RELÂMPAGO
Quando a cegueira,
relâmpago de fogo que me incendiou,
me fez olhar a luz
não vi sequer as patas do cavalo,
nem o seu dorso inverso e ameaçante
que eu nunca pressentira,
eu à sua mercê
- e à mercê d'Ele
Abri os braços em fervor recente
de crente convertido,
e nada disse:
agi
Só mais tarde falei
Não sei se pressenti
dos gestos das palavras que no futuro
disse
e como o seu futuro
incendiou cidades e poluiu nascentes,
pisou até à morte
gente que não a minha
Ainda que, por dentro, naquele breve instante de cegueira,
eu sentisse
reconvertida e breve: a confusão
do amor -
Ana Luísa Amaral, in "Ágora", Assírio e Alvim, 2019.
sobre o quadro "A conversão de Paulo", de Caravaggio, 1600-1601.
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