Criação e loucura. Rosa Montero
1.Rosa Montero quis estudar, aprofundadamente, a relação
entre a criação (criatividade), em
especial a literária, e a loucura e,
assim, e ao longo de três anos, leu, copiosamente, (auto)biografias de grandes
romancistas, poetas, filósofos, dramaturgos, compulsou inúmeros volumes com as
últimas descobertas de neurocientistas, psicólogos, psiquiatras sobre o
funcionamento do cérebro humano, ateve-se aos papers que encontrou (em
linha) sobre o enlace que visava, enquanto colecionava os melhores textos
dos periódicos (generalistas) acerca do tema no qual mergulhava (em boa medida, com
a motivação de se compreender melhor a si mesma). Em O perigo de estar no meu perfeito juízo (Porto Editora, 2023), a romancista-cronista-ensaísta-jornalista
acaba, em definitivo, estudados os casos particulares e atentas as conclusões gerais e abstractas da ciência, por
formular como que uma teoria geral da
relação/propensão maior do literato
(e do artista, em geral) para se
abeirar da loucura, em um itinerário (existencial) que observa tender passar
pelas seguintes características/condições/ignições:
“maior dissociação e consciência clara da multiplicidade [que nos habita];
obsessão com a passagem do tempo e com a morte; contacto precoce com a
decadência ou com a perda; dualidade defensiva perante o trauma, com um Eu que
sofre e outro Eu que sabe tudo e não sente nada, embora necessitando de ter
sido alguma vez suficientemente amado; maturidade precoce da criança entomóloga
e, em consequência, uma infância demasiado adulta; ao invés, imaturidade do
adulto (uma imaturidade fisiológica, química, cerebral); possíveis desconexões
momentâneas; sensação de impostura, também nos afectos; imaginação frondosa e
paralela, por vezes cansativa e dolorosa; tendência para uma hipersensibilidade
emocional e sensorial; e, sem dúvida, maior propensão para os transtornos
psíquicos” (pp.90-91).
2.Numa pesquisa e num livro fascinantes
porque, desde logo, capazes, em concretizações individuais de alguns dos
maiores espíritos do nosso tempo e de tempos mais remotos, de manter a tensão
acerca do significado do “perigo de estar no meu perfeito juízo” – a saber, a
incapacidade de captar, de se ligar ao mais íntimo, ao que está indomado e
permite penetrar a moldura de uma realidade
(esta, percepcionada, frequentemente, pelos escritores. como um cenário, p.182), a do mundo e da minha inserção nele, que, sem mais, se
torna(ria), porventura, insonsa, e o
(fundamental) chegar ao inconsciente
e dele extrair a seiva que intensifica
a vida; “os romances são sonhos que se sonham de olhos abertos, que nascem no
mesmo lugar”, o inconsciente -, sem
embarcar – mesmo que, eventualmente e em alguns momentos da prosa, no
precipício do limite: “Van Gogh teria preferido ser menos genial e não sofrer
tanto?” (p.108) – no romantizar dos
estados (de vida e de saúde) e comportamentos/práticas auto-destrutivas (a fronteira
criação-loucura, em que a autora
se/nos instala, chega ao seguinte ponto: “a criatividade não nasce da loucura,
mas há pontos de contacto entre ambas (…) Eu encaro-as como uma espécie de
primos”, p.129), Rosa Montero, entre medos, fobias, manias, extravagâncias múltiplas
que disseca, comenta ou apropria, toma nota de que Kafka mastigava cada garfada
trinta e duas vezes e fazia ginástica nu com a janela aberta com um frio de
rachar; Proust meteu-se um dia na cama e dela não mais voltou a sair (e Valle-Incán
e Juan Carlos Onetti, entre outros, fizeram o mesmo); Agatha Christie escrevia
na banheira; Rousseau era masoquista e exibicionista; Schiller metia maçãs
apodrecidas na gaveta da sua secretária, porque, para escrever, precisava do
cheiro a podridão; Stefan Zweig era um obsessivo colecionador de autógrafos e
enviava três ou quatro cartas por dia às suas personalidades favoritas a
pedir-lhes as assinaturas; Voltaire, bebia 50 cafés por dia – Balzac, 40; Freud
tinha medo dos comboios, Napoleão, dos gatos, Hitchcock, de ovos; Isak Dinesen,
na sua velhice, só comia ostras, uvas brancas e alguns espargos, Sócrates
dançava sozinho, andava descalço e usava sempre a mesma roupa…(p.11).
