O
ofício necessário e inesgotável de pensar a política
1.Será
que podemos subsumir o modo de encarar a liberdade
pelos antigos – quero participar nos assuntos da cidade – e dos modernos – não me incomodem [com assuntos da polis] que quero dedicar-me
aos meus interesses/negócios privados – a uma atitude de esquerda e direita, respetivamente, face à liberdade,
como, mutatis mutandis, parece
elaborar Daniel Innerarity, em A Liberdade Democrática (Relógio d’Água, 2024)? A democracia está, exclusivamente, sob ameaça interna, daqueles que após a
conquista, por via eleitoral, do poder, a distorcem no desrespeito pela separação de poderes, no ataque aos reguladores, no colocar em causa media independentes, no postergar
direitos de diferentes minorias presentes
na sociedade, ou, em realidade, como o caso brasileiro demonstra, o golpe
de estado clássico foi (é), mesmo, uma possibilidade (e já que
Innerarity viu mais em perigo os que atacaram o Capitólio do que conseguirem, estes, fazer perigar a democracia)?
Será sempre possível cindir as condições
institucionais (o desenho/arquitectura institucional na
governança de um estado) das concretas pessoas/profissionais que as habitam
(como alertara Timothy Snyder,
em Sobre a tirania. Vinte lições do século XX, Relógio d’Agua, 2017), como o caso daqueles que, pressionados por Trump, em 2020, para alterar resultados
eleitorais, e mesmo pertencendo ao mesmo partido, recusaram fazê-lo? Como
separar a publicação de cartunes e a
compra, privada, de uma revista, para observar aqueles – revista presente, em qualquer caso, no espaço público, físico/virtual –, da
sua presença/discussão pública em aulas e, ainda mais, como sustentar, em
simultâneo, que a sátira e a liberdade de
expressão como a conhecemos é fruto de uma dada tradição e que se deve preservar quem a ela não teve acesso, sem,
de imediato, convocar uns “nós/eles”, e não o comum? A ideia de que há uma desconfiança no julgamento popular na
busca do direito penal para evitar
determinadas proclamações ideológicas
no espaço público – mesmo que com a
afirmação de que tal discernimento do povo já mostrou, historicamente, os seus
limites, mas, dado em democracia, não haver autoridade com legitimidade para
esclarecer ou determinar quais as posições ideológicas admissíveis e correctas
em dado momento – não contende com, ilustrando, na mesma lógica, e ainda que ao
nível constitucional, a existência de
reservas
materiais de revisão - que implicam
que não se coloquem ao dispor do juízo popular um conjunto de matérias tidas
como sagradas para o devido
ordenamento comum? Estas não deveriam existir? Não, face a um passado recente,
e ao direito da democracia se defender e de não ser tolerante com os
intolerantes? Se é certo que com uma revolução ou um golpe de
estado, tais estatuições poderiam perder vigência, até estes conseguirem
consumar-se preferível não é estabelecer tais salvaguardas?
2.Vivemos
em democracias
do ódio, sim, constata o filósofo Daniel Innerarity, conquanto se
destaque, nestas, o elemento democrático
e o quão resistente - o crê o Professor de Filosofia Política, ao arrepio de visões e constatações mais
sombrias acerca do presente e futuro das democracias e, em particular, do carácter performativo da linguagem e dos
efeitos especialmente perniciosos, mesmo nas ruas, que a quebra de uma
linguagem moderada por banda de líderes políticos que conseguem concitar
mobilização popular bastante potencialmente introduz - esse se manifesta nesse falso
épico de quem sabe que a mais
colérica das vociferações não tem consequências – e que é por não ter consequências que, no limite, o
pronunciamento de tipo colérico se dá: "no fundo, a escalada verbal obedece à impotência de indivíduos que se
sabem contidos por uma estrutura institucional ou pelos quadros legais"
(p.29). Portanto, no entender do ensaísta, mais do que vir a desaguar em guerra civil, esse verberar insuflado
demonstra, ao invés, a força democrática.
