JANELAS DA ESCOLA


1.Partimos de “Pais à maneira dinamarquesa” (Arena, 2016), das psicólogas Jessica Alexander e Iben Sandahl, para promover uma reflexão-debate acerca da educação e das diferenças culturais na abordagem da mesma. A certa altura, o Adalberto, 18 anos, conta que, em criança, presenciou episódios de violência doméstica, com a mãe alvo de sistemáticas investidas por parte do pai. Aos 7 anos, o Adalberto ligou para a polícia. E como, com aquela idade, sabias o número para o qual havias de ligar?, interrogo. “Olhe, nem de propósito, uma semana antes, a GNR tinha ido à minha escola fazer uma acção de sensibilização e disse o número para o qual devíamos ligar em caso de necessidade. 112. E foi assim que fixei o número”. O papel insubstituível da Escola, a importância de acções de sensibilização, de instituições de referência e com competência que colaboram na formação integral do indivíduo, que vão para lá da matéria do dia, a criança que chamou por socorro sem que o progenitor se apercebesse - de tal modo absorvido, este, numa relação nefasta -, o Adalberto a vergar, depois, “naturalização” da violência, durante anos, ao cinto da mãe, a educação em casa, para ele, como o lugar do que “vi e que não quero repetir”. Os modelos de civilidade que lhe foram apresentados não permitiam concluir que o que se passava entre quatro paredes era aceitável, ou, tão pouco, que era para ficar confinado aquelas. O Adalberto já nasceu nos primeiros anos de 2000.

2.Não sei em que ponto da matéria, ou a propósito de que acção ou conjuntura. Recordo-me de ter dito ao Umberto, rapaz de indiscutíveis méritos escolares mas talvez demasiado adaptado ao mundo, que a resposta (prática) que dera ao problema era demasiado pedestre. Dele, e daquilo em que dizia louvar-se, esperar-se-ia bastante mais do que uma mera imitação de uma sociedade de Talião. Devia ser assim, devia, mas a sociedade de hoje não permite que sejamos assim!, atira-me quando lhe proponho outra medida de ser. Desencantamento com o que o rodeia, incapacidade de imaginar diferente, realismo entorpecedor, realidade tomada enquanto subsunção a modelos mais vezes praticados como se fossem os únicos possíveis e os melhores?...Entre a recusa de um idealismo que não toque efetiva e afetivamente o mundo – a nossa fé tem que ser para um mundo de Putin’s, como foi para um mundo de Herodes, não pode ignorar a existência destes e de modos de agir que aqueles impulsionam em larga escala, nota Halík, no seu último livro; se o cristianismo fosse para anjos, não era, portanto, para nós, humaníssimos com falhas e faltas – e a pura adaptação/repetição deste, sem um plus, sem a transcendência no instante que convide à superação do raso, que inste à beleza e à bondade, havemos de construir com paciência e acrescida sabedoria (da integração do complexo, sem abdicar do compassivo).

3.Já os neoplatónicos diziam aos estoicos, tendo em conta o que estes defendiam face ao problema da “liberdade”: se o determinismo é a verdade, para que ensinais ética? Se afinal o indivíduo nada pode face ao condicionamento biológico-cultural…Só que a falácia, como assinala Adela Cortina em “Ética o ideologia de la inteligência artificial?” (Paidós, 2024), é essa: assimilar/identificar condicionamento – a “lotaria natural” que inegavelmente existe e marca o indivíduo – como determinismo - o indivíduo não podia fazer coisa outro do que aquela que fez. Hoje, assim, certos cientistas do nosso tempo, talvez de modo especial alguns neurocientistas, “acreditam descobrir que a liberdade é uma ficção, um mito, uma superstição e sentem-se orgulhosos de revelar a notícia aos seus ingénuos congéneres para lhes oferecer uma pátina de Ilustração. A partir desse ponto, costumam convidá-los a construir uma sociedade melhor assente em bases científicas ou tecnocientíficas, mostrando que também esses cientistas acreditam que somos livres, ainda que o não possam explicar cientificamente”. Os gurus garantem-nos que Governos e empresas, munidos de poderosos algoritmos, conhecem-nos (ou conhecer-nos-ão) melhor do que nós a nós mesmos – o digital Agostinho dos pequenitos – e, assim, nos manipularão sem apelo nem agravo. Que o tentem, como diz com firmeza Adela Cortina, de acordo; que o consigam, está nas nossas mãos.

4.Se compreender uma condição (de vida) outra, diversa daquela em que dada pessoa/cidadão se encontra, nem a todos se oferece como (literal) exercício simples, uma história, uma imagem, uma pequena parábola, uma perfeita analogia ajudará com certeza. Assim o conto de Mia Couto, “Sem teto” (em “Compêndio para desenterrar nuvens”, Caminho, 2024): Maurício Magno, homem de proveta idade, numa casa a meter água por todos os lados, PC lento, sitiado por um mercado no qual o deslumbramento tecnológico impõe sucessivos gadjets, comete a loucura de comprar um computador novo. Liga, então, e de imediato, ao filho, para proceder a uma escolha adequada: “o moço é solícito, mas vai perdendo a paciência perante a inaptidão do pai (…) Não são explicações, são avisos ameaçadores: «o pai não compre nada que não tenha memória RAM menos do que 8 GB, não venha com ecrã retina, não tenha placa gráfica com Neural Engine 16-core e cujo disco SSD seja menor do que 500 GB»”. O pai desiste de explicações e manda adquirir o computador. Não percebe, porém, nadinha, nadinha das instruções e, de novo, solicita ajuda do descendente que, agora, o remete à geração seguinte: “Maurício liga ao neto e suplica que lhe explique como funciona aquela «porcaria». O telefonema não corre bem. Maurício e o neto não falam o mesmo idioma. Estão mais afastados do que se vivessem em continentes diferentes. É um homem moderno a falar com um Neanderthal. (…). Pela primeira vez em muitos anos, Maurício chora ao sentir-se um emigrante sem terra de origem e sem país de destino”. O abismo geracional tecnológico e a desesperante e desesperada infoexclusão enquanto lugar sem abrigo, sensação (de) apátrida. Dá para perceber, agora (quem nunca ficou horas ao telefone, primeiro numa espera ad eternum, depois confuso entre explicações e evitações do call center, entre o ataque de nervos e a desistência, perante uma avaria técnica?), assim, (o que, no limite, e em dadas circunstâncias, pode ser o sentimento/condição de) um emigrante/imigrante?

Pedro Miranda

publicado na revista "Pensar(es)", da Escola Dr. João de Araújo Correia




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