1.Se Bill Bryson surpreendeu tudo e todos quando, depois de deixar
sucessivas obras extremamente volumosas, na biografia que elaborou de William Shakespeare se ficou pelas 180
páginas – “é que só tenho três documentos acerca dele…”
-, sobre a vida de Luís Vaz de Camões prosseguem
extensas peregrinações declinadas em livros de monta. E, no entanto, o que sabemos, com segurança, da vida
de Camões, no registo de Frederico
Lourenço, é que i) foi preso em
1552; ii) partiu/embarcou para a
Índia em 1553 (documento, uma carta régia de perdão a Camões - por uma briga,
perto do Rossio, na qual feriu um empregado do rei -, na Torre do Tombo, atesta-o); iii)
voltou do Oriente em 1569 (data referida pelos dois primeiros biógrafos de
Camões e “relativamente segura”); iv)
a obra-prima “Os Lusíadas” foi publicada em 1572; v) morreu a 10 de Junho de 1580 (temos nota, de 1582 e redescoberto
no século XIX, na Torre do Tombo que
prova que Camões morreu nesta data, com renovação da tença, atribuída por D.
Sebastião ao poeta, a sua mãe). Depois, há um conjunto de suposições: a) a data de nascimento – julgamos estar a celebrar os 500 anos de
Camões com base numa informação, do século XVII, de Manuel de Faria e Sousa, fidalgo minhoto nascido em finais do
séc.XVI que dedicou grande parte da sua vida ao estudo do grande escritor português,
com comentários monumentais a “Os Lusíadas” e às rimas, extraordinário conhecedor da literatura (clássica,
espanhola, italiana…), e que, após, em 1639, ter escrito que Camões nascera em
1517, virá, já em 1685, a afirmar ter observado um documento, datado de 1550,
segundo o qual o também dramaturgo teria, então, 25 anos, pelo que o nascimento
daquele se dera em 1525 (ou, mais provável segundo Faria e Sousa embora sem
explicar porquê, em 1524); Pedro de
Mariz e Severim de Sousa
escreveram as duas biografias de Camões anteriores à de Faria e Sousa [a
biografia de Camões da autoria de Mariz, escrita a partir das notas de Manoel Correia, é publicada com a
edição d’Os Lusíadas de 1613; a da
pena de Severim de Faria encontra-se contida em Discursos Políticos Vários]: no primeiro dos casos, não é indicada
a data de nascimento (nem da morte) do poeta; no registo do segundo dos
biógrafos, Camões teria nascido em 1517. Faria e Sousa “era um homem controverso e de ética duvidosa e que nunca se coibiu de
inventar o que lhe convinha para fundamentar as suas teorias sobre Camões”
e os autores do século XIX não confiavam no que por este era dito sem que uma
fonte externa e independente o corroborasse. Portanto, o documento de 1550 que
Faria e Sousa alega ter visto, e que é a única fonte em que nos baseamos para
dizer que Camões nasceu em 1524, é de existência deveras nublosa [todavia,
note-se, nas lições em Salamanca ou Lancaster, há meses ocorridas, para todos
os efeitos, Frederico Lourenço dá como aceite a data de 1524, a qual é
defendida como muito provável por Carlos Maria Bobone, na sua recente
investigação sobre Camões); b) os
estudos superiores em Coimbra; c) o
olho direito perdido (há imagens, como já alertara Vasco Graça Moura, de que o olho perdido pelo poeta-soldado, seria
o esquerdo, mas as fontes mais antigas que referem este facto da vida de Camões
referem o olho direito e tal será o mais certo); d) o lugar onde o olho vazou (não se sabe ao certo se em Ceuta, se
na Índia); e) a identidade de um
intenso amor…
Este apuramento do que, rigorosamente, sabemos (e do que não sabemos) da
vida de Camões faz-se sem recurso aos poemas por si elaborados. Tal indicação,
por banda de Frederico Lourenço, não é de somenos, enquanto metodologia de aproximação biográfica,
seja por comparação com outras lições (biográficas) e estudos sobre o genial
homem de letras (produzidas por autores outros, desde há quatro séculos e até
aos nossos dias), seja pela clareza e contundência com que afasta “projecções”
do “eu” camoniano no seu “eu poético” (“Camões
escreve em português, mas sente em italiano, em espanhol, em latim”): “porque se tentarmos reconstituir a vida e a
personalidade de Camões a partir dos seus poemas, o que emerge é uma
personagem, estou a dizer de propósito personagem, muito diferente daquela que
os factos verídicos permitem desenhar”.
