O
repensar (-se) da esquerda (norte-americana)
1.O problema de
um progressismo identitário consiste no facto de a identidade
(pessoal) remeter para um "eu
interior" e, neste sentido, negar o comum. Despolitizar. Favorecer,
portanto, o princípio individualista. Que é, tão só, aquele que
está na base do conservadorismo libertário. Dito de outra forma,
o liberalismo identitário, o liberalismo (esquerda,
centro-esquerda, em acepção norte-americano daquele que é, muito provavelmente,
um dos vocábulos mais polissémicos em política) focado/centrado em diferentes
minorias (e/ou nichos), deslocado das grandes questões (económico-) sociais,
torna-se caucionante do fundamento cultural de última ordem - o individualismo
- que subjaz a todas as políticas que negam qualquer obrigação de fazer
por parte do Estado, em particular com os mais desfavorecidos. A tese de Mark Lilla, em The Once and
Future Liberal. After identity
politics (traduzido,
pela Tinta da China, agora, por De Esquerda, Agora e
Sempre: para além das políticas identitárias) conhecido académico de
esquerda, Professor de Humanidades em Columbia é a de que se o movimento progressista,
consubstanciado no Partido Democrata, nos EUA, quiser, de novo,
conformar mentes, corações, sentimentos e substantivar políticas terá que
abandonar a sua centralidade na política identitária e
focar-se nas questões sociais. Terá que aprender a falar com(o) Roosevelt -
embora não a repetir o mesmo exacto programa, dados os contextos e
circunstâncias diversas - e deixar de seguir a escola da Nova Esquerda
(a tal na qual se regista, desde logo na Academia, a preeminência da identidade sobre
tudo o mais). A esquerda, se se preferir ainda, não pode alimentar uma cultura
(hiper-individualista) que alimenta a consequente política de direita
liberal (de um Estado abstencionista, não redistributivo
e, mesmo, execrado, em especial, nos EUA), assume Lilla.
2.Vivemos um tempo de
interregno (p.48), uma verdadeira crise do pensamento (p.81: "desde há duas gerações que a América não possui
uma visão política do seu destino. Não temos uma visão
conservadora; não temos uma visão liberal. (...) Somos governados por partidos
que já não sabem o que querem a uma escala global, apenas o que não querem a
uma escala reduzida. Os republicanos não querem os programas e as reformas
herdados do New Deal, da Nova Fronteira e da Grande Sociedade. Os democratas
não querem que os republicanos eliminem esses programas e essas reformas. Mas
quais são as metas finais dos partidos, independentemente da dimensão e forma
do Governo? O que procuram acima de qualquer outra coisa? Qual a imagem do
futuro que determina as suas acções? Parece que deixaram de saber, e assim
também não se pode esperar que o povo saiba. Damos por nós numa América
que se sucedeu à era das visões"), de ausência política-ideológica
de um sintonizar com o sentimento (do povo) americano - ou de projectar uma
visão e de contribuir para criar esse sentimento -, após as duas grandes narrativas,
as duas grandes eras (ou Dispensações, como diz o autor, recorrendo a uma categoria
teológica protestante, que diz o modo como Deus administra
determinados períodos de tempo, que correspondem a diferentes formas de testar
a obediência dos fiéis), as ideologias que dominaram o século
XX americano: a de Roosevelt -
o New Deal, a projecção da Great Society de Lyndon Johnson -, e a sua marca
de não deixar ninguém desprotegido, de um seguro social, de um enfrentar
conjunto as dificuldades da vida (a doença, o desemprego, a velhice, etc.;
"envolviam um projecto colectivo
com vista à protecção dos direitos fundamentais. As palavras de ordem eram:
solidariedade, oportunidade e dever público", p.15); e a de Reagan, com as suas ideias de
desregulação, de confiança absoluta no mercado, de deixar rédea solta aos diferentes
agentes para que a economia se voltasse viçosa ("uma América mais individualista, onde as famílias e as pequenas
comunidades e empresas iriam florescer assim que fossem libertadas dos grilhões
do Estado. As palavras de ordem eram: auto-suficiência e Governo mínimo",
p.15).
