridas de um estrangeiro em sofrimento, nem se interromper a marcha em sobressalto diante de bebés indesejados abandonados para serem devorados pelos animais selvagens, ou diante das atrocidades na arena ou das execuções em massa. Se, tal como os cristãos acreditavam, Deus Se tinha revelado como amor omnipotente, e se a autêntica obediência a Deus exigia uma vida de heroísmo moral, em serviço até a «um destes mais pequeninos», como é que os cristãos haveriam de olhar para a vida religiosa da maior parte dos pagãos, a não ser como uma coincidência bastante escandalosa de servilismo espiritual e insensibilidade moral? E como é que deveriam ter considerado os deuses de cujo poder Cristo os tinha libertado, a não ser como espíritos de conflito, ignorância, caos, destino e violência elementar, e cujos cultos e devoções estavam muito abaixo da dignidade de criaturas modelada à divina imagem? No fim de contas, teremos entendido muito pouco acerca da cristianização do Império Romano se a considerarmos apenas como a história da substituição de um conjunto de devoções espirituais por outro conjunto de devoções espirituais, devido à «exclusividade» intransigente e cega destas últimas, ou se simplesmente imaginamos (tal como as pessoas modernas são particularmente propensas) que a religião é, por definição, uma questão de convicção «privada» e não uma ordem cultural, social, espiritual e política de valores, autoridades e ideais. O Cristianismo era, sem qualquer ambiguidade, uma revolta cósmica (...) [A emergência do Cristianismo resultou] na invenção de um universo inteiramente novo de possibilidades humanas, morais, sociais, intelectuais, culturais e religiosas. E quer estas novas potencialidades se tenham concretizado de imediato ou somente no decurso de séculos, elas nunca se teriam de todo apresentado à experiência humana se a antiga ordem não tivesse passado e se os deuses que a ela presidiam, lhe concediam uma espécie de brilho espiritual e lhe emprestavam uma forma e estrutura mítica, não tivessem sido reduzidos a um estatuto subordinado. A antiga e a nova religião representavam duas visões essencialmente incompatíveis da ordem sagrada e do bem humano. Elas não podiam coexistir indefinidamente e só um imbecil moral poderá lamentar sem reservas que das duas tenha sobrevivido a que sobreviveu. Os antigos deuses não inspiraram - e, por sua natureza, não o podiam fazer - a construção de hospitais e abrigos, nem fizeram do dar de comer aos famintos e dar de vestir aos nus um caminho de iluminação espiritual, nem promoveram um qualquer conceito coerente de dignidade intrínseca a cada ser humano; eles nunca poderiam ter ensinado os seus seguidores a pensar na caridade como a mais elevada das virtudes nem como uma forma de união com o divino (...) Deve também ser lembrado que os cristãos do Império não eram nenhuma tribo estrangeira que tivesse chegado ao mundo pagão a certo momento, carregada de espadas e de preconceitos colonialistas, e então se tivesse dedicado a erradicar sistematicamente as religiões autóctones de um povo alheio. Os deuses por eles rejeitados tinham também sido os seus deuses, os seus senhores de tempos passados. Se eles vieram a concluir que estes deuses não mereciam reverência e que os cultos destes deuses eram inerentemente irreconciliáveis com aquilo que a história de Cristo tinha neles despertado, seria demasiada presunção da nossa parte querer repreendê-los pela sua «exclusividade» ou «fanatismo».
 
[3] Apud. Ibidem.
[4] Ibidem.
