ANGELA MERKEL, UM LEGADO EM QUESTÃO (KATIE MARTON)
Angela Merkel, um legado em questão
1.Muitas
notas biográficas sobre Angela Merkel tendem a principiar com a indicação de
que é filha de um pastor luterano. Falta, não raro, no entanto, aqui,
acrescentar/lembrar o essencial: essa condição dá-se no interior de um estado
ateu (RDA), capitis diminutio não
apenas impedindo, concomitantemente, a mãe de Angie (no estatuto de esposa do pastor) de prosseguir a carreira de
professora de Inglês, como implicando que, nos bancos da escola, Angela,
enquanto alguém que recebia instrução cristã, fosse obrigada a levantar-se
(distinguir-se, com sentido pejorativo implícito) para o afirmar diante da
turma. Mais, ainda: o pai de Merkel vai, voluntariamente, de Oeste para Leste,
na Alemanha, visando evangelizar (em) território difícil. E virá a acreditar –
até ao esmagamento da Primavera de Praga,
que lhe desfará ilusões – na possibilidade de uma certa compatibilidade de
objectivos, no plano social, entre cristianismo e marxismo. Os pais de Merkel,
ideologicamente à esquerda (de Angela), nunca votarão na sua filha (a mãe, com
quem Merkel teria uma grande proximidade, manter-se-ia fiel ao SPD ao longo da vida). Angela, para
sobreviver na RDA, será obrigada à
flexibilidade de, em simultâneo, obedecer ao regime e integrar algumas das suas
estruturas – nomeadamente, as criadas para os jovens –, e, bem assim, ser uma
empenhada devota cristã (protestante). Tal postura, com o seu quê de – exigências
de - dissimulação e/ou camuflagem (note-se que a Stasi tinha 1 informador por cada 63 pessoas; penetrou, pois, mais
profundamente na sociedade do que a Gestapo),
viria a colar-se-lhe como uma segunda pele, travando, sempre, na sua
trajectória de vida e (na) política, arrebatamentos e ousadias. Fortemente
marcada pelo passado alemão de meados do século XX (o nazismo, evidentemente),
recusou, para lá da falta de vocação, a eloquência como registo, céptica quanto
ao uso da palavra (com o perigo do arrastar multidões para o pior, como sucedeu
com o histrião que incendiou cervejarias, e outros auditórios mais selectos,
nos anos 30), foi uma aluna brilhante – recebeu prémios, por exemplo, pelo seu
desempenho na cadeira de Russo, na qual se ensinava aquela língua/cultura, que
muito continuou a admirar até aos nossos dias -, dir-se-ia sobredotada mesmo (a
sua tese de doutoramento em Física amplamente elogiada e editada nas melhores
publicações académicas internacionais), procurando decompor, até ao mais ínfimo
pormenor, os problemas – e tentando encontrar-lhes solução. Dominando,
amplamente, os dossiers
(nomeadamente, nos 16 anos em que liderou o Executivo alemão e um Ocidente
desprovido de figuras maiores, impressionando, com os detalhes que conhecia de
cor de cada tema em deliberação os dirigentes de outros países, e decidindo
sempre no limite dos prazos estabelecidos, modo, igualmente, de procurar
persuadir e levar a decisão para o ponto pretendido, sem, ao mesmo tempo,
querer uma Alemanha – percepcionada como – dominadora, ‘demasiado forte’ para
liderar, com ‘demasiada História’ em cima para a sua liderança
internacional/europeia, explicitada sem matizes, ser aceitável).
2.Se Merkel foi uma líder política que
reclamou o primado da razão, em um momento de mudança de época em que os
valores de fiabilidade, de confirmação de informação, de confiança na ciência
foram sendo erodidos por outros actores políticos emergentes na cena
internacional – e esse respeito pelo conhecimento, pelo valor da verdade, pela
procura de uma fundamentação bastante, sólida das suas decisões adquire não
pouca relevância -, por outro lado, no olhar de Katie Marton, em “A Chanceler.
A notável odisseia de Angela Merkel” (Desassossego, 2022) Merkel é não apenas
uma personalidade muito marcada por uma forte austeridade, sobriedade,
frugalidade (com que fora educada e em que procuraria viver, também por opção),
a qual imprimiria certo “moralismo” (aqui entendido como acto de julgar
moralmente os outros, não sem facilidade nesse juízo) ao seu agir (político
também), como lhe acrescentaria – aquelas características declinariam, em si em
- falta de empatia com as populações de muitos países europeus no momento em
que, na sequência da falência do Lehman
Brothers, os sistemas financeiros interligados, e várias dívidas públicas galopantes, colocaram
muitos sectores da sociedade num nível de precariedade absoluta. Quando Merkel
visitou Atenas, há já mais de uma década, ficou chocada com os cartazes que a
retratavam como um Hitler de saias – ela que fizera da obrigação de recordar,
em permanência, o passado nazi da Alemanha, bem como a solidariedade com o povo
judeu, como absoluto(s) no espaço público alemão e nas políticas que conduziu
-, mas, em realidade, a líder do governo alemão não abriu as portas, e nisso
devia ter atentado (em coerência e, em pretendendo ser consequente, além de,
com isso, ter podido expressar, como o não fez, uma mais equitativa
ponderação/atribuição de “culpas”), à responsabilização da banca alemã (que de
prudente e responsável, em muitos casos, não tivera demasiado, nomeadamente na
sua relação com a Grécia) e impôs medidas e programas/resgates draconianos (em
termos sociais) em diferentes latitudes (foi incapaz de perceber as concretas e
quotidianas consequências das mesmas, uma espécie de «expiação» necessária face
à dívida contraída) – sendo que -
valha, ainda, a verdade -, foi ela a impedir o «borda fora» da Grécia da «zona
euro» que lhe era solicitada pelos falcões
do seu governo e do seu partido - e este
aspecto como que foi quase que rasurado da História.
