LANCE ARMSTRONG E A MAIOR CONSPIRAÇÃO DESPORTIVA DE SEMPRE (REED ALBERGOTTI E VANESSA O'CONNELL)

 

Lance Armstrong e a maior conspiração desportiva de sempre

Em um ano normal, por esta data disputar-se-ia o Tour de France. Milhões colar-se-iam aos televisores, seguindo com emoção e deleite cada etapa. Ou, desde há uns anos, fixando-se, sobretudo, nos cenários lunares e nos desfiladeiros vertiginosos que convocam os olhares nostálgicos de um ciclismo à procura de si mesmo. O último campeoníssimo, afinal pés de barro, foi Lance Armstrong. E ainda não recuperámos da queda.

O desporto de europeus operários que viam no ciclismo uma forma de se furtarem ao mundo duro da siderurgia ou da agricultura (p.97), é assaltado, no final da década de 90 do século passado e no primeiro decénio desta centúria, pela pedalada esmagadora de um norte-americano, que carrega sobre os pedais a fúria, o ressentimento, a raiva (p.145) de uma infância/adolescência difíceis (com o padrasto) e uma ambição ilimitada pelo êxito.
Operado a um cancro, quando se lhe diagnosticara menos de 50% de hipóteses de sobrevivência, Lance Armstrong investe-se no papel de grande herói de uns tempos que demandam, em demasia, o desportista-celebridade. As sucessivas vitórias no Tour de France criam uma verdadeira marca, a Armstrong S.A., dezenas de patrocinadores rendidos ao espantoso fenómeno do Texas, e que, no ano de 2005, rendem ao ciclista a fabulosa fortuna de 16 milhões e meio de euros. No entanto, saber-se-á, em definitivo, no início da segunda década dos anos 2000, os sucessos alcançados são indissociáveis do recurso a substâncias proibidas que melhoram a performance desportiva. Aliás, logo a quando das intervenções médicas destinadas a solucionar o gravíssimo problema de saúde de que Armstrong padece, os profissionais de medicina interrogam-no sobre a utilização de doping (algo que o ciclista terá, à época, confirmado – p.129). Hoje, o nexo de causalidade entre o recurso ao doping e a doença que apoquentava Armstrong não está provado, mas há estudiosos que suspeitam dele. Seja como for, ao milionário proveito que as marcas tiram com a exposição permanente através do assíduo camisola amarela da Volta à França em bicicleta – algo que fará com que estas não reclamem nos tribunais, contra Lance, mesmo quando este cai em desgraça -, junta-se uma comunicação social embevecida e, com raras excepções, como o jornalista David Walsh, pouco escrutinadora – em particular, a norte-americana, se se excluir o Wall Street Journal, na medida em que um desporto com escassa tradição nos Estados Unidos da América passara a ser atraente para o grande público. A completar a tríade que explicará, muito, do porquê de tantos anos o corredor passar incólume, o humano desejo de heróis – o ser humano não aguenta demasiada realidade, costumava dizer, com mordacidade, Vasco Pulido Valente – e a máscara assentar como uma luva em quem superou o cancro e apresentava níveis competitivos assombrosos. A juntar a isto, a ciência que, em nossos dias, adquire o papel de deus ex machina (definitivo): um académico apresenta uma tese, aliás publicada em revista científica da área, que garante que o corpo de Armstrong é de outro mundo, e tal é a prova provada de que tudo está bem, tudo é legal (p.248). Infelizmente, não era. E há ainda uma instituição responsável pelo ciclismo internacional que recebe donativos do ciclista (algo provado em tribunal), parece fazer vista grossa a claros indícios de doping e fica sob a séria acusação de se ter deixado subornar (p.224). Muitos ciclistas, é certo, ficam entre a espada e a parede: às tantas, o doping está tão generalizado no ciclismo que a opção parece ser entre entrar no esquema, ou abdicar, ab initio, de vitórias – ou, pelo menos, de um contrato para ajudar outros a ganharem. Num mundo onde todos são criminosos, haverá crime? Mas, será mesmo assim?
Um outro argumento, dir-se-ia mais cínico, passa, por apresentar Armstrong como o vencedor real do Tour, pois que em todos se dopando, acabou este ciclista por mostrar ser melhor do que os concorrentes. Ora, não é exactamente deste modo. Entre os esquemas ultraprofissionais de algumas equipas e a anarquia amadora de outras; entre um esquema preparado com meses de antecedência e as escolhas ad hoc de outros team’s; entre a precisão individualizada para o mestre de turno, um dr.Ferrari pago a peso de ouro - no total, Lance pagou 1 milhão de euros a este médico -, e uma resposta menos dispendiosa; entre a vanguarda do doping e o atraso na droga escolhida, ou, pelo menos, nos modos de a usar, eis uma panóplia de detalhes, onde o diabo, como se sabe, se abriga, e que nem aos cépticos dá descanso. É o que demonstra a publicação de dois jornalistas do Wall Street Journal, Lance Armstrong - o ciclista (publicado em português pela Livros D'Hoje, 2014). De resto, houve, felizmente, quem não se dopasse. Embora, também, reconheça-se, sem hipóteses de ganhar.
Reed Albergotti e Vanessa O’Connell, os investigadores do periódico de referência na área financeira, constroem, assim, um caso sobre um personagem egocêntrico, arrogante, manipulador e autêntico Casanova anos 2000, mas, igualmente, sofredor, determinado, capaz de se empenhar na luta contra o cancro, inspirador para milhões de pessoas – a pulseira amarela livestrong vendeu 900 mil exemplares, um dia apenas após Armstrong a levar a um programa televisivo -, perseverante e lutador. Mas não se fixam, exclusivamente, os autores naquele que chegou a ser a lenda do Venteux; antes, e mais interessantemente, dão conta de todo o complexo processo cultural  - de que, de algum modo, quase todos os que gostamos de desporto, e vitoriamos vários dos seus personagens, como Armstrong, participamos -, profissional, mercantil (“um mundo desportivo que perdeu a cabeça com o dinheiro”, escrevem os autores, a páginas 423) que originou o que chamam de “maior conspiração desportiva de sempre”.

Pedro Miranda

(publicado em 2020 no jornal I)

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