O MUNDO VISTO POR JOSÉ GIL

 
 
1.Em termos académicos tradicionais, quem quisesse escrever sobre Platão deveria não só ler Platão na íntegra, como acrescentar todos os comentadores que sobre ele tivessem ensaiado. Então, sim, estaria o neófito em condições de discorrer acerca de Platão e suas ideias. Sucede que nesse percurso exaustivo um tanto de criatividade se pode perder. José Gil, em livro de entrevistas com Marta Pais de Oliveira (“A Última Lição”, Contraponto, 2025), considera que, em não havendo regra universal para trazer/manter à tona o criativo na aproximação a um autor/filósofo (ou a partir deste), algum doseamento entre o esgotar de todas as leituras do/acerca do filósofo e o avançar, mais precoce, para o comentário pode ser proveitoso.
 
2.Justamente, José Gil transitou entre estes dois regimes, enquanto aluno, frequentando a universidade francesa, cativado, de sobremaneira, pelo que considerou comentadores excepcionais (fazedores de um comentário nunca voltado, apenas, para o passado, mas capaz de significar agora), por pensadores - nos quais Deleuze parece sobressair - que davam cursos nos quais experimentavam e debatiam, intensamente, com os alunos - nomeadamente, o que estavam a passar a livro - o resultado da sua experiência – de pensamento, existencial, emocional. J. Gil, neste contexto, década de 60, viveu/foi apanhado/integrou-se em um período de autêntica ebulição intelectual que gerou uma incandescência do pensamento. Um desses momentos que sucedem uma vez num século – “e nem em todos os séculos”. O epicentro desse abalo fervilhante foi o Quartier Latin: “No Quartier Latin – o bairro da Sorbonne, dos estudantes e dos professores – acontecia-me muitas vezes tomar um café, estar sentado e ver entrar Merleau-Ponty cheio de jornais, que ia lendo enquanto tomava o seu café. À tarde – havia uma brasserie mesmo ao lado da Sorbonne onde eu esperava os meus colegas que tinham ido a outros cursos – entrava Gaston Bachelard. Que era adorável com a sua barba. Depois víamos descer a rua em grande conversa Lacan e Merleau-Ponty. Em grande discussão. Quando morei em Montparnasse, acontecia estar na fila para comprar cigarros e Sartre estar lá também. Essas pessoas todas estavam ali, coexistiam num espaço pequeno e isso provocou uma espécie de incandescência do pensamento”. O pensamento, no dizer do filósofo, tornar-se-ia, então, subversivo, de tal modo que as estruturas do poder se vêem na contingência de lhe colocar termo: “o Quartier Latin desapareceu depois do Maio de 68, porque a ministra da Educação [Alice Saunier-Seité] percebeu que aquilo era subversivo demais, um bairro de estudantes”.

3.Em realidade, observado a partir de dentro (de quem, desde há muito tinha uma relação forte com a língua francesa e com França), o que estava em causa era toda uma revisão da vida em que assentava o mundo francês, um reordenamento no qual se inscreviam os frutos, as consequências da participação da França na guerra (e o seu mais profundo significado): “Aquela universidade académica, com um ensino académico, vinha de antes da guerra. A literatura e o cinema vinham de antes da guerra. Só nesses anos 60 é que começou a nascer uma efervescência de inteligência, de criação, de criatividade, de novidade, de estímulo, com uma intensidade jamais vista. A tal ponto que, mesmo antes de Maio de 68 e depois, o que contava já não era a academia, que tinha implodido. O que contava eram os pensamentos, não tanto da filosofia como das disciplinas das ciências humanas. Lacan enchia anfiteatros de centenas de pessoas. Não estou a exagerar, eram anfiteatros cheios na Faculdade de Direito – dava aulas ali e noutros sítios. Barthes, Foucault, já aí, Deleuze, Derrida, Althusser. Havia como que chamas a arderem e a estimularem-se na inovação. Uma espécie de incandescência da criatividade. Deleuze, que tinha vindo de Lyon e que tinha arranjado lugar em Paris – nunca vi uma coisa assim. Nós vivíamos aquilo constantemente, havia pessoas que iam de um seminário de Barthes para um seminário de Althusser, de Althusser para Lacan, de Lacan para Deleuze, de Deleuze para Foucault. Seminários muitas vezes contraditórios uns dos outos. Deleuze não era propriamente lacaniano. Ele tinha lido tudo sobre Lacan, mas O Anti-Édipo era antipsicanalítico. Ia-se a tudo. Os próprios professores que ensinavam viviam num tal estímulo intelectual, numa tal, não direi competição, mas numa estimulação, num entusiasmo que fazia com que houvesse um ímpeto de intensidade permanente para aprenderem coisas novas. Não podia ser apenas comentários de coisas antigas. Criavam sempre obras novas – nos seminários, nos cursos, surgiam pensamentos novos. Era extraordinário viver num clima assim. Quando depois se sai disto, o mundo parece morno”.
