A CIÊNCIA POLÍTICA NÃO EXPLICA TRUMP: A PERPLEXIDADE DE ADAM PRZEWORSKI

 

A Ciência Política não explica Trump. A perplexidade de Adam Przeworski

Há um desafio epistemológico que deixa o decano de Ciência Política aterrado: e se os instrumentos – as estatísticas, os inquéritos, os questionários, toda a sorte de estudos coligidos durante décadas – a que a sua disciplina se ateve (até ao presente) se mostra(re)m incapazes/insuficientes de/para rastrear o significado derradeiro do que politicamente está em causa num país como os EUA? Estupefacto com o que quotidianamente observa e regista nos seus Diários (Fevereiro-Julho de 2025) acerca da (degradação da) vida política/democrática durante o (segundo) mandato Trump, o autor/cientista duvida mesmo, agora, da teorização (própria) sobre as condições de existência e permanência de uma democracia, teses que elaborou, paciente e diligentemente, ao longo de um robusto trabalho académico. As conclusões extraídas, durante esse processo e labor, partindo de um pensamento indutivo são, actualmente, por si, seriamente interrogadas – e, por consequência, também aquele método de pensar, a aprendizagem indutiva do passado (enquanto válido para todos os casos ou situações). Face ao inaudito, nem a História pode ser mestra. Em “Os diários de Pérez” (Fundación Contexto e Acción, Madrid, 2026), as entradas apostas por Adam Przeworski principiam por terem lugar a cada vinte e quatro horas, mas a estratégia do caos (da Administração norte-americana) derrota as forças vitais do estudioso da coisa pública que, cerca de quatro meses volvidos da primeira anotação, passa a um sublinhado semanal e, seis meses concluídos de estupor diante e durante Trump II, suspende, por completo, a empreitada – dar uns passeios, ler romances, ir ao bar ver o Arsenal na Champions League eis o que, em alguns momentos, lhe permite fintar a dor de constatar todos os padrões de normalidade democrática, e mesmo de civilidade, desmoronarem à sua volta. Nascido em Varsóvia, na Polónia comunista, encontrava-se a viver no Chile quando Pinochet derrubou a democracia. Nunca pensou encerrar o ciclo de vida, agora que completou 86 anos, regressando (à sujeição) a um registo autoritário-repressivo, mas é a imposição de uma ditadura de facto que se apresenta em seu horizonte norte-americano: “Cresci sob uma ditadura, mas nunca imaginei que poderia morrer debaixo de outra. Hoje, contemplo essa possibilidade.