Malvada, mesmo, a musa do vício – e “o
vício para silenciar o eu consciente (…) Sim, são uma ajuda ao princípio, mas
depois destroem e matam” (p.95): Nietzsche era dependente do cloral, sedativo
feito à base de clorofórmio; Freud e Robert Louis Stevenson, colados à cocaína;
Scott Fitzgerald esteve embriagado durante anos; Valle-Inclán encharcava-se de
haxixe, tal como Baudelaire, o ópio foi tomado por Shelley, Byron, Keats,
Rimbaud, Flaubert, Wordsworth, Coleridge, os barbitúricos usados por Truman
Capote, as anfetaminas por Philip K. Dick (utilizadas, na política, por
Churchill, Kennedy, Anthony Eden e, injectando-se oito vezes ao dia,
Hitler).Aldous Huxley, que morreu a meio de uma trip de ácido, preferia LSD,
tal como Timothy Leary. O álcool (“aumenta a emocionalidade, potencia a
desinibição, amordaça o Eu controlador”, p.100; nem Hemingway, nem Fitzgerald
conseguiam escrever sem estarem bebidos), consumido em doses proibitivas,
primou em cinco dos nove Prémios Nobel da Literatura norte-americanos – foram
“alcoólicos desesperados” Sinclair Lewis, William Faulkner, Ernest Hemingway,
John Steinbeck, Eugene O’Neill. Mas o álcool perseguiu, igualmente, Jack
London, Tennesse Williams, Carson McCullers, Charles Bukowski, Jack Kerouac,
Patricia Highsmith, Stephen King, Malcom Lowry, John Cheever, Stephen King, Djuna Barnes, Dorothy Parker…Muitos escritores, como Dylan
Thomas, morreram em consequência da bebida…Stephen King confessava que,
diariamente, após vinte e quatro ou vinte e cinco latas de cerveja, metia ao
estômago Valium, Xanax, lixívia, xarope
para a tosse…
3.Se os manuais vêm em apoio e suporte do caleidoscópio de tropelias e doidices identificados por Rosa Montero,
ela que se inclui nos 15% dos mais criativos dos humanos – e que, indicando o
estudo sueco que remete os escritores a 50% de maior probabilidade de se
suicidarem do que a população em geral, nos obriga a consultar as suas
referências bibliográficas para concluir, em todo o caso, que nenhum outro paper corrobora aquele escandinavo –,
não poderia deixar (esta) de brincar
connosco aos dados. Tudo o que registou
e que aqui se vem de citar encontra lugar na bibliografia consultada, mas há
alguns pormenores, outros, do livro relativamente aos quais ficciona também,
confessa. A partir de certo momento, assim que introduz a história de uma
mulher que se faz passar por Rosa Montero, da forma mais rocambolesca e nos contextos
mais ousados (lata bastante…),
sabendo as rotinas, os gostos, as preferências da então famosa jornalista de ElPaís (jornal no qual continua, hoje, a
escrever), percebemos que podemos estar como que num encaixe híbrido, mais ou
menos experimental, entre ensaio e o pequeno policial, a dissertação acerca do funcionamento do cérebro
desses, “os nervosos”, que “são o sal da Terra” (“a família lamentável e
magnífica dos nervosos é o sal da Terra. Tudo o que reconhecemos como grande
provém dos nervosos”, Marcel Proust) e o thriller
- que têm, em comum, assim complementados ou deixando-se tal hipótese, pelo
menos, em aberto, dir-se-ia, não apenas apanhar-nos à socapa, nunca sabendo se aí vem nova ficha tal e qual ilustrando o ponto poroso – criatividade/loucura -,
se a história (estória?) dentro desta busca (geral) da perseguidora de Rosa
Montero (e da reacção desta a esse movimento no encalce de si), quer dizer, obriga-nos
à vigília, a uma atenção sem desfalecimentos,
e esteticamente, como que concretizando, na intensidade
sedutora, no encontro espantado no concurso de percursos e viagens interiores
(e, diga-se, ao fim da noite) com que
somos brindados, uma das conclusões maiores da obra: os homens e mulheres
(literatos, escritores), ainda que inveterados alcoólatras, toxicodependentes, maníaco-depressivos e, no limite, suicidas – e não foram poucos, de Sylvia Plath a Virgínia Woolf -
não é que não gostassem da vida; amavam-na era demasiado: “costumamos acreditar
que as pessoas com transtornos depressivos são seres sombrios, lânguidos e
tristes, que vivem perpetuamente a chorar pelos cantos, mas não. «O que
acontece é que vivo cada instante com uma intensidade terrível», diz ela
[Sylvia Plath]. O problema [em muitos dos suicidas] não é não amar vida, mas
amá-la demasiado (Roorda) (p.155). Necessidade, permanente, de estar
incendiado, ligado à corrente, em brasa. O homem dito “normal” – embora tal
coisa seja uma mera questão estatística – “é aquele que sabe vegetar” (p.139).
