1.Em
termos académicos tradicionais, quem quisesse escrever sobre Platão deveria não só ler Platão na
íntegra, como acrescentar todos os comentadores
que sobre ele tivessem ensaiado. Então, sim, estaria o neófito em condições de discorrer acerca de Platão e suas ideias.
Sucede que nesse percurso exaustivo um tanto de criatividade se pode perder. José
Gil, em livro de entrevistas com Marta
Pais de Oliveira (“A Última Lição”, Contraponto,
2025), considera que, em não havendo regra universal
para trazer/manter à tona o criativo na aproximação a um
autor/filósofo (ou a partir deste), algum doseamento
entre o esgotar de todas as leituras do/acerca do filósofo e o avançar, mais
precoce, para o comentário pode ser
proveitoso.
2.Justamente,
José Gil transitou entre estes dois regimes,
enquanto aluno, frequentando a universidade francesa, cativado, de sobremaneira, pelo que considerou comentadores excepcionais (fazedores de
um comentário nunca voltado, apenas,
para o passado, mas capaz de significar agora),
por pensadores - nos quais Deleuze parece sobressair - que davam cursos nos quais experimentavam e
debatiam, intensamente, com os alunos - nomeadamente, o que estavam
a passar a livro - o resultado da sua experiência – de pensamento, existencial, emocional. J. Gil, neste contexto,
década de 60, viveu/foi apanhado/integrou-se em um período de autêntica
ebulição intelectual que gerou uma incandescência
do pensamento. Um desses momentos
que sucedem uma vez num século – “e nem em todos os séculos”. O epicentro desse abalo fervilhante foi o Quartier
Latin: “No Quartier Latin – o bairro da Sorbonne, dos estudantes e dos
professores – acontecia-me muitas vezes tomar um café, estar sentado e ver
entrar Merleau-Ponty cheio de
jornais, que ia lendo enquanto tomava o seu café. À tarde – havia uma brasserie mesmo ao lado da Sorbonne onde
eu esperava os meus colegas que tinham ido a outros cursos – entrava Gaston Bachelard. Que era adorável com
a sua barba. Depois víamos descer a rua em grande conversa Lacan e Merleau-Ponty. Em grande discussão. Quando morei em Montparnasse,
acontecia estar na fila para comprar cigarros e Sartre estar lá também. Essas
pessoas todas estavam ali, coexistiam num espaço pequeno e isso provocou
uma espécie de incandescência do pensamento”. O pensamento, no dizer do
filósofo, tornar-se-ia, então, subversivo,
de tal modo que as estruturas do poder se vêem na contingência de lhe colocar
termo: “o Quartier Latin desapareceu depois do Maio de 68, porque a ministra da
Educação [Alice Saunier-Seité]
percebeu que aquilo era subversivo
demais, um bairro de estudantes”.
3.Em
realidade, observado a partir de dentro
(de quem, desde há muito tinha uma relação forte com a língua francesa e com
França), o que estava em causa era toda uma revisão da vida em que
assentava o mundo francês, um reordenamento no qual se inscreviam
os frutos, as consequências da participação da França na guerra (e o seu mais
profundo significado): “Aquela
universidade académica, com um ensino académico, vinha de antes da guerra. A
literatura e o cinema vinham de antes da guerra. Só nesses anos 60 é que
começou a nascer uma efervescência de inteligência, de criação, de
criatividade, de novidade, de estímulo,
com uma intensidade jamais vista. A
tal ponto que, mesmo antes de Maio de 68 e depois, o que contava já não era a
academia, que tinha implodido. O que contava eram os pensamentos, não tanto da
filosofia como das disciplinas das ciências humanas. Lacan enchia anfiteatros
de centenas de pessoas. Não estou a exagerar, eram anfiteatros cheios na
Faculdade de Direito – dava aulas ali e noutros sítios. Barthes, Foucault, já
aí, Deleuze, Derrida, Althusser. Havia como que chamas a arderem e a estimularem-se na
inovação. Uma espécie de incandescência da criatividade. Deleuze, que tinha
vindo de Lyon e que tinha arranjado lugar em Paris – nunca vi uma coisa assim.