[5] “Altruísmo define-se como o acto de fazer bem ao próximo, mesmo que isso implique um risco ou um custo para nós próprios. Somos intuitivamente egoístas, mas capazes de cooperar após reflexão deliberada, ou somos intuitivamente cooperantes, mas egoístas após deliberarmos? É a eterna questão que opõe o filósofo inglês do séc.XVII, Thomas Hobbes, ao suiço, do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau. Para tirar isso a limpo, investigadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, puseram mais de mil pessoas a jogar, umas online, outras em laboratórios. A situação era a seguinte: está a jogar com outras três pessoas que não conhece (e que pode nunca vir a conhecer), e cada um tem uma quantia em dinheiro, para começar. É convidado a contribuir com uma quantia em dinheiro, para um bolo comum, que será depois duplicado e distribuído por cada participante. Numa primeira análise, concluiu-se que as pessoas que demoravam menos de dez segundos a decidir quanto davam desembolsavam cerca de 15% mais do que as que tardavam mais a fazer contas à vida. Num segundo estudo, metade dos voluntários foi obrigado a demorar mais de dez segundos para tomar uma decisão, enquanto a outra metade teve de jogar em menos de dez segundos. Novamente os pensadores se revelaram mais sovinas. Ou seja, o primeiro impulso é cooperar, em vez de competir. Resultados semelhantes foram detectados em crianças pequenas, e até os primatas não humanos mostram sinais de altruísmo. Porque isso é vantajoso. Darwin, que lhe chamava benevolência, escreveu que é "uma parte essencial dos instintos sociais". Trabalhos de neurocientistas mostram que quando agimos de forma altruísta, o nosso cérebro é activado nas regiões responsáveis pelo prazer e pela recompensa, tal como acontece quando comemos chocolate. Num estudo, publicado em 2012 na publicação científica Nature Neuroscience, feito em macacos, relata-se que sucedeu isso mesmo: foram acionados circuitos cerebrais de recompensa depois de terem dado alguma coisa a outro macaco. Sublinhe-se: depois de terem oferecido, não de terem recebido. A experiência consistiu em pôr macacos a decidir se davam um pedaço de sumo de fruta a outro macaco. Em primeiro lugar, os animais ficavam com o sumo para eles próprios. Mas se tinham a hipótese de recompensar um membro do grupo, mesmo sem que isso lhes trouxesse qualquer benefício, a opção era favorecer o outro. Ou seja, os macacos escolhem fazer o bem, mesmo sem levar nada em troca. Neste trabalho, feito por um cientista do Instituto para as Ciências do Cérebro da Universidade de Duke, Michael Platt, também se concluiu que os macacos preferiam premiar um animal que conheciam, em detrimento de um desconhecido, e ainda que eram mais benevolentes relativamente a um animal com um estatuto social inferior (...) E ainda que não havia interesse em oferecer um sumo de fruta a um objecto. Esta recompensa, sentida em partes específicas do cérebro, num processo de empatia, pode ter sido favorecido durante a evolução nos primatas, de forma a permitir comportamentos altruístas. "Pode ter evoluído originalmente de forma a promover que cada um tratasse bem os elementos da sua família, uma vez que partilham os mesmos genes, e mais tarde estendeu-se aos amigos, de forma a gerar benefícios recíprocos", diz Michael Platt, citado num artigo publicado na revista Psychology Today. Neste estudo, os cientistas, que ligaram elétrodos ao cérebro dos macacos, enquanto estes tomavam as suas decisões de dar ou não dar, identificaram o córtex cingulado como a região onde se origina a empatia. De facto, o altruísmo parece estar "implantado no cérebro", concluem os cientistas do Laboratório de Neuroimagem e Neuromodelação da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (...) É habitual dizer-se que os mauzões, os rufias, têm mais sorte com as mulheres. Ou, por outro lado, que elas devem maltratar os pretendentes, se os querem manter por perto. Nada mais errado. Estudos recentes mostram que o altruísmo pode ser um factor determinante no momento da escolha de um parceiro. Num estudo publicado na revista British Journal of Psychology, conclui-se que a generosidade está directamente relacionada com o sucesso na actividade sexual (...) O que levará uma pessoa a doar um órgão a um perfeito estranho? A resposta pode estar na amígdala - um grupo de neurónios, agrupados em esfera, que regula os comportamentos sexuais e a agressividade. Pessoas classificadas como superaltruístas tem a amígdala 8% maior do que a média...” (Sara SáVisão nº1238, 24/11 a 30/11 de 2016. pp.70-74)
 
[6] Rob Riemen, O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, pp.63-70: 'Atrevo-me a sugerir que as grandes questões da vida, questões acerca da tragédia, do sofrimento, da verdadeira felicidade e do significado das nossas vidas, nunca serão resolvidas pela ciência nem pela tecnologiaWittgenstein tem razão: a ciência e o mistério da vida são dois mundos diferentes. Claro que a ciência e a tecnologia são impressionantes, frutos de grande coragem intelectual e em muitos aspectos uma bênção para a humanidade. Sem a ciência médica eu, que agora sou um velho, não estaria aqui sentado. Mas é preciso compreender que o pensamento científico nos trouxe também uma caixa de Pandora. E não, não estou me refiro à destruição que a tecnologia também pode causar. Não estou a falar da tecnologia. Refiro-me