O
académico dá por adquirido que em sociedades económica e politicamente mais
sólidas, ao dissolver-se o vínculo comunitário existem ódios civis intermináveis. As sociedades
democráticas são mais plurais (do
que as não democráticas, em algumas
das quais a pertença à tribo pode
permitir uma maior ou total filiação num mesmo horizonte de sentido) e essa
diversidade acaba por não configurar uma paisagem de pertença comum. Contudo,
reforça, a psicanalista francesa Cynthia Fleury chama a atenção para a hipocrisia do ódio que se pratica nas sociedades populistas que se mostram belicosas
na condição de não terem de pagar qualquer preço por isso, como se
buscassem "esses dois minutos de
glória prognosticados por Warhol e que permitem a cada um vomitar e voltar logo
a seguir à sua situação e à sua inépcia" (p.30). Há um fingimento no
querer subverter a ordem democrática; há muito ódio e pouca violência (“a desordem e o caos teriam um preço
demasiado elevado para todos").
Não
vivemos apenas em democracias do ódio - em vez de uma determinante profundamente
ideológica, algo mais pessoal emerge agora; motivações psicológicas,
possivelmente, que se adicionam a uma dada infra-estrutura
tecnológica e às redes sociais -,
mas, afinal, também, em sociedades pós-heróicas: a agitação
ideológica não se resolve em vitórias e derrotas e existem numerosas
limitações, externas ou próprias, fazendo com que nem sequer os apelos mais
hostis ao combate se traduzam em atos de violência.
Problema
maior, nas nossas democracias e sociedades, é o da impotência/incapacidade de
realizar as mutações de que estas necessitavam (por exemplo, nas questões
energéticas/climáticas): "o
sobreaquecimento permanente dos debates não se traduz em transformação real das
sociedades, antes mascara a incapacidade de a levar a cabo" (p.48).
3.Um
outro elemento que concorre para o menor pessimismo de Innerarity quanto à
perenidade do futuro das democracias quando comparado com uma vasta literatura
política vinda de publicar nos últimos anos prende-se, de novo, com o pluralismo nestas ínsito. O século XX
não respaldará a ausência de mobilização de uma sociedade democrática para o
erro e, mesmo, para o paroxismo e a tragédia, mas, ainda assim, tal é menos
consentâneo com as possibilidades de correcção que muitos, com visões plurais
acerca do mundo, por natureza, congregam (vantagens
epistémicas do pluralismo bem organizado): numa democracia "o absurdo é menos temível [do que numa ditadura],
pois é quase impossível que a maioria dos homens se ponha de acordo sobre um
único e o mesmo absurdo" [Espinosa]
(p.38).
4.
A
que se deve, então, não obstante, a nostalgia de um tipo de liderança viril como a representada por Trump, Putin, Abascal, Salvini?, interroga-se o académico,
sugerindo, por entre outras causas e motivações – “vivemos num momento histórico em que estão a voltar-se a definir o público e o privado, a autossuficiência
e a dependência, a soberania e a cooperação, os princípios
e a negociação" -, a pista
do atual desconcerto face à reconfiguração dos papéis masculino e feminino. A escolha do macho-alfa
significaria uma clarificação e o
regresso aos papéis tradicionais. "Na
sua obra maior, A distinção, o
sociólogo francês Pierre Bordieu
estudou detalhadamente de que maneira as
classes populares se mostram mais rigorosas no que se refere à sexualidade e à
divisão do trabalho entre os sexos, ao mesmo tempo que esse tipo de diferenças
tende a atenuar-se à medida que se ascende na escala social (...) Uma
liderança como a de Emmanuel Macron,
ainda que só implicitamente, recorda o
tipo de cosmopolitismo feminizante de
certas elites, e a circunstância de ser casado com uma mulher muito mais velha
do que ele não faz senão reforçar a 'suspeita' acerca da sua virilidade.
Por contraste, Marine Le Pen aparece
com todos os atributos da masculinidade,
e pode ser essa a razão pela qual obtém tantos apoios eleitorais nos bairros
operários" (pp.100-101).