Nós vivíamos aquilo constantemente, havia pessoas que iam de um seminário de
Barthes para um seminário de Althusser, de Althusser para Lacan, de Lacan para
Deleuze, de Deleuze para Foucault. Seminários muitas vezes contraditórios uns
dos outos. Deleuze não era propriamente lacaniano. Ele tinha lido tudo sobre
Lacan, mas O Anti-Édipo era antipsicanalítico. Ia-se a tudo. Os
próprios professores que ensinavam viviam num tal estímulo intelectual, numa
tal, não direi competição, mas numa estimulação, num entusiasmo que fazia com
que houvesse um ímpeto de intensidade permanente para aprenderem coisas novas. Não podia ser apenas comentários de coisas
antigas. Criavam sempre obras novas – nos
seminários, nos cursos, surgiam pensamentos novos. Era extraordinário viver num
clima assim. Quando depois se sai disto, o mundo parece morno”.
De
acordo com José Gil, ainda hoje não se
sabe o que foi o Maio de 68. No “não se sabe”, ele, que participou nos
protestos e discursou então na Sorbonne, incluído. Tratou-se, assegura, de um
movimento que não passava pela reivindicação de questões materiais, económicas – a
França em pleno emprego, vivia-se bem a esse nível, considera -, mas,
diferentemente, por um registo da ordem do desejo, por uma contestação
integrando (a perspectiva da existência de binómios
ou antíteses como as) de um ensino
pejado de academismo e uma separação
deste face ao real, da vida tal qual esta se experimentava ou da abertura
que ela continha (contém) por contraponto a fórmulas,
à ideologia (em sentido lato), da academia
e do discurso académico (enquanto metadiscurso - por cima, ou ao lado, da
vida). Em Maio de 1968, a CGT, a
contragosto, ao fim de 15 dias da rebelião
(jovem), realiza uma greve geral, finda
a qual sentenciou: “não, agora arranjem-se, estudantes, nós não fazemos mais
nada. [Tal] Como o Partido Comunista,
não percebeu nada. Porquê? Porque eram
os filhos dos burgueses [a
protagonizar a sublevação], não eram
da classe devida [o proletariado]. Eles queriam o quê?
Eles tinham boa qualidade de vida. A França estava em bom estado: económico,
social. Os estudantes queriam privilégios? Mas eles já tinham privilégios,
estavam a lutar pelo quê? Eles diziam
que era pelo amor, o desejo, a liberdade, a imaginação.
Umas coisas esquisitas para uma revolução, nunca se viu. (…). Num mês, um
movimento como este propaga-se, contamina a França inteira, derruba o governo,
o poder está prestes a cair (…). Hoje,
continuo convencido de que ainda não se sabe o que foi Maio de 68. Provava-se que a doutrina política das
revoluções (…) não era justa
porque não foi só por razões sociais, políticas, materiais que, de repente, um
governo podia cair. (…). Foram desejos –
o desejo foi um dos elementos culturais -, a sexualidade, a liberdade”.
4.Vinte
anos volvidos sobre “Portugal, hoje, o medo de existir”, o livro do Catedrático
de Filosofia que conhece múltiplas edições na primeira década deste século,
raro ensaio lido por largos milhares de portugueses, José Gil esclarece que
aquela sua obra nunca foi, nem pretendeu ser acerca da identidade portuguesa, mas situado, antes, no umbral que cruza o colectivo com o individual, o (domínio)
das “mentalidades” (“há um grande
mal-entendido com o Portugal, Hoje.