1.Não é difícil compreender a melancolia que atravessa o exímio e convicto praticante de um ofício, consciente de que a sua palavra, os seus papers e livros são amplamente citados e reverenciados (desde logo, no interior do universo académico que integra), quando uma realidade emergente, e amplamente obscura, o faz desconfiar das conclusões a que havia chegado e partilhado com os pares e a polis, maxime as certezas das condições sob as quais a democracia não soçobraria (certezas, as quais, se esvaem, pois, nesta hora de trânsito político norte-americano e mundial): “Passei boa parte da minha vida, cinquenta anos, pensando nos regimes políticos, classificando-os, estudando a sua dinâmica e as suas consequências. E sinto-me perdido. Tento encontrar categorias capazes de descrever a situação actual e precedentes históricos a partir dos quais possa extrair algo com clareza. Fracasso em ambas as empresas. (…) Ao longo dos anos, desenvolvi uma teoria sobre as condições em que as democracias processam em liberdade e paz os conflitos que surgem na sociedade. De facto, o meu nome está associado a uma frase que escrevi há trinta e cinco anos, a saber: «Há democracia quando os partidos perdem as eleições». Pensei que as condições necessárias para que as eleições processem pacificamente os conflitos fossem que os governos eleitos não façam com que a derrota eleitoral seja demasiado custosa para os perdedores em cada momento, o que supõe que esses governos actuarão de forma «moderada», e que não excluam a possibilidade de serem destituídos nas eleições, de maneira que a derrota seja temporária, não permanente. As eleições não conseguem manter a paz quando originam transformações revolucionárias, algo bem confirmado na História (salvo o Governo utilizar a força física, claro)”. Ora, para Adam Przeworski nítida é a configuração revolucionária da Administração Trump – as medidas anunciadas, quanto à relação entre o Estado e a Sociedadesão revolucionárias”; o desmantelamento do Estado, das principais agências governamentais, da Saúde à Educação, a lealdade (política, partidária, pessoal sobretudo) como critério absoluto, e à frente da competência técnica, para a designação de funcionários públicos, o controlo total do aparelho de Estado são revolucionários: “o controlo total do aparato do Estado é, certamente, o instrumento de todos os governos revolucionários” –, sendo que lançar as Forças Armadas contra os próprios cidadãos é algo bem imaginável no contexto do actual governo dos EUA (veja-se a actuação de uma polícia como o ICE), tal como perseguir adversários políticos ou suprimir ou defraudar eleições (sobre fraude eleitoral, recorde-se o assalto ao Capitólio e tudo o que o precedeu – em especial, os telefonemas com vista a convencer responsáveis políticos a “encontrarem” os milhares de votos necessários à sua eleição -, desde a noite das presidenciais de 2020 até esse dia). Nem os mercados têm travado Trump – serão, um dia, as dissensões internas a consegui-lo? (as dissensões têm gerado uma Administração caótica, mas não uma paralisia). Se é certo que os EUA possuem um elevado rendimento per capita e que houve alternância no poder nas vinte e três eleições presidenciais até aqui realizadas (não celebrar eleições não tem precedente histórico nos EUA; elas ocorreram inclusivamente durante a Guerra Civil), isso, parece claro, neste instante, a Przeworski, não determina, com segurança mínima, que este país permaneça democrático: “Há estudos estatísticos que demonstram que as democracias sobrevivem em países com uma renda per capita elevada e nos quais há o costume de alternância pacífica no poder mediante eleições. Quando aplico este modelo estatístico aos EUA, com a sua renda e as suas vinte e três alternâncias partidárias no cargo de presidente, descubro que a probabilidade de que a democracia morra nos Estados Unidos é de uma em 1,8 milhões: quer dizer, zero. Portanto, os meus resultados analíticos e estatísticos não me permitem compreender os acontecimentos que se desencadeiam hora após hora. Não se me ocorre nenhum marco teórico nem precedente histórico que possa servir para suscitar alguma expectativa sobre o que está à beira de acontecer. Está a morrer a democracia nos Estados Unidos?”.
Radicalmente, a pergunta que se oferece ao investigador é se pode prever-se o que nunca ocorreu (se a resposta a esta indagação for negativa não é que as conclusões, a partir do pensamento indutivo, estivessem erradas; é que, este, não permite tirar conclusões para o que é inédito); a correlação dos factores enunciados (no parágrafo anterior) pode, efectivamente, não ser causalidade - e face a novas circunstâncias aquelas condições não produzirem os mesmos resultados e consequências para a democracia (“talvez a nossa análise estatística não tenha em conta todas as combinações possíveis dos factores que determinam os resultados e que a combinação actual destes seja extremamente improvável, quiçá única”). Em conclusão, não temos uma ciência susceptível de gerar previsões políticas válidas, nem, sequer, capaz de atribuir probabilidades às possibilidades: “Como argumentaram King e Zheng, a aprendizagem indutiva do passado funciona quando as condições actuais se assemelham às que se deram várias vezes no pretérito. Mas extrair lições da História só funciona se identificarmos correctamente as condições relevantes e – isto é o que aprendi de algumas análises estatísticas que apresentei anteriormente – as combinações de tais condições. Precisamos de teoria: proposições logicamente interconectadas que digam que «se isto e aquilo, então isto», sendo «isto» último observável. O facto brutal de que nos seja tão difícil prever o que sucederá em nossas circunstâncias actuais é uma prova de que não temos teorias nas quais nos basearmos. A economia baseia-se em «previsões», cuja fiabilidade diminui drasticamente à medida que aumenta o horizonte temporal para o qual são realizadas. A ciência política conta com uma elaborada teoria que prevê os resultados das eleições, mas, pelo menos nos Estados Unidos, só resulta fiável depois do Dia do Trabalho (o 1 de Setembro, quando restam menos de três meses para as eleições)”. Em realidade, Samuel Huntington, em um artigo de 1984, afirmava que a queda do comunismo na Europa do Leste era impossível e Juan Linz escreveu o mesmo em 1989, com o azar de o livro ter saído quando tudo já havia terminado. Assim, “na ausência de uma teoria, só podemos basear-nos em conjecturas, intuições ou suposições”. O futuro (político), uma vez mais o vemos, é um lugar estranho, imprevisível (em perspectiva maximalista, Przeworski parecia admitir que o futuro fosse previsível e que os instrumentos que elaboramos, ou interpretação dos mesmos, é que o não alcançava; quando remete a probabilidades já faz um downgrade das expectativas de “controlo” do futuro).