Em
A rebelião das elites e a traição da
democracia (Relógio d’Água, 2024), Christopher
Lasch, não sem pendor populista
ou dele muitas vezes se abeirando (enfileirando, em tal escrito, uma aberta
antítese povo bom/elites corrompidas), denunciara, já, uma
cultura hegemonicamente intelectual e o modo como a dimensão manual/artesanal ficara, nela,
segregada, e na qual as elites se
desinteressam da nação – o livro, publicado originalmente nos anos 90 nos EUA,
quer na denúncia da meritocracia e da
arrogância meritocrática (enquanto as
elites aristocráticas ainda possuíam
um sentimento nobless oblige para com
estamentos menos favorecidos, as elites meritocráticas sentem uma
obrigação apenas para consigo próprias, arremeterá Lasch), quer no esquecimento
dos que realizam trabalhos ditos não
intelectuais, em parte como que antecipa algo do que podemos ler em Michael Sandel, em A tirania do mérito (Presença,
2022); agora, Innerarity, louvando-se em Matthew
B.Crawford, prossegue a hipótese cultural, no cruzamento com o sistema económico-financeiro, para
explicar o “momento reaccionário” norte-americano: “o capitalismo financeiro
implica, por assim dizer, uma desmasculinização
do trabalho. O momento reaccionário
que a América republicana hoje vive pode entender-se como uma resistência a
esse fenómeno e corresponde muito adequadamente ao desejo de recuperação do
contacto com a cultura material. É a tese de um filósofo como Matthew B.
Crawford que reivindica, frente ao capitalismo
de casino e à economia especulativa,
o mundo industrial e até mesmo artesanal, tão característico de certa
cultura americana” (p.101).
5.Para os políticos poderem resolver
problemas, têm de arriscar, mas, ao mesmo tempo, não queremos que aqueles
errem, dando, nós, cidadãos-comuns,
assim, incentivo a que quem exerce o múnus
político nada arrisque.
Media, sindicatos, partidos perderam, nas décadas mais recentes, boa parte da sua autoridade. Muito, nos atos eleitorais,
parece passar por saber que partido representa melhor a exasperação das pessoas
(?). Sobretudo, em períodos de medo e incerteza tal parece suceder. E “quanto menos qualidade a vida política,
mais vulneráveis somos ao poder dos mais brutais, maior é o espaço que deixamos
aos provocadores” (p.71). Em um apontamento que faz jus à anotação de que
os cidadãos que, hoje por hoje, segundo alguns sectores da sociedade, seriam,
curiosamente, os eticamente mais densos, Innerarity interroga o tempo concedido
aos profissionais da indignação, aos performers de um espectáculo cuja
mediocridade não poderia ser maior: “porque
nos surpreende o seu sucesso se passámos tanto tempo a dar a entender que os
encolerizados têm sempre razão e que a ira merece mais atenção do que o
argumento? Como é possível que aqueles que contribuíram para transformar a
política num espectáculo tentem agora convencer-nos de serem a solução?"
(p.71).
Quem
queira ensinar a ler a política hodierna não pode deixar de ensaiar a hermenêutica da performance, o funambulismo do actor nas suas diversas máscaras (a dado momento, possivelmente
tão inverosímeis, que arrisca a queda – “um
líder passa muito depressa de gerar grandes esperanças a tornar-se objecto de
indignação social” (p.131); no entretanto…), de quando em vez o fingidor que finge a dor que deveras sente: “como qualquer um de nós terá podido constatar, a política é cada vez
mais uma encenação: o personagem passa à frente da ideologia, a decoração
importa mais do que as decisões, é tudo um ‘problema de comunicação’ e os
verdadeiros factos são narrativas (...) Á medida que a política se transforma em espectáculo, deve ser
entendida e julgada como tal” (p.127). Pensamento crítico: "criticar o que ninguém criticou ou sob um
aspecto que não tenha sido considerado até ao momento, tal poderia ser a divisa
de uma nova economia política da crítica intelectual" (p.97).
