PRIMO LEVI

 
“O SOBREVIVENTE
                                 a   B.V.
 
Since then, at an uncertain hour
Desde então, a uma hora incerta,
Aquela aflição regressa,
E se não encontra quem o oiça
Queima-lhe no peito o coração.
Revê os rostos dos seus companheiros
Lívidos no primeiro raiar,
Cinzentos de pó de cimento,
Indistintos pelo nevoeiro.
Tingidos de morte nos seus sonos inquietos:
À noite remexem as mandíbulas
Sob o amontoado pesado de sonhos,
Mastigando um nabo que não existe.
«Para trás, fora daqui, gente soçobrada,
Ide. Eu não suplantei ninguém,
Não usurpei o pão de ninguém,
Ninguém foi morto em meu lugar. Ninguém.
Regressai ao vosso nevoeiro.
Não é culpa minha se vivo e respiro
E como e bebo e durmo e visto roupas».

 

                                                     4 de fevereiro de 1984

 

Primo Levi, “O sobrevivente”, in “A uma hora incerta”, edições do Sagão, 2024, p.139 (tradução de Rui Miguel Ribeiro)


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