DO "MILAGRE DA LIBERTAÇÃO" E DO QUE "SUSPENDE O TEMPO" (STIG DAGERMAN)
Do
“milagre da libertação” e do que “suspende o tempo”
A vida como liturgia, esta como a criança implicada no jogo, que emerge no balão à procura do qual vai, é todo nesse jogar, é, apenas é - a rosa é sem porquê -, a estatística não conta coisa nenhuma, a verdade das coisas não é matemática, é poética como lembrava o bardo, "nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana?" (pp.31-32), ou, se se preferir, "que outra tarefa a do homem, senão viver?" (p.32), quer dizer, ainda, que vale a vida (por) ela mesma.
O que importa, para Dagerman, é a pessoa "saber-se livre" e um "fim autónomo" (p.33), sendo que para que a ameaça da morte não a aniquile, esta não deve ter como critérios (de uma existência bem sucedida) "pontos de apoio tão precários como o tempo e a glória" (p.36). Para ser livre, a pessoa, parece o autor reclamar, deve ter um "elemento próprio"(p.36), tal como o peixe ou o pássaro têm o seu. Mas "onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?" (p.37). A pessoa, hoje por hoje, é apenas um ponto de uma massa (anónima), determinado exclusivamente pela sociedade em que vive, sem direito, ou capacidade de reivindicar(-se) um "elemento próprio", a sua singularidade, a sua especificidade? Ainda Rousseau e o original homem bom, corrompido pela sociedade? Curiosamente, neste ponto o escritor adopta um posicionamento gradualista: "por enquanto, [se desejo ser livre é] necessário que o faça no interior desses moldes [da sociedade]" (p.37) - não pode sair para uma eventual floresta, só é livre, pelo menos "por enquanto", no interior de uma sociedade (note-se que Dagerman viveu na Suécia, mas em tempos sombrios, nomeadamente sendo contemporâneo da II Guerra Mundial; talvez com o "por enquanto" querendo dizer que em época de ameaças extremas não se é livre fugindo para uma floresta; não existe a possibilidade da ida para uma floresta, mas mesmo que a houvesse, talvez assim a pessoa não fosse livre, ainda que um dia essa possa ser uma opção livre, num mundo já diverso daquele seu contemporâneo), mas, sendo literato, deverá procurar "empurrar as palavras contra a força do mundo"(p.37) - ou seja, denunciar, criticar, mobilizar, pelas palavras, face aos opressores (e num tempo em que os povos embarcaram em opções tenebrosas, dos nacionalismos e totalitarismos corrosivos; de aí, a necessidade de "empurrar as palavras contra a força do mundo"). O imperativo categórico, reconhecido por este homem das letras, obrigá-lo-á a agir, a pensar agir, sem o concurso de mais ninguém se necessário for - "sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder" (p.37). E, ultima ratio, se nada mais puder fazer senão silêncio - a censura, a ditadura, a proibição dos livros, de jornais livres não foram no século XX, ou ainda hoje em muitos lados, uma ameaça meramente teórica -, então este "será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo" (p.38). "É este o meu único consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver" (p.38). Razão de viver: uma carícia na pele, o fulgor da beleza, o encontro do amado - tudo isso abole, suspende, relativiza o tempo (o eterno tocado pelo sujeito) - que interessa um dia a mais (viver não é um facto, é um bem, M. Filomena Molder)?; a existência de liberdade ("a lembrança do milagre da libertação", o milagre de perceber a possibilidade, mesmo que dolorosa, do gesto livre, mesmo que contendo consequências duras, do gesto livre), mesmo que muito condicionada: no caso do literato, as palavras arrancadas ao mais fundo e melhor de si, atiradas contra a "opressão do mundo"; mesmo quando estas caladas (pelos opressores) nunca o silêncio vivo poderá ser negado. A pessoa, fim em si mesma, livre mesmo que condicionada, lutando pela singularidade do seu canto (o "elemento próprio"), ainda que a cidadela seja defendida em, ou pelo, silêncio. Fruindo os instantes suspensivos do tempo.
Pedro
Miranda
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