Isto não significa que não haja alusões auto-biográficas na lírica camoniana;
todavia, estas serão filtradas pelas experiências literárias canónicas que
Camões bebera.
A aproximação biográfica à poesia de
Camões x) carece de uma base
objectiva que nos permita corroborar ou refutar teorias sobre, por exemplo, Dinamene (pretensa jovem chinesa que
morrera no regresso de Camões a Lisboa) ou a Natércia dos poemas ser Catarina,
como desde o século XVIII diferentes estudiosos propuseram, ou mesmo Joana, como José Hermano Saraiva alvitrou), dado que a sua poesia está
construída, deliberadamente, para impedir qualquer possível identificação de
uma eventual mulher “real” (porque a mulher a que se refere é, essencialmente,
literária, à maneira de Petrarca); y) só é passível de se realizar
recorrendo a uma “bolha artificial”,
como se a poesia de Camões se desse sem relação intrincada com a poesia
clássica que o precede. Ora, uma coisa são evocações genéricas de situações por
que, também, o poeta passou – por exemplo, a sua referência a uma ilha do
Oriente, ainda que, mesmo esta, sem ser identificada -, outra uma
auto-biografia em sentido próprio. E um dos conceitos centrais no que à poesia
de Camões diz respeito é o “ventriloquismo”
(um texto como homenagem aos poetas em que o vate se inspirou; inclusive quando
refere que o que está a dizer é a verdade [“puras verdades”] do que se passou encontra-se, em realidade, a
parafrasear autor espanhol de referência, Garcilaso
de La Vega, assim encenando a autenticidade de um poema que homenageia
outro poeta [“verdade factual” ou “verdade poética”, portanto, quando
Camões usa a expressão “puras verdades”? “Verdade poética” significava “qualidade poética”]).
Em síntese, “não acredito que a originalidade, na literatura, na acepção que dela
temos no século XIX, dissesse alguma coisa a Camões”. Lermos Camões sem a cultura de Camões – e alguém com a autoridade
de Frederico Lourenço, e todo o conhecimento dos clássicos que possui, dirá “tomara eu ter a cultura de Camões, mas não
tenho”; “eu próprio tenho tentado,
há várias décadas, acompanhar o nível cultural de Camões, mas ainda me
faltariam muitas décadas para lá chegar” – far-nos-á incorrer em
interpretações falaciosas daquele autor: “um
leitor ignorante da cultura de Camões, da cultura que um leitor culto de Camões
teria naquela época” lerá os sonetos a modo de confissão íntima.
O problema fundamental que as
referências clássicas ínsitas na poesia coetânea camoniana, e nela própria,
colocam, para sabermos se sem a cultura
do poeta, ainda assim, somos susceptíveis de nos adentrarmos no significado dos
seus versos vem a ser o de se considerar que aquelas referências são ornamentais ou, diversamente, implicam,
essencialmente, na compreensão dos
poemas. De acordo com Frederico Lourenço, nas evocações mais ostensivas o
efeito é ornamental (pressupõem
alguma cultura clássica do leitor, mas não em limite de desocultação de um sentido definitivo do poema) e dificuldade maior
de decifração ocorre quando aquelas
são menos óbvias (eruditas e com várias gradações de subtileza). Ora, a poesia
de Camões é profundamente culta e reclama um grande conhecimento dos autores
clássicos – numa altura em que prestígio supremo era a inserção em uma linhagem
e uma exibição do conhecimento dos grandes vates clássicos.
Corroborando este entendimento, Carlos Maria Bobone, em “Camões. Vida e
obra” (D. Quixote, 2024; segundo João
Pereira Coutinho, “nos 500 anos do nascimento de Camões, este estudo biográfico
é o mais inteligente que li em 2024. Com o rigor de um detetive, o autor
procura “purgar” Camões de lendas, mitos ou erros grosseiros Que se escreveram
sobre a sua vida, ao mesmo tempo que procede a uma reconstituição literária e
mental do mundo onde viveu”),
conclui, de uma banda, que “aquilo que
de mais verdadeiro e seguro se pode dizer sobre a biografia do poeta é que, à
data de hoje, ela é uma miragem” (p.12) e, por outro lado, o fundamental,
no gigante da literatura universal, é a obra e, por conseguinte, a consideração
biográfica significa “voltarmo-nos para o que menos interessa”
(p.13). Acresce que, na dificuldade em dilucidar Camões, “o corpus poético de Camões é
bastante incerto. A sua lírica é extraída de edições póstumas que aproveitam
cancioneiros nem sempre fiáveis e de outros cancioneiros também eles cheios de
atribuições autorais contraditórias. Conhecem-se vários poemas atribuídos, nos
cancioneiros, quer a Diogo Bernardes, quer a Camões, por exemplo”. Não só
extrair conclusões biográficas de poemas é, reforce-se, um abeirar complexo do
texto, como, no caso concreto, pode correr-se o risco de se aceder a ilações
(de pendor biográfico) assentes em poesia…que nem sequer é da autoria de Luís
Vaz. E, ademais, tentar compreender o próprio texto - mesmo despido, já, da busca, nele, de
informações sobre a vida do literato -, como se vem de dizer, não se afigura
fácil mister, negando-se imediata – precisa, ao invés, de bem mediado auxílio e
notas de leitura – (ingénua) compreensão: “embora
falemos a mesma língua, esta não é sempre a mesma, e até o seu pensamento
subentende ideias e mentalidades em que podemos não reparar, criando assim uma
ilusão de compreensão da leitura (…) Há
uma cultura que está em Camões, mas que está, de certo modo, escondida nele.
