LENDO AS DUAS MAIS RECENTES BIOGRAFIAS DE CAMÕES - E REGISTANDO AS LIÇÕES DE FREDERICO LOURENÇO SOBRE O TEMA

  

1.Se Bill Bryson surpreendeu tudo e todos quando, depois de deixar sucessivas obras extremamente volumosas, na biografia que elaborou de William Shakespeare se ficou pelas 180 páginas – “é que só tenho três documentos acerca dele…”[1] -, sobre a vida de Luís Vaz de Camões prosseguem extensas peregrinações declinadas em livros de monta. E, no entanto, o que sabemos, com segurança, da vida de Camões, no registo de Frederico Lourenço, é que i) foi preso em 1552; ii) partiu/embarcou para a Índia em 1553 (documento, uma carta régia de perdão a Camões - por uma briga, perto do Rossio, na qual feriu um empregado do rei -, na Torre do Tombo, atesta-o); iii) voltou do Oriente em 1569 (data referida pelos dois primeiros biógrafos de Camões e “relativamente segura”); iv) a obra-prima “Os Lusíadas” foi publicada em 1572; v) morreu a 10 de Junho de 1580 (temos nota, de 1582 e redescoberto no século XIX, na Torre do Tombo que prova que Camões morreu nesta data, com renovação da tença, atribuída por D. Sebastião ao poeta, a sua mãe). Depois, há um conjunto de suposições: a) a data de nascimento – julgamos estar a celebrar os 500 anos de Camões com base numa informação, do século XVII, de Manuel de Faria e Sousa, fidalgo minhoto nascido em finais do séc.XVI que dedicou grande parte da sua vida ao estudo do grande escritor português, com comentários monumentais a “Os Lusíadas” e às rimas, extraordinário conhecedor da literatura (clássica, espanhola, italiana…), e que, após, em 1639, ter escrito que Camões nascera em 1517, virá, já em 1685, a afirmar ter observado um documento, datado de 1550, segundo o qual o também dramaturgo teria, então, 25 anos, pelo que o nascimento daquele se dera em 1525 (ou, mais provável segundo Faria e Sousa embora sem explicar porquê, em 1524); Pedro de Mariz e Severim de Sousa escreveram as duas biografias de Camões anteriores à de Faria e Sousa [a biografia de Camões da autoria de Mariz, escrita a partir das notas de Manoel Correia, é publicada com a edição d’Os Lusíadas de 1613; a da pena de Severim de Faria encontra-se contida em Discursos Políticos Vários]: no primeiro dos casos, não é indicada a data de nascimento (nem da morte) do poeta; no registo do segundo dos biógrafos, Camões teria nascido em 1517. Faria e Sousa “era um homem controverso e de ética duvidosa e que nunca se coibiu de inventar o que lhe convinha para fundamentar as suas teorias sobre Camões[2] e os autores do século XIX não confiavam no que por este era dito sem que uma fonte externa e independente o corroborasse. Portanto, o documento de 1550 que Faria e Sousa alega ter visto, e que é a única fonte em que nos baseamos para dizer que Camões nasceu em 1524, é de existência deveras nublosa [todavia, note-se, nas lições em Salamanca ou Lancaster, há meses ocorridas, para todos os efeitos, Frederico Lourenço dá como aceite a data de 1524, a qual é defendida como muito provável por Carlos Maria Bobone, na sua recente investigação sobre Camões); b) os estudos superiores em Coimbra; c) o olho direito perdido (há imagens, como já alertara Vasco Graça Moura, de que o olho perdido pelo poeta-soldado, seria o esquerdo, mas as fontes mais antigas que referem este facto da vida de Camões referem o olho direito e tal será o mais certo); d) o lugar onde o olho vazou (não se sabe ao certo se em Ceuta, se na Índia); e) a identidade de um intenso amor…
Este apuramento do que, rigorosamente, sabemos (e do que não sabemos) da vida de Camões faz-se sem recurso aos poemas por si elaborados. Tal indicação, por banda de Frederico Lourenço, não é de somenos, enquanto metodologia de aproximação biográfica, seja por comparação com outras lições (biográficas) e estudos sobre o genial homem de letras (produzidas por autores outros, desde há quatro séculos e até aos nossos dias), seja pela clareza e contundência com que afasta “projecções” do “eu” camoniano no seu “eu poético” (“Camões escreve em português, mas sente em italiano, em espanhol, em latim”): “porque se tentarmos reconstituir a vida e a personalidade de Camões a partir dos seus poemas, o que emerge é uma personagem, estou a dizer de propósito personagem, muito diferente daquela que os factos verídicos permitem desenhar[3]. Isto não significa que não haja alusões auto-biográficas na lírica camoniana; todavia, estas serão filtradas pelas experiências literárias canónicas que Camões bebera.