Até nas primeiras críticas que teve, que foram boas ou ótimas, todos julgaram
que estava ali a analisar a identidade portuguesa. De maneira nenhuma. Estava a
analisar mentalidades (…) uma zona de impregnação recíproca da
subjectividade e do social. Em que o indivíduo se mistura com a sociedade e a
sociedade entra pelo indivíduo a dentro, e nessa zona de combinação em que não
se sabe se a voz vem do sujeito ou do colectivo”). E, quanto a estas, as mentalidades e a sua origem/formação, retoma o considerando de que [nós, portugueses] “fomos formados pelo silenciamento, a
inclinação à obediência, ao vergar-se. É horrível” - refere quanto à - a
anos e anos [maxime, os 48 do Estado Novo, no século XX] de - formatação portuguesa. Os “velhos sedimentos” tendem a permanecer,
o que se detetará, por exemplo, quando, mau grado saiba existirem (assíduos) leitores
seus em Portugal, algum eco aqui e ali lhe chega (mas, em realidade, quem são?, onde estão?,
interroga-se), não há, na
generalidade das ocasiões, quem venha ao
espaço público, nomeadamente
Professores, comentar, observar, debater, discutir, criticar o que escreve
(uma queixa que não raramente encontramos expressa por diferentes intelectuais
ou artistas portugueses). Entra-se em uma opacidade,
o silêncio emerge sobre o discorrido,
um medo do confronto – de ideias, de
posições, de perspectivas, de posicionamentos… – ergue um enorme muro (em uma
mentalidade, durante décadas forjada, habituada à ausência de espaço público, a vida habitual) que não se derruba (no âmbito das Ciências Sociais, a História, no escrutínio de investigações
inter-pares, será uma excepção, no entender do Professor de Filosofia) e não
permite um exame dialogado sobre a pertinência do que apôs/apõe sobre o papel.
Para o pensador português, há, aqui, ainda, um sintoma de falta de confiança em avançar sobre o palco e perorar quanto ao que os livros (que, nomeadamente, o
próprio publica) trazem ao espaço comum (o
medo de não estar à altura - na dilucidação de um ponto, no questionamento de
uma asserção, no contraditório de uma interpretação). Essa não confiança e,
mais, o não assumir de responsabilidade,
no universo português, encontra-se presente, também, em práticas como as do chico-espertismo, contornando-se normas
comuns de modo enviesado (ou na inveja - que não desapareceu).
No
espaço público (português), carcomido
pelo mediático, mas no qual convém
remeter, ainda, às dimensões da publicação,
dos livros, da informação, à reunião, o ensaísta detecta uma omnipresença da linguagem e cultura políticas, mas já não assim das atinentes às culturas literária ou científica
que, a seu ver, deveriam adquirir outra relevância.
Detido
sobre Portugal e interrogado quanto ao estádio de desenvolvimento em que nos
encontramos, e ao trajecto desde Abril de 1974, José Gil propõe que se observem
dois critérios em tal análise: i) como
estamos face ao tempo da ditadura; ii) perante a Europa, como nos
situamos/comparamos, hodiernamente. Da conjugação destes dois elementos
algo saberemos sobre o nosso ponto de situação.
5.No
entender de José Gil, “há dois flagelos
que atravessam o planeta – o flagelo climático e a extrema direita”. Quanto
ao primeiro, “as alterações climáticas são uma ameaça radical para a
Humanidade. Não é uma ameaça de grandes desolações, como a guerra. Será uma coisa tremenda. (…) O meu filho [de 26 anos] vivê-lo-á (…) E está consciente disso”. Ora, o que
aqui se joga é a própria consciência de que pode vir aí o fim da Humanidade – e
de como, para o entrevistado, a filosofia (e a sociedade civil, como um todo)
ainda não elaborou (elaboraram) sobre “o
que é uma morte colectiva para cada unidade individual? Leva a uma revolução da
maneira de pensar. Já não é humanista, é outra coisa”. Em termos mais
chãos, “quando a regularidade dos
flagelos climáticos se sobrepuser, pela sua velocidade e ritmo, à regularidade
da segurança homeostática, o humano não pode viver. O que é que vai acontecer?”.