Sem pretensões herméticas, mas simplesmente porque se trata de uma cultura que,
nalguns aspectos, já não é nossa, embora noutros ainda o seja, criando assim a
ilusão de uma compreensão total que importa desmascarar” (p.15). No dizer
de Frederico Lourenço, aceitemos que, com Camões, “o grande prazer está na viagem, mesmo que nunca cheguemos ao destino”.
Neste contexto, com o seu livro, em boa medida, Carlos Maria Bobone intenta
elaborar uma história das mentalidades,
mormente oferecendo luz sobre o século XVI português, que nos permita
vislumbrar o pano de fundo, a cultura – não homogénea, contraditória,
mas, ainda assim, com a sua coerência - em que Camões assenta e labora.
2. “Fortuna,
Caso, Tempo e Sorte” (Contraponto,
2024) é a biografia de Luís Vaz de Camões da autoria de Isabel Rio Novo (mestre
em História da Cultura Portuguesa – época
Moderna, doutora em Literatura
Comparada, docente Universitária em História
de Arte, biógrafa de Agustina
Bessa-Luís, ficcionista). Aclamado como um dos livros do ano pela imprensa
de referência em Portugal, teve, porventura, em Edite Estrela (Licenciada em Filologia Clássica, autora de vários
livros sobre a Língua Portuguesa, professora, presidente da Comissão
de Cultura da Assembleia da República),
no Jornal de Letras, a mais
entusiástica das recepções: “ “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte”, de Isabel Rio
Novo (IRN), é a biografia de Luís Vaz de Camões. Sublinho “a” e não “uma”. Biografias sobre Camões há muitas. Mas em
nenhuma outra se raspou a patine que o tempo acrescentou, se identificaram as
camadas sobrepostas, se esmiuçaram as múltiplas e complexas dimensões do ser
humano para chegar ao osso do mito e desnudar o homem” (JL, 16 a 29 de novembro de 2024, p.18). A filóloga detalharia, de
imediato, todo o labor e méritos que encontrou na obra há poucos meses dada à
estampa por Isabel Rio Novo na demanda que aquela realizou, durante meia
década, do Camões “autêntico”: “contextualizou
o vocabulário para descobrir os
sentidos que as palavras detinham na época, pois não se pode julgar a
história com os olhos e conceitos do presente. A biógrafa leu tudo o que havia para ler. O
que os anteriores biógrafos leram e o que não leram ou desvalorizaram, como
as cartas em prosa nas quais Aquilino
Ribeiro e Hélder Macedo
desvendaram interessantes pistas de leitura, provando que mesmo os génios
nascem com qualidades e defeitos, crescem com necessidades e ambições,
sentimentos e volições. A autora trabalhou sobre os escassos documentos de
reconhecida autenticidade (…). Seguiu sugestões e caminhos inexplorados, analisou textos e argumentos especulativos,
confirmou e infirmou teorias. Viajou até onde o Poeta a levou. Foi a Goa, onde descobriu o paradeiro de um
retrato de Camões. Foi à Ilha de Moçambique, onde Camões viveu dois anos. IRN
conviveu cinco anos com Camões para clarificar zonas obscuras da vida do
Poeta”.