a algo mais fundamental, algo que penetra muito mais fundo as nossas vidas, no nosso mundo, sem que nos demos conta disso (...)A ciência privou-nos da verdade (...) Riem-se, e entendo isso, entendo muito bem. Parece loucuraA ciência, a ciência que quer pura e simplesmente permitir-nos conhecer a verdade, para a qual nada pode existir além da verdade, como poderia privar-nos da verdade?! Porém é o que sucede. Era isso que Wittgenstein queria que compreendêssemos, mas infelizmente só algumas pessoas compreenderam. Escutaram uma palestra, e não desejo fazer outra palestra, e porém, Verzeihung bitte, es ist wichtig [Atenção, por favor, isto é importante], isto é mesmo muito importanteA verdade científica nunca é mais que a realidade, os factos, o que podemos observar, tocar e calcularÉ a razão, o racional, mas a razão [positivista] jamais pode determinar o valor, não tem significadoA razão [positivista] pode descrever, pode informar-nos acerca dos factos, mas não pode dizer-nos qual é o significado moral desses factos, porque não sabe o que é o bem ou o que é o malA ciência, e é este o seu maior dom, permite-nos conhecer a natureza, mas não o espírito. A ciência tem de trabalhar com teorias e definições, mas o espírito humano não pode ser aprisionado em teorias e definições, e tampouco a nossa ordem moral, o reconhecimento do que é, ou não, uma sociedade justaEsse conhecimento pertence a uma verdade diferente, uma verdade que a ciência não pode conhecer porque é uma verdade metafísica. Talvez por inveja, motivada pelo facto de haver outra verdade superior, a ciência tenha tentado privar-nos da verdade, fazer-nos esquecê-la, fazer-nos acreditar que tudo o que existe é científico, de contrário não será importante. Uma mentira, senhoras e senhores. Uma grande e perigosa mentira! Uma mentira em que infelizmente todos passámos a acreditar e à qual nos submetemos. Para nós só os factos contam; apaixonámo-nos por dados e informação, e como já não podemos conhecer o verdadeiro significado, o único valor que ainda reconhecemos é o valor económico: Quanto podemos cobrar? Quanto renderá? De modo que tudo tem de ser útil, instrumental, 'temos de conseguir ganhar alguma coisa com isto', porque de contrário de nada nos serve. A ciência tornou-se uma ideologia, uma ideia, uma ilusão, na qual estamos enredados. Enredados porque no nosso mundo só as coisas materiais existem, tudo se transformou em dinheiro, tudo é calculável e redutível a um número. Compreendem? Compreendem as consequências, o terrível resultado do facto de com o desaparecimento da realidade metafísica perderemos todas as qualidades, a qualidade de vida, porque a qualidade é a expressão de um valor espiritual, um valor que já não reconhecemos, já não desejamos reconhecer? O mundo, o futuro, como acabam de nos dizer, torna-se 'exponencial'. Os desenvolvimentos tecnológicos, a informação, aumentarão exponencialmente e transformarão o mundo. Sem dúvida. Mas sabem o que aumentará ex-po-nen-ci-al-men-te? A estupidez! A ciência oferece-nos conhecimento, mas nem o mais ténue auto-conhecimento. Pascal, que, não esqueçam, era matemático, estava certo: Le coeur a ses raisons que la raison ne connaît pointO coração tem razões que a razão desconhece. O novo conhecimento, com o auxílio do conhecimento científico, tudo quer tornar sagaz. Mas já ninguém procura a sabedoria e a ciência jamais a encontrará. Todo o ensino superior tem de ser científico, o que significa, cheio de teorias, definições e demonstrações. Porém, a literatura, a história, a filosofia e a teologia, não conhecem teorias, definições ou demonstrações. Contam histórias, histórias acerca do que é ser-se humano, acerca das limitações humanas e de quem nós, como pessoas, deveríamos ser. A verdade não é científica, porque a verdade que oferecem é metafísica, e isso foi-nos retirado e já nem se ensina. Quem ensina hoje a ler a vida? Tudo isto nos tornou cegos ao que é verdadeiramente importante na vida e ao que a torna digna de ser vivida. O que é que consideramos ainda importante? A utilidade, em especial a utilidade económica. O nosso ideal de conhecimento, o mundo da cultura, a nossa vida social - a tudo e todos se mede por esta bitola económica. Os economistas tornaram-se por isso os novos sumo-sacerdotes da nossa época, que numa linguagem oracular de teorias e números declaram o que tem, ou não tem, utilidade económica, o que se deve, ou não deve, permitir que exista. Porque a qualidade de vida não se pode provar económica nem cientificamente, a economia só reconhece a quantidade; tudo é um número, de modo que economia tem de crescer sempre, porque um número maior é melhor do que um número menor, quaisquer que sejam as consequências sociais. Tudo o que conta é o dinheiro(...) A ciência como ideologia tornou-nos não somente estúpidos, mas também mudos. Já não fazemos ideia alguma do significado das palavras e tornámo-nos incapazes de manter uma conversa a sério. O que resta é a tagarelice”.
[7] A.M.PIRES CABRAL, O cónego, Cotovia, Lisboa, 2007, 10: “Nesse tempo os meus pecados não iriam além de alguma pequena maroteira venial pela qual ‘o Jesus’ tivesse ficado zangado comigo e me ralhasse pela voz enorme da trovoada” [fala do narrador e personagem da narrativa, padre Salviano Taveira, que o autor concebe como tendo nascido, em Covelas, aldeia transmontana, da Diocese de Bragança-Miranda, no ano de 1923].