De
outra banda, não é possível contrariar-se, em debate de ideias, o discurso populista, dada a sua estrutura paranoica – e contra um paranoico nunca se ganha, porque o paranoico tem sempre razão: “não há possibilidade de contrariar, num
debate de ideias, o discurso populista. Perde-se sempre, e é – aliás – o que os
populistas querem. O discurso populista tem uma estrutura paranoica e contra um
paranoico nunca se ganha. O paranoico tem sempre razão. Posso mostrar porquê –
há uma estrutura discursiva que faz com que consiga sempre responder. Quando
utiliza a razão, com argumentações, o paranoico tem uma fórmula imediata de
resposta que não tem que ver com a racionalidade, tem que ver com outro modo de
ocupar o espaço-tempo, de destruir a possibilidade de diálogo”.
Então,
nada há a fazer? Ora, aqui, o filósofo, ilustrando com o caso português, menciona
o humor, um humor gargantuesco [de Gargântua e Pantagruel, de Rabelais], como uma hipótese: “espanto-me com o facto de não aparecer
ninguém que, pela força do riso, mas de um riso gargantuesco, meta o Ventura
num saco”.
A
nível global, o que constata é um fracasso democrático – “a França está a
um passo de eleger Marine Le Pen. A Alternativa
para a Alemanha (AfD) está a
um passo de tomar o poder. Se a França e a Alemanha viram para a extrema-direita, é a Europa inteira que
desaba”, o que se junta ao controlo totalitário chinês, através do big data, dos seus cidadãos (e,
porventura, não exclusivamente destes) – e “o que aí vem é de tal maneira forte, de tal maneira duro, de tal
maneira universal que, em princípio, teoricamente, rebenta com toda a
resistência”. Ora, “o que anima uma ordem mundial neofascista é a morte”: a
ideia de que uma nova Riviera se erguerá em Gaza só é possível partindo do pressuposto da completa aniquilação dos
palestinianos. Quando Trump – “estamos a ser governados por um criminoso” -,
incessantemente, diz que “nunca se viu nada na história assim”, “é
inacreditável o que estamos a conseguir fazer”, “o melhor do mundo” denega-se a
própria morte, julgando-se atingir, ao mesmo tempo, com ela, a imortalidade: “e sabe o que é mais perverso? É que com
essa cultura da morte, os fascistas julgam aceder à imortalidade” [evoco,
aqui, Ernest Becker (1924-1974)
propôs a seguinte explicação (estrutural) para a pulsão de morte: “o impulso
destruidor seria uma reacção à comoção que a nossa mortalidade produz em nós.
Humanos, reprimimos a nossa consciência da morte identificando-nos com uma ideia
ou crença e, de imediato, matando por [em nome de] ela. Destruir outras pessoas
[motivado] por uma abstracção cria nos destruidores a ilusão de fuga da
mortalidade à qual enviam os destruídos. Segundo este paradoxo psicanalítico, o
assassinato em massa viria a ser a expressão mais extrema dessa negação da
morte” (John Gray, “Los nuevos
leviatanes”, 2024, p.166]. Face à extrema
direita, a resistência não é
suficiente: “temos de passar à ofensiva”,
exorta José Gil.
