NA CABEÇA DE PUTIN (MICHEL ELTCHANINNOFF)
Michel
Eltchaninnoff, Doutor em Filosofia, especialista na
história do pensamento russo e editor da revista Philosophie Magazine, recenseou, de modo exaustivo e sistemático,
recorrendo a uma extensa investigação junto do círculo próximo de Vladimir
Putin, bem como escutando os melhores observadores da cena política russa, a
que juntou uma minuciosa leitura dos discursos, entrevistas e intervenções
públicas do presidente russo, as diferentes fontes – filosóficas, literárias,
culturais – que permeiam a articulação, tanto quanto possível, de uma doutrina.
Eltchaninnoff procurou, pois, meter-se, compreender, e meter-nos “Na cabeça de
Putin” (Zigurate, 2022).
1.Existirá
uma filosofia Putin (?), um conjunto coerente, sistematizado, articulado de
ideias, uma visão do mundo, porventura bebida (re-apropriada) em diferentes referentes intelectuais, que orienta o
agir do líder russo? A conclusão, a partir de “Na cabeça de Putin”, tenderá a
poder considerar-se paradoxal: por um lado, Michel Eltchaninoff assume existir uma
complexa doutrina Putin - "de
carácter híbrido e mutante, essa doutrina promete-nos a todos um futuro
turbulento", p.13 -, estribada nos seguintes eixos, ou níveis: a) uma
visão conservadora (com assunção da herança soviética e assente num "falso
liberalismo", isto é, em um regime que de modo algum poderia
classificar-se como uma “democracia liberal"); b) uma teoria da «via russa» (a
ideia de uma especificidade russa que importa impor ao mundo); c) um sonho imperial inspirado em pensadores
euroasiáticos (a ideia de império e a apologia da guerra serão nucleares nesta
cosmovisão (p.92), sendo que no seu projecto existe a aglutinação do “mundo
russo” e a liderança do movimento conservador na Europa, p.109). De outra
banda, ao longo do ensaio de Eltchaninoff, em permanência se vem a perceber que
quase todas as referências filosóficas, literárias, ideológicas em que Vladimir
Putin se ancora são usadas taticamente, de modo instrumental, ad hoc, de modo pouco elaborado, e
sempre ao sabor das necessidades políticas (do momento). Mais decisivamente
ainda, Putin, afinal, como que incarna, no proscénio da história, Piotr
Verkhovenski, o nihilista e
revolucionário profissional, de “Os Demónios” de Dostoiévski, ele que propõe
como chave do sucesso na política a noção de que “o essencial é a lenda”. Ou
seja, e como o interpreta Michel Eltchaninoff, “para obter o poder e conseguir
mantê-lo, é preciso substituir os matizes da realidade pela extravagância da
narrativa sagrada, e depois aplicar esse mito ao que existe, à custa de
violência. Mas recordemos como termina o romance: após o assassinato de um
inocente, o bando de revolucionários dispersa-se com medo e vergonha. O herói
do romance suicida-se. O real vinga-se” (p.133).
Foi
um outro autor russo, Turgueniev, em “Pais e Filhos”, que tornou do domínio
público o termo “nihilistas” (“Pais e Filhos está ligado (...) ao niilismo; é o
romance que tornou de domínio público o próprio termo «niilistas», com que são
designados o protagonista Bazarov e o seu amigo Arkadi.”, Claudio Magris,
“Alfabetos, Quetzal, 2013, p.128). Ora, “por niilismo entende-se - em especial
hoje, numa época em que ele parece marcar toda a civilização ocidental e por
vezes ser o seu destino – (…) um pensamento que nega a existência de qualquer
valor e do próprio princípio de valor, proclamando que a vida não se fundamenta
em nada e que não faz sentido procurar-lhe o significado. O termo foi usado
pela primeira vez nessa acepção em finais de Setecentos por um escritor alemão,
Friedrich Jacobi, que acusava o filósofo idealista Fichte de ter retirado todo
o fundamento à realidade pondo no lugar de Deus a arbitrária actividade do Eu,
do sujeito” (Magris, o.c., p.129).
Em assim sendo, um Putin com doutrina (ideias, valores, convicções) e, em simultâneo, nihilista, como o descrito por Eltchaninoff, oferece-se com(o) uma (pelo menos) aparente contradição – em especial, se não vislumbrarmos que por debaixo do manto diáfano de uma variegada gama de citações e autores inscritos em alocuções do dirigente russo, existe a nua vontade de poder (sovietismo retardado, império, guerra).
