“Toda
a política é, inexoravelmente, internacional, mesmo que o paroquialismo de
muitos líderes políticos continue a imperar”
(Bernardo
Pires de Lima)
1.A
quando do mais recente alargamento da NATO,
com Suécia e Finlândia a passarem a integrar aquela Organização, o posicionamento da Rússia, sem sobressalto algum, foi
o de desvalorizar aquelas adesões, apesar de as mesmas acarretarem mais uns
milhares de quilómetros de fronteiras da Federação
Russa com tal entidade. Ora, tal desvalorização pode ser lida, como Bernardo Pires de Lima a lê (“O ano
zero da nova Europa”, Tinta da China,
2024), enquanto evidência de que a Rússia, em realidade, não toma a NATO como uma ameaça – ou, mais
rigorosamente, que a Federação Russa
não interpreta a Organização do Tratado
do Atlântico Norte enquanto risco para a sua segurança interna, nem se
auto-compreendeu como sendo um alvo militar, em registo ofensivo (pró-activo, e não reactivo), por parte da NATO.
Diversamente, porém, se por ameaça se entender o risco, para o regime autocrata
russo, de um conjunto de Estados, aderentes à NATO e, em alguns casos, por essa via e de adesão à UE, democráticos,
pluralistas, bordejarem o seu
território e, pelo seu bom funcionamento (económico-social,
nomeadamente), poderem suscitar algum desejo de réplica (democrática) no interior da Rússia, então, por esse prisma sim, um ameaço poderá pairar no ar (“Putin sabe perfeitamente que a NATO nunca foi uma ameaça, nem será.
Outra coisa, essa, sim, temida, é a consequência indireta dos alargamentos da NATO, normalmente em paralelo com os da União Europeia: a criação de uma ampla
geografia de democracias pluralistas
e de sucesso que projetem a falência do modelo político, económico e social que
Putin idealizou para a Rússia. É isto que o ameaça e a toda a cleptocracia em
si montada”). Ora, ter presente este pressuposto, subscrito também, por
exemplo, por uma autora como Anne
Applebaum, revela-se de particular relevância se quisermos compreender
algum conflito de interpretações
quanto ao papel – meramente formal e instrumental, dentro desta perspectiva;
sendo que Applebaum foi das não muito numerosas autoras a garantir que Putin invadiria, mesmo, a Ucrânia,
enquanto uma grande parte dos observadores
mantinham a recusa de tal possibilidade a um dia de ela suceder [leia-se João Vale de Almeida, no muito recente “O
divórcio das nações” (D.Quixote,
2025), o reconhecimento de que grande parte da diplomacia europeia e ocidental,
sendo as excepções EUA e Reino Unido (em virtude do apuro conseguido pelos seus
serviços de inteligência), estava
convencida de que Putin não invadiria a Ucrânia] em Fevereiro de 2022 – do
alargamento da NATO, e da promessa
feita, por representantes ocidentais, há décadas, aos dirigentes russos
(nomeadamente, a Boris Ieltsin), de
que tal, a Leste e confinando consigo, não sucederia - na decisão russa de
avançar, em 2022, para a agressão à Ucrânia (confronte-se, por exemplo, a
importância que neste ensaio não é dada, quanto ao sentido material de ameaça, a esse suceder, com as leituras, de sinal
inverso, de um importante e tantas vezes arguto e perspicaz intérprete do nosso
mundo como Viriato Soromenho-Marques – cf.
https://www.rtp.pt/play/p10324/e784210/grande-entrevista).
Doutra sorte, a ideia de que pelo bom andamento de sociedades contíguas à
russa, nesta poderia surgir um movimento democrático suficientemente
consistente, de tal modo abalasse o regime
putinista, releva de uma aspiração democrática
que, a encontrar legião, contrariaria, por sua vez, como se compreenderá, a
perspectiva de que o apoio a um regime demoliberal
em tais paragens não encontraria respaldo (por o homem russo requerer um autocrata
unificador à sua frente; como compaginar isso com o medo de Putin com alvitres
democráticos que a vizinhança inspiraria (?), eis o ponto; cf. com a noção de
que nenhum político irá longe na Rússia promovendo e prometendo uma democracia liberal, como vimos em José Pedro Teixeira Fernandes, em O fim da paz perpétua, Zigurate, 2024).