3.Com apenas dois retratos verdadeiros
contemporâneos do biografado, um, quando Camões teria cerca de 50 anos, levado
a cabo pelo jovem pintor Fernão Gomes
(ou, mais rigorosamente, Hernán Gomez,
nascido em Albuquerque, em Castela) e de que hoje temos, apenas, a cópia – o
original perdeu-se – na Torre do Tombo,
e outro da prisão em Goa, anos antes, sendo que possuem “notória semelhança”, o Luís Vaz de Camões que Isabel Rio Novo nos
traz é, fisicamente, “de estatura
meã, segundo uns, ou alto de estatura, segundo outros, e largo de espáduas. O
cabelo e a barba eram de um loiro arruivado (…) No rosto, Camões foi «algum
tanto carregado da fronte» e sardento ou «sardo». Tinha o nariz comprido, «levantado
no meio e grosso na ponta. Era torto dos
olhos, maneira de uns dizerem com delicadeza o que outros afirmavam cruamente:
«afeiava-o notavelmente a falta do olho direito». Os testemunhos concordavam
que nunca fora propriamente «gracioso na
aparência», embora suprisse a falta de beleza com a destreza física”
(p.583).
4.Do ponto de vista familiar, Luis Vaz de Camões – algumas vezes também chamado Luis de
Camões, ou, mesmo, Luis Sá de Camões; o uso dos apelidos era funcional e, face
a cada contexto, podia variar a forma como alguém era apresentado, ou se
apresentava, para mais fácil identificação da pessoa - será filho da baixa nobreza, provinda da Galiza. Século XVI, aquele em que vive,
no qual os títulos nobiliárquicos, até então escassos, passam a multiplicar-se
e com reconhecimento numa origem definida – os títulos são dados pela coroa,
sinal de centralização do poder que convive com formas mais antigas e não tão
claras de reconhecimento da nobreza.
Os
Lusíadas são um épico da nobreza, não propriamente em sentido literal
como via Jorge de Sena, mas “na medida em que estão dominados pela ideia
de que o grande favor dos deuses é o
favor do passado”.
A origem do nome familiar radicará em ave aquática pernalta, pássaro a que os
clássicos haviam chamado porfírio. Tanto se encontram Camões entre a fidalguia, como na plebe.
Da obra de Camões transparece, de acordo Isabel Rio Novo, e em qualquer caso,
uma consciência aristocrática (as biografias que o apresentem o menos
distante possível das cabeças da
nação permitirão, adicionalmente, colocá-lo como representante de Portugal).
Parte da família de Camões estava unida à de Vasco da Gama. Ana Sá Macedo,
de Santarém, e Simão Vaz de Camões,
de Vilar de Nantes ou de Coimbra, foram seus progenitores (dos quais não falará
na sua obra). Camões não terá tido irmãos, tal como, tanto quanto se sabe, não
deixou descendência (nem casou). Se o
seu avô paterno, em Coimbra (onde vivia com um irmão), cometeria homicídio e,
por isso, irá fugir e viver nos arrabaldes de Chaves (Vilar de Nantes; desde os
tempos de D. João I, Chaves era couto de homiziados, isto é,
perdoavam-se certas penas a quem ali aceitasse viver), o pai morreria no
Oriente. A mãe sobreviveria à morte de Camões.
Camões terá vivido desde cedo em Coimbra, seguindo jovem para Lisboa. A hipótese de ter nascido no Porto é bastante plausível e deve ser mais explorada, na investigação de
Isabel Rio Novo, mas apenas “meia-hipótese”
na anotação de Carlos Maria Bobone. Dificilmente terá nascido em Lisboa,
regista a biógrafa. Alenquer, sobretudo, ou Santarém foram cidades também apontadas como potenciais berços de Luis
Vaz. Ele que nasceu antes dos registos paroquiais (os quais são pós-Trento), mas
no auge da expansão marítima portuguesa e no início do reinado de D. João III. Conheceria D. Sebastião como monarca durante largo
período da sua vida, lidaria com a Inquisição
(que daria um “parecer
surpreendentemente positivo”
à edição d’Os Lusíadas, apesar dos “aspectos escandalosos para a época”,
como os atinentes ao erotismo que ressoa do canto IX, o atinente à ilha dos amores), regressara do Oriente
e compreenderia o que fora um tempo de forte epidemia em Lisboa (levando-a a
ficar deserta, com os mais ricos, desde logo, recolhendo às suas propriedades e
a corte saindo também), perecendo quando Portugal agonizava a caminho da perda da independência por mais de meio
século. Um mês após Camões morrer, D.
António, Prior do Crato, é entronizado rei. Mas, outro mês volvido, as
forças de Filipe I (Felipe II de
Espanha) vencem.