2.Putin está muito longe de ser um filósofo, alguém que aqueles que com ele lida(ra)m (de perto) algum dia descreveriam como um intelectual. Entre os mais próximos, gosta, sobretudo, de falar sobre o contorno das regras na faculdade (de Direito, que frequentou em Petersburgo) ou no (seu) mundo da espionagem, bem como das façanhas no desporto - o judo é a verdadeira filosofia. E, todavia, nado e criado numa Rússia e União Soviética em que a filosofia e cultura (russas) eram alvo de verdadeira reverencia – e, nomeadamente, ao nível académico, em todos os cursos, e nunca negligenciadas ou desprezadas -, sendo natural de São Petersburgo, ela mesma uma verdadeira "capital intelectual" (p.10), Putin foi exposto a um amplo conjunto de autores, suas teorias e mundividências. Mais, em regressando à Rússia da (ex) RDA, onde estivera durante anos como espião, em um período no qual a filosofia estava de moda (no seu país), e, já na Presidência da Federação Russa, em se encontrando rodeado de inúmeros speechwriters e membros do seu inner circle para os quais as leituras são uma necessidade e um entusiasmo (guia absoluto para a acção), Vladimir, que não lê jornais nem confia na internet, viu-se, pois, face a um mar de referências ensaísticas e literárias (podendo o dirigente russo, como já vimos, ser também comparado a personagens de relevo da literatura mundial, no que o filósofo, autor da monografia que aqui se recenseia, hesita momentaneamente – porventura, porque entrar exatamente na cabeça de Putin não seja o exercício mais fácil: "é talvez, como Dmitri Karamazov, o herói de Dostoiévski, de uma «natureza larga», simultaneamente cínico e idealista, de um modo sincero em ambos os casos", pp.10-11). E, aliás, percebeu que mobilizar uma inteira nação, com as características daquela que lidera implicava arraigar o seu discurso, que se impunha inspirador, no interior da história das ideias, das crenças que perpassavam aquele povo.
3.Dos
discursos e entrevistas de Putin, Marx está ausente - e se, a título
excepcional, naquelas surge, é apenas para merecer uma crítica. Putin disse
sempre não acreditar na ideologia comunista. Tendo integrado os serviços de inteligência soviéticos,
observou por dentro a falência económica da URSS. De aí, e por oposição a um
modelo de planeamento centralizado, tender a uma inclinação liberal no domínio
económico (todavia, e diferentemente, a sua família assentara arrais no
comunismo: o pai de Putin é membro do Partido
Comunista, trabalhador qualificado em fábrica de vagões ferroviários que
combateu na Segunda Guerra Mundial. O avô do Presidente russo, igualmente
comunista, foi cozinheiro de Lenine e Estaline).
Vladimir, de qualquer modo, cresce (imerso) na cultura militarista própria da URSS, forma de vida que permeava todos os aspectos da existência individual e colectiva do "homo sovieticus" (exaltação de heróis, praxes viris, confusão e não separação entre um estado de paz e um de guerra, eficácia militarista nas relações interpessoais). Sendo certo que nunca esteve em combate, já comandante-em-chefe Putin revelaria, dir-se-ia, uma postura ainda mais marcial do que se tivesse combatido. Se Ieltsin recusara um "Julgamento de Nuremberga" para os líderes soviéticos (juízo que lhe havia sido expressamente proposto por um dos seus), Putin, quando subiu ao poder, não só ratificou aquela posição (do seu predecessor), como recusou qualquer exercício de memória e de trabalho sobre o passado do/pelo povo russo. Tal viria a permitir que nunca o opróbrio, nem um verdadeiro pensamento crítico emergisse sobre o período da URSS e as principais ideias/convicções/crenças/comportamentos/modos de vida que o sustentavam. Logo, e ainda, tal omissão deu azo a que tais ideais pudessem (re) florescer. A complacência com o sovietismo - a queda da URSS passa, o que é muito significativo, nos discursos e entrevistas do atual Presidente russo, de uma tragédia humanitária a uma tragédia política, aliás, a maior do século passado, ou seja, registe-se devidamente, mais do que a II Guerra Mundial, o nazismo, ou a revolução bolchevique - surge, pois, como uma das marcas do trajecto de Putin.