[8] Charles TAYLOR, A era secular, 44.
[9] Cf. António DAMÁSIO, O erro de Descartes, Companhia das Letras, São Paulo, 2006.
[10] Miguel REAL, Nova Teoria do mal, Dom Quixote, Lisboa, 2012, 31 e ss.
[11] Ibidem.
[12] Anselmo BORGES, Deus e o sentido…, 46-48.
[13] Miguel BRANCO, Neurociência e espiritualidade, in Anselmo BORGES (coord.), Deus ainda…, 77.
[14] Ibidem.
[15] Ibidem.
[16] Ibidem, 80.
[17] Ibidem, 82.
[18] Maria MOLDER, As nuvens e o vaso sagrado, Relógio D’água, Lisboa, 2014, 123.
[19] Ibidem, 122 e 124.
[20]M.R.Bennett e P.M.S. HackerFundamentos filosóficos da neurociência, Instituto Piaget, 2005, pp.78-80:"Primeiro, não é a mente que pensa e raciocina, quer coisas e tem finalidades, forma intenções e toma decisões, actua voluntariamente ou intencionalmente. É o ser humano. De facto, caracterizamos uma pessoa como tendo uma mente límpida, rigorosa ou decisiva. (...) Se queremos compreender como é que uma pessoa normal raciocinou da forma que o fez, pensou o que pensou, tem os objectivos e propósitos que tem, e porque decidiu o que decidiu, formou tais e tais intenções e planos, e agiu intencionalmente, não há nenhuma justificação neurocientífica que nos esclareça o que queremos ver esclarecido (...) E se a nossa explicação tornar inteligível o seu raciocínio, não é preciso acrescentar mais nenhuma informação sobre os eventos neurais do cérebro. O máximo que uma explicação neural conseguiria fazer seria explicar o modo como era possível à pessoa raciocinar convincentemente (ou seja, que formações neurais têm de estar no seu devido lugar para dotar um ser humano com tais e tais capacidades intelectuais e volitivas), mas ela não consegue relatar o próprio raciocínio, quanto mais explicar a sua força.(...) Se A matou B, podemos querer saber a razão. Podem dar-nos uma razão, mas mesmo assim podemos continuar insatisfeitos, querendo compreender melhor - mas o «melhor» que queremos compreender é muito provavelmente o motivo de A, e não os eventos neurais ocorridos na altura do assassínioQueremos saber se ele matou B por vingança ou ciúmes, por exemplo, e isso exige uma narrativa muito diferente de tudo o que a investigação neurocientífica conseguiria produzirA explicação da acção por redescrição, por citação de razões de actuação, ou pela especificação dos motivos do agente (e há outras formas de explicação de tipos relacionados com estes) não são substituíveis, mesmo em princípio, por explicações em termos de eventos neurais no cérebroEste assunto não é empírico, mas lógico ou conceptual. O tipo de explicação é categoricamente diferente, e as explicações em termos de razões e motivos, objectivos e propósitos de actuação, não são redutíveis a explicações de contracções musculares produzidas em consequência de eventos neurais (...) Na medida em que a mente não é uma substância, de facto não é uma entidade de tipo algum, não é logicamente possível à mente funcionar como um agente causal que provoca mudanças no agir do cérebroNão estamos a tratar aqui de uma descoberta empírica, apenas de um esclarecimento conceptual. (...) Também é verdade que os desígnios perseguidos por uma pessoa não são os desígnios do cérebro dessa pessoa. Mas não se segue daqui que são os desígnios da mente dessa pessoa. São os desígnios da pessoa - e devem ser compreendidos como factos sobre a vida humana, formas de vida social, eventos antecedentes, circunstâncias actuais, crenças e valores de actuação, e assim por diante, e não em termos de eventos e mecanismos neurais. Mas, evidentemente, é verdade que, sem o funcionamento normal do cérebro, o ser humano não teria, e não seria capaz de se dedicar aos tipos normais de desígnios a que nos dedicamos".
