SÓ QUEM É CAPAZ DE VER A
POESIA DA VIDA É CAPAZ DE VER O VERDADEIRO
1.Em
1911, no seu caderno de apontamentos, o poeta Hugo von Hofmannsthal, anotou um episódio que ocorreu, onze anos
antes, na China, durante a rebelião nacionalista
dos boxers contra a influência
corruptora das potências ocidentais: “Depois de ter sufocado o levantamento dos
bóxers na China, no princípio deste século, um oficial alemão deparou-se, no
final de uma longa fila de chineses que eram conduzidos à guilhotina, com um homem
que estava muito concentrado na leitura de um livro. O oficial pergunta-lhe: «O
que é que estás a ler?». O homem olha-o e, irritado, pergunta-lhe: «Porque é
que me está a incomodar?». Ao que o oficial responde: “Como é que pode estar a
ler um livro justamente agora?». E o homem diz-lhe: “Sei que cada linha lida é um enriquecimento”.
2.Ainda
a 18 de Maio de 1911, morre a artista Irma
Seidler. Uma grande amiga do crítico literário socialista Gyorgy Lukács.
Este, mesmo adivinhando que o casamento era o desejo de Seidler, nunca transmite
igual vontade aquela – mesmo quando, no seu próprio diário, também se descobre
imbuído de idêntico apelo e carência amorosa. Malgrado a filiação ideológica de
Lukács, a diferença de classes (ele,
no topo da pirâmide social, ela
muitos degraus abaixo) e a devoção ao
estudo das obras-primas literárias que que a história da humanidade havia
legado, concorrem para que o matrimónio não se contraia – e o literato,
sucessivamente, vê a amiga íntima casar-se, separar-se e, no dia seguinte a ter
partilhado o leito com Balázs
(guionista da ópera “O castelo do Barba Azul” e um verdadeiro D.Juan), suicidar-se. Colocando-se na
pele de melhor amigo e conversando
com a irmã de uma jovem que se suicidou, em “Acerca da pobreza de espírito”,
Lukács projecta-se no ocorrido,
assume-se (personagem) culpado diante de Deus, rematando: “Você sabe-o: quantas vezes tudo dependeu de uma palavra”. A
personagem do romance, sentindo o peso da responsabilidade da incapacidade de
comunicar com a alma muda da sua mais querida amiga, coloca termo à vida.
3.Data
de 23 de Agosto de 1939, rigorosamente uma semana antes de eclodir a II Guerra
Mundial, a anotação, de um poeta anónimo, de língua alemã, que o acaso colocou
nas mãos de Elias Canetti. Rezava
assim: “Tudo se acabou. Se eu fosse um
poeta a sério, teria sido capaz de deter esta guerra” [Alles ist aber voruber. Ware ich wirklich ein Dichter, ich musste den
Krieg verhindern konnen].
4.
Rob Riemen (“A
palavra que vence a morte”, Taurus,
2025), que nos conta estas três histórias – o homem que permanece concentrado
na leitura do seu livro sabendo-se a instantes de ser morto, o erudito
literário de sentimento culpado por não haver impedido a morte da amiga íntima
(dizendo-lhe o que ela, e afinal ele também, espera, o sim amoroso), o poeta
anónimo que se sente transtornado por não evitar que uma sociedade se
auto-destrua (na guerra) -, assinala o que as irmana, bem como aos seus
protagonistas, a saber, o acreditar que
uma só palavra pode salvar uma vida, a crença de que as palavras poéticas têm o
condão de evitar a tragédia e, outrossim, conclui que a raíz, a origem
desta ideia “peculiar”, senão, mesmo, “incompreensível”, assenta,
provavelmente, no facto de o judaísmo
relatar como o mundo foi criado pelo Verbo
Divino, o cristianismo contar-nos
como o Verbo Divino se fez carne e de
na filosofia grega Verbo e espírito terem expressão na mesma palavra (“Logos”). Ou seja, naquela
trilogia, vinda de atentar, talvez tenhamos “a manifestação da ideia mais
antiga, ou, em todo o caso, mais universal, que cimenta a cultura europeia: o espírito, a vida e a linguagem são
idênticos entre si. E, de todas as criaturas do universo, o ser humano é o
único ser linguístico, quer dizer, espiritual. Só o ser humano pode conceber um
mundo espiritual que transcende a natureza humana. O Homem tem noção do amor,
da liberdade, da amizade, da justiça, da beleza, da bondade, da valentia, da
sabedoria, da verdade. Estas ideias, estas qualidades, são verdadeiras,
proporcionam-nos um valor ou virtude, porque dão vida à vida. Porque
uma vida sem estes valores e virtudes não é vida, desconhece a dignidade da
existência. As fontes da cultura europeia atestam que estes valores e virtudes
são eternos, que são absolutos porque são atemporais e universais, isto é,
revestem-se de importância para toda a humanidade”. Activar estas qualidades
fará o humano viver uma vida de valor
(digna), verdadeira.