Lisboa, durante a juventude de Camões,
com cerca de 120 mil pessoas, em azáfama constante, era cosmopolita e
multicultural: possuía o maior porto da
Península Ibérica e um dos maiores europeus, era centro do comércio europeu, nela pululando muitos negociantes, banqueiros – incubando-se uma potencial mudança de mentalidades. Mouriscos, castelhanos, catalães, flamengos, galegos, venezianos, judeus conversos (em 1496 fora dada
ordem de expulsão dos judeus), escravos
de todas as cores, indianos,
impressionava quem a ela aportasse de outras regiões do país (e apesar da
sujidade da cidade, dos odores repulsivos, da escassa segurança nas ruas). Cães,
galinhas, porcos misturavam-se com os transeuntes.
O futuro nome brilhante das letras
portuguesas e universais, pode ter tido uma ama, dado que tal era normal à
época. Até à adolescência, frequentemente naquele primeiro quartel do século
XVI, as crianças ficavam com amas, apartados da família e, em rigor, só se
sobrevivessem os pais levavam os filhos em real consideração (tal a taxa de
mortalidade infantil à época). As crianças vestiam roupas de adulto. Sabemos
que foi baptizado.
5.Do ponto de vista psicológico, Camões era temperamental
e apaixonado, repentista, mordaz, generoso, bom companheiro e amigo,
dado a brigas e imprudências, libertino,
perdulário, encarnaria a figura do fidalgo indigente. Superiormente dotado do ponto de vista intelectual, com memória privilegiada, cultura vastíssima, nos seus escritos
sempre perpassa a ideia de predestinação
para a tristeza (“erros meus, má fortuna, amor ardente”). Estudioso, brilhante, requestador de
damas. Capaz do mais elevado
galanteio na corte, mas também grande frequentador
de tabernas e bordéis. "Camões
era superior aos seus contemporâneos e tinha consciência da sua superioridade",
sentencia a historiadora. Seguramente, suscitou invejas e ciúmes. Aventureiro,
jogador, namoradeiro. Poeta, dramaturgo, autor das elites e do povo. De
linguagem elevada e escabrosa. Impetuoso.
O seu tio, ou melhor, no dizer de Frederico Lourenço na esteira de outros
estudiosos que duvidaram daquele tipo de parentesco entre Luis Vaz e Bento, o
seu primo direito frequentemente
referido como tio, Bento Camões,
prior do mosteiro de Santa Cruz, sob cuja égide provavelmente terão decorrido
os estudos de Camões, referir-se-á ao “comportamento
irreverente” do seu familiar próximo.
Não é Amor amor, se não vier
com doudices, desonras, dissensões,
pazes, guerras, prazer e desprazer,
perigos, línguas más, murmurações,
ciúmes, arruídos, competências,
temores, mortes, nojos, perdições.
Estas são as verdadeiras experiências
de quem põe o desejo onde não deve,
de quem engana alheias consciências.
Como aquele que cegou
é cousa vista e notória
que a natureza ordenou
que se lhe dobre em memória
o que em vista lhe faltou
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mágoa, da desonra, e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
indo agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Os privilégios que os Réis
Não podem dar, pode Amor
Que faz qualquer amador
Livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis
Ferro, frio, fogo e neve
Tudo sofre quem o serve.
[...] um verso de camões
com pouca variação é sempre um verso de
camões,
é a coisa mais bela e mais difícil do
mundo
e dá cá uma guinada tão especial que só
pode ser dele
6. Objectivamente, dir-nos-á Isabel Rio
Novo na senda de António José Saraiva,
a obra de Camões, pela sua erudição nos mais variados domínios, pelo conhecimento enciclopédico que demonstra, da geografia, à história, à
filosofia ou à botânica, dos Antigos
Clássicos e da literatura Bíblica, passando pelos autores maiores do seu
tempo (com os quais dialoga nos seus escritos) manifesta uma presença de Camões em estudos
superiores - possivelmente, na área das Leis - que o mero autodidatismo
não permitiriam suportar. Se isso
redundou em um título académico, não
se sabe (e, possivelmente, tal não sucedeu). Mas era normal jovens assistirem
(informalmente) a aulas do ensino
superior – mesmo sem a consequente avaliação
e credenciação - em Coimbra para onde
D. João III enviou a Universidade (o Papa cria a Universidade em 1290 e esta
fica em Lisboa e só em 1537 muda para Coimbra). No dizer da historiadora, “Camões possuía um saber erudito, que
abarcava vários domínios do conhecimento, da Geografia à Botânica, da
Cosmologia à Astronomia (...) A qualidade do seu estilo, o seu domínio da
sintaxe (...) o emprego das palavras
atendendo a todos os sedimentos de significado que as mesmas foram adquirindo
(...) Convive desde a tenra idade com o
latim".