De acordo com José Gil, ainda hoje não se sabe o que foi o Maio de 68. No “não se sabe”, ele, que participou nos protestos e discursou então na Sorbonne, incluído. Tratou-se, assegura, de um movimento que não passava pela reivindicação de questões materiais, económicas – a França em pleno emprego, vivia-se bem a esse nível, considera -, mas, diferentemente, por um registo da ordem do desejo, por uma contestação integrando (a perspectiva da existência de binómios ou antíteses como as) de um ensino pejado de academismo e uma separação deste face ao real, da vida tal qual esta se experimentava ou da abertura que ela continha (contém) por contraponto a fórmulas, à ideologia (em sentido lato), da academia e do discurso académico (enquanto metadiscurso - por cima, ou ao lado, da vida). Em Maio de 1968, a CGT, a contragosto, ao fim de 15 dias da rebelião (jovem), realiza uma greve geral, finda a qual sentenciou: “não, agora arranjem-se, estudantes, nós não fazemos mais nada. [Tal] Como o Partido Comunista, não percebeu nada. Porquê? Porque eram os filhos dos burgueses [a protagonizar a sublevação], não eram da classe devida [o proletariado]. Eles queriam o quê? Eles tinham boa qualidade de vida. A França estava em bom estado: económico, social. Os estudantes queriam privilégios? Mas eles já tinham privilégios, estavam a lutar pelo quê? Eles diziam que era pelo amor, o desejo, a liberdade, a imaginação. Umas coisas esquisitas para uma revolução, nunca se viu. (…). Num mês, um movimento como este propaga-se, contamina a França inteira, derruba o governo, o poder está prestes a cair (…). Hoje, continuo convencido de que ainda não se sabe o que foi Maio de 68. Provava-se que a doutrina política das revoluções (…) não era justa porque não foi só por razões sociais, políticas, materiais que, de repente, um governo podia cair. (…). Foram desejos – o desejo foi um dos elementos culturais -, a sexualidade, a liberdade”.
 
4.Vinte anos volvidos sobre “Portugal, hoje, o medo de existir”, o livro do Catedrático de Filosofia que conhece múltiplas edições na primeira década deste século, raro ensaio lido por largos milhares de portugueses, José Gil esclarece que aquela sua obra nunca foi, nem pretendeu ser acerca da identidade portuguesa, mas situado, antes, no umbral que cruza o colectivo com o individual, o (domínio) das “mentalidades” (“há um grande mal-entendido com o Portugal, Hoje. Até nas primeiras críticas que teve, que foram boas ou ótimas, todos julgaram que estava ali a analisar a identidade portuguesa. De maneira nenhuma. Estava a analisar mentalidades (…) uma zona de impregnação recíproca da subjectividade e do social. Em que o indivíduo se mistura com a sociedade e a sociedade entra pelo indivíduo a dentro, e nessa zona de combinação em que não se sabe se a voz vem do sujeito ou do colectivo”). E, quanto a estas, as mentalidades e a sua origem/formação, retoma o considerando de que [nós, portugueses] “fomos formados pelo silenciamento, a inclinação à obediência, ao vergar-se. É horrível” - refere quanto à - a anos e anos [maxime, os 48 do Estado Novo, no século XX] de - formatação portuguesa. Os “velhos sedimentos” tendem a permanecer, o que se detetará, por exemplo, quando, mau grado saiba existirem (assíduos) leitores seus em Portugal, algum eco aqui e ali lhe chega (mas, em realidade, quem são?, onde estão?, interroga-se), não há, na generalidade das ocasiões, quem venha ao espaço público, nomeadamente Professores, comentar, observar, debater, discutir, criticar o que escreve (uma queixa que não raramente encontramos expressa por diferentes intelectuais ou artistas portugueses). Entra-se em uma opacidade, o silêncio emerge sobre o discorrido, um medo do confronto – de ideias, de posições, de perspectivas, de posicionamentos… – ergue um enorme muro (em uma mentalidade, durante décadas forjada, habituada à ausência de espaço público, a vida habitual) que não se derruba (no âmbito das Ciências Sociais, a História, no escrutínio de investigações inter-pares, será uma excepção, no entender do Professor de Filosofia) e não permite um exame dialogado sobre a pertinência do que apôs/apõe sobre o papel. Para o pensador português, há, aqui, ainda, um sintoma de falta de confiança em avançar sobre o palco e perorar quanto ao que os livros (que, nomeadamente, o próprio publica) trazem ao espaço comum (o medo de não estar à altura - na dilucidação de um ponto, no questionamento de uma asserção, no contraditório de uma interpretação). Essa não confiança e, mais, o não assumir de responsabilidade, no universo português, encontra-se presente, também, em práticas como as do chico-espertismo, contornando-se normas comuns de modo enviesado (ou na inveja - que não desapareceu).
