O CONSENSO PÓS-NEOLIBERAL
O NOVO CONSENSO
“O consenso pós-neoliberal está aqui, mas não o procure nas políticas económicas do presidente dos EUA, Donald Trump.
Após uma década de reacções adversas é hora de aceitar que o neoliberalismo está morto, mas também que um novo consenso está a tomar o seu lugar. Importa sublinhar que segmentos significativos da esquerda e da direita nos EUA estão de acordo no que diz respeito às linhas gerais de política económica. As discussões nas universidades e think tanks são hoje estimuladas por um consenso que se afasta de modo substancial da ortodoxia neoliberal dos últimos 50 anos.
O primeiro elemento do novo consenso é o reconhecimento de que a concentração do poder económico se tornou excessiva. (…). Alguns reclamam diretamente da desigualdade de rendimentos e de riqueza e dos seus efeitos corrosivos na política. Outros, preocupam-se com o poder de mercado e as implicações adversas para a concorrência. Para outros ainda, o problema principal é a financeirização e a distorção das prioridades económicas e sociais que ela produz.
As soluções oferecidas também variam, desde os impostos sobre a riqueza até à vigorosa aplicação de leis “antitrust”, passando pela reforma do financiamento de campanhas eleitorais. Contudo, o desejo de conter o poder económico e político das elites corporativas, financeiras e tecnológicas é generalizado (…). O segundo elemento do novo consenso é a importância de restaurar a dignidade das pessoas e regiões que o neoliberalismo deixou para trás. Empregos de qualidade são essenciais para essa agenda. Os empregos não são só um meio de proporcionar rendimento. Eles são também uma fonte de identidade e reconhecimento social. Empregos de qualidade são que sustenta uma classe média robusta, que é a base da coesão social e de uma democracia sustentável.
A deslocalização é inevitável num mundo de transformações económicas. Até à década de 1990, muitas salvaguardas – protecções de emprego, restrições comerciais, controlos de preços e regras que mantinham as finanças sob controlo – limitavam o impacto sobre trabalhadores e comunidades. Para os neoliberais, essas salvaguardas eram ineficiências que tinham de ser eliminadas. Eles ignoraram o sofrimento económico e social que a perda resultante das mudanças tecnológicas, da globalização ou da liberalização económica produziria. A terceira componente do consenso emergente reside no facto de o governo ter um papel activo a cumprir na formação da transformação económica necessária. Não se pode confiar que os mercados, por si só, produzam resiliência económica, segurança nacional, inovação para tecnologias avançadas, energia limpa ou bons empregos em regiões em dificuldades. O governo deve estimular, pressionar e subsidiar. A política industrial passou de um recanto pouco respeitável do debate económico para o seu centro. Juntos, estes três princípios trazem uma nova compreensão dos objectivos e instrumentos da política económica que é ao mesmo tempo inovadora e, no geral, louvável. (…)
A força de trabalho industrial teve um papel histórico fundamental na produção de sociedades justas e de classe média. Mas a automação e outras forças tecnológicas transformaram a indústria manufactureira nem sector que elimina empregos. Até mesmo a China tem vindo a perder milhões de empregos na indústria manufactureira nos últimos anos. Portanto, mesmo que o investimento e a produção industrial sejam revitalizados nos EUA e na Europa, é provável que o impacto sobre o emprego seja mínimo.
Quer queiramos quer não, o futuro do emprego está nos serviços – cuidados de saúde, retalho, hotelaria, logística, economia dos biscates, etc. Qualquer abordagem para bons empregos que não se foque em inovações organizacionais e tecnológicas nesses serviços será necessariamente decepcionante.
É claro que existem outras razões importantes para apoiar a indústria. A indústria avançada, juntamente com a economia digital, tem um papel importante na inovação e na segurança nacional. (…)
Os princípios pós-neoliberais da política económica dão-nos uma ampla checklist para avaliar as agendas reais – e a de Trump fracassa com louvor. (…). Dificilmente um modelo de capitalismo de Estado clientelista que tenta ressuscitar uma economia industrial há muito morta é um antídoto para o neoliberalismo. (…) A boa notícia é que os futuros decisores políticos não terão de procurar muito por novos princípios orientadores. O novo consenso já está aqui.”
Dani Rodrik, Professor de Economia Política Internacional na Harvard Kennedy School, “Jornal de Negócios”, 12-01-2026, p.27.
P.S: Do eterno “nobelizável”, livro muito importante no debate político-económico da última década e meia foi “O paradoxo da globalização”, sobre o qual aqui escrevi: https://desinflacionar.blogspot.com/.../dani-rodrik-por...
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