FILMAÇO - "FOI SÓ UM ACIDENTE"
Da capacidade do particular se fazer universal: o que fazemos com quem nos fez profundamente mal? Como convivemos com o passado intensamente ferido? Em quem nos podemos transformar se formos, agora, o verdugo (“a premissa - homens e mulheres vitimados invertem os papéis com os seus algozes – é a essência do direito e da cultura”, Manohla Dargis)? De que modo o mal (e o desejo de vingança) nos pode capturar e colonizar? (“podemos ser livres sem compaixão?”, Elsa Fernández).
Enquanto dão voltas e voltas (absurdo) à cidade, à espera que Godot decida a justa reacção a Eghbal, torcionário do regime (responsabilidade individual e colectiva unidas, ainda que Panahi aponte, sobretudo, ao sistema: numa outra estrutura, este homem seria diferente, agiria de outra maneira), a vontade de o comer vivo, a consciência culpada de o fazer (perda da alma, mas possibilidade real de no futuro o próprio sistema os devorar pela réplica dos crimes por si perpetrados), o dilema do perdão (nunca fácil e imediato) e da cobardia, a humanidade no resgate à família do interrogador ao serviço da tirania e, esta, a humanidade que não se perde quando se salva e protege uma mulher grávida e a criança (sem olhar a parentela; mais uma vez, um carrasco que é, simultaneamente, “um pai exemplar” e que quase se vai abaixo por atropelar um cão), como chave da verdade como libertação – sob a máscara da defesa do regime e sua ideologia, o “ganhar a vida”, mesmo que a torturar os mais frágeis, o verdadeiro leit-motiv do alistamento, assume, finalmente o agente que assestou as sevícias – para os humilhados (Vahid havia duvidado da própria memória).
O humor negro dos agentes de segurança que não querem já a nota como “gasolina”, antes exibindo o mais tecnologicamente avançado terminal de multibanco – “isto não é muito?”, “poupar não adianta nada…” –, a corrupção não se perde, transmuta-se, e o improvável local improvisado como fotogénico espaço para as molduras de casamento, os diálogos non sense – num filme que é, também, “um uivo cómico na escuridão”, “entre uma teatralidade contida e um realismo com nuances quase documentais”, Manohla Dargis - e os múltiplos registos presentes num grupo (onde não por acaso e para nos dar uma panorâmica geral de um terror que atinge muitos naquela sociedade sob a capa da normalidade, um livreiro, uma fotógrafa de casamentos, o casal fotografado, um habitante de Teerão…) – no qual as mulheres não usam hijab - que ecoa que fracturas sociais no Irão (onde o filme foi rodado, clandestinamente) dão a ver a vida sob o regime teocrático através de uma sugestão psicologicamente impactante, onde os sentidos, e a audição em especial no último acto (“uma cena para a história do cinema político”, no dizer de Elisa McCausland), um “ranger rítmico e sinistro”, uma vez mais nos dizem que do inferno (das câmaras de tortura) nunca se regressa (“a Panahi basta-lhe o som frio e metálico de uma perna para cravar a sua metáfora sobre uma sociedade incapaz de sair do seu tortuoso poço”, Elsa Fernández-Santos) – apesar de, com esta película, Panahi dizer que que aqueles que por lá passaram não estão sozinhos.
P.S.:
Há muito que não se via o Pequeno Auditório do Teatro
de Vila Real com tanta gente, como na passada sexta-feira, a assistir a
um filme, como neste “Um simples
acidente” (quando de “acidente” o nele narrado, sistemático no quotidiano
de Teerão, nada tem; um título esquivo e irónico, à vez), de Jafar Panahi, realizador que durante 15
anos esteve impedido de sair do Irão, em Novembro passou por Lisboa e que com
esta obra filmada em 25 dias, com poucos meios técnicos, deslumbrou Martin Scorsese, inspirado nas suas
próprias experiências de preso político e de outros presos políticos iranianos
(a sociedade, mais corajosa desde as revoltas de 2022, inspira autores como
Panahi, e estes, por sua vez, inspiram a sociedade, refere o cineasta a Vasco Câmara), e que profundo e pesado
silêncio a conclui-lo.
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