No espaço público (português), carcomido pelo mediático, mas no qual convém remeter, ainda, às dimensões da publicação, dos livros, da informação, à reunião, o ensaísta detecta uma omnipresença da linguagem e cultura políticas, mas já não assim das atinentes às culturas literária ou científica que, a seu ver, deveriam adquirir outra relevância.
Detido sobre Portugal e interrogado quanto ao estádio de desenvolvimento em que nos encontramos, e ao trajecto desde Abril de 1974, José Gil propõe que se observem dois critérios em tal análise: i) como estamos face ao tempo da ditadura; ii) perante a Europa, como nos situamos/comparamos, hodiernamente. Da conjugação destes dois elementos algo saberemos sobre o nosso ponto de situação.
 
5.No entender de José Gil, “há dois flagelos que atravessam o planeta – o flagelo climático e a extrema direita”. Quanto ao primeiro, “as alterações climáticas são uma ameaça radical para a Humanidade. Não é uma ameaça de grandes desolações, como a guerra. Será uma coisa tremenda. (…) O meu filho [de 26 anos] vivê-lo-á (…) E está consciente disso”. Ora, o que aqui se joga é a própria consciência de que pode vir aí o fim da Humanidade – e de como, para o entrevistado, a filosofia (e a sociedade civil, como um todo) ainda não elaborou (elaboraram) sobre “o que é uma morte colectiva para cada unidade individual? Leva a uma revolução da maneira de pensar. Já não é humanista, é outra coisa”. Em termos mais chãos, “quando a regularidade dos flagelos climáticos se sobrepuser, pela sua velocidade e ritmo, à regularidade da segurança homeostática, o humano não pode viver. O que é que vai acontecer?”.
De outra banda, não é possível contrariar-se, em debate de ideias, o discurso populista, dada a sua estrutura paranoica – e contra um paranoico nunca se ganha, porque o paranoico tem sempre razão: “não há possibilidade de contrariar, num debate de ideias, o discurso populista. Perde-se sempre, e é – aliás – o que os populistas querem. O discurso populista tem uma estrutura paranoica e contra um paranoico nunca se ganha. O paranoico tem sempre razão. Posso mostrar porquê – há uma estrutura discursiva que faz com que consiga sempre responder. Quando utiliza a razão, com argumentações, o paranoico tem uma fórmula imediata de resposta que não tem que ver com a racionalidade, tem que ver com outro modo de ocupar o espaço-tempo, de destruir a possibilidade de diálogo”.
Então, nada há a fazer? Ora, aqui, o filósofo, ilustrando com o caso português, menciona o humor, um humor gargantuesco [de Gargântua e Pantagruel, de Rabelais], como uma hipótese: “espanto-me com o facto de não aparecer ninguém que, pela força do riso, mas de um riso gargantuesco, meta o Ventura num saco”.