A aproximação biográfica à poesia de Camões x) carece de uma base objectiva que nos permita corroborar ou refutar teorias sobre, por exemplo, Dinamene (pretensa jovem chinesa que morrera no regresso de Camões a Lisboa) ou a Natércia dos poemas ser Catarina, como desde o século XVIII diferentes estudiosos propuseram, ou mesmo Joana, como José Hermano Saraiva alvitrou), dado que a sua poesia está construída, deliberadamente, para impedir qualquer possível identificação de uma eventual mulher “real” (porque a mulher a que se refere é, essencialmente, literária, à maneira de Petrarca); y) só é passível de se realizar recorrendo a uma “bolha artificial”, como se a poesia de Camões se desse sem relação intrincada com a poesia clássica que o precede. Ora, uma coisa são evocações genéricas de situações por que, também, o poeta passou – por exemplo, a sua referência a uma ilha do Oriente, ainda que, mesmo esta, sem ser identificada -, outra uma auto-biografia em sentido próprio. E um dos conceitos centrais no que à poesia de Camões diz respeito é o “ventriloquismo[4] (um texto como homenagem aos poetas em que o vate se inspirou; inclusive quando refere que o que está a dizer é a verdade [“puras verdades”] do que se passou encontra-se, em realidade, a parafrasear autor espanhol de referência, Garcilaso de La Vega, assim encenando a autenticidade de um poema que homenageia outro poeta [“verdade factual” ou “verdade poética”, portanto, quando Camões usa a expressão “puras verdades”? “Verdade poética” significava “qualidade poética”]).
Em síntese, “não acredito que a originalidade, na literatura, na acepção que dela temos no século XIX, dissesse alguma coisa a Camões”. Lermos Camões sem a cultura de Camões – e alguém com a autoridade de Frederico Lourenço, e todo o conhecimento dos clássicos que possui, dirá “tomara eu ter a cultura de Camões, mas não tenho”; “eu próprio tenho tentado, há várias décadas, acompanhar o nível cultural de Camões, mas ainda me faltariam muitas décadas para lá chegar” – far-nos-á incorrer em interpretações falaciosas daquele autor: “um leitor ignorante da cultura de Camões, da cultura que um leitor culto de Camões teria naquela época” lerá os sonetos a modo de confissão íntima[5].
O problema fundamental que as referências clássicas ínsitas na poesia coetânea camoniana, e nela própria, colocam, para sabermos se sem a cultura do poeta, ainda assim, somos susceptíveis de nos adentrarmos no significado dos seus versos vem a ser o de se considerar que aquelas referências são ornamentais ou, diversamente, implicam, essencialmente, na compreensão dos poemas. De acordo com Frederico Lourenço, nas evocações mais ostensivas o efeito é ornamental (pressupõem alguma cultura clássica do leitor, mas não em limite de desocultação de um sentido definitivo do poema) e dificuldade maior de decifração ocorre quando aquelas são menos óbvias[6] (eruditas e com várias gradações de subtileza). Ora, a poesia de Camões é profundamente culta e reclama um grande conhecimento dos autores clássicos – numa altura em que prestígio supremo era a inserção em uma linhagem e uma exibição do conhecimento dos grandes vates clássicos.
Corroborando este entendimento, Carlos Maria Bobone, em “Camões. Vida e obra” (D. Quixote, 2024; segundo João Pereira Coutinho, “nos 500 anos do nascimento de Camões, este estudo biográfico é o mais inteligente que li em 2024. Com o rigor de um detetive, o autor procura “purgar” Camões de lendas, mitos ou erros grosseiros Que se escreveram sobre a sua vida, ao mesmo tempo que procede a uma reconstituição literária e mental do mundo onde viveu”[7]), conclui, de uma banda, que “aquilo que de mais verdadeiro e seguro se pode dizer sobre a biografia do poeta é que, à data de hoje, ela é uma miragem” (p.12) e, por outro lado, o fundamental, no gigante da literatura universal, é a obra e, por conseguinte, a consideração biográfica significa voltarmo-nos para o que menos interessa” (p.13). Acresce que, na dificuldade em dilucidar Camões, “o corpus poético de Camões é bastante incerto. A sua lírica é extraída de edições póstumas que aproveitam cancioneiros nem sempre fiáveis e de outros cancioneiros também eles cheios de atribuições autorais contraditórias. Conhecem-se vários poemas atribuídos, nos cancioneiros, quer a Diogo Bernardes, quer a Camões, por exemplo”. Não só extrair conclusões biográficas de poemas é, reforce-se, um abeirar complexo do texto, como, no caso concreto, pode correr-se o risco de se aceder a ilações (de pendor biográfico) assentes em poesia…que nem sequer é da autoria de Luís Vaz. E, ademais, tentar compreender o próprio texto -  mesmo despido, já, da busca, nele, de informações sobre a vida do literato -, como se vem de dizer, não se afigura fácil mister, negando-se imediata – precisa, ao invés, de bem mediado auxílio e notas de leitura – (ingénua) compreensão: “embora falemos a mesma língua, esta não é sempre a mesma, e até o seu pensamento subentende ideias e mentalidades em que podemos não reparar, criando assim uma ilusão de compreensão da leitura (…) Há uma cultura que está em Camões, mas que está, de certo modo, escondida nele. Sem pretensões herméticas, mas simplesmente porque se trata de uma cultura que, nalguns aspectos, já não é nossa, embora noutros ainda o seja, criando assim a ilusão de uma compreensão total que importa desmascarar” (p.15). No dizer de Frederico Lourenço, aceitemos que, com Camões, “o grande prazer está na viagem, mesmo que nunca cheguemos ao destino”. Neste contexto, com o seu livro, em boa medida, Carlos Maria Bobone intenta elaborar uma história das mentalidades, mormente oferecendo luz sobre o século XVI português, que nos permita vislumbrar o pano de fundo, a cultura – não homogénea, contraditória, mas, ainda assim, com a sua coerência - em que Camões assenta e labora.