3.Enquanto duraram -
cada uma destas visões - influenciaram, completamente, o campo partidário
contrário àquele da origem das mesmas. Pelo que, pois, as visões, ou ideologias
de largo espectro, no fundo, a conformação de uma cultura, a superarem, mesmo,
a dimensão partidária. Se Roosevelt proveio dos democratas,
observa-se que mesmo um republicano como Richard Nixon "criou uma vasta rede de subsídios estaduais e
locais, com vista à implementação de programas sociais, fundou um organismo
imponente para regulamentar a saúde e segurança dos trabalhadores. Procurou
ainda estabelecer um rendimento mínimo garantido para todas as famílias
trabalhadoras e, além disso, propôs um plano de saúde nacional que teria
oferecido um seguro governamental para famílias de baixos rendimentos, exigindo
às entidades patronais que dessem um seguro a todos os trabalhadores e
definindo normas para os seguros privados"(p.33, nota de rodapé I).
Do mesmo modo, nos anos 90, quando o hiper-individualismo já
estava aí, a desregulação imposta, a ideia de Estado Mínimo havia feito o seu
caminho, alguém como Bill Clinton,
ainda que membro do Partido Democrata (de Roosevelt, do New
Deal e da Great Society) não deixou de desregular -
histórico fim da lei de separação da banca comercial da especulativa - e, de
alguma forma, hostilizando também alguns tipos de benefícios sociais
(estatais).
O que isto
significará, ainda, é que visões de tipo essencialista -
quando temos ideologias de sentido contrário a prevalecerem durante 50 anos,
num caso, e, pelo menos 30, noutro - sobre o que os americanos são
politicamente devem, claramente, ser relativizadas.
4.Por outro lado, não
basta aos líderes captarem, sintonizarem ou formularem ("uma dispensação não se alicerça num conjunto
de princípios e argumentos; alicerça-se em sentimentos e percepções que
conferem força psicológica aos princípios e argumentos", p.26), ou,
eventualmente, ajudarem a forjar o espírito de um tempo. São necessários esses
líderes, mas não são suficientes. Explicar Roosevelt e o New Deal é
procurar perceber, do ponto de vista histórico e económico (com alguma
ironia, Mark Lilla escreve
que "nisto Marx tinha razão: as
condições materiais ajudam a determinar quais as ideias políticas que encontram
eco num dado momento", p.27), o que se passa quando há uma Grande
Depressão económica e social, com níveis gigantescos de desemprego e
indigência, em que, portanto, "o
debate sobre a responsabilidade fiscal e o equilíbrio orçamental dissipou-se"
(p.26), e o Estado assume o comando, com obrigações e finalidades mais amplas a
cumprir. A dispensação de Roosevelt "foi adoptada na década de 1930 porque dava
resposta ao fracasso evidente dos conservadores em usarem o Governo para fazer
frente aos dois grandes desafios desses anos: o colapso económico e a
propagação do fascismo" (p.33). Na realidade, o pós-Guerra
redundou em três décadas de grande sucesso económico e, dir-se-ia, que a
ideologia prevalecente nesse período, em parte, foi vítima do seu próprio
sucesso (um argumento que Tony
Judt usa a propósito da social-democracia também
na Europa: foi tão bem sucedida que, a certa altura, as pessoas julgaram que já
podiam abdicar das "amarras" inerentes a esta política; sendo que por
"amarras", entre outras coisas, podemos pensar em impostos
consideráveis e uma política redistributiva). Mas não apenas. Veremos, de
seguida, em que medida é que a passagem do paradigma rooseveltiano a
um reaganiano se deveu ao seu próprio sucesso, ou às suas
fragilidades, ou, na verdade, a ambas as coisas.