Para sobreviver, e dada a sua preparação, que pode ter resultado,
igualmente, segundo outros estudiosos, da imersão na Biblioteca do Mosteiro de Santa Cruz (dado este ser,
então, um grande centro de cultura), do convívio com família aristocrática como
a de D. Francisco de Noronha (Camões
terá sido preceptor do filho, D. António
e, aí, enviado aos meios cortesãos, embora disso, em rigor, não haja prova), ou, ainda, consequência, direta ou indireta,
do ensino renovado e qualificação/exigência que os humanistas, estrangeirados e
estrangeiros nomeadamente, que aportaram à pátria acometeram, Camões – que, em
termos profissionais, foi, sobretudo, um soldado
– terá sido um empregado a quem, por exemplo, se solicitava escrita epistolar
(ou outra). Uma encomenda de uma carta de
amor, ilustremos, poderia ser feita em troca de 4 frangos. Isto, em um
tempo em que toda a gente recorria a provérbios
e ditados populares.
Por aquele ínterim, eram cerca de 600 os estudantes em Coimbra. Além
do apego a livros e sebentas, dedicavam-se a jogos de cartas em tabernas, representavam peças de teatro, iam às touradas.
A viagem Coimbra-Lisboa demorava 5/6 dias.
7.Do ponto de vista da mundividência em que Camões se inscrevia,
e Isabel Rio Novo recusará, por diversas vezes, ao longo do seu livro,
anacronismos, "a sua crença era
cristã e submissa à Igreja de Roma, e a sua obra dá disso um testemunho
recorrente (…) O seu quadro mental era enformado por essa visão: os muçulmanos
eram torpes; os gentios, cegos; os protestantes, heréticos. Nenhum desabafo
contra a Inquisição; nenhum protesto contra a escravatura. O seu sistema
astronómico era o de Ptolomeu, tendo a Terra como astro central, rodeado pelo
Ar, o Fogo, a Lua, os vários planetas, todos contidos pelo orbe de Empíreo (…)
Bárbara negra era bela, e os budistas bondosos, mas, de um modo geral, as
outras gentes e as outras culturas afiguravam-se-lhe discordantes, cheias de
brutezas; numa palavra, inferiores" (p.548). Isso não alivia, no
indivíduo, melancolias e interrogações (dos absurdos da vida não mais restaria
do que confiar-se a Cristo e à Divina Providência para que uma
harmonia final pudesse redimir duras penas e cansaços), um final de vida cuja
pacificação (existencial) interior ficará, sempre, por descodificar.
Por sua vez, Jorge de Sena que, em “O pensamento de Camões” (reeditado, em 2024,
pela Guerra e Paz) refere-se ao “aberto paganismo” de Camões (p.21),
vislumbrando, em Os Lusíadas, uma “majestosa corrente”, “em que as tradições cristãs e judaicas,
paganismo e cristianismo, platonismo e empirismo, intelectualismo e
sensualismo, realismo e fantasia, história e imaginação literária, patriotismo
e um amor humanista universal, tristes frustrações e eufóricas epifanias, a
terra com as suas variadas civilizações e o seu eterno mar primevo, estão
harmoniosamente fundidos para celebrar, muito mais do que a viagem do Gama ou a
História de Portugal, o sonho impossível” (p.23).
8.Isabel Rio Novo dá por adquirido que Camões
foi mandado para Ceuta combater (e) pelo facto de ter ousado galantear damas de
condição social superior à sua, identificando, como biógrafos das últimas
centúrias, Catarina de Ataíde como ojecto amado. O rei, de resto, tinha
prorrogativas para se intrometer em questões familiares. Os próprios pais de
Camões, Simão Vaz e Ana Sá e Macedo, podem ter solicitado ao rei o exílio do
filho. De Lisboa a Ceuta, demorava-se 3/4 dias. Camões terá embarcado, contra a
sua vontade, numa frota de 30 navios. Em Ceuta, a existência seria enfadonha e
quezilenta, o abastecimento escasso. O pai de Camões, Simão Vaz, terá lutado ao
lado do filho em naquela praça africana. O poeta perde o olho direito em
circunstâncias por apurar, talvez fogo
amigo numa centelha de um canhão, e fica com o rosto desfigurado. Nenhum
“físico” – como, naquele tempo, se designava um “médico” – lhe valeu.