Se houve momento, diversamente, em que
o seu vínculo cristão falou mais alto – o seu primeiro marido, diria, mesmo,
que foi a única vez, nos seus mandatos, em que tal sucedeu, aplaudindo a sua
coragem ‘evangélica’ – tal deu-se no momento em que decidiu abrir as fronteiras
a muitas centenas de milhares de refugiados, nomeadamente advindos da Síria (em
2015). Apesar das críticas de muitos, na Alemanha (desde logo), essa
hospitalidade, apontada por Merkel como um ‘dever
em si mesmo’, verdadeiro ‘imperativo
categórico’ também não deve ser levada, exclusivamente, em bases antitéticas:
num país em que os nascimentos rareiam, as necessidades crescentes e prementes
de mão de obra tornaram a opção da chanceler como algo que satisfez tanto os ‘valores’ mais elevados, como os ‘interesses’ mais pragmáticos – ainda
que, como tantas vezes em política, a decisão de Merkel de ‘portas abertas’
tenha sido ensejo de múltiplas críticas de homólogos internacionais, pela
ausência de consulta/unilateralidade na decisão tomada (todavia, é difícil
tomar como boas críticas por não se acolher os que mais precisam, os
descartados da Terra, e…por o fazer convictamente, num tempo de urgência; e,
acrescente-se, o livro de Marton, cuja interpretação da figura e acção política
de Merkel é, globalmente, marcado por um olhar elogioso, autoriza a simultânea
leitura de censura na sua actuação durante a crise da zona euro e de franco
encómio na sua abordagem da chegada de muitos milhares de refugiados à Alemanha
em 2015, não se descortinando contradição alguma, ao contrário do que tantas
vezes se arguiu, nesta avaliação diversa de momentos diferentes nas políticas
prosseguidas por Merkel nos seus mandatos).
Merkel, a mulher que ascendeu politicamente pela mão de Helmut Kohl – que, numa sociedade conservadora, sempre a tratara como “a minha menina”; deste conservadorismo também dará conta o facto de Merkel ser tratada, e até cantada, como “Mutti”, mãezinha, o papel a que se confinavam, ou primacialmente se entendia ser dever feminino, pelos seus concidadãos, constantemente, ao longo da década e meia em que governou a Alemanha – faria da descrição uma arma, em um mundo (político) muito masculino e, sobretudo, fortemente centrado e dividido por lutas de egos, e “assassinaria o pai” (político) em um artigo de jornal no qual solicitava que Kohl se afastasse da vida política (depois de um conjunto de escândalos de corrupção em seu redor), uma mulher que não gostava particularmente da companhia de outros políticos – que via como cinzentões e desinteressantes -, preferindo rodear-se de artistas e criadores, ciosa de uma privacidade mantida com mão de ferro, tributária do valor “humildade” como o mais relevante na sua pauta axiológica, apreciadora de música clássica (não faltava a Bayreuth, com o marido), teria uma palavra e um gesto marcantes na visita ao hospital a Navalny tanto quanto, e logo a seguir, por contraponto, uma gélida aposta na “real politik” na imediata prossecução do “Nord Stream 2” (o qual Merkel foi justificando de diferentes formas, incluindo a necessidade de satisfazer as demandas empresariais daqueles que a apoiavam). Sem embargo de se ter oposto ao alargamento da NATO até à Ucrânia; mau grado, segundo Katie Marton, Putin não deixasse de a ver como adversária à altura e como única dirigente, na UE, a merecer respeito e consideração – ler os capítulos do ensaio de Marton sobre Merkel, a propósito dos idos de 2014 é, a dado momento, parecer estar a ler os jornais dos nossos dias a propósito da guerra de agressão, da Rússia de Putin, à Ucrânia -; embora Merkel tivesse insistido quando Obama desistira face às mentiras do Kremlin, talvez carregue, até ao fim dos dias, o fardo do ramo de flores com que o Presidente da Federação Russa a brindou, a quando da sua despedida da cena política (alemã e mundial, até ver). A incompreensão do Ocidente, e de quem o liderou, do que o dirigente russo (e sua clique) representava(m), e a resposta daquele (com rosas), em modo “cínico sublime” tendem, hoje por hoje, a, muito naturalmente, sobrelevar numa avaliação de um legado que teria tudo para ser bem mais complexo.
Pedro Miranda
(publicado no jornal I)
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