5.O contexto histórico e político de sucesso que
acabou por se voltar contra as próprias políticas (democratas) que lhe
estavam associadas, foi o seguinte: "o aumento dos salários e as políticas públicas que encorajavam a compra
de casa e de carro desencadearam o rápido crescimento dos subúrbios em redor
das grandes cidades e, posteriormente, uma deslocação lenta da população para
as regiões sul e oeste. À medida que saíam dos velhos bairros onde viviam com a
família e os amigos - abandonando também o contacto com os problemas sociais de
qualquer grande cidade -, as pessoas deram por si no que se afigurava
território virgem, rodeadas por gente com quem não possuíam qualquer vínculo e
que também parecia estar apenas de passagem. (...) Vejamos a família. Com o aparecimento dos novos
eletrodomésticos e do automóvel, as trabalhadoras domésticas dos anos 1950
ficaram mais independentes, libertas de algumas tarefas fatigantes, mas também
mais isoladas e afastadas de oportunidades de trabalho (...) A pílula, o
divórcio sem culpa e a legalização do aborto permitiram que marido e mulher
conquistassem independência sexual um do outro. Como seria de esperar, as taxas
de divórcio subiram, e os casamentos passaram a ser mais tardios ou
inexistentes. Também como previsto, aumentou o número de mães a braços com a
tarefa árdua de criar os filhos sozinhas. Nas décadas que se seguiram, a vida
mudou também para as crianças. Passaram a ter menos irmãos, e habituaram-se a
passar muito tempo sozinhas (...) As comunidades em que viviam eram parcial ou completamente fechadas, e
nunca aprenderam a passear sozinhas e a conhecer outras crianças
espontaneamente (...) Estas
crianças foram para a universidade, que muitas vezes se situava a grande
distância, e, depois de se licenciarem, ingressaram na nova classe urbana
independente, na casa dos 20 ou 30 anos, sem responsabilidades com ninguém além
de si próprios. Visitavam os pais e os irmãos de fugida nas férias; durante o
resto do ano, mantinham contacto pela internet. Até ao dia em que casaram,
foram viver para os subúrbios, e o ciclo recomeçou." (p.30). Com
este caldo de cultura, pois, "tornámo-nos
numa sociedade burguesa hiperindividualista, tanto materialmente como no que
respeita aos dogmas culturais". Eis um ponto de centralidade
inequívoca e muito bem captado pelo académico de esquerda: "quase todas as ideias, crenças ou sentimentos
que outrora reprimiram a eterna exigência de autonomia individual se
evaporaram. Escolha pessoal. Direitos individuais.
Definição própria. Preferimos estas palavras como se fossem votos
de casamento. Ouvimo-las na escola, na televisão, em salas de reunião abafadas
de Wall Street, em parques infantis soalheiros de Sillicon Valley, na Igreja
[quase sempre protestante, nos EUA] - até as ouvimos na cama. Ouvimo-las tão frequentemente, que se tornou
difícil pensar ou falar sobre qualquer assunto sem ser nestes termos
egocêntricos" (pp.30-31).
6.Em realidade, reconhece o ensaísta, as pessoas
deixaram de compreender porque têm obrigações para com as outras. O dever desapareceu
do vocabulário e do mapa. Não conseguimos explicar-lhes (isso, essa obrigação).
Este nós é de democratas, poderia ser um nós de
políticos, mas faz sentido a ausência de universalidade, neste âmbito, porque
ao político que pretende despolitizar - mesmo que sob a forma mais demagógica
que consiste em dizer que o Governo/Estado é intrinsecamente mau, mas querer
ocupá-lo em permanência -, ao político que diz dedicai-vos ao comércio que
a vida florescerá e não vos preocupeis com a política, ao político que
subscreve a ideia de que não há sociedade, só há indivíduos
(como disse Thatcher, na
esteira de Nozick) não
interessará a promoção destas obrigações de uns para com os outros - que, para
si, de facto, não existem.
Porque têm os mais prósperos "um dever permanente para com os
desfavorecidos?"(p.99). De que armas dispõem, no arsenal de
argumentos, os que assim crêem? "Isto
é algo que a Bíblia costuma fazer [ensinar esta verdade], mas esse tempo
passou. Apesar dos EUA ainda serem uma nação que cumpre os ritos, o evangelho
que agora se apregoa, em particular nos círculos evangélicos, foi infectado com
o mesmo individualismo, egoísmo e superficialidade que contamina outros
sectores da vida norte-americana. São muitas as pessoas que ainda pagam dízimo
às igrejas a que pertencem; mas ao mesmo tempo rejeitam inequivocamente a ideia
de que os impostos constituem uma espécie de dízimo democrático que serve para
ajudar os cidadãos seus semelhantes. Tal como a gorjeta, a caridade é algo que
hoje em dia fica ao critério do cliente" (p.99). Desde logo, pois,
alguém que se situa na esquerda do espectro político é capaz de reconhecer a
força mobilizadora, os recursos espirituais, imateriais decisivos - e
porventura, sem paralelo - que a fé - nomeadamente, a cristã - poderia conter
para mobilizar as pessoas/cidadãos na ajuda ao seu próximo mais desfavorecido.