2.Do que Adam Przeworski desconfia, igualmente, nesta estação, é da capacidade de os célebres checks and balances, os freios e contrapesos serem suficiente barreira à emergência autocrática nos EUA: os ataques aos tribunais e aos juízes (com graves ameaças físicas a estes últimos – neste contexto, veja-se esta recente peça exibida no conhecido programa “60 minutes”, da CBS:  https://www.youtube.com/watch?v=w_B56p1ltyc ), os escritórios de advogados como alvos sucessivos, os órgãos e agentes que podem controlar a corrupção a serem desmantelados e destruídos, a lealdade cega como factor exclusivo de recrutamento (“vi isto na minha juventude, sob o comunismo. Alguns partidários do regime comunista eram comunistas autênticos. Mas a grande maioria era simplesmente oportunista”), o controlo total do aparelho do Estado, o cerco aos media (em especial, e por formas diferentes, Washington Post, CNN, ABC, MSNBC, a própria Wikipédia e, pasme-se, uma revista médica especializada) fazem com que o Professor Emérito da Universidade de Nova Iorque recorde Guillermo D’Onnell: “não se pode deter um golpe de Estado com um artigo da Constituição”. Em páginas que são um exemplar exercício de honestidade intelectual, do que é, em termos de comum caminhar democrático e de particular sensibilidade de análise política, sobre gelo fino, de reconhecimento de ausência de certezas, o investigador pergunta(-se): se não são os checks and balances, se não é a Constituição que limita o poder executivo (quanto a concentrar em si um poder absoluto), porque é que não existem mais autogolpes, porque é que os governos respeitam as normas institucionais?”.

3.A questão de saber, desde o momento zero da sua governação, onde desagua a política Trump – isto é, o estabelecimento de um certeiro diagnóstico sobre a situação da democracia norte-americana - é crucial, não, primacialmente, do ponto de vista do interesse académico, mas para o tipo de reacção cidadã e a tempestividade da mesma: agir nos primeiros instantes da governação desta Administração poderia ser demasiado cedo, e ser percepcionado por uma boa parte do eleitorado, como anti-democrático; passarem meses e meses sem uma reacção enérgica e determinada pode ser tarde de mais. Os dados estatísticos evidenciam que manifestações fortes, com muita gente, tendem a mobilizar mais a seguir (e mais de sete milhões de norte americanos saíram às ruas em protesto contra a existência de “reis” naquele país, recentemente, como que dobrando a presença de norte-americanos na rua, para o mesmo efeito, um ano antes; “que se saiba, nunca houve uma greve geral nos EUA”; o esperançoso que daqui sai é que temos “investigações” que indicam que “nenhum regime autoritário sobreviveu a manifestações nas quais haja participado mais de 3,5% da população”, o que supõe cerca de 10 milhões para o caso norte-americano, o que está longe de ser impossível de verificar-se em breve), enquanto manifestações com relativa pouca gente faz com que, a breve prazo, pouca gente percorra as avenidas (sendo este um tipo possível de reacção à vertigem democrática em curso).