A nível global, o que constata é um fracasso democrático – “a França está a um passo de eleger Marine Le Pen. A Alternativa para a Alemanha (AfD) está a um passo de tomar o poder. Se a França e a Alemanha viram para a extrema-direita, é a Europa inteira que desaba”, o que se junta ao controlo totalitário chinês, através do big data, dos seus cidadãos (e, porventura, não exclusivamente destes) – e “o que aí vem é de tal maneira forte, de tal maneira duro, de tal maneira universal que, em princípio, teoricamente, rebenta com toda a resistência”. Ora, “o que anima uma ordem mundial neofascista é a morte”: a ideia de que uma nova Riviera se erguerá em Gaza só é possível partindo do pressuposto da completa aniquilação dos palestinianos. Quando Trump – “estamos a ser governados por um criminoso” -, incessantemente, diz que “nunca se viu nada na história assim”, “é inacreditável o que estamos a conseguir fazer”, “o melhor do mundo” denega-se a própria morte, julgando-se atingir, ao mesmo tempo, com ela, a imortalidade: “e sabe o que é mais perverso? É que com essa cultura da morte, os fascistas julgam aceder à imortalidade” [evoco, aqui, Ernest Becker (1924-1974) propôs a seguinte explicação (estrutural) para a pulsão de morte: “o impulso destruidor seria uma reacção à comoção que a nossa mortalidade produz em nós. Humanos, reprimimos a nossa consciência da morte identificando-nos com uma ideia ou crença e, de imediato, matando por [em nome de] ela. Destruir outras pessoas [motivado] por uma abstracção cria nos destruidores a ilusão de fuga da mortalidade à qual enviam os destruídos. Segundo este paradoxo psicanalítico, o assassinato em massa viria a ser a expressão mais extrema dessa negação da morte” (John Gray, “Los nuevos leviatanes”, 2024, p.166]. Face à extrema direita, a resistência não é suficiente: “temos de passar à ofensiva”, exorta José Gil.
O filósofo, com efeito, exaspera com a denegação que se produz e que percebe repetir-se na história - “o que me espanta é que depois das deportações [ordenadas por Trump], demissões provocadas na administração federal, depois de centenas de ordens executivas que modificam muito o panorama democrático, haja ainda pessoas a dizer: «mas ele não vai modificar a nossa vida». Foi a mesma reacção que perdeu centenas de milhares de pessoas na Europa, judeus e outros, aquando da emergência do nazismo. Não era possível? Havia a Noite de Cristal, havia os Pogrom, havia toda aquela insanidade cruel em relação aos judeus, e as pessoas não acreditavam. Judeus que ficaram na Alemanha julgando que era possível outra saída e que acabaram nos campos de concentração” – e chega ao ponto de, aparentemente, assinalar um beco sem saída – “na situação actual, não acredito, não vejo saída nenhuma. Não vejo saída para o desastre da conjunção das alterações climáticas com as forças de hegemonia pulsional desigualitária”. Todavia, e paradoxalmente, afirma uma esperança vivenciada: “não se pode viver em desespero. Viver em desespero significa matar-se. Portanto, não é viver. Viver é ter esperança (…) É porque vivemos e porque a vida é esperança que eu tenho esperança, perante tudo o que nos pode acontecer” [aqui, Andrés Torres Queiruga diria que o não colocar termo à vida, quando tal pode ser feito (por quase todos), é o referendo pragmático de que a vida, em todo o caso e para uma esmagadora maioria, vale a pena].
Autor de uma vasta obra, na qual o corpo adquire centralidade (também enquanto objecto de pensamento), José Gil olha para a pessoa, diferentemente de muito do ar do tempo, como sagrada (porque habitada pelo espírito): “Uma pessoa é sagrada. Há qualquer coisa num ser humano da ordem do valor absoluto. É isso o sagrado. Não é por acaso que há interditos de matar. Não é por acaso que se diz que uma vida merece o respeito total. Uma pessoa é sagrada porque há nela algo que não sabemos o que é, a que chamamos espírito, que está no corpo, que é o corpo. Qualquer coisa a que chamamos espírito existe na ordem do sensível. O próprio sensível é sagrado. (…) Porque é que uma criança é sagrada? A vida é sagrada e na de uma criança condensa-se um valor que é intocável. Uma espécie de referencial absoluto de valor”.