2. “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte” (Contraponto, 2024) é a biografia de Luís Vaz de Camões da autoria de Isabel Rio Novo (mestre em História da Cultura Portuguesa – época Moderna, doutora em Literatura Comparada, docente Universitária em História de Arte, biógrafa de Agustina Bessa-Luís, ficcionista). Aclamado como um dos livros do ano pela imprensa de referência em Portugal, teve, porventura, em Edite Estrela (Licenciada em Filologia Clássica, autora de vários livros sobre a Língua Portuguesa, professora, presidente da Comissão de Cultura da Assembleia da República), no Jornal de Letras, a mais entusiástica das recepções: “ “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte”, de Isabel Rio Novo (IRN), é a biografia de Luís Vaz de Camões. Sublinho “a” e não “uma”. Biografias sobre Camões há muitas. Mas em nenhuma outra se raspou a patine que o tempo acrescentou, se identificaram as camadas sobrepostas, se esmiuçaram as múltiplas e complexas dimensões do ser humano para chegar ao osso do mito e desnudar o homem” (JL, 16 a 29 de novembro de 2024, p.18). A filóloga detalharia, de imediato, todo o labor e méritos que encontrou na obra há poucos meses dada à estampa por Isabel Rio Novo na demanda que aquela realizou, durante meia década, do Camões “autêntico”: “contextualizou o vocabulário para descobrir os sentidos que as palavras detinham na época, pois não se pode julgar a história com os olhos e conceitos do presente. A biógrafa leu tudo o que havia para ler. O que os anteriores biógrafos leram e o que não leram ou desvalorizaram, como as cartas em prosa nas quais Aquilino Ribeiro e Hélder Macedo desvendaram interessantes pistas de leitura, provando que mesmo os génios nascem com qualidades e defeitos, crescem com necessidades e ambições, sentimentos e volições. A autora trabalhou sobre os escassos documentos de reconhecida autenticidade (…). Seguiu sugestões e caminhos inexplorados, analisou textos e argumentos especulativos, confirmou e infirmou teorias. Viajou até onde o Poeta a levou. Foi a Goa, onde descobriu o paradeiro de um retrato de Camões. Foi à Ilha de Moçambique, onde Camões viveu dois anos. IRN conviveu cinco anos com Camões para clarificar zonas obscuras da vida do Poeta”.

3.Com apenas dois retratos verdadeiros contemporâneos do biografado, um, quando Camões teria cerca de 50 anos, levado a cabo pelo jovem pintor Fernão Gomes (ou, mais rigorosamente, Hernán Gomez, nascido em Albuquerque, em Castela) e de que hoje temos, apenas, a cópia – o original perdeu-se – na Torre do Tombo, e outro da prisão em Goa, anos antes, sendo que possuem “notória semelhança”, o Luís Vaz de Camões que Isabel Rio Novo nos traz é, fisicamente, “de estatura meã, segundo uns, ou alto de estatura, segundo outros, e largo de espáduas. O cabelo e a barba eram de um loiro arruivado (…) No rosto, Camões foi «algum tanto carregado da fronte» e sardento ou «sardo». Tinha o nariz comprido, «levantado no meio e grosso na ponta. Era torto dos olhos, maneira de uns dizerem com delicadeza o que outros afirmavam cruamente: «afeiava-o notavelmente a falta do olho direito». Os testemunhos concordavam que nunca fora propriamente «gracioso na aparência», embora suprisse a falta de beleza com a destreza física” (p.583).