2.Na
revisitação do empreendimento de Prigozhin
rumo a Moscovo, antes que a bruma da memória apague o episódio, Bernardo Pires
de Lima esclarece-o para, nele, dar a ver a força motriz determinante que é o aparelho de segurança no regime, e
respectiva relação de forças, de Putin: o líder do grupo Wagner, observando o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, “seu rival na
guerra e na proximidade a Putin, exigir que os mercenários passassem para a sua
tutela, esvaziando a esfera de poder e o meio de ascensão de Prigozhin (…) arriscou tudo: renegou a ordem, amotinou-se
contra as chefias oficiais e disputou as opções de Putin, na tentativa de o
forçar a mudanças em seu benefício”. Este acto de Prigozhin não há-de
compreender-se correctamente, pois, como se vem de dizer, sem o tomar à luz das
origens sociais e biográficas daquele, bem como do funcionamento interno do putinismo que, assim, se mostrava
afectado pelas dinâmicas geradas pela incursão – inicialmente, com cerca 150
mil homens que a Rússia acreditava derrotarem facilmente 250 mil soldados
ucranianos - na Ucrânia: “Yevgeny
Prigozhin não era um filho do aparelho de segurança russo, estrutural à longa
história de poder autoritário do putinismo e sua base identitária de duas décadas.
Prigozhin não fez carreira nem esteve nos serviços secretos, não pertencia a
nenhuma linhagem das elites económicas, políticas e securitárias que emergiram
com a bênção de Putin, nem tinha origem nos poderosos clãs que compõem a
alargada nomenclatura leal ao presidente russo. Prigozhin era, acima de tudo,
um sobrevivente. Sobrevivente de origem social, sobrevivente do crime e do
cárcere, sobrevivente dos negócios e das aproximações à intimidade do poder.
Até perceber que, na Rússia, é o aparelho de segurança que define quem sobe e
quem desce, quem manda e quem obedece, quem fica na história e quem lhe passa
ao lado, quem morre e quem vive e, no topo de tudo isto, quem se senta no
Kremlin e lá permanece”.
Se
o inusitado avanço rumo à capital da Rússia pelo líder do grupo Wagner e seus sequazes expôs um “caos nunca visto no aparelho de segurança
de Putin”, por outro lado não só “não
existiu nenhum vazio de poder, nem sinais de rebelião nas Forças Armadas ou nos serviços
secretos” russos, como o homem-forte
russo aproveitou o caótico para se afirmar como garante da ordem e da segurança no
seio daquela que é, não o esqueçamos quando o disruptivo se propõe ali avançar,
uma potência nuclear. Nunca prendendo
formalmente Prigozhin, o regime de Putin aproveitar-se-ia dele e da sua cúpula,
ainda, durante algum tempo, em missões nas quais lealdades por aqueles construídas se manifestavam úteis. Até que,
expiradas aquelas, um conveniente acidente de avião lhes colocou termo à vida. Há,
de resto, toda uma “fragilidade
sistémica” num “regime persecutório, paranoico, incompatível com a crítica e a
dissidência, [que] só usa a eliminação selectiva porque é fraco, só usa o medo
porque está derrotado, e não porque toma por garantido o seu poder de atracção”
que pôs fim, igualmente, à existência de Alexei
Navalny – sendo de registar que a Fundação
com o nome deste principal opositor de Putin listou 6 mil indivíduos como integrando a oligarquia putinista.
