UMA CRIAÇÃO DIFERENTE (MONTAIGNE)
Uma criação diferente
O pai de Michel de Montaigne (1533-1592), um nome que a posteridade
consagrará como um dos maiores ensaístas de sempre, contrata um
conjunto de humanistas e pedagogos para traçar o plano para a
educação do descendente. O militar que chega a Presidente da Câmara de Bordéus,
o descendente de burgueses, comerciantes de peixe fumado que compram o Palácio
de Montaigne ao suserano arcebispo, o homem que no serviço (pelas armas) ao rei
adquire o título nobiliárquico - o nome/apelido da família de Michel é Eyquem -
entende que não basta a avidez da riqueza, a ambição do estatuto (que moveu os
antepassados): há que servir a nação, em tempos de paz, como em tempos de guerra,
agora através do bom conselho aos príncipes, forjado na melhor formação, numa paideia adequada, numa erudição
indiscutível. A Biblioteca é, desde logo, bem recheada.
Michel, decide um grupo de sábios, é enviado (dos 0
aos 3 anos) para uma família de lavradores - que vive nas redondezas e área do
Palácio de Montaigne -, para que possa conhecer, sentir, experienciar a
vivência daqueles que há que servir em primeiro lugar - exótica, à época, e
extraordinária intuição democrática do pai Montaigne. Com uma educação
espartana, o alho, o toucinho, o pão escuro serão, para sempre, das
preferências de Michel, agradecido à opção paterna por tal escolha
(diferentemente de Balzac, que sempre se queixará da entrega da sua
educação, a um polícia, até aos 4 anos). Depois dos 3 anos, o regresso a casa e
o ensino humanista: uma inteira família, mais todos os empregados e
funcionários, são obrigados a saber latim, pois, sendo este chave espiritual
daquela época, é incutido à criança, sem contaminação do francês (natal).
Portanto, é uma família que age em função da educação de uma criança, mesmo que
constrangida a aprender o latinório. O método de aprendizagem, de resto, é bem
diverso dos usos e costumes: sem livro e sem gramática, de acordo com os
interesses, a vontade, as solicitações do educando. Sem constrições, nem
disciplina, muito menos os castigos corporais e a severidade em voga. Tal teria
um duplo efeito: dificuldades em resistir aos caprichos e aceitar a disciplina
(no futuro); espírito livre, recusa de qualquer escravidão ou sujeição a um
pensamento que não o próprio, semente lançada para se tornar no padroeiro dos
livre-pensadores, o referente da defesa da cidadela, aquele íntimo sagrado (em
cada um de nós) que ninguém está autorizado a profanar (nem, na verdade,
consegue, mesmo que queira, porque esse núcleo sempre dependerá de cada um de
nós). Mais extraordinário: em se considerando que acordar bruscamente é algo
que é nefasto à criança, Montaigne é acordado, lentamente, suavemente, ao som
de um flautista experimentado, de um virtuoso do violino, de um conjunto de
músicos que tornam o momento abençoado. Um hábito que o ensaísta manterá ao
longo da vida.
Todavia, para que se conheça a liberdade, para que
esta possa ser bem reconhecida, é necessário que se saiba do seu contrário, a
opressão. Aos 6 anos, e até aos 13, Montaigne será matriculado num colégio
interno. Uma experiência da qual não guardou boas recordações: matéria
impingida para ser regurgitada; professores aos berros para que os alunos
repitam o que foi dito; matéria aos montes, sem a preocupação de perceber se o
aluno em si a integra: "de que adianta ter a barriga cheia de carne",
pergunta retoricamente Montaigne, se não há tempo nem espaço para a digerir? Se
não faz crescer? Os professores também não dirão bem de Montaigne - mesmo
naquele espaço mais severo, apenas uma vez, ainda assim, açoitado e
"brandamente" -, e este não considerará que foram injustos na sua
avaliação de um aluno apático: só mais tarde vivacidade e ânimo se juntarão no
mesmo corpo. Mas, à semelhança de outros dotados, descobre o livro de poesia.
Isto é, o manual não chega. Descobre uma série de escritores e nunca mais pára.
E o seu saber, no mais puro latim, dos grandes clássicos, devolver-lhe-á o
privilégio dos mestres.
Aos 13 anos, o regresso ao regaço paterno do castelo. E, posteriormente, os estudos de Direito, em Toulouse ou Paris. Aos 20 anos termina a formação de Montaigne.
Pedro
Miranda
(publicado no I)
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