SOB O SIGNO DA LIBERDADE: HÉLIA CORREIA, NA ABERTURA DA VI EDIÇÃO DO FESTIVAL LITERÁRIO DO DOURO
SOB O SIGNO DA LIBERDADE:
HÉLIA CORREIA, NA ABERTURA DAS VI EDIÇÃO DO FESTIVAL LITERÁRIO DO DOURO, NO
ESPAÇO MIGUEL TORGA, EM SÃO MARTINHO DE ANTA
Da conferência de Hélia Correia, hoje, ao fim da tarde, perante um auditório com mais de meia centena de cidadãos, algumas notas do que nos disse:
- Não é, apenas, que a
imagem da democracia como planta que precisa de ser sistematicamente regada, às
tantas, se gasta; é que “a democracia não é uma planta, porque não é natural”;
a democracia é, antes, artificial, quer dizer, é obra humana, servida pela
arte, pela palavra, como as tragédias em Atenas. “A democracia não está no
ambiente, não é imagem do mar, das florestas, dos animais: é uma construção da inteligência
e da bondade humanas”; elaboração da nossa mente sempre ameaçada pelos “impulsos
bárbaros da selva”; em suma, “se nos basta um regador, um dia acordamos
amarrados”;
- A isonomia - igualdade
de todos perante a lei - e a rotatividade do poder, todos os cargos a
poderem/deverem ser exercidos, à vez, por todos os cidadãos, por um curto
espaço de tempo; todos os cidadãos, portanto, a serem potenciais/futuros
dirigentes/governantes, eis dois princípios, sobretudo o segundo, que
esquecemos da Atenas de Péricles e sua democracia.
-
Hélia Correia era, em realidade, para chamar-se Maria da Liberdade (“o meu nome
verdadeiro é Maria da Liberdade (…) Nunca brinquei às bonecas. A única a que
liguei, e ainda guardo, chama-se Maria da Liberdade”). Era esse o nome que o
pai tinha decidido pôr, caso a criança fosse do sexo feminino. Mas isso pode lá
ser, poder dar-se um nome desses a uma criança?! O pai, não raro imprudente face
ao regime (do Estado Novo), pensou que a menina, nascida no seio de uma elite intelectual e
artística, podia chamar-se Liberdade. Na altura, só podia ser Hélia Correia.
A
poeta viria a fazer parte de uma geração que sabia, e diariamente dizia (dele
reapropriando-se, num outro contexto, mas com igual apelo – “emblema do nosso
pensamento”), no original francês o poema que Paul Elluard, de forma
clandestina, durante a II Guerra Mundial, escreveria como hino à Liberdade (aqui
traduzido por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade):
Liberdade
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome
No pão branco de cada dia
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar
[ÉLUARD, Paul. "Um único pensamento". Tradução de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. In: Magalhães Júnior, R. Antologia de poetas franceses. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950]
-
Entre as inspirações, sob o signo da liberdade, por Hélia Correia, “As mãos”,
de Manuel Alegre (de “O canto e as armas” – “Com mãos se faz a paz e se faz a
guerra/Com mãos tudo se faz e se desfaz/Com mãos se faz o poema – e são de
terra/Com mãos se faz a guerra – e são a paz” -, mas, também, o Hino Nacional
da Grécia, escrito, em maio de 1823, e
na sequência do fim do domínio turco, pelo poeta Dionysios Solomos, e cujo
título é, precisamente, “Hino à Liberdade” - "Dos ossos sagrados/dos Gregos
tirada,/e valente como outrora/Salve, oh! salve Liberdade (…)” -, passando
pelos “Persas”, de Ésquilo – “Quem é seu senhor? Quem lhes comanda o exército?
(…) Não são escravos, nem súbditos de ninguém” -, à evocação de Sólon e da Primeira
Constituição que se escreveu (aliás, com versos) [e quantos séculos depois de Atenas,
o terror que caiu sobre povos e lhe tiram o sangue como vampiros, para se
regressar à palavra e, fundamentalmente, ao exercício da democracia?], até
desaguar na “Bucólica” de Miguel Torga – “Meu Pai erguer uma videira/Como uma
mãe que faz a trança à filha.” -, dois versos perfeitos que lhe ficaram,
duração, sonoridade, ritmo, para a vida inteira.
A
“hospitalidade já foi um valor absoluto”, entretanto malogrado em favor do “medo”,
sendo de perguntar se haverá alguma mobilização pelas letras (?). Quando lemos,
na sala, recostados, ainda estamos muito confortáveis; “outro poder tem a
canção” – que insta, impulsiona, como que capacita. O que é que deu o lume para tudo isto [democracia] (?), questiona-se da plateia. Creio que "o motor de tudo isto" é a fala; o culto, o amor, o dom da palavra como valores absolutos entre os gregos [desde o séc.VIII a poesia dita publicamente, mas também no foro privado, onde as pessoas eram recebidas com enorme entusiasmo e amor porque vinham dizer alguma coisa, com conteúdo].
No planalto, no Pnix [tijolo], os cidadãos juntavam-se [como tijolos] até ao limite onde era audível a voz do cidadão que tomava a palavra. Sócrates dirigia-se às pessoas dizendo: pode falar, é ateniense! Deve falar!
P.S.: Há alguns anos que não assistia a uma conferência com a beleza, a leveza da erudição, a musicalidade da dicção, a capacidade de forjar imagens para dizer com outra intensidade, como aquela a que assisti neste dia, em São Martinho de Anta, na lição de sapiência de Hélia Correia, cujo livro de poesia "A terceira miséria" me marcar profundamente há mais de uma década - enquanto testemunho notabilíssimo de um tempo de escombros. Agora, ao escutá-la uma vez mais, o modo, desde logo, como disse, fez-me, aliás, evocar, o que Manuel Alegre conta em "Memórias minhas" - publicadas, recentemente, pelo autor -, a saber, encontrando-se Sophia hospitalizada e já em fase terminal da sua doença, com os olhos fechados, e em julgando-se que mais palavra não diria, Alegre abeira-se da sua cama e começa a dizer alguns poemas. De repente, mantendo a vista cerrada, Sophia acompanha os poemas, dizendo, conjuntamente com aquele seu amigo, os versos até mais não poder falar, altura em que prosseguiu murmurando a musicalidade dos mesmos. A musa que nunca cessa, a música que permanece.

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