O
filósofo, com efeito, exaspera com a denegação que se produz e que percebe
repetir-se na história - “o que me espanta é que depois das deportações
[ordenadas por Trump], demissões provocadas na administração federal, depois de
centenas de ordens executivas que modificam muito o panorama democrático, haja
ainda pessoas a dizer: «mas ele não vai
modificar a nossa vida». Foi a mesma
reacção que perdeu centenas de milhares de pessoas na Europa, judeus e outros, aquando
da emergência do nazismo. Não era possível? Havia a Noite de Cristal, havia os Pogrom, havia toda aquela insanidade
cruel em relação aos judeus, e as pessoas não acreditavam. Judeus que ficaram na Alemanha julgando que
era possível outra saída e que acabaram nos campos de concentração” – e
chega ao ponto de, aparentemente, assinalar um beco sem saída – “na
situação actual, não acredito, não vejo saída nenhuma. Não vejo saída para o
desastre da conjunção das alterações climáticas com as forças de hegemonia
pulsional desigualitária”. Todavia, e paradoxalmente, afirma uma esperança
vivenciada: “não se pode viver em
desespero. Viver em desespero significa matar-se. Portanto, não é viver. Viver
é ter esperança (…) É porque vivemos
e porque a vida é esperança que eu tenho esperança, perante tudo o que nos pode
acontecer” [aqui, Andrés Torres
Queiruga diria que o não colocar termo à vida, quando tal pode ser feito (por
quase todos), é o referendo pragmático de que a vida, em todo o caso e para uma
esmagadora maioria, vale a pena].
Autor
de uma vasta obra, na qual o corpo adquire centralidade (também enquanto objecto de pensamento), José Gil olha
para a pessoa, diferentemente de muito do ar
do tempo, como sagrada (porque
habitada pelo espírito): “Uma pessoa é sagrada. Há qualquer coisa num ser humano da ordem
do valor absoluto. É isso o sagrado. Não
é por acaso que há interditos de matar. Não é por acaso que se diz que uma vida merece o respeito total. Uma
pessoa é sagrada porque há nela algo que não sabemos o que é, a que chamamos
espírito, que está no corpo, que é o corpo. Qualquer coisa a que chamamos
espírito existe na ordem do sensível. O próprio sensível é sagrado. (…) Porque é que uma criança é sagrada? A vida
é sagrada e na de uma criança condensa-se um valor que é intocável. Uma espécie
de referencial absoluto de valor”.
Não
se pode viver uma vida sem “crenças” e as suas, além do carácter sagrado dos humanos, passam pelas noções
de que “ao lado da pulsão do homem que é
matar outro homem, e que está no fundamento da húbris desigualitária maior, há
uma pulsão tão forte – ou menos forte, talvez, porque nunca teve o «poder»,
palavra que não condiz com essa força – que torna possível uma relação
duradoura em que, como diz Espinosa, o humano é o melhor bem que existe para
outro humano”, de que “nada traz em si a razão de si”, de que a “liberdade
não é uma essência”, sendo, nós-outros, “seres de caos”, de que “a vida não
procura sentido: a vida é sentido” (e “criamos sentido, porque nos deixamos
desprender da vida”, “como se a vida não bastasse” [recordo Carlo Maria Martini: estive tão implicado
na vida, tão ocupado que não pensei/elaborei sobre o tema; lembro, por outro
lado, Tolentino de Mendonça: a vida
não pode ser só isto - e na síntese de Ratzinger:
momentos em que a vida devia ser sempre
assim e como que se antecipa aqui a vida
eterna, momentos em que a dureza é tal e apetece superar o aqui e agora; o trabalho
como que tendo que ter um sentido, reclamado a Ocidente, e não exatamente assim
onde ainda a luta por um qualquer modo de sobrevivência se sobrepõe, registam Banerjee e Duflo; para Kung, a
Ocidente, não era questão porque era óbvio que o sentido se encontrava em
seguir os preceitos da Igreja], de quem sem palavra a comunidade humana
desapareceria, de que continua a fazer sentido, politicamente, falar de esquerda e direita…
6.Nascido,
em Muecate, Moçambique, em 1939, José
Nuno Godinho Mendes Gil é filho de colonos
portugueses e, no conjunto de entrevistas, ao longo de 6 meses, à (premiada)