[21] António DAMÁSIO, A estranha ordem das coisas, p.298 e ss.: “porque será que os seres humanos eliminam periodicamente, pelo menos em parte, os ganhos que fizeram culturalmente? (...) Segundo a perspectiva biológica que delineei, os repetidos fracassos dos esforços culturais não deveriam surpreender. Eis porquê. A base fisiológica e o principal interesse da homeostasia [tendência para o equilíbrio e a conservação de elementos fisiológicos e do metabolismo, através de elementos de regulação] básica é a vida de um organismo individual dentro das suas fronteiras. Dadas essas circunstâncias, a homeostasia básica continua a ser uma questão um tanto ou quanto limitada, concentrada no templo que a subjectividade humana concebeu e erigiu - o eu. A homeostasia pode ser alargada, com mais ou menos esforço, à família e ao pequeno grupo. E pode ser ainda mais alargada para grupos maiores, pela força da nossa vontade civilizacional, o que depende de circunstâncias e de negociações em que os benefícios gerais e o poder estejam bem equilibrados. Contudo, a homeostasia básica, tal como a encontramos nos nossos organismos individuais, não se preocupa espontaneamente com grupos muito vastos, sobretudo grupos heterogéneos, e muito menos com culturas ou civilizações como um todo. Esperar harmonia homeostática espontânea de colectividades grandes e cacofónicas é esperar o improvável. (...) A diversidade étnica e de identidade cultural, característica fundamental da Humanidade, resulta naturalmente dessa vontade e tende a enriquecer todos os participantes. Todavia, a diversidade contém a semente do conflito. Ela aprofunda as divisões intra e extragrupo, alimenta a hostilidade, e faz com que seja mais difícil chegar a soluções de governação gerais e implementá-las, sobretudo numa era de globalização e de interligação de culturas. É pouco provável que a solução para este problema seja a homogeneização forçada das culturas, algo que, na prática, é inalcançável, além de indesejável. A ideia de que a homogeneidade tornaria as sociedades mais governáveis ignora um facto biológicoos indivíduos que pertencem a um mesmo grupo étnico diferem em termos de afectos e de temperamento. (...) A única solução razoável e, assim esperamos, viável para o problema consiste em enormes esforços civilizacionais através dos quais, graças à educação, as sociedades consigam cooperar no desenvolvimento de requisitos fundamentais para a governação, pese embora as diferenças, sejam grandes ou pequenas. (...) [Há ainda dificuldade em conseguir harmonizar os] conflitos com origem no interior de cada indivíduo, ao choque entre impulsos positivos e afetivos, e impulsos negativos, hetero e autodestrutivos. Nos últimos anos da sua vida, Sigmund Freud viu a bestialidade do nazismo como uma confirmação de que a cultura nunca seria capaz de domar o nefasto desejo de morte que ele acreditava estar presente em cada um de nós. (...) Em 1932, Einstein escreveu a Freud, pedindo conselhos sobre como prevenir a conflagração mortífera que ele via aproximar-se (...) Na sua resposta, Freud descreveu a condição humana com uma clareza impiedosa e lamentou-se a Einstein dizendo-lhe que, tendo em conta as forças que estavam em jogo, não tinha quaisquer conselhos a dar, não tinha como ajudar, não tinha qualquer solução, tinha pena e não mais. Note-se que o principal motivo para o seu pessimismo era a condição internamente imperfeita do ser humano. Não atribuía culpas às culturas, nem a grupos específicos. Apenas culpava os seres humanos. Ainda hoje, aquilo a que Freud chamou de «desejo de morte» continua a ser um factor importante por trás dos fracassos sociais humanos, embora eu o descrevesse com termos menos misteriosos e poéticos. Segundo penso, esse factor é um componente estrutural da mente cultural humana. Em termos neurobiológicos contemporâneos, o «desejo de morte» de Freud corresponde à activação desregrada de um conjunto específico de emoções negativas, a subsequente perturbação da homeostasia e o caos avassalador que isso provoca nos comportamentos humanos individuais e colectivos. (...) Diz-se comummente que a activação dessas emoções negativas é um regresso à nossa emotividade animal, mas isso é um insulto desnecessário a muitos animais. Essa avaliação está parcialmente correcta, mas nem de longe capta a natureza mais sombria do problema. Nos seres humanos, a destrutividade da ganância, da fúria e do desprezo, por exemplo, foi responsável por actos de crueldade impensada perpetrada, desde a Pré-História, por seres humanos contra outros seres humanos. Em muitos aspectos assemelha-se à crueldade dos nossos primos símios, famosos por desmembrarem o corpo dos rivais, reais ou supostos, mas por certo aprofundado por certos refinamentos bem humanos. Os chimpanzés nunca crucificaram outros chimpanzés, mas os romanos inventaram a crucificação e crucificaram seres humanosÉ preciso invenção criadora humana para conceber novos métodos de tortura e de morte. A raiva e a malícia humana são apoiadas por conhecimentos abundantes, por raciocínio retorcido e pelos poderes desgarrados da tecnologia e da ciência que os seres humanos têm ao seu dispor. (...) Por que motivo os animais não exibiam lutas culturais (...) a resposta é clara: os animais carecem da estrutura intelectual necessária para o fazer. Nós temo-la. (...) Os homens continuam a demonstrar uma maior propensão