No pensamento de Mark Lilla, tal acquis
é, ainda, denunciado na seguinte formulação: "sem uma fé caritativa capaz de motivar, a única forma de instilar um
sentido do dever é estabelecendo uma certa identificação entre privilegiados e
desfavorecidos"(p.99). Esta identificação, a única outra forma,
para lá de uma "fé caritativa" de proceder a essa identificação é
convocar, claramente, o conceito de cidadania
- de sermos e nos vermos todos iguais como cidadãos, no mesmo barco, e estarmos
ligados por esse vínculo na cidade.
Se a perda cultural, do "nós" em favor do
"eu", se a perda do sentido do "dever" e o
hiperindividualismo são bem denunciados por Lilla, já a solução do apelo à – ao
uso do vocábulo - "cidadania" - mais reclamada, mais exigida na
linguagem progressista - não parece
antídoto suficiente para as maleitas apontadas.
Para que haja uma verdadeira democracia - quer dizer,
plenamente social, impedindo, assim, até derivas totalitárias de pendor
socializante -, escrevia Jacques
Maritain a meio do século XX, há uma seiva essencial fora da
qual é bem difícil de aquela medrar. A mesma pergunta de Bockenforde, de se o Estado não
consome pressupostos culturais não autóctones do liberalismo (até que ponto a
neutralidade é possível?) e as revisões implicaram que a religação primeira e
última pudesse, afinal, motivar e ser dada a respectiva indicação aos
concidadãos.
7.A alternativa a esse dever para com os mais
desfavorecidos - Lilla não recorre ao excurso rawlsiano de Uma Teoria
da Justiça, nascemos com talentos que não merecemos, em famílias e
contextos psicossociais que nos permitiram desenvolvê-los e aceder a lugares
melhores remunerados, pelo que faz sentido, pelos impostos, financiarmos,
nomeadamente a educação dos que não tiveram as mesmas possibilidades, ou não
emergiram com a mesma sorte da lotaria natural (genética), social e cultural,
mas poderia e deveria tê-lo feito no contraponto à visão contrária que é de
seguida convocada - é o outro entendimento, o individualismo feito teoria
política, sagaz e sofisticadamente desenvolvido por Robert Nozick em Estado,
Anarquia e Utopia: "Nenhuma
entidade social é detentora de um bem que justifique qualquer sacrifício em
proveito próprio desse bem. Só existem pessoas individuais, pessoas individuais
diferentes, com as suas vidas individuais. Usar uma destas pessoas para
benefício das outras significa usar essa pessoa para favorecer as outras. Nada
mais...Discutir um bem social genérico serve apenas para encobrir este facto"
(p.31). Ou seja, e em termos kantianos, se a pessoa é fim em si mesma, e nunca
meio, então, ainda que para melhorar a existência de outra pessoa, ainda que
com boa vontade para melhorar a vida de alguém mais desfavorecido, eu estou a
usar "uma pessoa próspera" (nomeadamente) como meio. Logo, não
aceitável. Talvez as duas grandes dispensações filosóficas - no caso da de
Rawls, com a enunciação/conceptualização do princípio
da diferença, a secularização da ideia de "opção preferencial pelos
mais pobres", da Igreja Católica, como notará, em Ética económica
e social, Philippe Von Parijs.
8. Num certo sentido, e em boa medida, o livro de Mark
Lilla, vai bem para lá do estrito enquadramento norte-americano e revê a
matéria dada do que foi a evolução política ocidental nas últimas décadas: a) o
fim das "grandes narrativas" (aqui, a época de interregno, após as
dispensações de Roosevelt e Reagan; a crise do pensamento, a ausência de visão
par ao futuro); b) os avanços do Estado Social no pós-guerra, a ideia de
protecção e seguro social para os azares da vida a emergir até aos anos 70 (a
era de Roosevelt e Lyndon Johnson, à escala americana), mas o sucesso da
política a dar lugar a uma sociedade hiper-individualista, a reclamar
sucessivos direitos individuais e a erodir um chão comum, a partilha de um
destino na cidade; c) a ideia de liberdade dos antigos - participar nas decisões da cidade - a ser substituída por uma nova
ideia de liberdade para os modernos - não
me incomodem, deixem-me em paz, não quero saber da política, quero saber do
meu trabalho, da família e dos amigos, nada mais; d) uma sociedade cristã
desafiada pela concentração das megalópoles (seria uma realidade
ribeirinha?); e) Rawls e Nozick, o dever de ajudar os mais
necessitados, ou a libertação de todas as amarras para que a mão invisível faça
a distribuição, sem condicionamentos de nenhuma agência central ("só
existem pessoas individuais" - não existe a sociedade, eis o lema
libertário); f) em que fontes haurir na motivação para essa ajuda aos
desvalidos - o repensar da importância da fé, neste contexto, a cidadania de
novo trazida ao vocabulário.