3.Para
Putin reconsiderar os planos de recolonização da Ucrânia seria necessário, e em
simultâneo, i) congelar as importações
energéticas à Rússia (petróleo e gás); ii)
reforçar as capacidades militares ucranianas, antiaéreas e antitanques;
iii) encontrar um desbloqueador
político (mediador com capacidade para influenciar/travar Putin). Sem o
concurso de tais factores, depois de uma consciência política culpada enquanto membro do KGB incapaz de travar o colapso da URSS, bem como do falhanço do assalto a Kiev ao fim de muitos
dias e muitas perdas humanas e materiais, um recuo/dupla humilhação de Putin, potência nuclear incapaz de dobrar um
exército convencional, afigura-se improvável e, sem aquele passo atrás de Putin, a possibilidade de
uma “derrota estrondosa da Ucrânia”
é real, o que “legitimará o uso da força
na visão imperial da Rússia e ninguém pode dizer, em rigor, que ela se ficará
por aí” – se Soromenho-Marques
entende um avanço russo sobre o Velho
Continente como mirífico face à
fragilidade russa (Peter Sloterdijk
diria, recentemente, que com cerca de quatro
vezes mais população e dez vezes mais economia do que as russas, há uma
certa histeria europeia face ao poderio de Moscovo, sem obliterar a sua força
nuclear, ali presente [vide
entrevista a ElMundo, 28-01-2026], se
José Pedro Teixeira Fernandes elenca fontes relevantes que impugnam a
capacidade das Forças Armadas russas,
Bernardo Pires de Lima, sem deixar, como notámos, de considerar as debilidades
russas, milita entre os que julgam verosímil o avançar para lá da Ucrânia, em
caso de vitória na guerra de agressão
que promoveu, por parte de Putin (ainda que sem adiantar qual o raio de acção
máximo que lhe pareceria ser capaz o Exército russo – e isto quando lemos mais
recentes referências da inteligência
britânica considerarem uma guerra lançada por Moscovo, à escala europeia,
nos próximos cinco anos, com especial probabilidade em 2027). Nas interrogações
do especialista de Relações Internacionais, “quem nos garante que, com 20% do território
ucraniano anexado, sob os auspícios dos apaziguadores europeus, Putin não sinta
novamente aquele inesgotável impulso colonial e procure mais 25% da Ucrânia, ou
100% da Moldova, ou o que resta da Geórgia, ou faça constar que vai defender a
minoria russófona que vive na Lituânia ou na Estónia, aproveitando a dinâmica e
a proximidade logística do enclave de Kaliningrado? Quem, no seu juízo
perfeito, pode confiar nas melhores intenções de um regime destes?”. Mesmo
um acordo atinente à situação no Donbass, sublinha Bernardo Pires de Lima, num
processo negocial, não poderá deixar de ser olhado com grande cuidado tendo,
por exemplo, como comparação o modelo federal
da Bósnia-Herzegovina, o qual se
revela de grande fragilidade, com uma instabilidade permanente a perpassar
aquele território. E a adesão à NATO,
no limite do contra-intuitivo, conhece o precedente da vinculação da Alemanha Federal com ocupação
territorial russa (em 1955), podendo, ultima
ratio, ser a forma de “garantia de
dissuasão (…) a única resposta
eficaz ao desejo de Putin por alterações de fronteiras”.
Em
“O ano zero da Nova Europa”, publicado em 2024, Bernardo Pires de Lima,
Investigador do Instituto Português de
Relações Internacionais e hoje Conselheiro e Speechwriter do Presidente do Conselho
Europeu, colocava, já, a hipótese de Putin ficar dependente das ajudas de
uma “futura administração americana”
[com a vitória de Trump, que veio a
verificar-se posteriormente à data de publicação deste livro] e que “nada será mais humilhante do que ficar a
dever um favor a Washington” (sendo certo que as intrincadas relações, e
comando, no circuito Putin-Trump deixam imensas interrogações sobre quem serve
quem).
Os
rendimentos dos ativos russos
congelados pelos europeus poderiam ser taxados e a (respectiva) receita fiscal
alocada à reconstrução ucraniana, almejava Pires de Lima, para quem a oferta
territorial, aparentemente circunscrita na Ucrânia, não travaria as ambições
expansionistas de Putin, nem a sua firma, como se viu pelos acordos de
Budapeste (que subscreveu), suficiente para crer na determinação em cumpri-los.
Os
aliados da NATO possuem um PIB agregado que é quase 30 vezes o PIB russo; a tecnologia e a dissuasão
nuclear ao dispor de tal Aliança
muito superiores aqueles a que os russos acedem.
4.À
data da publicação do ensaio de Pires de Lima, o autor contestava os
considerandos que assinala(va)m um (pretenso) fim da ordem liberal internacional. A democracia
liberal, como as candidaturas à pertença à UE não cessam de ilustrar,
continua a ser atractiva para muitos países que a este regime, modelo económico-social, geografia, cultura se querem
juntar, o mesmo não sucedendo com eventuais pertenças a espaços e regimes de
natureza autoritária. Dito isto,
Pires de Lima não deixa de ver como problemáticas as democracias iliberais que minam por dentro a União Europeia; o afastamento Europa-EUA num quadro estratégico da
nova Administração norte-americana que consagra essa brecha; uma relação com a
China em que não haja regras de reciprocidade económica e justiça
concorrencial; as possíveis vitórias em futuras legislativas na Alemanha e
França de AfD e RN, respectivamente; o eventual não conseguir captar o interesse da
Índia para equilibrar um espaço que tem sido ocupado pela China - entretanto,
importantes avanços houve neste domínio para a UE; a perda de paciência e a
pressa de países europeus em terminar com a guerra a que preço for (José Pedro
Teixeira Fernandes lembra “a paz que
acabou com a paz”, nomeadamente em Versalhes…), em conjunto com uma
Administração norte-americana que fizesse o jogo russo quanto à Ucrânia poderia
levar à consagração da violência (como, aliás, se tem verificado), sem
justificação legal ou moral, como legítima e o atirar da resistência dessa ordem internacional liberal para níveis de
erosão e desgaste difíceis de reverter…Daí que o apoio europeu à decisão da
Ucrânia – a Europa já suplanta os EUA no conjunto do apoio financeiro – se
revele, no entender deste autor, crucial.