para a violência física do que as mulheres, em consonância com os seus papéis sociais ancestrais - a caça e a luta pelo território. As mulheres também podem ser violentas, mas de notar que a maioria dos homens é composta por indivíduos afectuosos e que nem todas as mulheres o são. Claro que sobeja afecto em ambos os lados da divisória. (...) A expressão do temperamento chega até a ser influenciada pelo actual ambiente social e pelo clima. (...) Parece razoável pressupor que o equilíbrio entre a cooperação salutar e a competição destrutiva depende, em grande medida, da contenção civilizacional e da governação justa e democrática, capaz de representar aqueles que estão a ser governados. Por sua vez, a contenção civilizacional depende do conhecimento, do discernimento e, pelo menos, de um pouco de bom senso e sagacidade que advém da educação, do progresso científico e técnico, e dos bons efeitos das tradições humanistas, tanto religiosas como laicas. (...)A educação, no sentido mais vasto do termo, é o caminho óbvio a seguir. Um projecto educativo a longo prazo que tenha como objectivo criar ambientes saudáveis e socialmente produtivos terá de destacar comportamentos éticos e cívicos e de encorajar as virtudes morais clássicas - honestidade, bondade, empatia e compaixão, gratidão, modéstia. Deverá ainda abordar valores humanos que transcendem a gestão das necessidades imediatas da vida. (...) A condição humana engloba dois mundos. Um dos mundos é composto pelas regras naturais da regulação da vida, guiadas pelas mãos invisíveis da dor e do prazer. Não temos consciência dessas regras, nem do que lhes está subjacente; estamos apenas conscientes de determinados resultados a que chamamos «dor» ou «prazer». Não tivemos nada a ver com a criação de regras - nem com a existência das poderosas forças da dor e do prazer - e não as podemos modificar, tal como somos incapazes de alterar o movimento das estrelas ou de evitar terramotos (...) Todavia, existe ainda um outro mundo em que contornámos em parte as condições que nos foram impostas, e inventámos meios culturais de gestão da vida para complementar a variedade básica. Daqui resultaram descobertas sobre os nossos próprios universos e sobre aqueles que nos rodeiam, e daí resultou a capacidade extraordinária de acumular conhecimentos, tanto na nossa memória como em arquivos exteriores. A situação neste segundo mundo é diferente. Podemos reflectir sobre o conhecimento, analisá-lo, manipulá-lo de forma inteligente, e inventar toda uma série de respostas às regras da natureza.  (...) Culturas e civilizações são os nomes que damos aos resultados cumulativos desses esforços. Tem sido tão difícil preencher o fosso que separa a regulação de vida imposta naturalmente e as respostas que vamos inventando que a condição humana se assemelha, frequentemente, a uma tragédia e, talvez menos frequentemente, a uma comédia. A capacidade de inventar soluções é um privilégio imenso, embora propenso a fracassos, e muito oneroso. Podemos chamar a isto «o fardo da liberdade», ou, mais concretamente, «o fardo da consciência». (...) Poderão as sociedades finalmente conseguir introduzir, através de meios seculares ou religiosos, uma forma de altruísmo inteligente e recompensadora que substitua o egocentrismo reinante? (...) Está aqui a grande novidade evolutiva das culturas humanas, a possibilidade de negar a nossa herança genética e exercer o controlo firme sobre o nosso destino, pelo menos temporariamente. (...) As estratégias que os seres humanos se sentiram motivados a desenvolver para garantir uma boa vida - preceitos morais, religiões, modos de governação, economia, ciência e tecnologia, sistemas filosóficos, e as artes - levaram a ganhos inquestionáveis no bem-estar. Contudo, essas mesmas estratégias também levaram a graus impensáveis de sofrimento, destruição e morte. Pouco admira que, tantas vezes, os seres humanos tenham concluído imprudentemente que tinham chegado a uma era de estabilidade e de razão, em que a injustiça e a violência seriam para sempre banidas. Mas têm acabado sempre por descobrir que os horrores da profunda iniquidade ou da guerra regressam e recrudescem. Daí a tragédia, tão bem captada pelo teatro ateniense há 25 séculos, quando os problemas que atormentavam os personagens de uma peça não eram causados pelas suas decisões, mas sim por forças caprichosas que lhes eram exteriores, deificadas, incontroláveis e inevitáveis. Édipo mata o pai e não tem como imaginar que Jocasta, a sua nova esposa, é, na verdade, sua mãe. Vê-se obrigado a desempenhar essa acções, comportando-se tão cegamente como o cego em que acaba por se tornar. Ele é obrigado. (...)[Temos, hoje em dia a] possibilidade de planear uma estratégia mais inteligente do que no passado. Esta abordagem veria como tolice ou mesmo loucura a ideia da razão a dever assumir o controlo, uma ideia que mais não é do que o resíduo dos piores excessos do racionalismo; mas esta abordagem também rejeitaria a noção de que nos devemos limitar a promover as recomendações das emoções - ser gentil, cheio de compaixão, irado ou repugnado - sem que as filtrássemos pelo conhecimento e pela razão. A nova abordagem promoveria a parceria produtiva entre sentimentos e razão, destacando as emoções positivas e suprimindo as negativas. Por fim, rejeitaria a noção das mentes humanas no molde das criações de inteligência artificial.
