O QUE FOI A REVOLUÇÃO RUSSA (SHEILA FITZPATRICK)
A Revolução Russa, segundo Sheila
Fitzpatrick
Agora que o conceito (político) populismo aparece sistematicamente, a
propósito e a despropósito, na nossa esfera pública, importa compreender o que
significou ele nos debates no interior das classes cultivadas na Rússia de
finais do século XIX, preâmbulo das opções que no quadro revolucionário que se
abriria depois – estamos nos 100 anos dessa mesma Revolução – se revelaram
muito importantes. Pois bem, uma das grandes discussões então em debate era a
industrialização da Europa Ocidental e as suas consequências sociais e
políticas.
Uma das perspectivas defendidas, como
relata, em “Revolução Russa” (Tinta da China, 2017), a especialista neste período
histórico, Sheila Fitzpatrick (Professora na Universidade de Sidney,
especialista na história da Rússia Moderna, docente, durante anos, na
Universidade de Chicago, versando sobre a história soviética), era a de que a
industrialização capitalista conduzira à degradação, ao empobrecimento das
massas e à destruição do tecido social no Ocidente, pelo que a Rússia devia
evitá-lo a todo o custo. Os intelectuais radicais que sustentavam este ponto de
vista foram, retrospetivamente, designados por «populistas», embora a
denominação remeta para um nível de organização coeso que, de facto, não
existia. O populismo constitui,
essencialmente, a corrente dominante do pensamento radical russo, entre as
décadas de 1860 e 1880. A linha de pensamento intelectual denominada populismo combinava uma objecção à
industrialização capitalista e uma idealização dos camponeses russos.
Diferentemente, no interior de uma intelligentsia que tinha em comum o
socialismo mas com diferenças claras no seio deste (para muitos um socialismo
compatível com a democracia, pelo que os caminhos entre Fevereiro e Outubro de
1917 desiludiram tantos, dentro e fora da Rússia), os marxistas consideravam a
industrialização capitalista um processo inevitável, sublinhando, inclusive,
que o capitalismo era a única via possível para o socialismo, e que o
proletariado industrial, gerado pelo desenvolvimento capitalista, era a única
classe com capacidade para levar por diante a verdadeira revolução socialista.
De acordo com a historiadora Fitzpatrick, “na Rússia - como na China, na Índia
e noutros países em desenvolvimento -, o marxismo tinha um significado muito
diferente do que lhe era atribuído nos países industrializados da Europa
Ocidental. Era, simultaneamente, uma ideologia de modernização e uma ideologia
revolucionária e poderá constituir uma surpresa para o leitor moderno que
apenas conhece Lenine na sua faceta de revolucionário anticapitalista. Todavia,
o capitalismo era um fenómeno «progressivo» para os marxistas da Rússia de
finais do século XIX. No plano ideológico, os marxistas eram a favor do
capitalismo por se tratar de uma etapa necessária no caminho para o socialismo.
Emocionalmente, porém, o compromisso era mais profundo: os marxistas russos
admiravam o mundo urbano, moderno e industrial e sentiam-se indignados pelo
atraso da velha Rússia rural”. Este paradoxo, para muitos, de perceber como
para os marxistas o capitalismo era o caminho necessário – ainda que a superar
– para o comunismo (incluindo, até, uma admiração pelo mundo moderno urbano e
industrial e ocidental), pode, ainda, ser completado por um outro dado que se
pode apresentar, para alguns, como contra-intuitivo, mas do qual convém tomar
nota: as três décadas anteriores à revolução de 1917 não foram marcadas por um
empobrecimento, mas por um aumento da criação de riqueza, na Rússia (pp.35-36),
ainda que os camponeses, 80% da população, não tenham registado nenhuma
melhoria de vida significativa (embora a não tivessem deteriorado também).
"O progresso existira de facto, mas o mesmo contribuíra em grande medida
para a instabilidade social e para a probabilidade de convulsões políticas:
quanto mais rápida é a mudança de uma sociedade (seja ela entendida como
progressiva ou regressiva), mais reduzidas são as probabilidades de
estabilidade. Se pensarmos na grande literatura da Rússia pré-revolucionária,
concluiremos que as imagens mais vívidas são as da deslocação, alienação e
ausência de controlo sobre o destino" (pp.36-37). Na revisitação deste
período histórico é especialmente interessante registar as interrogações que se
oferecem aos que se debruçam, profissionalmente, sobre este campo de análise:
"As revoluções são convulsões sociais e políticas complexas, sendo, por isso, natural que surjam entre os historiadores que sobre elas escrevem divergências quanto a aspectos tão elementares como as causas, as metas revolucionárias, as repercussões na sociedade, o resultado político e até o calendário da própria revolução. No caso da Revolução Russa, o momento inicial não suscita dúvidas, sendo referida de forma quase unânime como a «Revolução de Fevereiro» de 1917, que conduziu à abdicação do Imperador Nicolau II e à formação do Governo Provisório. No entanto, quando terá terminado? Em Outubro de 1917, quando da tomada do poder pelos bolcheviques? Ou em 1920, com a vitória destes últimos na Guerra Civil? Poder-se-á afirmar que a «revolução feita a partir de cima», liderada por Estaline, fez parte da Revolução Russa? Ou dever-se-á antes defender que a Revolução prosseguiu durante o período de vigência do estado soviético? (...). Os indícios típicos de um Termidor apenas se tornaram visíveis no início da década de 1930, quando a agitação serenou: a beligerância e o fervor revolucionários esmoreceram, adoptaram-se novas políticas destinadas ao restabelecimento da ordem e da estabilidade, assistiu-se a um ressurgimento da cultura e dos valores tradicionais. Este Termidor, porém, não marcou o fim definitivo da sublevação revolucionária. Numa derradeira convulsão interna, ainda mais devastadora do que os anteriores surtos de terror revolucionário, as Grandes Purgas de 1937-8 eliminaram muitos dos Velhos Bolcheviques revolucionários ainda vivos, operaram uma renovação generalizada na composição das elites políticas, administrativas e militares e condenaram mais de um milhão de pessoas à morte ou ao gulag". Comentando este livro, Revolução Russa, José Milhazes inscreveu-se entre aqueles que entendem que o carácter revolucionário do regime se manteve até 1989.
Pedro
Miranda
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