4.Quem prima pela ausência (no combate democrático), nos primeiros seis meses da era Trump II é o Partido Democrata. Em diferentes entradas no seu Diário (o qual nos chega com selecção e prólogo de Ignácio Sanchez Cuenca), Adam Przeworski refere que aos Democratas falta líder, estratégia e programa (para lá de se opor, o Partido Democrata não sabe o que defender, só na esquerda deste ideias e capacidade de mobilizar os mais jovens vão surgindo, e está dividido). Mais: é, por esta altura, um partido “muito impopular” e “nem aparece nas notícias”. Tem, aliás, segundo os estudos de opinião, o apoio mais baixo desde 2007. A imagem de sociedade que geram as políticas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) nunca cativara o cientista político que julga entender “o atrativo do trumpismo para os homens brancos. A visão da sociedade na qual todas as pessoas de origem europeia são opressoras não tem muito sentido. Diga-se isso a um homem branco de cinquenta anos que não encontra trabalho depois do fecho da única fábrica da sua cidade. Vá-se dizer isso a milhões de homens brancos que sobrevivem dia a dia com o salário mínimo. Diz-se-lhes que «eles» são responsáveis da injustiça racial do passado. Quem são «eles»? Os seus avós que emigraram dalguma aldeia europeia abandonada para ir pavimentar as ruas pelas quais agora caminhamos? Os avós que foram assassinados por organizar sindicatos? Os seus descendentes, que tentam desesperadamente escapar ao destino dos seus pais? São «eles» os responsáveis?” (na mesma linha, leia-se Michael Sandel, em A tirania do mérito. Neste ensaio, Sandel destaca, igualmente, como equívoca esse sinalizar de um homem branco que, ademais, nasceria numa cultura em que lhe assacam a responsabilidade de ser o provider e, no entanto, com o desemprego tem que sobreviver por via dos rendimentos da sua companheira, suprema humilhação face a tal quadro mental).
Em todo o caso, o (tipo de) ataque de Trump às políticas DEI, lembra, igualmente, a longa manus do Grande Irmão: “a linguagem de vitupério, o rancor, recordam-me a vida sob o comunismo. Quando vivia na Polónia, o Governo comunista censurava as palavras élite (porque era usada por Milovan Djilas para criticar os partidos comunistas) ou burocracia (porque era usada por Leon Trotsky para se referir aos bolcheviques). Agora, as agências governamentais norte-americanas geraram longas listas de palavras usadas para cancelar projectos de investigação”. A isto junta-se o recurso permanente pelos membros da administração Trump – muitos deles, jornalistas - fazem de termos como «marxista» ou «neomarxista”, atirados aos adversários, sem a menor ideia do significado de tais termos: “obviamente, não fazem a mínima ideia do que «marxista» ou «neomarxista» significa” (nisso, aliás, não se distinguindo das cloacas onde seguidores que, tal como eles, nunca precisaram de ler um livro para utilizar chavões nulos).

5.Sobre a específica situação das universidades norte-americanas, à luz dos cortes gigantescos de financiamento  (736 milhões de dólares retirados só à Universidade de Columbia), levados a cabo pela Administração Trump (bem como a investigação governamental de 60 destas instituições), Adam Przeworski pergunta-se que será dos óptimos lugares em diferentes e prestigiados rankings internacionais, ao longo de uma série de anos, que Harvard, MIT, Stanford, Yale, Princeton ou Berkeley irão ocupar em breve: “pergunto-me quantas universidades estado-unidenses estarão nas 10 primeiras [como hoje acontece com aquelas acabadas de assinalar, a que se juntam CalTech] em 2028”. Mais interessante e relevantemente, que experiências futuras poderão relatar os académicos norte-americanos, como Przeworski, com latinos que lêem muito pouco e falam imenso, e sul-coreanos sempre calados, mas que no momento em que prestam prova evidenciam uma enorme preparação e leitura prévias, aportando muito para lá do tema do momento (além de, estes últimos, esperarem que os mais velhos de entre eles falem em primeiro lugar), parcerias e investigação com antigos alunos de países diversos, projectos em comum, e que consequências para os alunos norte-americanos que beneficiam imenso desta interacção e troca com alunos de países outros nas aulas e no conjunto da vida académica? Que dizer do que significa, hodiernamente, para os EUA, haver líderes políticos de diferentes nacionalidades e continentes que se formaram nas universidades norte-americanas, e o que significará muitos deixarem de ali beberem conhecimento e mundo num futuro próximo, dadas políticas de cortes nas universidades e a fúria anti-imigrantes, por Trump? No plano económico-financeiro, os estudantes estrangeiros, nos EUA, mantêm 378 mil postos de trabalho e aportam 43800 milhões de dólares (à economia norte-americana).

