FELIZ NATAL
1.Daniel
Marguerat, um prestigiado exegeta e especialista nas origens do
cristianismo, académico protestante francês, na mais recente biografia, em
chave histórico-crítica, de Jesus que
me dei conta que tenha sido publicada em Portugal (“Vida e destino de Jesus de Nazaré”, Guerra e Paz, 2025; no original francês, em 2019), coloca a questão
dos atritos familiares de Jesus como uma opção teológica de Cristo seguir a
Palavra, sim, mas diz também que face ao seu nascimento "irregular"
(face ao direito vigente à época em
que viveu, que colocava o "bastardo", o "mamzer" numa posição de grandes limitações ao nível de direitos como herança ou as limitações
com quem se podia casar), e independentemente da forma que essa
"irregularidade" tenha assumido (com o falatório inevitável, por assim ter sido, no seu entorno), a
questão acerca do modo como se entendia a si mesmo, e como olhava para a
família, pode aqui ganhar uma nova luz: "as tensões entre Jesus e a sua família aparecem sob uma nova luz".
Do mesmo modo, essa marginalização social que aquela condição imporia a quem a sofria contribuiria, igualmente, na
perspectiva de Marguerat, para uma especial empatia de Jesus para com os
marginados: “não podemos deixar de
pensar que a sua própria condição de marginalidade social tornou Jesus sensível
à situação dos que se encontravam à margem da sociedade judaica e com os quais
entrava em contacto (…) Separação da família, celibato, compaixão para com
os que estão à margem da sociedade, relativização das regras de pureza: estas
fortes ênfases na ética de Jesus trazem, a meu ver, as cicatrizes de uma
infância exposta à suspeita de impureza e ao desejo de ultrapassar esta
exclusão social”. Esta questão da “irregularidade” do nascimento, concorre,
adicionalmente, para os que, mesmo olhando exclusivamente pela lente da
História, considerem mais provável que Jesus tenha nascido fora de Nazaré (José
evitando expor mais a família; além de Belém da Judeia, cidade de David, Bruce Chilton identificou uma Belém na
Galileia, a 11 km de Nazaré). Na encruzilhada entre história e fé, sempre novos
ângulos de nos aproximar do homem-Deus.
2.Na
Palestina do século I, falavam-se quatro línguas: latim, grego, hebraico e
aramaico. O grego era, então, o inglês
dos nossos dias, a língua franca. Ali, o latim só era falado pelos soldados
e funcionários romanos – Jesus pode ter falado em grego com Pôncio Pilatos, embora a presença de um
intérprete em tal diálogo seja provável. Todavia, para que estes falassem com
os locais, bem como estes com os soldados romanos requeria-se que se soubesse o
suficiente para compreender e fazer-se compreender em grego. Jesus, em um tempo
em que a população alfabetizada andaria entre os 2 e os 10% da população –
ainda que nos meios judaicos houvesse elevada alfabetização -, e a
escolaridade, restrita a rapazes aliás, terminava pelos 12/13 anos (sendo que
os mais dotados poderiam prosseguir estudos) -, seria, na conclusão de Daniel
Marguerat e dos autores em que se apoia, trilíngue: “falava um pouco de grego para se dirigir aos estrangeiros e aos
romanos, lia as Escrituras hebraicas no texto original e falava aramaico como
língua materna”. Em realidade, “como
Jesus era o primogénito da família, os pais puderam dedicar uma atenção
especial à educação do filho mais velho. A educação do menino começou
certamente na sinagoga de Nazaré; mas continuou noutros lugares, dada a
surpresa dos habitantes perante a pregação explosiva deste rapaz da aldeia, de
origem duvidosa (Mc, 6,2-6)”.
Sendo o pai de Jesus, José, tekton, construtor, faz tudo, artesão de materiais duros – madeira, ferro, pedra -, Jesus nasceria na classe média de Nazaré (uma aldeia ou pequena cidade, Marguerat utiliza as expressões indistintamente, de 400-500 habitantes): a carpintaria, não sendo um ofício então desprezado, não era, também, especialmente aclamado; os artesãos não eram pobres (abaixo deles, os pequenos agricultores empobrecidos por impostos, os jornaleiros, os servos sazonais, os artesãos itinerantes, os escravos; a grande maioria da população de Nazaré viveria da agricultura). Face à dureza da arte em que Jesus trabalhou, o grande estudioso John P. Meier escreve que “o magricela etéreo frequentemente retratado nas imagens religiosas e nos filmes de Hollywood dificilmente teria sobrevivido aos rigores que o tekton de Nazaré teve de suportar desde a adolescência até aos trinta e poucos anos”. Marguerat, diversamente de outras aproximações do mesmo género à vida de Jesus, não crê na ida para trabalho, de José e Jesus, para Séforis, cidade de tamanho considerável e muito mercantil e movimentada a poucos quilómetros de Nazaré, pois a ausência de actividades em grandes cidades, na Galileia, pelo nazareno, bem como as imagens/parábolas a que recorre – e os estamentos nelas presentes – apontam insistentemente ao campo.