Rob
Riemen, em “A palavra que vence a morte”, observa que já na época de
Hofmannsthal, um leitor autêntico, sério, atento era uma raridade, o que
supunha (supõe) um esquecimento fundamental: “que a vida é uma arte, e que a arte da vida não se pode praticar sem a
arte de ler. Lê-se para viver e
vive-se para ler; sobretudo, para ler aquilo que deve ser lido: o livro
perfeito, um livro no qual cada palavra tem sentido, um livro cujas linhas,
tudo o que uma pessoa lê, enriquecem”.
Recordado/consciencializado
esse valor da literatura – tão longínquo quanto o silêncio e a quietude
necessárias para nela entrar, tão afastados como os Padres do Deserto dos quais
temos apenas uma imagem pelos quadros dos nossos museus -, talvez o Ocidente do
fecho permanente de livrarias, de livros essenciais que não encontram leitores
– capazes de neles se embrenharem e, com esforço e sorte, deles beberem a
sabedoria, a prudência, a ironia, o cepticismo, a justa medida – volte a
enamorar-se dos livros. Se ao discurso intelectual de valor perene está
acometido o labor, e apenas este, da demanda da verdade, esta, sem embargo,
nunca poderá ser, por completo, captada ou contida naquele discurso. Os poetas,
os escritores, os artistas sintonizam (-se com) poesia – e “só quem é capaz de ver a poesia da vida é
capaz de ver o verdadeiro”.
5.Todavia,
os humanos são seres ambíguos, com interesses, impulsos, desejos, medos,
instintos. Sabem da morte, da perda, da tristeza. Paixões destrutivas podem
chegar a cegá-los. Querem compreender tudo e não o alcançam; são limitados e
sempre ficam aquém da perfeição a que se atiram. O que é o Homem e o que devia ser (?),
essa brecha e seu significado só podem ser colmatados pelo poeta (suas palavras plenas de vida e espírito; “nas palavras verdadeiras, está a vida
eterna”), pelo escritor, pelo
artista (não pela lógica e pela razão positivista).
Como
temos/devemos viver, pergunta Sócrates?
Eis a resposta do humanismo europeu:
a nobreza de espírito. Tal significa
que o humano, enquanto ser espiritual, pode ter uma existência que o dignifica quando transcende os seus
medos, impulsos e desejos e faz justiça,
cria beleza, vive a verdade. “É
poeticamente que o Homem habita esta terra” (Holderlin). Daí o respeito pela palavra,
a obra do poeta, as belas artes, os dons das Musas. Daí que os livros tenham chegado
a ser, na cultura europeia, um “objecto sagrado”.
6.Não
há dúvida de que a liberdade entendida apenas como a possibilidade de realizar
a vida que se deseja, descomprometida com a comunidade, limitada, apenas, pelo
cumprimento da lei, a única obrigação acometida à pessoa aquela ratificada por contrato, o desvincular da polis que nos atravessa há décadas - na
sua expressão minimamente densa, refletida, estudada – são um bordão que
trazemos connosco; e, todavia, nunca o reclamar desse Homem que na sua máxima
expressão contribuía para uma cidadania,
assim fortemente assumida, pode fazer negligenciar as dimensões que aquela se
subtraem – num curioso paradoxo de ativismo de redes sociais, inúmeros canais
de notícias vinte e quatro sobre vinte e quatro horas/dia, falta de
substracto literário e de espiritualidade o que chega, massificado, do político,
e o paradoxo é a desertificação da polis conviver, às tantas, com tal
massificação, mais não é do que o seu estádio mais baixio, uma triste paródia,
enquanto «alarvaria do povo», para revisitar T. Mann – e reivindicá-las, com a força de Yourcenar, pela boca de Adriano:
«Cada
vez sentia maior necessidade de recompilar e conservar os volumes mais antigos
e encarregar escribas conscienciosos de fazerem cópias novas. Tão bela tarefa
não me parecia menos urgente do que a ajuda aos veteranos ou os subsídios às
famílias numerosas e pobres; dizia a mim mesmo que bastaria que algumas guerras, com a
miséria que as acompanha, e um período de grosseria ou selvajaria debaixo do
reinado de algum príncipe perverso, para que os pensamentos conservados com a
ajuda daqueles frágeis objectos de fibras e tinta perecessem para sempre. Todo o homem bastante afortunado para
beneficiar-se, em maior ou menor medida, daquele legado cultural antolha-se-me
responsável por ele, é fideicomissário face ao género humano».