6.Uma das demandas que têm reunido pesquisas de diferentes politólogos passa por tentar a melhor interpretação para a brecha, actualmente manifesta, entre o voto masculino (mais à direita) e o voto feminino (mais à esquerda), em diferentes actos eleitorais e países, nas democracias ocidentais. Ora, uma hipótese levantada por Paola Begallo, professora de Direito em Buenos Aires, é a de que “as mulheres jovens têm melhores oportunidades na vida do que as suas mães, enquanto que os homens jovens não têm melhores oportunidades do que os seus pais”. Dito de outra forma, porque no passado (ainda relativamente recente) as mulheres, não raramente, foram confinadas não apenas ao espaço doméstico, como lhe foram interditas, de jure e de facto, em múltiplos países, certas profissões (algumas das quais, especialmente bem remuneradas e com prestígio social), existe, nesta altura, da parte de mulheres jovens, em diversas geografias, a possibilidade, por comparação com as suas progenitoras, de uma mobilidade social ascendente (sem que o mesmo não suceda, por ausência de os mesmos entraves, outrora, de jovens rapazes face ao seu progenitor). Emoções mais positivas prevalecendo com certo caminho por desbravar, o encarar de um futuro (algum) optimismo, o valorizar de elementos de políticas públicas e intervenção do estado como favoráveis a tal realização pessoal-profissional fará das mulheres jovens propenderem a um voto à esquerda no espectro político (ou mais à esquerda quando comparado com o voto masculino). Sobre esta hipótese explicativa, Adam Przeworski assinala que “à luz dos dados que citei há umas semanas, isto deve ser certo nos Estados Unidos e estou seguro de que o é na maioria dos demais países. A questão é como se traduz esta diferença na brecha de género no voto. Merece a pena investiga-lo”.

7.Jeanine Pirro é a 23ª antiga funcionária da Fox News a integrar a Administração Trump. Isto não é tanto, ou tão só, sobre o conhecido alinhamento da Fox News com o trumpismo (ainda que, delirando, Trump questione, até, as sondagens que lhe são desfavoráveis e que a Fox publica por estes dias), mas, bem mais, com o tipo de habilidades e competências que este busca em seus servidores: “a sua habilidade é pregar a fiéis. A lealdade, por cima da competência é o critério de recrutamento de Trump. Dado que os leais competem pela atenção com Trump, o Governo dá, amiudadamente, a impressão de ser um caos, carente da mínima coordenação. Mas também significa que não deixa pedra por remover. A sua atenção ao detalhe é impressionante. Retiram as permissões Global Entry a pessoas concretas, fazem desaparecer dados climáticos recolhidos durante décadas, actuam contra programas específicos em universidades concretas, censuram livros concretos”.
Segundo o investigador de Ciência Política, não é que uma grande falange de apoio de Trump acompanhe a vida do país através de redes sociais e seja mal-informada; é que, pura e simplesmente, não lê, rejeita notícias. Nem na Truth Social procura qualquer noção do que se passa na cidade.

8.No dia 9 de Maio de 2025, Donald Trump fez uma Proclamação formal, escrita, na qual decretou o dia 11 de Maio como “Dia da Mãe”. O Dia da Mãe é festa nacional, nos EUA, desde 1914. Em realidade, “Trump carece dos mecanismos inibitórios de que todo o político necessita” e, às tantas, o observador inquire se haverá algum tipo de racionalidade no agir político daquele (“procuro ver uma estratégia coerente, mas não consigo”): o seu objectivo é enriquecer pessoalmente? Aniquilar os inimigos? Escutar aplausos? O que ganha com a diminuição da investigação sobre o cancro nos EUA? Se alguns dos anúncios pré-eleitorais de Trump soaram a Przeworski como bluff – que, na hora da governação, não seriam concretizados [aqui se coloca, de novo, a questão da imaginação na hora do voto, da interpretação de quanto vale a palavra vociferada em comícios ou colocada em papel enquanto compromissos futuros; da dúvida sobre o que é do domínio da performance e do que nos remete ao campo do literal, por banda de um político que, jogando com tal ambiguidade, procura levar a sua adiante] -, hoje, constatados os piores receios, da purga nos funcionários públicos (“o objectivo é destruir o Governo, não retocá-lo”), nos cortes espantosos do Instituto Nacional de Saúde, ou na perseguição a imigrantes – dada a dependência de imigrantes de vários sectores da economia americana, ou dos custos e logística de deportações massivas o cientista político pensou que haveria coreografia, mas não consumação de uma política desta natureza -, a reivindicação de “rei”, por Trump, tal o poder absoluto que vem concentrando, deve ser lida ao pé de letra. Przeworski lembra Mussolini quando este afirmou que nem ditador foi porque o seu poder de mandar coincidiu perfeitamente com a vontade de obedecer do povo (e, uma parte substantiva deste, nos EUA, parece, com efeito, querer o seu duce). As esperanças do diarista relativamente à preservação da democracia nos EUA não estão no Congresso ou nos Tribunais, mas nas eleições de meio de mandato (a ocorrerem em Novembro deste ano).