3. Os primeiros cristãos celebraram o nascimento do seu Senhor a 28 de Março; mais tarde, a 6 de Janeiro (dia da Epifania); depois, no século IV, 25 de Dezembro (substituindo a celebração romana do solstício de Inverno, sol invictus). Conquanto Lucas fale num recenseamento por altura do nascimento de Jesus, Armand Puig i Tarrech nota que, segundo o papiro grego de Babatha, encontrado em Qumran, a melhor altura para efectuar um recenseamento era o mês de Dezembro, quando os trabalhos agrícolas estavam concluídos…São documentados pelo menos 10 Yeshu no século I, por Flávio Josefo. Jesus, Yeshu é abreviatura de Yeshuah, Josué conquistador de Canã. Jeshu que significa, numa etimologia erudita, "Deus ajuda" ou, popularmente, "Deus salva".
4.Desde que lera os “Diários” de Etty Hillesum, em 2008, não tinha encontrado expressão semelhante à que a jovem que deu a vida pelos seus moribundos e morreu em Auschwitz expressara, naquela que foi talvez a mais forte entrada nos seus cadernos. Agora, em “A arte de ser humanos” (Taurus, 2023), Rob Riemen - cujas obras estão, à época da escrita deste livro a ser estudadas por alunos dos cursos de Filosofia, no Ensino Superior, no México - narra o encontro que teve com as suas tias nonagenárias sobreviventes de campos de concentração para holandesas, em Jacarta, sob o domínio japonês, no decorrer da Segunda Guerra Mundial (ali encerradas desde 1942) com a expressa intenção de saber como a mãe (e as irmãs da mãe), que nunca tinha querido falar sobre o que então passou, tinham sobrevivido aos horrores dos campos de concentração. As tias indicam, então, que terem rezado diariamente o Angelus, às escondidas, baixinho e sem que os japoneses estivessem por perto tinha sido para aquelas três irmãs decisivo; a fé tinha-lhes dado uma força que, nelas, segundo testemunham, impediu que sucumbissem: “ ‘De qualquer forma todas as noites rezávamos o Angelus quando os japoneses não estavam por perto (…) Quem se lembra? Só duas velhas católicas’ (…) ‘Aprendemos a não ter medo, diz Louise. ‘Não ter medo? Como?, perguntei, surpreendido. ‘Rezando. Confiando em Deus. Em um poder, uma força infinitamente maior do que os japoneses’, respondeu Lenie, e Louise assentiu com a cabeça.”. No entanto, o ponto culminante das memórias de Lenie e Louise no que intersectam o escrito de Etty dá-se quando registam o que a mãe de Rob Riemen lhes dirá enquanto necessidade de ajudar Deus: “Mas devem recordar que eles [verdugos japoneses no campo de concentração] não podem tocar as suas almas! Por isso, não renunciem à sua fé. É a sua arma principal contra o mal que eles fazem. Confiem em Deus. Ele vos dará a força para continuarem a viver e a ser bons seres humanos. Porque o mal algum dia perecerá, todo o mal. Mas tudo o que é bom existirá para sempre. Por isso o bem é mais forte do que o mal (…) Quando voltarmos a ser livres, para o resto das vossas vidas não deverão esquecer, depois de tudo o que aqui passámos, que Deus pode muito, mas não tudo. Precisa de ajuda, incluindo a de vós. E quem ajuda Deus, será ajudado por Ele…’. Foi Corrie quem perguntou à mamã: ‘Mas, ajudar Deus?’ Com o quê?’. E a mamã respondeu: ‘Dando a vida, Corrie! Tudo o que é bom, tudo o que é belo, o amor, a amizade, tudo isso da vida. Dessa forma é como podes ajudar’”.
Comentários
Enviar um comentário