OBSESSÕES E OUTROS ERROS


1.Aponta-se, comummente, o facto de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, encerrarem com a palavra “inveja”, e visto o poema ter “a reputação de ser sobre Portugal”, para se deduzir aquela como a “característica mais portuguesa do país”. Essa observação, porém, como nota Miguel Tamen (“Erro Extremo – III”, Tinta da China, 2025), não pode deixar de confrontar-se com o facto de “Os Maias”, de Eça de Queiroz, acabar com “subia”, “Menina e Moça”, de Bernardim Ribeiro, terminar com “LAUS DEO”, ou “A Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Dinis, finar com “A Morgadinha dos Canaviais”. Isto significa que para a inferência assinalada poder proceder ter, desde logo, que i) se conferir “um valor descritivo menor” às obras vindas de mencionar face a “Os Lusíadas”, ii) em qualquer dos casos, contudo, medida a “fiabilidade” da aferição do “carácter nacional” pelo derradeiro dos vocábulos apostos neste(s) escrito(s). E esse é, efectivamente, um problema dificilmente superável se iii) atentarmos no contexto em que “inveja” se inscreve nos 12 versos finais nos quais se enxerta em ’Os Lusíadas: “nessa frase não se declara que em Portugal haja níveis substanciais de inveja, ou qualquer outra coisa portuguesa (…) Camões está a dizer que quem lhe der a bolsa não terá inveja de ninguém” (sublinha o Catedrático de Teoria da Literatura, da Universidade de Lisboa).

2. Em “A obsessão da Portugalidade” (Quetzal, 2017), Onésimo Teotónio Almeida em se detendo em “Portugal, o medo de existir” (Relógio d’Água, 2007), de José Gil, retoma a questão de saber se o medo (de existir) é, propriamente, um legado do salazarismo (como lê em Gil), ou se, ao invés, como sugere, é este que responde a um medo prévio, muito incrustado no nosso devir, de acordo com olhares, de estrangeiros, vindos a Portugal, sobre o nosso modo de habitar o mundo, descrito há já alguns séculos.
Para Onésimo, é clara a razão de Eduardo Lourenço quando este refere que o problema português não é de identidade (nacional), mas de hiper-identidade, o que se constata pela produção ensaística exacerbada com o título Portugal, dos mais variados autores, provenientes das mais variadas áreas do conhecimento - que durante anos não terão dialogado entre si, nem encontrado uma linguagem comum -, contendo sucessivos diagnósticos e soluções para o país. A identidade (de um país) pode ser um tópico difícil de situar ou delimitar, de circunscrever, mas existe; todavia, não deve ser lida em chave essencialista (fundamentalista), como um conjunto de características de natureza imutável, indiferente às circunstâncias, determinista (e quiçá de índole metafísica). 
Entre a prodigiosa imaginação, ou a especulação não suficientemente densificada, sem olhar aos conhecimentos das ciências sociais, ou o positivismo triunfalista de alguns dos cultores destas (últimas), in medio virtus. Entre a benigna tradição e costumes muito nossos (Camilo) e a crítica ácida (Eça), assim caminhámos ainda por finais do séc.XX.
 
3.Não perdi as duas interessantíssimas séries sobre as presidenciais de 1986, em Portugal, que o Observador – em podcast com guião de Miguel Carrapatoso, narração de Gonçalo Waddington e música de Samuel Úria -, em “A eleição mais louca de sempre”, e a RTPguião e realização de Ivan Nunes e Paulo Pena, narração de Beatriz Batarda, música de Lourenço Alarcão -, em “A duas voltas”, levaram a cabo e, mais, com o precioso recurso que hoje é a “RTP Arquivos” pude assistir aos debates na íntegra realizados há 40 anos. Ora, no frente-a-frente, de 1h45, com possibilidade de exposição de argumentos, sem interrupções, durante cinco ou mais consecutivos minutos, em que Karl Popper ou Raymond Aron são citados e as encíclicas papais conhecidas e as consequências políticas da fé dilucidadas, com Maria de Lurdes Pintasilgo, em Janeiro de 1986, Diogo Freitas do Amaral dirá, antecedendo em 10 anos a “paixão pela Educação” que seria um dos lemas da eleição para as legislativas de 1995 de António Guterres (com a fundamental aposta no pré-escolar com efeitos a longo prazo) que “na base de tudo, há um problema de educação. (…) Eu quero sublinhar a prioridade que temos de dar à educação, porque na origem de cada problema português está a educação: na origem do problema do desenvolvimento económico, está um problema de educação; no problema das injustiças sociais, está um problema de educação; no problema dos acidentes de automóvel ou das faltas de higiene pública está um problema de educação; na origem das abstenções nos actos eleitorais está um problema de educação”. Ora, não curando aqui dos controvertidos debates sobre a relação entre educação e crescimento económico suscitados, no nosso espaço público, por Vasco Pulido Valente no início deste século (remetendo a Sérgio o início de postulados de um desenvolvimento como consequência necessária de mais educação), e para regressar a Miguel Tamen, quanto à educação enquanto instrução pública ou regulada publicamente, não raramente se escutam vozes - de alunos, famílias, cidadãos – que não compreendem a “utilidade” do currículo escolar (“perguntam quando foi a última vez que fizeram uma conta de dividir, isolaram um complemento indireto, ou se lembram da capital do Paraguai”). Por “utilidade”, entenda-se, neste âmbito, a suposta medida em que a escola adestra – devia adestrar absolutamente - para uma profissão. Acontece que o mundo pula e avança, profissões há que desaparecem, outras que emergem – assim, “se a educação consistisse em preparar-nos para ganhar a vida de uma certa maneira, sempre que se passasse a ganhar a vida de outra maneira seria precisa outra educação”. A coincidência, pois, entre o que se aprende na escola e o que se vem a realizar profissional nem sempre é, naturalmente, absoluta. Mas mais: “a utopia virilde uma escola orientada “para a vida”, e esta subsumida na profissão, ignora outras dimensões da existência para além do trabalho. Ademais, a nossa vida “tende a variar” e por isso não é possível adivinhar o que deveríamos saber exatamente para a profissão, ou profissões, que vamos assumir: “o único argumento prático destas queixas é um argumento a favor do trabalho infantil. Já que não é possível decidir o que é preciso aprender para uma profissão que ainda não temos, mais vale eliminar as agonias e começar a trabalhar aos oito anos”.
Regressando a um argumento que, juntamente com António M. Feijó, sistematizara e desenvolvera em “A Universidade como deve ser” (FFMS, 2017), a saber, o objectivo do ensino superior é o contentamento intelectual e, paradoxalmente, não sem a autoridade das taxas de empregabilidade do curso de Estudos Gerais em que se empenharam face aos cépticos, Miguel Tamen conclui que a educação não só não tem utilidade prática (porque não pode ter dado o mundo, e nós próprios, vivermos em constante mudança), como não a deve ter: “não há vergonha nenhuma em ganhar a vida, mas também não há razão para nervosismos por não estarmos sempre a fazê-lo. Existem boas justificações para não resumir a educação à preparação para a vida: afinal, a Queda do Império Romano do Oriente ou o Teorema dos Valores Intermédios são coisas muito interessantes”.
 
Boa semana.
Pedro Miranda




[no reparo do dia, da universidadefm, de 19-01-2026]


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