4.Este
homem nascido em 1952, em Leninegrado, filho de mãe crente - que, do ponto de
vista profissional, foi fazendo biscates ao longo de toda a vida - e de um pai
ateu, evidenciou, como político, uma grande capacidade/habilidade de dar
confiança a um seu interlocutor e de, em permanência e sem hesitações, se lhe
adaptar. Os serviços secretos, entendeu - ainda, agora, desmoronada a URSS, já
sem uma ideologia e um partido único a quem servir -, eram a entidade mais idónea
para tomarem as rédeas do país, com o intuito de servirem apenas o Estado. Na
Presidência, e na recuperação do passado russo, a ideia de uma superioridade
moral daquela pátria - e o amor à pátria teria sido o principal a reter dos
tempos soviéticos, afirma, entretanto, selecionando e apagando daquelas eras o
que lhe era conveniente no presente - escorada na vitória sobre os nazis na
Segunda Guerra Mundial. Na ambiguidade no que concerne à sua postura perante
URSS e na ideia de Império, registe-se o seu modo de aproximação aos grandes
símbolos nacionais: "a bandeira russa não será nem a bandeira imperial,
nem a bandeira soviética, mas a bandeira branca, azul e vermelha da Rússia
libertada do czarismo e da revolução de Fevereiro de 1917. As palavras do hino
nacional serão reescritas, mas por aquele que compôs o hino soviético: Sergei
Mikhalkov, o célebre escritor da era comunista, pai do cineasta. A melodia
continuará a ser a do hino soviético. O brasão de armas, com a sua águia de
duas cabeças, prestará o tributo devido à Rússia imperial. Mas a bandeira do
exército continuará a ser a do Exército Vermelho" (p.20).
O ataque da NATO, sem mandato da ONU e por motivos morais, à Sérvia e Kosovo, aliados históricos da Rússia enfureceu a população deste país e seus mais altos dignitários. Nas palavras de Michel Eltchaninoff, "[estou convencido de que] a carreira política de Putin ficou marcada por um plano de vingança relativo a este episódio" (p.22). Nas invasões da Geórgia, em 2008, e da Ucrânia, em 2014, a "retórica humanista" foi usada, por Putin, de forma quase paródica (e o mesmo se diria, não fosse ainda mais trágica, da invasão da Ucrânia em 2022 e da alegação de libertação do povo ucraniano das garras de nazis, ainda que este livro de Eltchaninnoff nos evidencie uma continuidade e acentuação de pronunciamentos do Presidente russo, e seus sequazes, nomeadamente os media estatais (p.121), com tal conteúdo, ao longo da última década – e não exclusivamente no lançamento da guerra de invasão à Ucrânia, ainda que aí de modo mais acentuado e brutal). Ao longo dos anos, Putin reabilitou figuras sinistras do tempo soviético e manteve uma imagem soviética do poder na Rússia. Nas palavras do político e jornalista Aleksandr Morozov, Putin "está convencido de que existem centros mundiais - as potências nucleares - e de que as organizações internacionais têm uma importância muito secundária na relação com essas potências (...) Não esconde um certo desprezo pelos pequenos povos, em particular por aqueles que são vizinhos da Rússia" (p.23)
5.Putin cita, em diversos discursos, nomeadamente nos primeiros anos no poder, Kant. Não cita Platão, Rousseau ou Leibniz. Chega a propor-se enumerar as condições que o filósofo de Konigsberg aduzia rumo a uma paz perpétua. Depressa se percebe, contudo, que, apesar de se sopesar São Petersburgo como capital europeia e de uma racionalidade política frente a uma Moscovo mais patriarcal e religiosa, Vladimir seria muito mais filho da dimensão imperial e hierárquica, também manifestadas naquela urbe mandada construir por Pedro I do que outra coisa. Kant é, assim, uma senha, a enésima manifestação de dissimulação, para uma aproximação aos ocidentais, a quem se promete uma Rússia europeia, sem uma "via específica", um nome instrumental que faz parte da tática/manha - tomada da filosofia do judo, que Putin vê e consubstancia como consistindo em um modo de reverência face aos mestres, aos anciãos, forma de moderação, de não uso desmedido da força, de espera para ver o que outro vai fazer - de aproximação difusa ao Ocidente, concretizemos a metáfora política - e espera paciente para desferir o golpe no momento tido como aquele em que do outro lado menos se espera. Do ponto de vista económico, tal como no político, Putin, nos primeiros anos de liderança política da Rússia, apresenta-se como um liberal. O seu principal conselheiro económico de então, hoje um libertário liderando um think tank em Washington, não o vê como campeão da desregulação, antes mais em uma via intermédia entre o liberalismo hard e o socialismo, ainda que o entenda com mais inclinação liberal do que o mainstream europeu da época. Quanto a Putin ser um democrata liberal, uma rápida revisão pelas suas primeiras atitudes - desencadear de uma guerra e o ataque a dois oligarcas que possuíam media importantes no país, de imediato nas mãos de Putin -, permite um esclarecimento bastante de como tal nunca passou de uma ficção. De resto, uma das primeiras medidas que impôs na sua governação foi a de restaurar o hino soviético. As figuras históricas que sempre citou como favoritas foram Stolípine, Primeiro-Ministro com mão de ferro de Nicolau II, Pedro, O Grande e Catarina II.