[22] Jurgen HABERMAS, Um ensaio sobre a Constituição da Europa, pp.27 e ss: “As raízes diretas do conceito de dignidade humana na filosofia grega, sobretudo no estoicismo e no humanismo romano – por exemplo, em Cícero – também não constituem uma ponte semântica para o sentido igualitário do conceito moderno. Nessa época, a dignitas humana baseava-se no facto de o ser humano possuir uma posição ontológica distinta no Universo, posição especial que este assume, devido às propriedades da espécie, como ser dotado de razão e conseguir reflectir, ao contrário dos seres vivos «inferiores». O valor superior da espécie talvez possa justificar a protecção da mesma, mas não a inviolabilidade da dignidade da pessoa individual enquanto fonte de direitos normativos. Faltam ainda dois passos decisivos na genealogia do conceito. Primeiro, era necessário completar a generalização a todos com a individualização. O que está em causa é o valor do indivíduo nas relações horizontais entre seres humanos, não a posição «do» ser humano na sua relação vertical com Deus ou com seres inferiores. Segundo, o valor relativamente superior da humanidade e dos seus membros individuais tem de ser substituído pelo valor absoluto da pessoa. O que está em causa é o valor incomparável de cada um. Estes dois passos concretizaram-se na Europa, através da apropriação filosófica de motivos e conceitos da tradição judaico-cristã, a qual gostaria de evocar brevemente. A Antiguidade já havia estabelecido uma estreita relação entre dignitas e persona, porém, a pessoal individual, na sua estrutura de papéis, só emerge nos debates medievais sobre a semelhança do ser humano com Deus. Cada um aparece como pessoa insubstituível e inconfundível no Juízo Final. As tentativas de distinguir entre direitos individuais e a ordem objectiva do direito natural na Alta Escolástica espanhola constituem uma outra etapa na história do conceito de individuação. No entanto, o passo decisivo é dado pela moralização da compreensão de liberdade individual no pensamento de Hugo Grócio e Samuel von Pufendorf. Também para Kant, o conteúdo moral dos direitos humanos, que se exprime na linguagem do direito positivo, tem origem na dignidade humana entendida na perspectiva universalista e individualista”.
[23] Maria GLÓRIA Garcia, A dignidade da pessoa humana, in Introdução à Política, Diogo FREITAS DO AMARAL, p.199 e ss.: “Quem reconheceu a natureza absoluta da pessoa humana foi a cultura judaico-cristã (…) Com o cristianismo surgem, de um lado, a noção de pessoa com uma particular carga transcendente, que conduz ao princípio da inviolabilidade da pessoa humana; e, de outro, a noção de humanidade, uma noção ampla que engloba todas as pessoas do mundo. Ao comprometer-se com a criação do homem, ao modelar o homem à sua imagem e semelhança – como diz a Bíblia judaica, «Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus. Ele nos criou homem e mulher» (Génesis 1, 27) -, o Ente supremo transmitiu, a todos e a cada um, a transcendência que o caracteriza e, ao fazer a todos participar dessa transcendência, o homem logo surgiu, no acto da criação, como pessoa, e pessoa dotada de valor absoluto. Ao conferir dimensão transcendente à pessoa – o homem é feito à imagem de Deus como seu «ikon», pelo que há no homem algo de divino -, transmitiu-lhe a capacidade de ir além de si própria. Mas isso não retirou à pessoa a possibilidade de ter uma dimensão imanente, isto é, a capacidade de ter autonomia e de agir em razão dessa autonomia. É, aliás, através da autonomia do ser, da sua imanência, que é possível reconhecer a liberdade e a inerente responsabilidade do agir humano. Nos textos bíblicos, na narração da criação, depois de criadas as outras espécies, é criado o Homem. Este é criado no último dia, como que a conferir sentido pleno à criação - «Tendo-os criado homem e mulher, Deus viu que isso era muito bom» (Génesis, 2, 22). Por outras palavras, a criação do homem no último dia surge como o acto que atribui um sentido superior a todo o processo de criação anteriorNão admira que, a partir daqui, surja a noção de dignidade humana e se entenda que todas as vezes que a dimensão absoluta da pessoa é esquecida, menosprezada ou agredida, tudo no mundo e no tempo deixa de ter sentido, já que só o homem é capaz de dar sentido às coisas deste mundo. Daí falar-se na natureza inviolável da pessoa humana. Em suma, com o cristianismo, o enigma da pessoa, se, por um lado, pela criação divina, se desanuvia, por outra, pela transcendência divina que lhe fica associada, adensa-se – o divino, no seu mistério, integra o próprio homem -, ao