4.Do ponto de vista familiar, Luis Vaz de Camões – algumas vezes também chamado Luis de Camões, ou, mesmo, Luis Sá de Camões; o uso dos apelidos era funcional e, face a cada contexto, podia variar a forma como alguém era apresentado, ou se apresentava, para mais fácil identificação da pessoa - será filho da baixa nobreza, provinda da Galiza. Século XVI, aquele em que vive, no qual os títulos nobiliárquicos, até então escassos, passam a multiplicar-se e com reconhecimento numa origem definida – os títulos são dados pela coroa, sinal de centralização do poder que convive com formas mais antigas e não tão claras de reconhecimento da nobreza[8]. Os Lusíadas são um épico da nobreza, não propriamente em sentido literal como via Jorge de Sena, mas “na medida em que estão dominados pela ideia de que o grande favor dos deuses é o favor do passado[9].

A origem do nome familiar radicará em ave aquática pernalta, pássaro a que os clássicos haviam chamado porfírio. Tanto se encontram Camões entre a fidalguia, como na plebe. Da obra de Camões transparece, de acordo Isabel Rio Novo, e em qualquer caso, uma consciência aristocrática (as biografias que o apresentem o menos distante possível das cabeças da nação permitirão, adicionalmente, colocá-lo como representante de Portugal[10]). Parte da família de Camões estava unida à de Vasco da Gama. Ana Sá Macedo, de Santarém, e Simão Vaz de Camões, de Vilar de Nantes ou de Coimbra, foram seus progenitores (dos quais não falará na sua obra). Camões não terá tido irmãos, tal como, tanto quanto se sabe, não deixou descendência (nem casou).  Se o seu avô paterno, em Coimbra (onde vivia com um irmão), cometeria homicídio e, por isso, irá fugir e viver nos arrabaldes de Chaves (Vilar de Nantes; desde os tempos de D. João I, Chaves era couto de homiziados, isto é, perdoavam-se certas penas a quem ali aceitasse viver), o pai morreria no Oriente. A mãe sobreviveria à morte de Camões.  
Camões terá vivido desde cedo em Coimbra, seguindo jovem para Lisboa. A hipótese de ter nascido no Porto é bastante plausível e deve ser mais explorada, na investigação de Isabel Rio Novo, mas apenas “meia-hipótese” na anotação de Carlos Maria Bobone. Dificilmente terá nascido em Lisboa, regista a biógrafa. Alenquer, sobretudo, ou Santarém foram cidades também apontadas como potenciais berços de Luis Vaz. Ele que nasceu antes dos registos paroquiais (os quais são pós-Trento), mas no auge da expansão marítima portuguesa e no início do reinado de D. João III. Conheceria D. Sebastião como monarca durante largo período da sua vida, lidaria com a Inquisição (que daria um “parecer surpreendentemente positivo[11] à edição d’Os Lusíadas, apesar dos “aspectos escandalosos para a época”, como os atinentes ao erotismo que ressoa do canto IX, o atinente à ilha dos amores), regressara do Oriente e compreenderia o que fora um tempo de forte epidemia em Lisboa (levando-a a ficar deserta, com os mais ricos, desde logo, recolhendo às suas propriedades e a corte saindo também), perecendo quando Portugal agonizava a caminho da perda da independência por mais de meio século. Um mês após Camões morrer, D. António, Prior do Crato, é entronizado rei. Mas, outro mês volvido, as forças de Filipe I (Felipe II de Espanha) vencem.
Lisboa, durante a juventude de Camões, com cerca de 120 mil pessoas, em azáfama constante, era cosmopolita e multicultural: possuía o maior porto da Península Ibérica e um dos maiores europeus, era centro do comércio europeu, nela pululando muitos negociantes, banqueiros – incubando-se uma potencial mudança de mentalidades. Mouriscos, castelhanos, catalães, flamengos, galegos, venezianos, judeus conversos (em 1496 fora dada ordem de expulsão dos judeus), escravos de todas as cores, indianos, impressionava quem a ela aportasse de outras regiões do país (e apesar da sujidade da cidade, dos odores repulsivos, da escassa segurança nas ruas). Cães, galinhas, porcos misturavam-se com os transeuntes.
O futuro nome brilhante das letras portuguesas e universais, pode ter tido uma ama, dado que tal era normal à época. Até à adolescência, frequentemente naquele primeiro quartel do século XVI, as crianças ficavam com amas, apartados da família e, em rigor, só se sobrevivessem os pais levavam os filhos em real consideração (tal a taxa de mortalidade infantil à época). As crianças vestiam roupas de adulto. Sabemos que foi baptizado.