6. Desde a perestroika que a Rússia pré-revolucionária (pré-1917) faz as delícias da elite. Pensadores, artistas, intelectuais exilados (à época) são, agora, recuperados, como tendo mantido a pureza da alma russa. Um destes homens, Ivan Ilyin, filósofo, especialista em Hegel, opositor feroz da Revolução de 1917, passará a ser o mais citado dos filósofos por Putin. No entender de Ilyn, há tribos - flamengos, catalães, bascos, etc. - que não podem subsistir por si e necessitam de uma potência a seu lado. Também as nações mais recentes e vizinhas, constituem parte da grande potência, sem as quais aquela ficaria desmembrada. E o Ocidente iria cavalgar sobre aquelas por não aceitar a singularidade russa, ainda que com a 'desculpa' de o fazer em nome da(s) liberdade(s). Este tipo de elocubrações parecem guiar o presidente russo - mesmo que, e ao mesmo tempo, e passe por cima dos iniciais encómios de Ilyin a propósito de certos aspectos que apreciara no surgimento do nacional-socialismo, com o qual se incompatibilizará, na medida em que se recusa a convencer os emigrados russos intelectuais a militarem na causa de apoio aquele movimento, sendo expulso da Alemanha e exilado na Suíça, tendo mais tarde criticado fortemente o nacional socialismo, desde logo por anti-religioso e anti-cristão. Diversamente, anotava Ilyin, Franco e Salazar haviam criado regimes que (os próprios) não consideram fascismos e incluem demandas que o filósofo entendia que um regime político devia prosseguir, evitando situar-se entre os totalitarismos e os fascismos, mas também não aderindo a democracias liberais (a que Ilyin também chamava "democracias formais").
7.O
ataque de um conjunto de rebeldes chechenos a uma escola em Beslan, a 1 de
Setembro de 2004, que redundou na morte de centenas de pessoas, entre as quais
mais de 80 crianças, terá resultado em uma "viragem conservadora" no
pensamento de Vladimir Putin. A partir de então, a necessidade de aliança com a
Igreja Ortodoxa russa tornou-se-lhe um imperativo (óbvio). Nomeadamente, para educar/moralizar
a sociedade. Nos seus discursos, podia ler-se que "os valores morais, sem
os quais não podem viver nem a humanidade nem o homem concreto, só podem ser
religiosos". Neste contexto, a defesa do patriotismo será combinada, no
seu pensamento, com a necessidade do recurso à tradição e, nesta, muito
claramente, aos valores cristãos - de que se pretenderá porta estandarte (a Forbes, em 2013, considera Putin o homem
mais influente do mundo) - e às organizações militares. A defesa da família
tradicional (nas alocuções de Putin, com o deslizar para a homofobia), mas
ainda a crítica ao "cada um por si", ao egoísmo e à intolerância -
que aponta como graves pecados a Ocidente -
integrarão a sua interpretação da realidade, na qual está presente,
igualmente, a denúncia da perda da centralidade do livro e da diminuição da
cultura geral em favor de um mundo centrado no digital e da internet, da qual
desconfia ("No mundo contemporâneo, as crianças não aprendem apenas na
escola. O clima moral e ético da sociedade como um todo depende em grande parte
do que elas vêem, ouvem e lêem"). Putin não tem, nem usa, email.