escritora (romancista, contista, autora de obras infanto-juvenis, autora de libretos de óperas) Marta Pais de
Oliveira, que enformam A última lição de
José Gil essa consciência é muito marcada (por um sentimento de injustiça -
para com os locais, sobretudo). Neste âmbito, José Gil sublinha, desde logo e
também, a própria violência contra a
criança (filha de colonos) que
significa ela mandar e ser obedecida por empregados (negros) muito mais velhos
do que ela (como que invertendo a “hierarquia natural das coisas”), tomados
como inferiores (apesar de serem seus
semelhantes – e é aqui que a violência sobre a criança adquire intensidade
maior, desvirtuando a verdade das coisas); a oferta, que o pai lhe fez, um elefante enquanto brinquedo, que deixa
antever como símbolo de uma arbitrariedade de poder naquele recanto de África
onde se situam; a chegada do pai, com a tomada em ombros de um tigre capturado,
como sinónimo de um pronunciado poder sobre os animais como parte de uma soberania tomada a mão de ferro (“a superioridade sobre a selva era uma
superioridade que também se manifestava sobre os negros”; “o poder colonial passa também pelo poder
sobre os animais”; um dos grandes teorizadores da soberania, Jean Bodin,
irá explorar este ponto; o pai de José Gil, que estivera na I Guerra Mundial
embora na parte militar ligada ao secretariado,
criava crocodilos, pequenos leões e outros bichos selvagens); os gritos de
negros com as palmatoadas na polícia que o leva a sair do carro em que viajava por
não mais aguentar aquele som (no que nos leva aos livros de Álvaro Vasconcelos, também filho de
colonos e infância em Moçambique, em que episódios idênticos são relatados); e “o resto da carne de hipopótamo era dada aos
negros”…
No
entender de J.Gil, que teve um amo,
um rapaz negro de nome Inácio, e
trocava sapos e serpentes entre colegas, nascer nas colónias é nascer desenraizado; por outro lado, o colono, como não tem uma tradição, ou, melhor, como a tradição
está longe, pode como que começar do zero.
Na reflexão daquele que foi docente no Departamento
de Psicanálise e Filosofia da Universidade
de Paris, “o colono vai tratar o nativo
como um estrangeiro na sua casa”, fazendo com que este se torne “estrangeiro para si próprio” (imposição
de uma cultura, de um Direito, de uma religião que lhe são estranhas).
Aos
12 anos, José Gil aprende francês. Em Lourenço Marques, no Liceu Salazar, tem acesso a um ensino excepcional, com grandes
mestres que ali se encontravam exilados,
dos quais destaca Aurélio Quintanilha
(pai de Alexandre Quintanilha). De
tal modo é a qualidade da sua preparação que quando se candidata à universidade
francesa está em melhor posição do que os rapazes e raparigas franceses.
No
que ao ensino superior diz respeito,
farto de memorizações e buscando o
fio simples e belo que era possível desenrolar pela matemática, é na área das ciências
naturais que começa por assentar, numa época em que ainda não havia calculadoras (“Álgebra Superior foi formidável (…) Cheguei a fazer exercícios em que não fazia contas. Explicava como
fazer isto, mais isto, mais isto – enchia páginas a explicar cada passo
minucioso e dava certo. E depois davam-me dezoito”). Porém, a rarefacção do
ar, em Portugal, para onde viera aos 17 anos, levam-no a Paris e, em se
encontrando na capital francesa por esse desejo de liberdade (libertação), “não
ia para lá resolver problemas” (matemáticos).
Daí, o ingresso em Filosofia – curso do
qual esteve, igualmente, à beira de desistir em função do academismo e do corte com
a vida (da ausência de significado) que,
no seu entendimento, a dado momento aquele parecia representar. Porque “a razão não basta”, Gil fez extensos
estudos na área da feitiçaria, da magia e da loucura – mormente, em
Trás-os-Montes (e, de novo, aponta às elites
o serem displicentes para com o modo como estas, feitiçaria e magia em
especial, pululavam entre a população e, não obstante, não se lhe dispensava
interesse e estudo; a José Gil a etnologia,
a antropologia, a psicanálise interessaram de sobremaneira).