Mas
é neste contexto que Innerarity sublinha, a meu ver identificando bem não o espírito do tempo mas os sinais do tempo, e à semelhança do que
escrevera em “A Política em tempos de indignação” (D. Quixote, 2016), porventura o seu opus magnum, como daquilo que hoje nos encontramos carecidos não é
dessa proximidade de lideranças paródicas e enxertadas em um folclore sem fim, ou que debitam ao segundo sem tempo para uma
respiração que lhes permita pensar – e, se necessário, pensar contra corrente - tantas vezes
reclamada; um outro tipo de lideranças, até por contrastar com a banalização do
pronunciamento imediato e irrefletido e que não esteja no comprazimento do
meramente popular circunstancialmente: “há
espaços para um tipo de liderança diferente da busca ansiosa do 'golpe político’” (p.138). Para derrotar populismos, para afirmar uma política
digna desse nome “não há outra solução
que não seja a política, quer dizer, o trabalho argumentativo, a visão
estratégica, análises mais elaboradas, procura de acordos, capacidade de
resolução de conflitos, vigilância e compromisso cidadão” (p.72). E conexão
com os afectos e emoções das populações.
6.Mais
do que em sociedades plurais, vivemos
em sociedades fragmentadas. E com um considerável acervo de fraturas: brecha de género; intergeracional;
entre
ricos e pobres; entre rural e urbano; mundo
analógico e mundo digital; turbocapitalismo e retrocapitalismo.
Os
cidadãos habitam/vivem em autênticos mundos diferentes: “a segregação ideológica, informativa, urbana e laboral faz com que
vivamos em mundos realmente diferentes. Uma das consequências desta rutura é a
incapacidade de uns e outros se entenderem, não só do ponto de vista da
partilha de objectivos comuns ou compromissos de solidariedade, mas também em
termos meramente cognitivos, de terem em conta o que se passa com os outros, as
razões do seu mal-estar, antes de denegrirem o facto de eles não terem soluções
verdadeiras ou se deixarem seduzir por ofertas que não representam qualquer
solução” (p.134).
Para que algum grau de
aproximação possa advir entre cidadãos, Daniel Innerarity recusa fechamentos como a existência de “linhas vermelhas” na conversação (nomeadamente, inter-partidária), mas também refuta a
existência de “superioridade moral”
(muitas vezes, atribuída a uma autoidentificação
que assim fará a “esquerda”), ou a
arguição de uma “superioridade cognitiva”
(a que a “direita” deitaria mão,
supostamente arreigada e com acesso privilegiado “à realidade”), ou “superioridade
patriótica” (que os “nacionalistas”
supõem alcançar). Ademais, mesmo que nisso imediatamente não se advirta, numa
sociedade plural, existem muitas versões
do politicamente
correcto (o que é politicamente
correcto para uns não o é, necessariamente, para outros; por exemplo,
recorrendo-se a um binómio conservadores/progressistas o padrão, com que cada
membro de um destes grupos entenderá o que é politicamente correcto, divergirá).
Nem, sequer, no meio se achará,
inevitavelmente e em todos os casos, a virtude:
“o centro não representa necessariamente
o monopólio da moderação e da virtude" (p.89).
7.Provindo
Innerarity de um campo que poderíamos classificar social-democrata (em sentido lato), e mesmo que usando de grande moderação tanto na forma como no conteúdo do
que tem por uso subscrever, o filósofo advertirá à esquerda que deve sopesar
como pôde ser tomada como “proibicionista”, como “anti-prazer” nos últimos anos
e, diversamente, como a direita
“deixa-nos o direito ao prazer” (práticas
ambientais, dietas, vacinas, etc). Os estados emocionais podem revelar-se
determinantes em política - e nos respectivos resultados eleitorais ("estão em jogo sentimentos que mobilizam e
opõem, não factos e racionalidade. É por isso que [por exemplo] o jornalismo de
investigação e documentação serve de muito pouco no contexto de uma
confrontação emocional", p.76). A política deve voltar a conectar-se
com os afectos.