5.Os
prováveis alargamentos futuros da União Europeia farão com que, entre
outras consequências, Portugal deva
ver diminuída a sua fatia no quadro
Orçamental da UE, o que torna de
redobrada urgência uma boa aplicação do PRR. Por outro lado, uma UE com 36
estados – caso todos os aspirantes conseguissem cumprir as regras para a adesão
– “aumentaria o mercado interno de 447
milhões para 513 milhões de pessoas [num planeta que, num século, passou de
1,2 mil milhões para 8 mil milhões de pessoas], abriria novas oportunidades de
investimento e reduziria barreiras à mobilidade laboral, o que permitiria
recrutar trabalhadores indispensáveis à
nossa demografia e a muitos sectores da nossa economia (…) O novo
alargamento acrescentaria valor agregado à UE na competição global por matérias-primas essenciais à transição energética
e tecnológica, no fecho de um arco geográfico de segurança comum, integrando
novos mercados com infra-estruturas
imprescindíveis e acessos a rotas comerciais (…) A Ucrânia passaria a ser o
maior destino da Política Agrícola Comum
(PAC), com 25% das áreas produtivas da UE, ultrapassando a França e a sua
preponderância, que passaria à segunda posição, com menos 11 milhões de
hectares. A dimensão do sector agrícola ucraniano daria outra autonomia estratégica alimentar à UE e outra escala conjunta ao diálogo
com o Norte de África e o Médio Oriente, nomeadamente no domínio do
fornecimento de cereais e da segurança alimentar”.
Num
mundo no qual é determinante mapear “a complexidade
das dinâmicas em curso (alterações
climáticas, matérias-primas
essenciais, alinhamentos políticos,
migrações, rotas comerciais, urbanização
galopante, etc.)”, Portugal, destaca Bernardo Pires de Lima, deve aumentar
consideravelmente a dotação para o seu Ministério
dos Negócios Estrangeiros: “os diplomatas são vitais à projecção dos nossos
interesses e à qualidade das nossas negociações, quando metade do nosso PIB é
gerado pelas exportações, fruto da internacionalização das nossas empresas, e quando a nossa diáspora representa um
ativo cada vez mais relevante na afirmação sectorial nalgumas das sociedades
mais competitivas do mundo”. Note-se, neste contexto ainda, que 25% das ligações mundiais atravessam áreas
marinhas sob actual ou futura jurisdição portuguesa.
São
“trunfos” portugueses, neste
instante da história mundial, “a nossa
posição geopolítica”, “a
credibilidade da nossa acção externa junto de terceiros”, a “economia azul” ou o “consenso sobre finanças públicas”
existente no país. Ademais, Portugal pode criar valor acrescentado para o
interesse colectivo europeu nos âmbitos da aeronáutica,
investigação espacial, softwares
de informação, indústria têxtil do
fardamento.
6.Os
seis domínios que a UE identificou
como neles dependendo do exterior são: matérias-primas,
baterias, princípios farmacêuticos ativos, hidrogénio, semicondutores,
tecnologias de computação em nuvem
periférica. A UE produzia 44% dos
semicondutores em 1990, enquanto hoje produz apenas 9% (e importa, sobretudo,
da China e do Vietname; a China que, de resto, é tomada, em simultâneo, como “rival sistémico, concorrente económico e
parceiro comercial”). Para ter autonomia económica, a UE, nos próximos 30
anos, vai precisar de 12 vezes mais lítio
e 7 vezes mais terras raras (do que aqueles que actualmente possui ou tem
acesso; um estudo de há dois anos da Comissão Europeia refere a carência
de 18 vezes mais lítio e 5 vezes mais cobalto
no horizonte de 2030 e num quadro de competição acentuada entre grandes
economias extractivas). Daí, também, falar-se tanto de reindustrialização, numa União
Europeia que representa 8% das
emissões de gases com efeito estufa,
tendo cerca de 9% da população mundial.