Não se pode viver uma vida sem “crenças” e as suas, além do carácter sagrado dos humanos, passam pelas noções de que “ao lado da pulsão do homem que é matar outro homem, e que está no fundamento da húbris desigualitária maior, há uma pulsão tão forte – ou menos forte, talvez, porque nunca teve o «poder», palavra que não condiz com essa força – que torna possível uma relação duradoura em que, como diz Espinosa, o humano é o melhor bem que existe para outro humano”, de que “nada traz em si a razão de si”, de que a “liberdade não é uma essência”, sendo, nós-outros, “seres de caos”, de que “a vida não procura sentido: a vida é sentido” (e “criamos sentido, porque nos deixamos desprender da vida”, “como se a vida não bastasse” [recordo Carlo Maria Martini: estive tão implicado na vida, tão ocupado que não pensei/elaborei sobre o tema; lembro, por outro lado, Tolentino de Mendonça: a vida não pode ser só isto - e na síntese de Ratzinger: momentos em que a vida devia ser sempre assim e como que se antecipa aqui a vida eterna, momentos em que a dureza é tal e apetece superar o aqui e agora; o trabalho como que tendo que ter um sentido, reclamado a Ocidente, e não exatamente assim onde ainda a luta por um qualquer modo de sobrevivência se sobrepõe, registam Banerjee e Duflo; para Kung, a Ocidente, não era questão porque era óbvio que o sentido se encontrava em seguir os preceitos da Igreja], de quem sem palavra a comunidade humana desapareceria, de que continua a fazer sentido, politicamente, falar de esquerda e direita
 
6.Nascido, em Muecate, Moçambique, em 1939, José Nuno Godinho Mendes Gil é filho de colonos portugueses e, no conjunto de entrevistas, ao longo de 6 meses, à (premiada) escritora (romancista, contista, autora de obras infanto-juvenis, autora de libretos de óperas) Marta Pais de Oliveira, que enformam A última lição de José Gil essa consciência é muito marcada (por um sentimento de injustiça - para com os locais, sobretudo). Neste âmbito, José Gil sublinha, desde logo e também, a própria violência contra a criança (filha de colonos) que significa ela mandar e ser obedecida por empregados (negros) muito mais velhos do que ela (como que invertendo a “hierarquia natural das coisas”), tomados como inferiores (apesar de serem seus semelhantes – e é aqui que a violência sobre a criança adquire intensidade maior, desvirtuando a verdade das coisas); a oferta, que o pai lhe fez, um elefante enquanto brinquedo, que deixa antever como símbolo de uma arbitrariedade de poder naquele recanto de África onde se situam; a chegada do pai, com a tomada em ombros de um tigre capturado, como sinónimo de um pronunciado poder sobre os animais como parte de uma soberania tomada a mão de ferro (“a superioridade sobre a selva era uma superioridade que também se manifestava sobre os negros”; “o poder colonial passa também pelo poder sobre os animais”; um dos grandes teorizadores da soberania, Jean Bodin, irá explorar este ponto; o pai de José Gil, que estivera na I Guerra Mundial embora na parte militar ligada ao secretariado, criava crocodilos, pequenos leões e outros bichos selvagens); os gritos de negros com as palmatoadas na polícia que o leva a sair do carro em que viajava por não mais aguentar aquele som (no que nos leva aos livros de Álvaro Vasconcelos, também filho de colonos e infância em Moçambique, em que episódios idênticos são relatados); e “o resto da carne de hipopótamo era dada aos negros”…
No entender de J.Gil, que teve um amo, um rapaz negro de nome Inácio, e trocava sapos e serpentes entre colegas, nascer nas colónias é nascer desenraizado; por outro lado, o colono, como não tem uma tradição, ou, melhor, como a tradição está longe, pode como que começar do zero. Na reflexão daquele que foi docente no Departamento de Psicanálise e Filosofia da Universidade de Paris, “o colono vai tratar o nativo como um estrangeiro na sua casa”, fazendo com que este se torne “estrangeiro para si próprio” (imposição de uma cultura, de um Direito, de uma religião que lhe são estranhas).
Aos 12 anos, José Gil aprende francês. Em Lourenço Marques, no Liceu Salazar, tem acesso a um ensino excepcional, com grandes mestres que ali se encontravam exilados, dos quais destaca Aurélio Quintanilha (pai de Alexandre Quintanilha). De tal modo é a qualidade da sua preparação que quando se candidata à universidade francesa está em melhor posição do que os rapazes e raparigas franceses.