7.O
poeta poderá ter pouco a dizer se a única coisa que importa é o dinheiro, a ciência, a tecnologia – a
nova “santíssima trindade” de algumas elites académicas e políticas, mas
atente-se, ainda, no gesto audaz de quem, como Orwell, Huxley ou Roth, nas suas distopias [por sinal, todas escritas no século XX, o “século do medo”, no dizer de Camus, o da ansiedade como nunca, depois de Nietzsche falar na “morte de Deus” e de, para preencherem o (seu) vazio espiritual milhões aderirem ao nacionalismo, ao bolchevismo, ao fascismo,
ao maoísmo como novas religiões, como sublinha, de novo, um discípulo de Steiner
como Riemen é], assinalou, com décadas de antecedência, o que veio a
verificar-se (os Gigantes Tecnológicos,
e o seu “capitalismo de vigilância”, sabendo as horas que dormimos, os passos
que demos durante o dia, o que comemos e onde, acabando, em definitivo, com
qualquer privacidade e sendo, em todo o seu esplendor, o Grande Irmão), inteiramente, nas nossas sociedades (onde a caverna digital, evitando factos
incómodos, e poupando a busca da sempre surpreendente verdade, encontra Platão percursor). Em Conspiração contra a América, Philip
Roth antecipa a vitória de um aficionado do fascismo
na presidência dos EUA: “a realidade é que na Europa, na América do Norte e na
América do Sul estão a ressurgir com força um espírito cultivado por demagogos e uma ordem social na qual o indivíduo deve ceder o lugar ao colectivo;
em que os valores espirituais e morais são substituídos por uma política de
medos e desejos; a compaixão, por uma política de ódio e bodes expiatórios; a
verdade, pelas mentiras; a vida do espírito, pela manipulação das emoções; o
desejo de justiça, por uma política de ressentimento. E em que, por último, o «Direito» equivale aos desejos
instintivos das massas. Menos de um século depois da Segunda Guerra Mundial
volta a ser desprezado, perseguido e, onde seja possível, exorcizado o espírito
democrático, com a sua separação de poderes, cujos mandatos são limitados no
tempo, e o seu anelo de que uma grande diversidade de seres humanos possa
conviver em liberdade, paz e dignidade. A História não deixa lugar a dúvidas:
tudo isto é característico da mentalidade fascista (…) E há que combatê-la,
porque essa mesma História ensina-nos que o fascismo é uma força destrutiva por
excelência, estéril como terra árida”.
A
isto soma-se o facto de essa mesma ordem social assentar numa “ideologia
político-económica, o neoliberalismo” que realçou de sobremaneira “os valores comerciais em detrimento do que
restava dos valores e virtudes morais e espirituais”. Neste contexto, o
espírito crítico, o pensar pela própria cabeça, a “liberdade individual converteu-se numa raridade entesourada por uma
pequena minoria”. Entre essa minoria, os distópicos - que percebem que “uma
das características-chave da civilização é a capacidade de dizer não. Não à
realidade existente, não à ameaça de uma distopia! Com 1984, Orwell não quis escrever uma profecia, mas uma advertência
para que certas ameaças nunca pudessem converter-se em realidade” (os distópicos revelam-se, então, e afinal, utópicos).
8.Quando
depois de jogar às cartas e fazer compras no povo, Maquiavel se adentra, em sua habitação, na História – em especial,
na queda do Império Romano - e dela
faz um estudo aprofundado conclui que este se encontrou minado por dentro e que
a única maneira de superar a corrupção é “regressar
à ideia original do que significa ser humano”. Ora, a nossa “civilização
europeia” foi criada a partir de uma ideia fundamental, presente tanto na
tradição judia como grega. O judaísmo expressa-o desta forma: o ser humano foi
criado à imagem e semelhança de Deus. O que “significa que o sentido da nossa
vida, o seu objectivo, não deve procurar-se nos nossos instintos e desejos
animalescos, mas na nossa natureza espiritual, na capacidade do Homem se elevar
e interiorizar os sempiternos valores morais e espirituais” [criando beleza,
fazendo justiça, actuando com compaixão, vivendo a verdade]. Nos versos de Dante, que Primo Levi disse que, para si, em Auschwitz, foram redentores e
venceram a morte, “Considerai a vossa ascendência/para a vida animal não
havíeis nascido/mas para adquirir
virtude e ciência”.
De
resto, a “filosofia é o cultivo da alma”
(Cícero), um exercício crucial na
aquisição daqueles valores, em auxílio da tomada dos quais as musas oferecem, ainda, arte,
música,
História, poesia, em suma, “todas
essas linguagens que são como gramáticas que dão vida”. A arte “no fim de contas, é mais poderosa do que
qualquer tecnologia, do que qualquer propaganda ou outras mentiras” e a sua
inserção na educação um meio de libertar as pessoas: “liberta-as da sua ignorância, dos seus preconceitos e medos, da sua
mesquinhez, da sua incapacidade de expressar-se. É a única educação que pode
fazer as pessoas compreenderem o que é a verdadeira grandeza” [por oposição
aquela falsa grandeza que os Hitler, os Putin crêem alcançar].
Na
época do conforto, do dinheiro, da tecnologia, da ansiedade, do medo, a
elegância e persistência da defesa das artes
liberais, das Humanidades, da História como mestra, da convocação de
três preciosas narrativas que falam, a respeito da importância decisiva da
palavra e do livro, por si, do cultivo da alma como o que distingue os humanos,
de repropor a nobreza de espírito, de ousar postular/aderir a finalidades
(eternas) e entroncar e encontrar-se com o fio de prumo da tradição ocidental,
como o que nos está destinado, fazem de Rob Riemen uma companhia que nos
assenta com graciosidade – e os seus mais recentes livros, creio, não vêm
merecendo a justa tradução para português.
Pedro Miranda
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