EUGÉNIO LISBOA E O UM ETERNO AMOR AOS LIVROS
NO DIA EM QUE EUGÉNIO LISBOA NOS DEIXA, ETERNO É O SEU AMOR AOS LIVROS QUE NOS FICA
"Há 4000 ou 5000 anos que os livros existem, de um formato ou de outro e feitos de um material ou de outro. Há quem diga que o mais antigo papiro apareceu 3000 anos antes de Cristo, no Egipto, feito a partir da planta com esse nome, que se criava, livremente, à beira do Nilo. Diz-se também, com aquela margem de reserva que, nestas coisas, deve ser de regra, que os primeiros editores de livros foram os gatos-pingados egípcios, que faziam e colocavam o Livro dos Mortos junto aos túmulos dos que se finavam, para que lhes servissem de Manual de Conduta no Além. Como já então se morria muito - havia menos gente mas, em comparação, morria-se mais cedo - é de presumir que o Livro dos Mortos tenha beneficiado de confortáveis tiragens: sabido como é que o mal de uns é, tantas vezes, a fortuna de outros.
O livro foi-se tornando, cada vez mais, ao longo dos séculos, mais do que um instrumento de preservação e transmissão do saber - útil, portanto, e até indispensável -, um verdadeiro amigo do homem que se habituou a viver e a dialogar com ele, dedicando-lhe o amor e a confiança que por vezes julgava ter que retirar aos seus semelhantes. Há toda uma literatura altamente expressiva do amor exaltado que o homem vem tendo pelo livro. (...)
O primeiro tem que ver com o famoso - e sempre delicioso - autor dos Ensaios, Michel de Montaigne, a quem um dia perguntaram: «Se tivesse que escolher, queimaria os seus filhos ou queimaria os seus livros?». Montaigne, que escreveu os seus notórios Ensaios com o firme propósito de nunca faltar à verdade, por mais chocante que esta aparentasse ser, respondeu, sem hesitar que queimaria os filhos (Asimov, 1981, p.277). O outro exemplo tem que ver com o conhecido poeta, dramaturgo e actor inglês, Ben Jonson, o qual, um dia, em duelo, matou outro actor. Foi julgado e defendeu-se, com êxito - foi absolvido - reivindicando o chamado «direito do clero», isto é: sabia ler e escrever, o que era, pelos vistos, suficiente para ser absolvido (Asimov, 1981, p.283). Suponho que um significativo número de alunos do nosso actual sistema educativo não estaria em situação de beneficiar deste consolador recurso. (...)
Seja como for, este amor pelos livros - lê-los mas também tê-los, colecioná-los - pode exaltar-se até ao extremo de, quando não há dinheiro, roubá-los. Há várias formas de roubo: o roubo propriamente dito e a não devolução. Anatole France tinha, na sua famosa Villa Said, em Paris, uma fenomenal e apetecida biblioteca, que amou pelo menos tanto como amou as mulheres que, nos seus romances, imortalizou. Mas aos visitantes que se extasiavam diante daquele monumental acervo, o autor de Le Lys rouge, ia avisando: que nunca emprestassem livros a ninguém, porque as pessoas tinham o mau hábito de não os devolver: ele sabia do que estava a falar porque a sua imensa biblioteca era feita, em grande parte, de livros que lhe tinham sido emprestados e que ele não devolvera....
O desejo - quase erótico - de possuir livros, de possuir certos livros, tem levado as criaturas mais improváveis a cometer os actos mais inconcebíveis. Don Vicente, um frade e erudito espanhol, no século XIX, matou 5 ou 6 coleccionadores de alfarrábios, para conseguir chegar à posse de um determinado livro raro (Hendrickson, 1982, p.235). Um outro notório ladrão de livros foi um senhor que depois veio a ser o Papa Inocêncio X. Antes de ter ascendido ao supremo sacerdócio, foi apanhado em flagrante delito de fazer mão baixa no livro Histoire du Concile de Trente, que se encontrava no estúdio de um pintor, em Paris, durante uma visita a este feita por um grupo de religiosos. (...) (Hendrickson, 1982, p.236).
Ainda um caso extraordinário de como o excessivo amor aos livros pode levar à astuta escolha de uma profissão que facilite o furto propiciador: Giugliemo Bruto Icilio Timoleone, Conde Libri-Carucci della Sommaia, nascido em Florença, de uma nobre família toscana, catedrático de Matemática e perito em leis, teve uma vida agitada que o levou, eventualmente, ou antes, deliberadamente, a ser nomeado Inspector-Geral das Bibliotecas, em França, no reinado de Luís Filipe. Como tinha um amor inveterado a livros raros, o cargo de Inspector-Geral de Biblioteca facilitou-lhe enormemente a satisfação do vício: nas bibliotecas que inspeccionou, fez verdadeiras razias, que lhe permitiram encher as prateleiras de casa, até ao tecto, de espécies avaliadas em centenas de milhares de euros, na moeda actual (Hendrickson, 1982, p.236). (...)
Um modo bizarro que se achou de valorizar um livro, no século XIX, foi este: a amante do ficcionista popular, Eugéne Sue, autor celebrado de Os Mistérios de Paris, O Judeu Errante e de Os Sete Pecados Capitais, deixou instruções, no seu testamento, para que um conjunto de livros do seu amado fossem encadernados com a pele dela. Isto foi cumprido e ainda em data relativamente recente - 1951 - Os Mistérios de Paris, encadernados com a pele dos ombros da amante de E.Sue, foram vendidos em Londres, na gigantesca Livraria Foyle's pela quantia de...29 dólares! (Hendrickson, 1982, p.238). Foi o caso de ter saído o tiro pela culatra. Enfim, a intenção era boa...Outro caso - que pertence já ao domínio do humor negro - aconteceu, também em França, quando um editor produziu uma edição do Contrato Social, de Rousseau, encadernada com as peles dos aristocratas guilhotinados durante o Terror. Ao que se chega, na busca do raro! (Hendrickson, 1982, p.238)."
Eugénio Lisboa, "Não matem o editor: ele está a fazer o melhor que sabe", in "Conversa Silenciosa", Imprensa Nacional, 2019, pp.47-51.
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