No que ao ensino superior diz respeito, farto de memorizações e buscando o fio simples e belo que era possível desenrolar pela matemática, é na área das ciências naturais que começa por assentar, numa época em que ainda não havia calculadoras (“Álgebra Superior foi formidável (…) Cheguei a fazer exercícios em que não fazia contas. Explicava como fazer isto, mais isto, mais isto – enchia páginas a explicar cada passo minucioso e dava certo. E depois davam-me dezoito”). Porém, a rarefacção do ar, em Portugal, para onde viera aos 17 anos, levam-no a Paris e, em se encontrando na capital francesa por esse desejo de liberdade (libertação), “não ia para lá resolver problemas” (matemáticos). Daí, o ingresso em Filosofia – curso do qual esteve, igualmente, à beira de desistir em função do academismo e do corte com a vida (da ausência de significado) que, no seu entendimento, a dado momento aquele parecia representar. Porque “a razão não basta”, Gil fez extensos estudos na área da feitiçaria, da magia e da loucura – mormente, em Trás-os-Montes (e, de novo, aponta às elites o serem displicentes para com o modo como estas, feitiçaria e magia em especial, pululavam entre a população e, não obstante, não se lhe dispensava interesse e estudo; a José Gil a etnologia, a antropologia, a psicanálise interessaram de sobremaneira). Ainda em França, constataria a presença de forças da mesma natureza na Córsega, onde os mortos sempre apareciam e conviviam com os vivos (e onde as relações entre as pessoas eram de ímpar intensidade, mas também onde casos relacionados com a máfia podiam passar séculos longos sem estarem resolvidos). O estudante que se doutoraria, em 1982, em Paris, com um estudo sobre “O corpo como Campo do Poder”, sob orientação de François Chatelet, aceitaria integrar-se, em França, durante semanas, em uma seita, na qual veria pessoas sem estudos em Matemática, chegarem a problemas, desta área disciplinar, complexíssimos, tal o apuro e concentração (mental) em que entravam.
 
No dizer de José Gil, a IA, para lá dos malefícios potenciais, também providenciará uma “medicina preventiva” capaz de feitos extraordinários (“curando a doença como jamais na história da Humanidade. Será fantástico, será uma outra era!”); julga ter escrito livros com interpretações relevantes (e nas quais se poderia pegar e continuar) sobre a obra de Fernando Pessoa (O Livro do Desassossego trai a gramática, mas é genial”); observa no autor de “Mensagem” uma grande capacidade de criar conceitos filosóficos; já em Camilo Castelo Branco há uma “genialidade selvagem”, sendo “imensamente rico para pensar” a sua relação com a cultura popular; entende que falta facilitar mais “velhices criativas”, estação na qual, a velhice, por exemplo Kant escreveu a “extraordinária e criadora” Crítica da Faculdade de Julgar. Uma idade onde existe uma “liberdade criadora” que, não raro, não se encontra noutras idades – pesem outras capacidades perderem-se ou mitigarem-se em cada pessoa. Ganha-se, afiança, com a chegada do Outono da vida, um “desprendimento que é uma liberdade” quanto a “pulsões de captura do outro”; entende, acerca da sua obra, ter tido uma “maneira própria de descrever os mecanismos infraverbais”.
Deu seminários de “estética da dança”, em Arnhem, na Holanda, e no Centre National de la Danse, em Paris, tal como ministrou ensaios sobre Pessoa e Deleuze no Departamento de Psicologia Clínica da PUC-SP, São Paulo, tal como em Medellín, na Colômbia. Participou em colóquios pelo mundo inteiro, Professor Convidado na Universidade Nova de Lisboa, desde 1981, Professor Catedrático de Filosofia desde 1995. Foi Adjunto do Secretário de Estado do Ensino Superior e da Investigação Científica no VI Governo Provisório; responsável por algumas das entradas da Enciclopédia Einaudi.
Adora Bach; escreveu algumas peças de teatro e, farto do livresco, a certa altura decidiu vender a sua Biblioteca – “uma burrice”; sabe que pensar não é um exclusivo da Filosofia – “o que é que significa pensar na arte? (…) Pode-se pensar com meios diferentes, não só com conceitos. Pensa-se poeticamente com palavras, pensa-se com imagens cinematográficas, picturais, pensa-se com gestos. Pensa-se dançando. Pensa-se até negando tudo isso – gestos, imagens e palavras (…) Não há pintura sem pensamento. Não há partitura musical sem pensamento (…) Há muitas maneiras de pensar, verbais e não verbais”); marcado pelo espaço amplíssimo e aberto de África, com as mulheres negras a passearem de seios nus para estupor da criança que foi, menino de sua mãe (ela que, aos 70 anos, se lançou a aprender italiano); tocado pela rotura com os pais com a ida para um colégio interno e desembocando aos 17 anos num Portugal claustrofóbico, jogaria, por diversas vezes, pingue-pongue com Eduardo Lourenço que, mais ágil e vigoroso, por diversas vezes sairia vitorioso dessas partidas.

Pedro Miranda





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