5.Do ponto de vista psicológico, Camões era temperamental e apaixonado, repentista, mordaz, generoso, bom companheiro e amigo, dado a brigas e imprudências, libertino, perdulário, encarnaria a figura do fidalgo indigente. Superiormente dotado do ponto de vista intelectual, com memória privilegiada, cultura vastíssima, nos seus escritos sempre perpassa a ideia de predestinação para a tristeza (“erros meus, má fortuna, amor ardente”). Estudioso, brilhante, requestador de damas. Capaz do mais elevado galanteio na corte, mas também grande frequentador de tabernas e bordéis. "Camões era superior aos seus contemporâneos e tinha consciência da sua superioridade", sentencia a historiadora. Seguramente, suscitou invejas e ciúmes. Aventureiro, jogador, namoradeiro. Poeta, dramaturgo, autor das elites e do povo. De linguagem elevada e escabrosa. Impetuoso. O seu tio, ou melhor, no dizer de Frederico Lourenço na esteira de outros estudiosos que duvidaram daquele tipo de parentesco entre Luis Vaz e Bento, o seu primo direito frequentemente referido como tio, Bento Camões, prior do mosteiro de Santa Cruz, sob cuja égide provavelmente terão decorrido os estudos de Camões, referir-se-á ao “comportamento irreverente” do seu familiar próximo.

Não é Amor amor, se não vier
com doudices, desonras, dissensões,
pazes, guerras, prazer e desprazer,
perigos, línguas más, murmurações,
ciúmes, arruídos, competências,
temores, mortes, nojos, perdições.
Estas são as verdadeiras experiências
de quem põe o desejo onde não deve,
de quem engana alheias consciências.
Como aquele que cegou
é cousa vista e notória
que a natureza ordenou
que se lhe dobre em memória
o que em vista lhe faltou
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mágoa, da desonra, e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
indo agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Os privilégios que os Réis
Não podem dar, pode Amor
Que faz qualquer amador
Livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis
Ferro, frio, fogo e neve
Tudo sofre quem o serve.
[...] um verso de camões
com pouca variação é sempre um verso de camões,
é a coisa mais bela e mais difícil do mundo
e dá cá uma guinada tão especial que só pode ser dele

6. Objectivamente, dir-nos-á Isabel Rio Novo na senda de António José Saraiva, a obra de Camões, pela sua erudição nos mais variados domínios, pelo conhecimento enciclopédico que demonstra, da geografia, à história, à filosofia ou à botânica, dos Antigos Clássicos e da literatura Bíblica, passando pelos autores maiores do seu tempo (com os quais dialoga nos seus escritos) manifesta uma presença de Camões em estudos superiores - possivelmente, na área das Leis - que o mero autodidatismo não permitiriam suportar. Se isso redundou em um título académico, não se sabe (e, possivelmente, tal não sucedeu). Mas era normal jovens assistirem (informalmente) a aulas do ensino superior – mesmo sem a consequente avaliação e credenciação - em Coimbra para onde D. João III enviou a Universidade (o Papa cria a Universidade em 1290 e esta fica em Lisboa e só em 1537 muda para Coimbra). No dizer da historiadora, “Camões possuía um saber erudito, que abarcava vários domínios do conhecimento, da Geografia à Botânica, da Cosmologia à Astronomia (...) A qualidade do seu estilo, o seu domínio da sintaxe (...) o emprego das palavras atendendo a todos os sedimentos de significado que as mesmas foram adquirindo (...) Convive desde a tenra idade com o latim".

Para sobreviver, e dada a sua preparação, que pode ter resultado, igualmente, segundo outros estudiosos, da imersão na Biblioteca do Mosteiro de Santa Cruz (dado este ser, então, um grande centro de cultura), do convívio com família aristocrática como a de D. Francisco de Noronha (Camões terá sido preceptor do filho, D. António e, aí, enviado aos meios cortesãos, embora disso, em rigor, não haja prova),  ou, ainda, consequência, direta ou indireta, do ensino renovado e qualificação/exigência que os humanistas, estrangeirados e estrangeiros nomeadamente, que aportaram à pátria acometeram, Camões – que, em termos profissionais, foi, sobretudo, um soldado – terá sido um empregado a quem, por exemplo, se solicitava escrita epistolar (ou outra). Uma encomenda de uma carta de amor, ilustremos, poderia ser feita em troca de 4 frangos. Isto, em um tempo em que toda a gente recorria a provérbios e ditados populares.
Por aquele ínterim, eram cerca de 600 os estudantes em Coimbra. Além do apego a livros e sebentas, dedicavam-se a jogos de cartas em tabernas, representavam peças de teatro, iam às touradas. A viagem Coimbra-Lisboa demorava 5/6 dias.