Em
um país de desigualdades económico-sociais gritantes, em que se assiste a uma
fuga massiva de cérebros e em que o retorno a casa dos milhões de russos na
diáspora se afiguraria urgente, Putin lançou programas para promover o russo em
vários países. Outro vector do «mundo russo» é a religião ortodoxa em que
aquele assenta – ainda que Putin procure não produzir um discurso que exclua
cidadãos que se vinculam a outras religiões, dado que milhões de russos, por
exemplo, são muçulmanos. O Presidente russo conquista muitos políticos europeus
que se convertem à sedução do rublo e integram várias estatais russas (“laços
cada vez mais estreitos com os movimentos populista e de extrema-direita [mas
também diversos políticos sociais-democratas de diversos países europeus que
vão trabalhar para empresas russas, sob controlo do Kremlin], em particular com
a Frente Nacional, em França. O presidente russo conta com a ascensão e com uma
vitória de Marine Le Pen. Esta, por sua vez, tem uma grande admiração pelo
presidente russo (…) Na Europa, a audiência de Putin está em crescendo”,
p.114).
A
vitória de um candidato democrata pró-americano, em finais de 2003, na Geórgia,
bem como a vitória do candidato pró-Ocidental, em 2004, na Ucrânia, fazem com
que Putin se veja perante um conjunto de forças hostis à sua volta, algo que
atribui às manobras da CIA. Entretanto, a questão demográfica torna-se uma
obsessão (sua); não apenas um problema social, mas moral: o declínio, neste
âmbito, na Rússia reforça os apelos de Putin à família tradicional e acende a
sirene do incómodo que sente face às grandes cifras ao nível de abortos
realizados naquele país. Conservador, sim, anui: confia e preserva os valores
tradicionais, mas sempre com o intuito de melhorar a presente condição (russa).
Em 2013, Putin repudia, publicamente, a ideologia soviética, o conservadorismo
da Rússia pré-1917 e o ultraliberalismo ocidental (Hollande fará aprovar a lei
que possibilita casamento entre pessoas do mesmo sexo; em 2013, no Reino Unido
e País de Gales é aprovada uma lei no mesmo sentido).
Autores como Nikolai Daniliévski e Constantin Pobedonotsev estão entre os pensadores conservadores em que Putin pode ancorar, mas quem ele mais cita agora é Constatin Leontiev - um homem para o qual o cristianismo de Dostoiévski será demasiado «adocicado», humanitário, preferindo as formas severas e hierárquicas da Igreja bizantina (nota: a dado momento, para Putin, Dostoiévski é também figura trazida, em permanência, à colação, mesmo que truncado, pouco aprofundado ou descontextualizado). Leontiev previu uma Europa federal, capaz de engolir a Rússia e a sua especificidade. Criticou a Europa Ocidental por não reconhecer já um princípio superior e andar perdida e sem sentido, não produzindo, neste tempo, santos nem génios. Foi considerado um precursor de Oswald Spengler. Ernest Junger ou Carl Schmitt serão outros pensadores, não russos, mas conservadores, nos quais podemos detetar influências em Putin. Contudo, e em síntese, a viragem conservadora de Putin não beneficiou, ao contrário do que sucedeu nos EUA, de uma reflexão filosófica profunda, antes resultando de um aproveitamento ad hoc, de determinados autores com os quais nunca entrou - nem pretendeu entrar - em diálogo denso, para fins políticos de prazo imediato.
8.Desde
o século XIX, duas grandes correntes de pensamento atravessam a Rússia: de um
lado, os ocidentalistas, que entendem
que o destino russo é ser parte integrante da Europa, devendo, em consequência,
abandonar as pretensões imperiais ou a limitação das liberdades, tal como a
defesa do nacionalismo e da identidade ortodoxa (Piotr Chaadaev, Aleksandr
Herzen ou Vissarion Belinski são cultores desta corrente); do outro, os eslavófilos, pretendem promover um génio
nacional baseado numa visão religiosa do mundo, nas virtudes do povo russo ou
nas particularidades da sua organização. Embora diversos observadores
propendessem a considerar a hipótese eslavófila
como a perspectiva em que Putin se integraria, porém, os seus iniciais
proponentes, como Alexis Khomiakov ou Ivan Kireievski rejeitariam existir
naquela corrente de pensamento original uma via específica política, muito
menos de cariz imperial: “a visão eslavófila é romântica (…) [e] contém um
elemento universalista”. No dizer de Berdiaev, “Khomiakov via a missão do povo
russo, não na vida política, mas na vida suprema do espírito”. A sociedade era
“a união orgânica de um amor livre”. A ideia de império seria profundamente
ocidental e, aliás, romana. Quando muito, Putin ancorar-se-á em um eslavófilo
de segunda geração, Nikolai Daniliévski (“é hoje o principal inspirador da
política de Putin, porque mostrou que o Ocidente não é universal”, p.66). Este
pensador propôs a união de todos os eslavos sob a liderança russa. Na sua
perspectiva, nunca a Rússia poderá fazer parte da Europa. Tal, deve-se ao facto
de a Rússia ser grande demais e poderosa em demasia para ser, apenas, uma
grande potência europeia. A Europa, quando não explora a Rússia, rejeita-a,
sustenta. Assim, “a inimizade entre a Rússia e a Europa é estrutural”. Para
Daniliévski, a peculiaridade do povo russo é a sua osmose com o líder, criando
um “entusiasmo disciplinado”. Os russos são o povo eleito por Deus, povo que em
si encarna a religiosidade – humildade, respeito, repugnância pela violência.