Ainda em França, constataria a presença de forças da mesma natureza na Córsega,
onde os mortos sempre apareciam e conviviam com os vivos (e onde as relações
entre as pessoas eram de ímpar intensidade, mas também onde casos relacionados
com a máfia podiam passar séculos longos sem estarem resolvidos). O estudante
que se doutoraria, em 1982, em Paris, com um estudo sobre “O corpo como Campo
do Poder”, sob orientação de François
Chatelet, aceitaria integrar-se, em França, durante semanas, em uma seita, na qual veria pessoas sem estudos
em Matemática, chegarem a problemas, desta área disciplinar, complexíssimos,
tal o apuro e concentração (mental) em que entravam.
No
dizer de José Gil, a IA, para lá dos
malefícios potenciais, também providenciará uma “medicina preventiva” capaz de feitos extraordinários (“curando a doença como jamais na história da
Humanidade. Será fantástico, será uma outra era!”); julga ter escrito
livros com interpretações relevantes (e nas quais se poderia pegar e continuar)
sobre a obra de Fernando Pessoa (O Livro do Desassossego “trai a gramática, mas é genial”);
observa no autor de “Mensagem” uma grande capacidade de criar conceitos filosóficos; já em Camilo Castelo Branco há uma “genialidade selvagem”, sendo “imensamente
rico para pensar” a sua relação com a cultura popular; entende que falta
facilitar mais “velhices criativas”,
estação na qual, a velhice, por
exemplo Kant escreveu a “extraordinária
e criadora” Crítica da Faculdade de
Julgar. Uma idade onde existe uma “liberdade criadora” que, não raro, não
se encontra noutras idades – pesem outras capacidades perderem-se ou
mitigarem-se em cada pessoa. Ganha-se, afiança, com a chegada do Outono da
vida, um “desprendimento que é uma
liberdade” quanto a “pulsões de
captura do outro”; entende, acerca da sua obra, ter tido uma “maneira própria de descrever os mecanismos
infraverbais”.
Deu
seminários de “estética da dança”, em Arnhem, na Holanda, e no Centre National de la Danse, em Paris,
tal como ministrou ensaios sobre Pessoa e Deleuze no Departamento de Psicologia
Clínica da PUC-SP, São Paulo, tal
como em Medellín, na Colômbia. Participou em colóquios pelo mundo inteiro,
Professor Convidado na Universidade Nova de Lisboa, desde 1981, Professor
Catedrático de Filosofia desde 1995. Foi Adjunto
do Secretário de Estado do Ensino
Superior e da Investigação Científica
no VI Governo Provisório; responsável
por algumas das entradas da Enciclopédia
Einaudi.
Adora
Bach; escreveu algumas peças de
teatro e, farto do livresco, a certa altura decidiu vender a sua Biblioteca – “uma burrice”; sabe que pensar
não é um exclusivo da Filosofia – “o que
é que significa pensar na arte? (…) Pode-se
pensar com meios diferentes, não só com conceitos. Pensa-se poeticamente com
palavras, pensa-se com imagens cinematográficas, picturais, pensa-se com
gestos. Pensa-se dançando. Pensa-se até negando tudo isso – gestos, imagens e
palavras (…) Não há pintura sem
pensamento. Não há partitura musical sem pensamento (…) Há muitas maneiras de pensar, verbais e não
verbais”); marcado pelo espaço amplíssimo e aberto de África, com as
mulheres negras a passearem de seios nus para estupor da criança que foi,
menino de sua mãe (ela que, aos 70 anos, se lançou a aprender italiano); tocado
pela rotura com os pais com a ida para um colégio
interno e desembocando aos 17 anos num Portugal claustrofóbico, jogaria,
por diversas vezes, pingue-pongue com
Eduardo Lourenço que, mais ágil e
vigoroso, por diversas vezes sairia vitorioso dessas partidas.
Pedro
Miranda
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