 

7.Do ponto de vista da mundividência em que Camões se inscrevia, e Isabel Rio Novo recusará, por diversas vezes, ao longo do seu livro, anacronismos, "a sua crença era cristã e submissa à Igreja de Roma, e a sua obra dá disso um testemunho recorrente (…) O seu quadro mental era enformado por essa visão: os muçulmanos eram torpes; os gentios, cegos; os protestantes, heréticos. Nenhum desabafo contra a Inquisição; nenhum protesto contra a escravatura. O seu sistema astronómico era o de Ptolomeu, tendo a Terra como astro central, rodeado pelo Ar, o Fogo, a Lua, os vários planetas, todos contidos pelo orbe de Empíreo (…) Bárbara negra era bela, e os budistas bondosos, mas, de um modo geral, as outras gentes e as outras culturas afiguravam-se-lhe discordantes, cheias de brutezas; numa palavra, inferiores" (p.548). Isso não alivia, no indivíduo, melancolias e interrogações (dos absurdos da vida não mais restaria do que confiar-se a Cristo e à Divina Providência para que uma harmonia final pudesse redimir duras penas e cansaços), um final de vida cuja pacificação (existencial) interior ficará, sempre, por descodificar.
Por sua vez, Jorge de Sena que, em “O pensamento de Camões” (reeditado, em 2024, pela Guerra e Paz) refere-se ao “aberto paganismo” de Camões (p.21), vislumbrando, em Os Lusíadas, uma “majestosa corrente”, “em que as tradições cristãs e judaicas, paganismo e cristianismo, platonismo e empirismo, intelectualismo e sensualismo, realismo e fantasia, história e imaginação literária, patriotismo e um amor humanista universal, tristes frustrações e eufóricas epifanias, a terra com as suas variadas civilizações e o seu eterno mar primevo, estão harmoniosamente fundidos para celebrar, muito mais do que a viagem do Gama ou a História de Portugal, o sonho impossível” (p.23).

 

8.Isabel Rio Novo dá por adquirido que Camões foi mandado para Ceuta combater (e) pelo facto de ter ousado galantear damas de condição social superior à sua, identificando, como biógrafos das últimas centúrias, Catarina de Ataíde como ojecto amado. O rei, de resto, tinha prorrogativas para se intrometer em questões familiares. Os próprios pais de Camões, Simão Vaz e Ana Sá e Macedo, podem ter solicitado ao rei o exílio do filho. De Lisboa a Ceuta, demorava-se 3/4 dias. Camões terá embarcado, contra a sua vontade, numa frota de 30 navios. Em Ceuta, a existência seria enfadonha e quezilenta, o abastecimento escasso. O pai de Camões, Simão Vaz, terá lutado ao lado do filho em naquela praça africana. O poeta perde o olho direito em circunstâncias por apurar, talvez fogo amigo numa centelha de um canhão, e fica com o rosto desfigurado. Nenhum “físico” – como, naquele tempo, se designava um “médico” – lhe valeu.
Sobre os que (se) perdem em batalhas, sobre derrotados de todas as guerras de todos os tempos, deixará o poeta escrito:


 Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mágoa, da desonra, e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo

 

9. No primeiro quartel do século XVI, 15/20 mil homens partiram para o Oriente, 2-2,5% da população portuguesa. Na melhor das hipóteses, demorava-se 6 meses a chegar à Índia. Os embarcados desejavam boa sorte, uns aos outros, ao partir. "Os ventos ferozes ameaçando romper as velas côncavas das naus; o cordame assobiando com o ruído; os gritos desesperados dos marinheiros. A chuva torrencial; os relâmpagos fulminantes; os ventos furiosos; as ondas que ora erguem naus, ora parece que as levam às profundezas dos abismos", anota a biógrafa. Tal realidade estimula o fervor religioso.
No tempo de Camões em Goa, os portugueses pisavam e queimavam o Corão, profanavam as mesquitas e insultavam publicamente o profeta Maomé. Já naquela altura, os locais se iam purificar ao rio Ganges, abstinham-se de carne e não seguiam a monogamia.
Goa tem, por aquela altura, cerca de 100 mil habitantes. É a segunda maior cidade do domínio do rei português. Já há dicionários e gramáticas no séc.XVI. Guinchos de macacos à venda. Os mouros enchem-se de refugados, os gentios só comem arroz de caril. À chegada de Camões ao Oriente, quem governava era D. Afonso de Noronha, da Casa de Vila Real.