Sobre os que (se) perdem em batalhas,
sobre derrotados de todas as guerras de todos os tempos, deixará o poeta
escrito:
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mágoa, da desonra, e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo
9. No
primeiro quartel do século XVI, 15/20 mil homens partiram para o Oriente,
2-2,5% da população portuguesa. Na melhor das hipóteses, demorava-se 6 meses a
chegar à Índia. Os embarcados desejavam boa sorte, uns aos outros, ao partir.
"Os ventos ferozes ameaçando romper
as velas côncavas das naus; o cordame assobiando com o ruído; os gritos
desesperados dos marinheiros. A chuva torrencial; os relâmpagos fulminantes; os
ventos furiosos; as ondas que ora erguem naus, ora parece que as levam às profundezas
dos abismos", anota a biógrafa. Tal realidade estimula o fervor
religioso.
No tempo de Camões em Goa, os portugueses pisavam e queimavam
o Corão, profanavam as mesquitas e
insultavam publicamente o profeta Maomé.
Já naquela altura, os locais se iam purificar ao rio Ganges, abstinham-se de carne e não seguiam a monogamia.
Goa tem, por aquela altura, cerca de
100 mil habitantes. É a segunda maior cidade do domínio do rei português. Já há
dicionários e gramáticas no séc.XVI. Guinchos de macacos à venda. Os mouros
enchem-se de refugados, os gentios só comem arroz de caril. À chegada de Camões
ao Oriente, quem governava era D. Afonso
de Noronha, da Casa de Vila Real.
10.O dia do Corpo de Deus era celebrado, em Lisboa, com grande
festa, provavelmente a maior da Europa. É neste dia que Camões entra em rixa e
é preso. Atuara em bando, contra criado do rei. A data, o estatuto do ofendido,
o desembainhar pequena espada concorrem para pena considerável, a que acresce a
condição depauperada de Luís Vaz, míngua com que subornar e evitar a cadeia.
Recebe carta de perdão régio em 1533.
11.
Camões
regressou da Índia tão pobre como partiu.
Talvez como prémio esperasse um emprego público. Receberia uma tença
(pensão) anual de 15 mil réis, paga
durante 3 anos. Tença pelos
serviços prestados na Índia (Índias era vocábulo que recobriria realidades
orientais que extravasavam a Índia), pelo engenho
e habilidade e suficiência no
livro que fez.
Assim, a excelência do poema que o rei
não lera, de que ouvira falar ou de que escutara partes, na melhor das hipóteses
não foi o motivo maior do subsídio.
Destinado, portanto, essencialmente, a recompensar um cargo fora de Portugal
para o qual Camões fora nomeado (no âmbito militar. Tença, o que significariam 15 mil reis foram discutindo os
exegetas, razoável nesse âmbito, sem comparação, porém, com remuneração do
talento literário em termos homólogos, face ao pagamento em anos recentes a
outros literatos, condição que,
reitera-se não era a mais significativa na situação em apreço, além de que,
entretanto, a devoção aos homens de letras pelo monarca não seria a mesma de
outrora). Renovável a cada triénio. Paga, muitas vezes, com atraso.
A
mãe, que sobrevive a Camões, pede a renovação da tença do filho. São-lhe
atribuídos 6 mil reis. Depois, irá somar a tença do marido e ficará com 15
mil réis por mês.
12.Há provas de que Camões ainda escrevia no final dos anos 70 do
século XVI. Isabel Rio Novo crê que
Camões morreu de sífilis -
vocábulo que surge, apenas, no final do século XVIII. O poeta-soldado vinha, já, doente do Oriente – aliás, as condições em
que as viagens ocorriam não ofereciam saúde a quem fosse. Frei
José Índio, da Ordem dos Carmelitas
Descalços, daria a extrema-unção
a Camões, que lhe ofereceu, por sua vez, Os
Lusíadas. O volume deixou
Portugal ainda no século XVI, com destino a Espanha, indo mais tarde para
Inglaterra e, em 1966, para os Estados Unidos da América, onde está à guarda do
Harry Ransom Humanities Research Center,
da Universidade do Texas.
Á data da sua morte, a 10 de junho de
1580, Camões, fazendo fé de que teria nascido em 1524/1525, teria, pois, 55/56
anos de idade.
Ainda nesse ano, surgem as duas
primeiras traduções de "Os Lusíadas" em espanhol. Desde cedo, tal a
erudição camoniana, acompanhadas de muitas notas explicativas. "No século XVII, as edições da epopeia
multiplicaram-se, como nenhum outro livro editado no Portugal de Quinhentos"
(p.576).