Voltando à forma, um romance de ideias
teria, pois, aqui, como que um pequeno contraponto, num ensaio permeado por um
pícaro de romanesco, ainda que o livro, olhado de certo ângulo, pudesse contar
uma biografia da loucura criativa, delirum tremens, encarnada em várias
singularidades, e em modos/formas literárias diversas.
E, em tais singularidades, creio que de
um modo muito claro, ao longo do livro, há como que uma partilha que, para além de explicar o advir do escritor – “da dor da queda, nasce a obra” -,
pode encerrar alguma dimensão terapêutica, do aliviar algum fardo (geral, em
todo o humano; o leitor, o interlocutor deste livro de Rosa Montero, não é,
necessariamente, um literato e todo o literato partilha, evidentemente, da
condição humana), do sofrimento, dos abusos, da dor que permeou tantas centenas
de vida de escritores e pensadores maiores, de humanos como nós (o incesto em
Emily Dickinson [tremendos os seus versos sobre o consigo sucedido neste
contexto] ou Virgínia Woolf, a violência doméstica sobre Plath, o brutal
suicídio que teve, os filhos que repetiram os pais escritores no seu agir
extremo de se retirarem a vida a si mesmos, a despedida em conjunto da Terra
por banda de um casal muitas vezes impulsionado por maridos (como no caso de
Stefan Zweig: em muito piores condições de vida, e muito mais avançada idade do
que as mulheres em causa; se antes nisso não nos detivéramos, Rosa Montero é,
aqui, concludente no seu j’accuse),
nos electrochoques sem anestesia que muitos destes homens e mulheres sofreram
quando lhes diagnosticaram problemas do foro psiquiátrico, quem de tais
internamentos (psiquiátricos) e da morte se safou pelo (relativo) acaso de um
prémio literário. O medo - de tantos homens e mulheres de letras - da loucura (os que “caem” na loucura como que sentem que já não pertencem à espécie humana; “estar louco é, sobretudo,
estar só”, p.15). A existência, e o cair na conta disso, de que há (no mesmo escritor) uma pessoa atormentada e uma que observa; a que observa é a que escreve
(p.41). A angústia, mais, o pânico sem causa aparente. Em Dostoievski,
epilepsia sem perda de consciência. Há, também e entre outros, diversamente, a
genialidade de John Nash (que muitos de nós aprendemos ou constatamos em Uma mente brilhante, de Ron Howard) que
faz descobertas matemáticas mesmo durante os piores surtos do foro psiquiátrico
e sobreviveu a 30 anos de tratamentos e internamentos num centro daquela
natureza para voltar a maravilhar (e ainda que a tenacidade pareça o principal
traço da genialidade, acrescente-se). E, voltando a quem se dedica a escrever, “se
transformamos a dor em algo criativo, roçamos a sensação de sermos
invulneráveis” (p.42).
4.O
perigo de estar em meu perfeito juízo sustenta um mundo caótico, ao qual só
a escrita pode dar unidade (a vida, qual tale, não pode ser compreendida;
apenas pode ser inteligível pela mediação dos escritores). Para Rosa Montero,
nada fácil o simples facto de viver. Questionar o que é ser outro, o que é
sermos nós são instigações para a escrita. É preciso suportar o medo das noites
e a vivacidade das manhãs (a escrita ajudou Rosa Montero a superar ou, pelo
menos, mitigar os seus medos, em particular o medo maior, aquele que sopra ao
ouvido de muitos aos 40: “vais morrer, vais morrer…”). A criatividade salva da
dissociação, da angústia, da aflição; é o consolo da criação: “as palavras
detêm o fluir” (p.135). No escritor, não raro mora o coração inflamado, um
arrebatamento, uma febre que se conjuga com a dificuldade de ser (perfecionismo
[Leonardo Da Vinci tremia a pintar e tinha dificuldade em acabar um quadro, tal
a auto-exigência], insegurança, neurose). Homens e mulheres de palavra(s)
entram, de tal maneira, em contacto com o nuclear
– “a minha maneira de me reunir com o mundo é separar-me dele para o escrever”
(Christian Bobin, p.136) – que dele chegam a não mais conseguir sair (Dickinson
não saiu de casa da família nos últimos 15/20 anos de vida e nem ao funeral do
pai foi – para si, viver era escrever; Hawthorne esteve fechado em casa durante
12 anos: “tornei-me prisioneiro de mim mesmo e não encontrava a chave para
sair”, p.113). Humanos, “somos pura narração, somos palavras à procura de
sentido” (p.151). E que sentido existe? Em rigor, a par da decadência do corpo
(que trai a jovialidade química e o gosto pela vida que permanece), um tema
maior em que desaguam, afinal, as reflexões de Rosa Montero neste seu mais
recente livro: se Camus coloca a questão derradeira n’O Mito de Sísifo – “só há um problema filosófico verdadeiramente
sério: é o suicídio”, isto é, “vivemos mergulhados nas nossas rotinas (…) todos
os dias nos levantamos, nos vestimos, comemos, trabalhamos, regressamos a casa,
jantamos, dormimos, voltamos a começar. Até que um dia «acordamos» e deixamos
de ver qualquer sentido no que fazemos” (p.182) -, R.Montero, que se declara não crente, principia por notar que “se
não há uma crença religiosa a que agarrar-se, a existência, vendo bem, é um
absurdo. E então interrogamo-nos: para quê continuar com tudo isto?”. Mas mesmo
para aqueles que, como a autora, não
creem (e evadindo, aqui, a questão do que se diz quando se diz crente,
sendo o gosto pela vida, a dedicação à escrita e com ela a perseguir um sentido
um modo que poderia asseverar-se de crer),
a resposta, assume o seu caso concreto, não tem de ser, necessariamente, um
ponto final: [para quê continuar?]