10.O dia do Corpo de Deus era celebrado, em Lisboa, com grande festa, provavelmente a maior da Europa. É neste dia que Camões entra em rixa e é preso. Atuara em bando, contra criado do rei. A data, o estatuto do ofendido, o desembainhar pequena espada concorrem para pena considerável, a que acresce a condição depauperada de Luís Vaz, míngua com que subornar e evitar a cadeia. Recebe carta de perdão régio em 1533.


11. Camões regressou da Índia tão pobre como partiu. Talvez como prémio esperasse um emprego público. Receberia uma tença (pensão) anual de 15 mil réis, paga durante 3 anos. Tença pelos serviços prestados na Índia (Índias era vocábulo que recobriria realidades orientais que extravasavam a Índia), pelo engenho e habilidade e suficiência no livro que fez.
Assim, a excelência do poema que o rei não lera, de que ouvira falar ou de que escutara partes, na melhor das hipóteses não foi o motivo maior do subsídio. Destinado, portanto, essencialmente, a recompensar um cargo fora de Portugal para o qual Camões fora nomeado (no âmbito militar. Tença, o que significariam 15 mil reis foram discutindo os exegetas, razoável nesse âmbito, sem comparação, porém, com remuneração do talento literário em termos homólogos, face ao pagamento em anos recentes a outros literatos, condição que, reitera-se não era a mais significativa na situação em apreço, além de que, entretanto, a devoção aos homens de letras pelo monarca não seria a mesma de outrora). Renovável a cada triénio. Paga, muitas vezes, com atraso.
A mãe, que sobrevive a Camões, pede a renovação da tença do filho. São-lhe atribuídos 6 mil reis. Depois, irá somar a tença do marido e ficará com 15 mil réis por mês.

12.Há provas de que Camões ainda escrevia no final dos anos 70 do século XVI. Isabel Rio Novo crê que Camões morreu de sífilis - vocábulo que surge, apenas, no final do século XVIII. O poeta-soldado vinha, já, doente do Oriente – aliás, as condições em que as viagens ocorriam não ofereciam saúde a quem fosse.  Frei José Índio, da Ordem dos Carmelitas Descalços, daria a extrema-unção a Camões, que lhe ofereceu, por sua vez, Os Lusíadas. O volume deixou Portugal ainda no século XVI, com destino a Espanha, indo mais tarde para Inglaterra e, em 1966, para os Estados Unidos da América, onde está à guarda do Harry Ransom Humanities Research Center, da Universidade do Texas.
Á data da sua morte, a 10 de junho de 1580, Camões, fazendo fé de que teria nascido em 1524/1525, teria, pois, 55/56 anos de idade.
Ainda nesse ano, surgem as duas primeiras traduções de "Os Lusíadas" em espanhol. Desde cedo, tal a erudição camoniana, acompanhadas de muitas notas explicativas. "No século XVII, as edições da epopeia multiplicaram-se, como nenhum outro livro editado no Portugal de Quinhentos" (p.576).

 