9.Sobre a tremenda situação que vivem os imigrantes nos EUA, Adam Przeworski deixa este testemunho: “conheço uma família que emigrou de um país latino-americano há duas décadas e agora tem filhos nascidos nos Estados Unidos. Todos vivem aterrorizados. Todos os dias, quando o pai vai trabalhar, os seus filhos dão-lhe um forte abraço face ao temor de que não regresse a casa. Nas escolas de Nova Iorque ensina-se o que fazer às crianças se voltarem a casa e os seus pais não estiverem”. 
O projecto orçamental do Executivo Trump propôs-se eliminar todos os programas que facilitavam a integração de imigrantes na sociedade norte-americana: aquisição da língua inglesa, educação para imigrantes e o programa de refugiados e crianças estrangeiras não acompanhadas. Nos EUA existem campos de concentração para imigrantes, geridos por empresas privadas (“Trump está a destinar 45000 milhões de dólares a construir gulags. Isto era mais ou menos todo o Orçamento dos NIH [Institutos de Saúde]. Este mundo não é apenas incerto; é uma loucura”). Imigrantes são, ainda, enviados, pela Administração Trump, a El Salvador, ao Sudão e aos países de origem - mesmo que, nestes últimos, vigorem regimes repressivos que torturem e matem por delito de opinião. Nos meses a que se refere o Diário de Adam Przeworski (o qual imagina o que seria, hoje por hoje, se assumisse o nome que, face às dificuldades em pronunciar o original, os amigos lhe colocaram e que surge no título a este livro, Pérez) o ICE fez mais de três mil detenções por dia, o que, em assim prosseguindo, representaria, ao fim de um ano, mais de 1 milhão de detidos. Um cientista francês foi impedido de entrar nos EUA, porque no seu telemóvel foram encontradas mensagens críticas de Trump.