“Eu tenho uma resposta a essa questão: porque a vida se regozija por continuar
a viver. É uma resposta modesta, parcial, mas suficiente para mim” (p.183). A
vida que há em si alegra-se em prosseguir e esse é o bastante para continuar –
sendo que neste modo de falar de “a vida” não deixa de poder interpretar-se a
referência a esta como um modo de evocar transcendência face à pessoa que por
ela é habitada também (relembrando, aliás, que cada ateísmo só o é face a um
dado teísmo e não faltariam aqui pontos de encontro entre mundividências
diversas para quem observe o uso do contingente, a vida, para uma referência ao
absoluto).
Para Camus, “o mais importante que
fazemos todos os dias que vivemos é decidir não nos matarmos”, ao que
acrescentou: “no meio do Inverno, descobri que havia, dentro de mim, um verão
invencível” (p.184). Ou seja, “é possível que os amantes da intensidade (eu
também sou, embora talvez de forma não tão extrema) tenhamos confundido
felicidade com euforia” (Roberta Bandini).
Rosa Montero considera que suicídios
racionais são raríssimos – embora, de imediato, neles inclua os que associa ao
“suicídio assistido” ou “eutanásia” (p.184), porventura por antecipar que um
dos argumentos que contrariam a despenalização daqueles passa precisamente pela
mesma asserção ou muito próxima, a da inexistência ou raridade de um suicídio (“assistido”)
racional, reflexivo, não perturbado ou não desesperado, para mais no concurso
de condições, em que o paciente se encontre, a que fica associada a sua
“legalização” – e contemplando as impressivas odes à vida e o papel da fisiologia no apagar-se (“A minha maneira de sentir não é, então, a de toda a
gente […] Amo enormemente a vida (…) Tenho a certeza de que tive menos
pensamentos desprezíveis do que a maior parte dos bons cidadãos que triunfa e
jamais pensará em suicidar-se. Os belos versos que declamava para mim próprio
tinham a pureza do meu espírito. Todos os dias me proporcionaram um minuto de
emoção. Ai, eu bem gostaria de continuar na Terra!”, Roorda, pp.189-190) mesmo
no ocaso das suas existências, de suicidas como Plath e Roorda, dirige-se,
diretamente, a quem se possa encontrar em momentos semelhantes: “Oiçam: se
alguma vez sentirem o amok avançar,
se a lava se aproximar com o seu hálito de fogo, pensem que estes que agora
são, não são vocês. Que os vossos pensamentos estão momentaneamente
desconectados, que o vosso juízo está tão pouco judicioso (…) Aguentem.
Aguentem até o nível do alucinogénio baixar. Aguentem até a situação mudar (…)
Aguentem nem que seja mais um dia”. Rosa Montero fala, igualmente, aos
familiares daqueles que partiram: “a maior parte dos suicidas ama viver e
apreciou muitos momentos belos (…) O suicídio é dramático, evidentemente,
porque implica uma morte, mas é o resultado de uma doença, de uma desconexão
eléctrica do corpo semelhante à que nos sobrevém quando sofremos um enfarte.
Quero dizer que não acredito que devamos acrescentar um tormento de
culpabilidades fantasmagóricas à mágoa pura e sagrada do desaparecimento de um
ente querido”.
Henri Roorda, mesmo antes do instante
final, deixou escrito:
Gostaria
de acariciar uma vez mais os seios de Alícia
para não estar só.
Para
não sentir na minha última hora
Que
o meu coração se parte
Para
não chorar, para que o homem morra
Como
nasceu o menino.
Pedro Miranda
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