13. Vários autores que tinham sido incitados a cantar os feitos lusitanos: Pero Andrade Caminha, Diogo Bernardes, Diogo de Teive, D. António de Vasconcelos. Mas seria Luís Vaz de Camões a alcançar a posterioridade. O título da sua obra, Lusíadas, encontrava-se, já, patente em obras de André de Resende (e, ao que tudo indica, circulava, mesmo, antes dos escritos deste) e, embora talvez muitos o não saibam, algumas célebres expressões plasmadas na obra-prima de Camões não são uma singularidade sua: “Não escaparão ao leitor os pontos de contacto entre certas passagens de Os Lusíadas e toda esta literatura anterior ou contemporânea. É a aliança entre a espada e a pena, proposta por João de Barros. São as expressões por mares nunca dantes navegados, por gentes nunca vistas nem ouvidas, descobrindo novos mundos, novas terras, novo céu e novas estrelas, usadas pelo editor João de Barreira. São as dicotomias engenho e arte, Apolo e Marte, convocadas por Corte-Real...Talvez por menos se fale de plágio. Contudo, mais do que estabelecer quem influenciou quem (e muitos estudiosos têm tentado fazê-lo), importa sublinhar que todas estas expressões eram comuns na época, traduzindo uma aspiração colectiva (...). Até o título da sua epopeia [Os Lusíadas], ainda que estranho e erudito, já tinha sido usado. Camões foi buscá-lo a duas obras do humanista André de Resende, escritas em latim, o Erasmi Encomium (1531) e o Vincentius Levita et Martyr (1545) (...). Mas até o próprio André de Resende, ao que parece, tinha colhido a palavra lusíadas em obras anteriores" (pp.457-459).
Os Lusíadas tiveram que passar pela prova da Inquisição – sendo que eram da Ordem dos Dominicanos, geralmente, os Inquisidores. E não poucos autores sublinham a tolerância que houve para com o livro. Todas as edições de Os Lusíadas publicadas em 1572 e até anos nossos dias apresentam variantes. Os Lusíadas demoraram 25 meses a serem impressos. Terão sido impressos cerca de 150 exemplares, em 1572, e até nós chegaram, dessa primeira edição, uns impressionantes 50 exemplares. O público leitor era assaz escasso. Além de "Os Lusíadas", saíram do prelo, que se saiba, 16 obras, naquele ano.
Vivia-se uma época, recorde-se, em que não existia imprensa, nem crítica literária. Um juiz transmontano que se fixara na capital, Cristóvão Borges, elaborava, todavia, cerca de 1578, um «cartapácio de trovas», um cancioneiro manuscrito onde copiara «obras dignas de seus autores, cujos raros engenhos elas estão mostrando, e quão grande seja a fama dos tais eles per suas obras» (“…uma ideia de algumas das convenções mais usadas na poesia de Quinhentos. A omnipresença de um mundo interior ou de um mundo moral, o modo como os sentimentos entram pelas descrições materiais, a evidência de que o verdadeiro assunto é sempre o mundo interior do sujeito poético, a tendência, fora da poesia mais prosaica e sem grandes pretensões artísticas para a abstracção, etc.”[12]). Oferecendo um panorama representativo dos poetas mais apreciados no seu tempo, havia, entre outros, poemas de Sá de Miranda (escritor que não é crível ter conhecido Camões[13]), Pero Andrade de Caminha, Jerónimo Corte-Real e Diogo Bernardes, mas Camões – “o modo como cada tema é enriquecido por vários outros, como nenhuma ideia se apresenta senão confusa, é um dos mais bonitos traços da lírica de Camões (…) Trata-se de uma poesia sincera e artificial, de um amor puro e profano, de um orgulho e de um desrespeito por si próprio que torna realmente difícil a análise (…) É sobretudo uma poesia de sínteses [e não de oposições][14] - era, de longe, o autor mais representado.

14.Isabel Rio Novo evoca alguns dos nossos melhores espíritos para melhor dizer Camões: segundo "Eugénio de Andrade, «foi Camões que deu à nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mel corrosivo de melancolia». Para Sophia, devemos a Camões «o justo peso das sílabas, o justo espaço do silêncio, a articulação justa»". Vitor Aguiar e Silva dedicou uma vida ao estudo desse «canto de fúlgida beleza formal, rítmica e melódica, e de espantosa densidade semântica, em que se exprime, como nunca acontecera na poesia portuguesa e como só voltaria a acontecer algumas vezes na poesia do século XX, a grandeza e a miséria da condição humana». Nas palavras de Vasco Graça Moura,

 

Pedro Miranda

 

[1] Francisco José Viegas, em conversa com Frederico Lourenço, “10 de junho – conversa sobre Camões”, Feira do Livro de Lisboa, 2024, in https://www.youtube.com/watch?v=cPkkM5sm10A&t=448s, consultada a 1 Setembro de 2024.

[2] Frederico Lourenço, aula-conferência “Camões por Frederico Lourenço. Verdades biográficas e verdades poéticas”, FeLiCidade Festival, CCB, 04-05-2024, in https://www.youtube.com/watch?v=VReGZofB540&t=167s, consultada a 1 de Setembro de 2024.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] Ibidem.

[6] Frederico Lourenço, “Camões e os clássicos, por Frederico Lourenço. Universidade de Salamanca”, 03-06-24, consultado em https://www.youtube.com/watch?v=RotvojSOpZc&t=21s, a 1 de Setembro de 2024.

[7] João Pereira Coutinho, Folha de São Paulo, 21-12-2024, p.B6).

[8] Carlos Maria Bobone, o.c., p.81.

[9] Ibidem, p.83.

[10] Ibidem, p.83.

[11] Frederico Lourenço, “Camões e os clássicos, por Frederico Lourenço. Universidade de Salamanca”, 03-06-24, consultado em https://www.youtube.com/watch?v=RotvojSOpZc&t=21s, a 1 de Setembro de 2024.

[12] Carlos Maria Bobone, p.114.

[13] Ibidem, p.123.

[14] Carlos Maria Bobone, o.c., p.107.










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