Uma
coisa são cidadãos tolhidos pelo medo,
cansados, pessimistas; outra, cidadãos esperançosos
ou esperançados. Só mudanças emocionais redundarão em mudanças de ciclo político,
considera o ensaísta. A esquerda apostará tudo (ou tem apostado) no sentimento de humilhação
injusta (esquerda) como emancipador; a direita, colocará (ou tem colocado) as fichas no desejo de prazer (direita).
"A esquerda manda, regula e proíbe enquanto a direita reivindica uma vida
mais despreocupada e espontânea. Na confrontação política, os limites são o ar
condicionado, o consumo de carne ou a correcção da linguagem, frente às
esplanadas, a cidade iluminada e a desregulação" (p.84). A esquerda aparece altiva e moralizadora
para certas partes da população - senão, mesmo, autoritária.
No
que hoje parece adquirir um certo consenso que vai de Applebaum (O crepúsculo da democracia, Bertrand,
2020) a Jaime Nogueira Pinto (Do que
falamos quando falamos de direita?, Bertrand, 2024), Innerarity vê como uma
das características da última década a existência de uma direita revolucionária, uma novidade face aos últimos decénios
(embora não necessariamente face a toda a sua história da direita): “a revolução é,
hoje, um recurso retórico neoliberal e a linguagem do protesto passou para a
direita” (p.47). Os jovens aderirão, como sucede em várias partes do mundo,
a movimentos populistas de direita,
porque, afinal, hoje o valor contestação mudou de lado? (não
rejeitando, aqueles, em todo o caso, tal valor?). Será a recusa do proibicionismo e o desejo de prazer? A identificação, nestes movimentos, de um “homem-forte” capaz de lhes oferecer
“segurança”? Uma reacção ao rearranjo dos “papéis masculino e feminino”? (“não é exatamente uma luta de géneros, e não
se trata tão-pouco do combate clássico pela igualdade, mas da confrontação
entre tipos de poder e valores tradicionalmente associados aos homens e às
mulheres. Daí que surjam também combinações insólitas, incompreensíveis nos
termos das nossas anteriores classificações da realidade”, p.102). Hipóteses…
E,
no limite, liberdade é “a mera
agregação de vontades” (direita), ou a “construção social de uma vontade comum”
(esquerda)? Por vezes, nostalgia e pressa parecem, ainda, serem nomes
outros de uma dicotomia ideológica.
8.Quanto
ao papel da cidadania e da escola
nela, em discussões que atravessam inteiras sociedades, o pensador basco
equaciona-o do seguinte modo: “não
entende a escola quem a conceba como uma mera extensão da família, quando ela é
um lugar de transição para o mundo, a instituição onde se fazem as primeiras
experiências do estranho, um espaço em que se aprende a viver com menos afecto
e mais diversidade do que no âmbito familiar e, por isso mesmo, uma preparação
para um mundo em que as nossas filhas e os nossos filhos deverão desenvolver-se
em meios muito plurais e gerindo a indiferença ou até mesmo o conflito que, de
um modo geral, não encontram em casa. A sociedade é pluralismo e conflito,
coisa da qual mal chega a ter-se a experiência (ou esta se faz em muito menor
medida) na família e que só uma escola como primeiro repertório da diversidade
nos pode mostrar (...). Se estamos
convencidos de que os valores que lhes transmitimos são os melhores, não
deveríamos recear que verifiquem a sua validade num contexto real, em espaços
onde confluem outras versões do mundo. Se lhes dermos instrumentos para
pensarem e decidirem por contra própria, não deveríamos ser demasiado
timoratos; se a nossa educação foi doutrinação e controlo, então, sim,
poderemos esperar o pior quando, sem a nossa tutela vigilante, entrarem no
mundo real. O ofício de educar é difícil e de certo modo paradoxal. As nossas
próprias convicções e visão do mundo levam-nos instintivamente a desejar que os
nossos filhos pensem como nós, para o que teremos de começar por procurar que
pensem...e nesse caso então são poucas as probabilidades de que pensem como
nós. Uma relação de parentalidade não é uma relação de posse, mas de
responsabilidade (...) Ninguém é
dono de ninguém. Em diferentes graus, quer falemos da família ou da sociedade
civil, quem exerce algum grau de autoridade tem uma responsabilidade que o não
torna dono de outros - nem sequer dos seus filhos menores -, mas sim
facilitador da sua autonomia pessoal” (p.151).