mesmo tempo que se abre, em permanência, ao desejo de compreensão. Além disso, foi essa transcendência divina inerente à pessoa - «o valor divino do humano» - que permitiu o surgimento e desenvolvimento da ideia de dignidade da pessoa humana. Acresce que ao cristianismo se ficou a dever também a noção de humanidade. Com efeito, o cristianismo não só proclamou que o homem é criado à imagem e semelhança de Deus como ainda que todos os homens são seus filhos. E, se a primeira ideia é revolucionária (e, simultaneamente, capaz de se desdobrar e dar origem a inúmeras outras ideias, também elas revolucionárias), a outra não o é menos, já que, por seu intermédio, se constrói a ideia de isonomia, ou igualdade entre os homens. Porque, se todos são filhos de Deus, então todos os homens são irmãos, e não há diferenças essenciais ou de natureza entre os homens: «Não há mais judeus nem gentios, circuncisos ou incircuncisos, nem bárbaros nem gregos, nem escravos nem homens livres» (Epístola de S.Paulo aos Colossenses, 3,11). Esta noção de humanidade, fundada na igual natureza de cada pessoa humana – todos os homens são filhos de Deus e, por isso, irmãos uns dos outros -, tem consequências sociais e políticas decisivas. Com efeito, dessa noção decorre a condenação da escravatura, já que a escravatura, em si mesma, não só contraria a natureza inviolável da pessoa, como se fundamenta numa grave desigualdade entre os homens, agora considerada injustificável. Por outro lado, da noção de humanidade, com o sentido que lhe foi dado pelo cristianismo, resulta a abertura de espaço a uma noção de fraternidade alargada – o amor a Deus desencadeia o amor aos irmãos de cada um, o amor ao próximo -, e assume especial sentido na modelação da caridade. Portadora de uma força aglutinadora entre os homens - «o que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também» (S. Lucas, 31) -, a caridade recusa a inércia e a passividade. Com efeito, por um lado, desenvolve-se em planos de interdependência entre os homens e implica que nenhum homem se possa alhear do que acontece aos outros: as alegrias e as tristezas são vividas em comum. Por outro lado, a caridade convoca o homem para a acção, e, em particular, impede-o de ficar indiferente ao infortúnio dos outros, às misérias e às desigualdades fácticas entre os homens que a realidade vai evidenciando. Com o evoluir dos tempos, a noção de caridade vai sendo ampliada e vai-se consolidando no âmbito da cidadania, pela pertença da pessoa a uma comunidade política, e dando origem à noção de solidariedade. Em segundo lugar, se todos os homens são irmãos e devem amar-se uns aos outros – não lhes fazendo o que não querem que lhes façam a si, bem como fazendo-lhes o que pretendem que lhes seja feito a eles -, então nasce daí o grande imperativo da paz entre as nações (que StºAgostinho desenvolverá na sua «Civitas Dei» e que, alguns séculos mais tarde, levará o holandês Hugo Grócio a fundar o Direito Internacional).Por último, outra das consequências da noção de humanidade nascida com o cristianismo consiste em ter essa noção permitindo a gestação, ao longo da história, no quadro do pensamento e da prática políticos, de uma linha de força que, com o evoluir dos tempos, estritamente assente na ideia de dignidade da pessoa humana, se consubstanciou no discurso dos direitos fundamentais. Como decorrência desse discurso dos direitos fundamentais, o exercício do poder político dentro dos Estados ou comunidades políticas passa a poder ser concebido como sujeito a especiais limitações, precisamente as decorrentes dos direitos inerentes à dignidade da pessoa humana. O cristianismo – tão brilhantemente condensado no célebre «Sermão das Bem-Aventuranças», pregado no lago de Tiberíades – foi uma autêntica revolução espiritual, cultural, social e jurídica, que da Judeia passou, através de Roma, para o mundo inteiro. Sob a sua inspiração, o enigma ou mistério que acompanha a essência da pessoa – seja por esta ser criada por um Deus uno e transcendente, à sua imagem e semelhança, seja por nessa criação todos terem ficado irmanados na filiação divina – tem vindo a projectar-se e a manifestar-se ao longo dos tempos em inúmeras instituições, linhas de pensamento, práticas evolutivas, assim consistentemente sustentadas numa cultura – a cultura judaico-cristã -, que também foi alicerçando uma civilização – a chamada civilização ocidental.

[24] Ibidem.
[25] Cf. Alfredo COSTA (coord.), Um olhar sobre a pobreza. Vulnerabilidade e exclusão social no Portugal contemporâneo, Gradiva, Lisboa, 2008.

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