13. Vários autores que tinham sido
incitados a cantar os feitos lusitanos: Pero
Andrade Caminha, Diogo Bernardes,
Diogo de Teive, D. António de Vasconcelos. Mas seria Luís Vaz de Camões a alcançar
a posterioridade. O título da sua obra, Lusíadas,
encontrava-se, já, patente em obras de André de Resende (e, ao que tudo indica,
circulava, mesmo, antes dos escritos deste) e, embora talvez muitos o não
saibam, algumas célebres expressões plasmadas na obra-prima de Camões não são
uma singularidade sua: “Não escaparão ao
leitor os pontos de contacto entre certas passagens de Os Lusíadas e toda esta literatura anterior ou contemporânea. É a
aliança entre a espada e a pena, proposta por João de Barros. São as expressões
por mares nunca dantes navegados, por gentes nunca vistas nem ouvidas,
descobrindo novos mundos, novas terras, novo céu e novas estrelas, usadas pelo
editor João de Barreira. São as dicotomias engenho e arte, Apolo e Marte,
convocadas por Corte-Real...Talvez por menos se fale de plágio. Contudo, mais
do que estabelecer quem influenciou quem (e muitos estudiosos têm tentado
fazê-lo), importa sublinhar que todas estas expressões eram comuns na época,
traduzindo uma aspiração colectiva (...). Até o título da sua epopeia [Os
Lusíadas], ainda que estranho e erudito, já tinha sido usado. Camões foi
buscá-lo a duas obras do humanista André de Resende, escritas em latim, o Erasmi Encomium (1531) e o Vincentius Levita et Martyr (1545) (...).
Mas até o próprio André de Resende, ao
que parece, tinha colhido a palavra lusíadas em obras anteriores"
(pp.457-459).
Os
Lusíadas tiveram que
passar pela prova da Inquisição –
sendo que eram da Ordem dos Dominicanos,
geralmente, os Inquisidores. E não
poucos autores sublinham a tolerância que houve para com o livro. Todas as
edições de Os Lusíadas publicadas em
1572 e até anos nossos dias apresentam variantes. Os Lusíadas demoraram 25 meses a serem impressos. Terão sido
impressos cerca de 150 exemplares, em 1572, e até nós chegaram, dessa primeira edição, uns impressionantes 50
exemplares. O público leitor era assaz
escasso. Além de "Os Lusíadas", saíram do prelo, que se saiba, 16
obras, naquele ano.
Vivia-se uma época, recorde-se, em que não existia imprensa, nem crítica literária.
Um juiz transmontano que se fixara
na capital, Cristóvão Borges,
elaborava, todavia, cerca de 1578, um «cartapácio
de trovas», um cancioneiro manuscrito onde copiara «obras dignas de seus autores, cujos raros engenhos elas estão
mostrando, e quão grande seja a fama dos tais eles per suas obras» (“…uma ideia de algumas das convenções mais
usadas na poesia de Quinhentos. A omnipresença de um mundo interior ou de um
mundo moral, o modo como os sentimentos entram pelas descrições materiais, a
evidência de que o verdadeiro assunto é sempre o mundo interior do sujeito
poético, a tendência, fora da poesia mais prosaica e sem grandes pretensões
artísticas para a abstracção, etc.”).
Oferecendo um panorama representativo dos poetas mais apreciados no seu tempo,
havia, entre outros, poemas de Sá de
Miranda (escritor que não é crível ter conhecido Camões),
Pero Andrade de Caminha, Jerónimo Corte-Real e Diogo Bernardes, mas Camões – “o modo como cada tema é enriquecido por vários outros, como nenhuma
ideia se apresenta senão confusa, é um dos mais bonitos traços da lírica de
Camões (…) Trata-se de uma poesia
sincera e artificial, de um amor puro e profano, de um orgulho e de um desrespeito
por si próprio que torna realmente difícil a análise (…) É sobretudo uma poesia de sínteses [e não
de oposições]”
- era, de longe, o autor mais representado.
14.Isabel Rio Novo evoca alguns dos
nossos melhores espíritos para melhor dizer Camões: segundo "Eugénio de Andrade, «foi Camões que deu à
nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta
graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mel
corrosivo de melancolia». Para Sophia,
devemos a Camões «o justo peso das
sílabas, o justo espaço do silêncio, a articulação justa»". Vitor Aguiar e Silva dedicou uma vida ao
estudo desse «canto de fúlgida beleza formal, rítmica e melódica, e de
espantosa densidade semântica, em que se exprime, como nunca acontecera na
poesia portuguesa e como só voltaria a acontecer algumas vezes na poesia do
século XX, a grandeza e a miséria da condição humana». Nas palavras de Vasco Graça Moura,
Pedro Miranda
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