Para realizar a sua finalidade, a Rússia deve libertar-se do Ocidente e, para o
fazer, deve combatê-lo. O livro “A Rússia e a Europa”, deste pensador,
tornou-se a Bíblia das actuais elites russas. Será Daniliévski e Dumilev a
justificar, ainda, a ideia de superioridade não apenas social e moral, mas
também genética do povo russo sobre os outros povos (a noção de uma força
cósmica, de uma energia interior, de coloração biologicista, exaltada como
decisiva por Dumilev). Tal não se reconduzirá exatamente ao nacional-socialismo
"porque não estamos diante de uma ideologia de destruição do outro"
(p.80). Embora a prática russa na Ucrânia, nestes idos de 2022, pareça intentar
uma interpretação dessa índole. Ao contrário do que se pensa, Aleksandr Dugin
não é guru de Putin, embora as ideias euroasiáticas possam desempenhar um papel
nas concepções do líder russo – e a doutrina euroasiática, que tem em Piotr
Savitski um dos seus representantes, refuta a separação entre a Europa e a Ásia
e postula um «terceiro continente», um mundo geográfico à parte, a Eurásia. Os
euroasiáticos criticam o eurocentrismo, mas reveem a história russa também, de
modo a acomodar os povos não russos da região (e, por exemplo, o islão não é, para
esta corrente, um inimigo).
Um
outro autor que foi acarinhado pelo poder político russo foi Alexandr
Soljenítsin. O autor de “O arquipélago do Gulag” regressou à Rússia, do exílio
na Suíça, em 1994. O escritor é partidário de um poder forte e de uma via
específica para a Rússia. Não quer para o seu país uma democracia à maneira
ocidental. Preocupa-se com o «cerco» da NATO à Rússia. Embora Soljenítsin se
queixe de que Putin não seguiu os seus conselhos (nomeadamente, sobre
democracia local e ecologia), aquele irá erigir o escritor numa figura grada do
regime.
A 18 de Março de 2014, Putin profere “o discurso mais importante da sua vida”. Aí, anuncia uma efectiva mudança do curso da história: como medida de retaliação pela revolução democrática ucraniana – a que os russos chamam “golpe da junta fascista de Kyiv”, p.57) – a Rússia é o país que, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, anexa uma região de um Estado europeu. A humilhação do fim do império começava a ser reparada, sem se olhar meios ou custos, ou a qualquer respeito pelo próximo (ucraniano).
A guerra de agressão à Ucrânia imposta desde 24 de Fevereiro de 2022 como que já estava inscrita desde há muito nos planos de um homem que a 21 de fevereiro convoca o seu Conselho de Segurança, transmitindo tal reunião pela televisão estatal e, num gesto que não foi de encenação (“longe de ser uma encenação, estamos a testemunhar, ao vivo, a reunião do círculo mais íntimo do poder por iniciativa exclusiva de Putin”, p.127), exibe um poder pessoal implacável e cruel, desfazendo, para todo o país e o mundo observarem, alguns dos mais próximos – que tremem, balbuciam, gesticulam, lançam interjeições embaraçadas, gaguejam, respondem finalmente como autómatos (Eltchaninoff descreve, com requinte cinematográfico, toda a cena de terror psicológico engendrada pela hybris putinista): “esta sequência shakesperiana mostra que Vladimir Putin exerce agora o poder de forma solitária e cruel sobre o seu círculo mais próximo” (p.128). Putin parece, então, querer assumir as vestes não apenas de um chefe de estado, mas de um rei-filósofo da missão civilizacional russa. O Presidente russo não raciocina em termos de utilidade (“se é que alguma vez o fez”), pretende que a sua guerra seja global e caiu num mundo paralelo.
Pedro
Miranda
(texto publicado no I, aqui na íntegra)
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