Quanto à perspectiva de uma grande substituição das populações
europeias: “a questão da substituição
(...) Os seus presságios são desmentidos
pela realidade demográfica, mas sobretudo pelo exame dos conceitos que os
sustentam. Trata-se de um discurso que, desde o início, cria um quadro mental
em cujos termos os poderosos são os que vêm de fora e os fracos os autóctones,
quando na realidade é exatamente o contrário que se passa. São antes os que
chegam que sofrem o impacto de uma sociedade que impõe as suas normas e
costumes. Através desta fricção, os imigrantes deixam muitas marcas na cultura
de acolhimento, mas são maiores a influência que recebem e as modificações que
se veem obrigados a realizar no seu estilo de vida. As condições de
substituição não se verificam, mas o discurso da integração parece também não
ter em conta o dinamismo criado pelo cruzamento de duas culturas, um fenómeno
bidirecional, em que se produzem misturas e influências recíprocas. As
sociedades não são unidades fechadas, mas espaços porosos que reconfiguram
sempre a sua identidade a partir de experiências de encontro e de conflito"
(p.67).
9.Com
a inteligência
artificial, não vamos ser dominados pelas máquinas, nem estas nos irão, a prazo, substituir nos empregos: “a inteligência artificial não faz o que faz o cérebro humano. Mais do
que competem, estas duas instâncias colaboram. Por isso, as máquinas não vão
substituir os humanos. A questão [do trabalho] está no período de transição”.
E depende, também, do sector de atividade em que cada um se encontra. A própria
transição ecológica onera, evidentemente, mais uns sectores do que outros.
10.Não
é que tenhamos atravessado uma crise,
ou conjunto de crises – financeira, covid19 – e tenhamos regressado a uma normalidade – que, no futuro, poderá, é certo,
ser prejudicada por nova crise. O que
sucede é que não assentamos em chão firme, essa é a natureza do mundo em que
vivemos. Não foi uma epidemia – vivemos num mundo epidémico; não foi uma crise financeira – situamo-nos num mundo de
instabilidade financeira como pano de fundo. Governar o mundo é
difícil, senão impossível, porque se nos escapa – e, quando não escapa, os
hábitos arreigados demoram uma imensidão a mudar, o que nos previne contra a
insensatez, mas também nos impede de inverter rumo quanto e quando devíamos
(por exemplo, “o vírus agitou tudo, mas
não mudou quase nada; interrompeu muitas coisas, mas modificou muito poucas
(…) A propósito da pandemia: existe
liberdade em sair de casa, sem dúvida, mas não existe liberdade em infectar. Quem,
em nome do seu direito a fazer o que bem entenda, não interioriza o impacto que
as suas acções poderão ter sobre os outros acaba por contribuir para a
construção de uma sociedade em que muitos - e também ele mesmo - verão
reduzidas as possibilidades de fazerem o que bem entendam", p.20).
Numa palavra, e em síntese,
aumenta a sensação de falta de controlo sobre o mundo. Porquê tanta dificuldade
em mudar, quando a necessidade de o fazer é tão óbvia? "Estamos num mundo epidémico e não num mundo
onde irrompem de tempos a tempos as epidemias, num mundo de instabilidade
financeira sistémica mais do que de crises económicas ocasionais (...)
Sociedades e governos vivem no meio de uma instabilidade maior do que aquela
que são capazes de gerir" (p.170). Eis-nos perante a sociedade do risco, como a definia
Ulrich Beck, já em 1986: “a sociedade do risco, como ensinava Ulrich
Beck, é uma sociedade na qual, por assim dizer, há demasiadas coisas em conexão
com demasiadas coisas e de um modo que não é fácil destrinçar, produzindo
encadeamentos catastróficos que não se resolvem em relações de causa e efeito,
mas como resultado de emergências imprevisíveis” (p.172).
Pedro Miranda
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