10.As políticas orçamentais costumam ser o instrumento, por excelência, em que se revela a visão política, e suas principais apostas, de um Governo. O Orçamento proposto pelo governo Trump exibe uma política de pura crueldade para com/contra os pobres: há cortes que “não podem senão afectar o bem-estar da maioria das pessoas (…) Incluem todo o tipo de programas educativos, desde a educação pré-escolar até ao acesso das pessoas com baixos rendimentos ao ensino superior, os programas de estudo e trabalho e a educação de adultos. Quase todos estes programas estavam condicionados ao rendimento, pelo que afectam quase exclusivamente as pessoas de baixos ingressos. Tritura-se o programa de reciclagem, o Job Corps, a ajuda ao emprego para seniores, os auxílios alimentares para maiores de sessenta anos e os almoços escolares. Elimina-se o programa de ajuda aos sem-abrigo. Os agricultores perdem o Programa de Desenvolvimento Rural e os Serviços Agrícolas. O Governo Federal já não protegerá [as pessoas] face aos desastres naturais: a FEMA sofre severos cortes, tal como o programa de Segurança das Infra-estruturas e os Serviços de Refúgio (…) O projecto orçamental corta a despesa destinada aos distritos escolares para crianças de famílias de baixos rendimentos, elimina subvenções para o desenvolvimento pré-escolar, suprime um programa de preparação para a universidade de crianças de famílias de baixos rendimentos e o programa de estudo e trabalho que utilizam as crianças de famílias com baixos ingressos para sobreviverem enquanto estudam. As consequências para o Centro de Doenças e a lunática oposição à vacinação por parte do ministro da Saúde e Serviços Humanos já tornaram o país vulnerável à crescente epidemia de sarampo”. De acordo com Brooke Nichols, Professora Associada de Saúde Mundial da Universidade de Boston, os cortes na ajuda externa, pelos EUA, já provocaram cerca de 300 mil mortes, a maioria das quais de crianças. Do ponto de fiscal, a muito assimétrica descida de impostos para os mais ricos – muito mais beneficiados com a medida -, face ao conjunto da população, é, evidentemente, regressiva do ponto de vista social (embora em linha com o que há décadas se insiste do lado republicano, nos EUA, sem que os resultados económicos a justifiquem, medidas as quais, de resto, levariam Freitas do Amaral, ainda a meio dos anos 90, a afastar qualquer ideia de projecção democrata-cristã em tal lado do espectro político norte-americano). Que tenha havido eleitores cristãos a subscrever um programa desta natureza e magnitude é, de facto, um espanto e uma lástima.
Ademais, os cortes orçamentais, e, com eles, a recomposição da relação Estado/sociedade, são de tal ordem que os precedentes históricos que Adam Przeworski identifica, por comparação, remetem-nos ao Chile e Argentina em governos militares (os quais reduziram a despesa pública em 26% e 21%, respectivamente). Fora isso, apenas a Argentina de Milei, e a Grécia durante o período da troika (e o que dele sobejou), os EUA no imediato pós-II Guerra Mundial fizeram cortes tão draconianos. Para se ter uma ideia, os cortes na despesa social dos governos Thatcher e Reagan, no Reino Unido e Estados Unidos, respectivamente, desde os finais de 70, inícios de 80, foram minúsculos por comparação. O mesmo é dizer: o Orçamento de Trump “é revolucionário” (as mudanças económicas, sociais, culturais promovidas são imensas, nalguns casos com efeitos irreversíveis e, noutros, incluindo no domínio da ciência, e da ciência fundamental em particular, a reversão demoraria anos). Nas décadas anteriores à emergência (política) do actual presidente dos EUA, em diversos artigos académicos, Adam Przeworski, um dos mais eminentes cientistas políticos mundiais, havia escrito que mudanças de tamanha amplitude - que orçamentos como o de Trump introduzem num Estado-nação - “não podem efectuar-se em condições democráticas”.

11.O governo que Jan Werner Muller nota perpassado por uma “corrupção flagrante”, e em que, de resto, a corrupção, no entender de outros observadores, por ser tão descarada, afirmada, assumida desconcerta a oposição, o executivo “anti-pobres”, “anti-ciência” e “anti-minorias” (Przeworski) foi eleito, contudo, por uma percentagem muito significativa de pessoas com rendimentos inferiores a 100 mil dólares anuais (51% vs 47% para Harris; 59% do eleitorado tem rendimentos inferiores a 100 mil dólares por ano; cerca de 45 milhões de eleitores nestas condições votaram Trump; entre eleitores com rendimentos superiores a 100 mil dólares, Harris venceu 51% vs 47%) e, mesmo, abaixo dos 50 mil (50%  frente aos 48% deste grupo de pessoas que votou Harris, de acordo com as sondagens à boca das urnas; 27% dos eleitores possuem rendimentos abaixo dos 50 mil dólares ano; 20,8 milhões de pessoas nestas condições votaram Trump). Nem a eliminação de cupões de alimentos – que afecta 40 milhões de pessoas -, nem 13,6 milhões que ficam de fora do Medicaid pareceram afectar demasiado o voto no actual Presidente, o que pode ser visto, e para Przeworski, um dos proeminentes cientistas políticos e importante pensador da democracia das últimas décadas, assim o é, como refutando a máxima “é a economia, estúpido”. Slogan, o qual, que seria substituído, num tempo em que a política volta a impor-se, a todo o momento, em quase todas as dimensões da vida das pessoas, “é a ideologia, estúpido”.
 
Pedro Miranda
 


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