Malgrado
o modelo de globalização estar sob
pressão e existirem preocupações com a qualidade
do crescimento económico e do emprego, o ensaísta concebe as democracias como estando assentes em um “livre
comércio regulado” (como delas, portanto, fazendo parte) e, neste contexto, o proteccionismo económico, a que Trump
deu enorme impulso nos seus mandatos, poderia voltar a fazer perigar os regimes democráticos, nestes termos: “foi,
aliás, um círculo vicioso de retaliação
mútua através da imposição de novas barreiras alfandegárias que prolongou a Grande Depressão, com os efeitos
políticos e militares que se seguiram na Europa, o que levou também os EUA a
liderar um esforço anti-cíclico que
desenhasse um novo sistema de comércio mundial no pós-guerra, acomodando um
período histórico de crescimento económico”. Paradoxalmente, Pires de Lima
reconhece que a integração das economias,
o livre-comércio e até o quadruplicar
do PIB dos países mais expostos ao
comércio global não impediu a emergência de duas guerras mundiais. E sustenta,
aliás, a necessidade de alteração das regras orçamentais europeias para o investimento
púbico poder funcionar como um mecanismo de correcção “sempre que a
situação social e económica o imponha”, bem como “a existência de um
orçamento na zona euro para efeitos de
estabilização financeira em momentos de crise
ou choque sistémico, o que seria encarado
como um reforço do efeito atrativo para outros estados-membros adoptarem a moeda única, fazendo dela um
importante elemento da autonomia estratégica europeia” (quanto ao modelo
norte-americano, “oferece um nível alarmante
de desigualdades sociais, desprotecções básicas e uma distopia política de tal
maneira absurda que normalizou uma tentativa de golpe de Estado, encarado como
acto legítimo por dezenas de milhões de eleitores”).
7.Com
a guerra da Ucrânia, e o prévio encontro a ela entre Xi Jinping e Vladimir Putin
(são já mais de 40 encontros bilaterais entre estes homens-fortes), fez notar a assimetria de posições que Rússia e
China hoje apresentam: em 1989, o PIB russo era o dobro do chinês; hoje, a
economia chinesa é 10 vezes maior do que a russa (a qual apresenta PIB equivalente a metade do da Califórnia).
A Rússia, encontra-se, com efeito, muito longe dos níveis de concentração
tecnológica, Inteligência Artificial, computação quântica, energias renováveis a que a China se alcandorou.
Esta,
última, porém, não pode deixar de ver assinaladas contradições que parecem
insanáveis como a relação próxima que tinha com a Ucrânia, o não reconhecimento
da Crimeia em nome do princípio da integridade territorial
que lhe é muito caro e a chancela da invasão russa da Ucrânia. Os chineses munem-se
de uma ambiguidade diplomática que
lhes permita não ficarem reféns do comportamento russo, tendo uma política da
qual fazem parte, por exemplo, o empréstimo de 240 mil milhões de euros a
22 países nos últimos 15 anos, 80% dos quais nos últimos cinco (e num
contexto no qual o aquecimento global tem provocado uma crise alimentar
profunda no agora chamado “Sul global”). Um Fórum
NATO-China poderia funcionar como forma de tentar afastar Pequim de
Moscovo, propõe Pires de Lima. Todavia, a banca chinesa enfrenta, igualmente,
uma intensa pressão creditícia “com vulnerabilidade
elevada devido à exposição ao mercado imobiliário, o que espelha os dez anos de
Xi Jinping no poder, um dos legados mais acriticamente avaliados pelo Ocidente”.
O
perito em Relações Internacionais
lamenta que o Ocidente não olhe “com crença substancial” para a população jovem
iraniana – que representa 60% da população daquele país -, a qual poderia
promover mudanças muito importantes nos domínios das liberdades e da igualdade
naquele país (e que enfrenta um muito elevado desemprego e uma inflação
igualmente muito alta). Actualmente, vários inquéritos sugerem que mais de 70% dos iranianos pretendem a
separação do Estado da religião, quando essa cifra há 10 anos era de 31%: a teocracia
iraniana parece perder o seu apelo.
Apesar
de contarem com 40% da população mundial e 25% do PIB, os BRIC não
conseguiram alterações estruturais práticas na ordem internacional.
Pedro
Miranda
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