9. A soma das partes é menor do que o todo. Mark Lilla percorre o site
do Partido Democrata e, enquanto no site homólogo dos Republicanos encontra
um documento intitulado «Princípios da Renovação Americana», vê, neste, "uma lista de hiperligações encabeçada pelo
título 'Pessoas'. Cada hiperligação conduz a uma página feita à medida e ao
gosto de grupos e identidades separadas: mulheres, hispânicos,
'norte-americanos étnicos', comunidade LGBT, norte-americanos nativos,
afro-americanos, asiáticos-americanos e habitantes das ilhas do
Pacífico...Estão lá 17 grupos distintos, para os quais existem 17 mensagens
distintas. Dir-se-ia que, por um qualquer erro, fomos parar ao site do
Governo libanês"(p.17). Este aspecto, sim, assinalar-se-á como mais
específico do progressismo norte-americano (não passível de
uma fácil transposição para os movimentos progressistas continentais
em muitos aspectos), de um progressismo identitário (no seio
do movimento progressista, e dentro do qual se vê, por este ensaio,
que muitos, ainda assim, criticam na declinação identitária encontrada; eis uma
parte de um discurso de Bernie
Sanders convocada pelo autor: "um dos conflitos a que vamos assistir no Partido Democrata tem que ver
com a questão de irmos ou não para além da política identitária. Acho que é um
avanço para os EUA se tivermos um director ou CEO afro-americano à frente de
uma grande empresa. Mas, sabem, se essa pessoa vai expedir postos de trabalho
para fora deste país e explorar os seus trabalhadores, não importa peva se ela
é negra ou branca ou latina...Precisamos de candidatos - negros e brancos, e
latinos, e gays, e do sexo masculino. Precisamos disso tudo. Mas precisamos que
todos esses candidatos e pessoas em cargos públicos tenham a coragem de se opor
à oligarquia. É essa a luta dos dias que correm" (nota de rodapé I,
p.98). A luta sobre qual deve ser o foco do Partido Democrata assim
em cima da mesa, o debate estratégico lançado no interior do partido. A posição
de Lilla - as questões sociais a deverem primar sobre as identitárias - é muito
clara e passa por considerar que o que falta aos Democratas é
colocarem a questão e responderem-lhe acerca de quem nós [americanos]
somos (?), o que é que todos partilhamos (?). A política
identitária coloca o acento na diferença, na fractura, no isolamento (de
indivíduos e pequenos grupos); o Professor de Humanidades pede que se deixem os
estilhaços, a política fracturante, os nichos como alvo, a profusão de
mensagens, a prioridade à identidade. A política identitária reforçou o
individualismo de Reagan, não o contestou (p.17) - noutros termos, ainda:
"a identidade não é o futuro da
esquerda, não é uma força hostil ao neoliberalismo. A identidade é a doutrina
de Reagan adaptada à medida dos esquerdistas" (p.78)
Ainda que às especificidades norte-americanas este
aspecto diga respeito, vale a pena ainda indagá-lo no que concerne a
perspectivas políticas, noutras latitudes, entre as quais a portuguesa, porque
não?, que se apresentam como progressistas e que fazem,
justamente, da fractura um traço decisivo. Se concluirmos com Lilla,
essa fractura acentua aspectos do "eu interior", despolitiza, mina a
ideia de "comum" - seria interessante perceber isso em muitos debates
nossos contemporâneos quando se arremete contra pretensas "ditaduras"
que a lei acomodaria, sempre que se erige - e exige - a autonomia da
vontade como único e absoluto critério. Enquanto se fizer esse combate
cultural de aprofundamento de um individualismo que marca o tempo com o ferro,
dificilmente se estará, com efeito, em condições de entrar, depois e em sentido
inverso deste, na luta por "socializar" aspectos que se pretendem
fundamentais ao nível económico-social (a seguir, nessas discussões, não mudamos
de horizonte, o mundo continua a ser o mesmo, as concepções antropológicas
predominantes também, e de aí se tiram as consequências que se conhecem, de
recusar a obrigação com os outros; o entendimento do humano enquanto "mónada”
repercute-se em todas as dimensões a que o debate político chegue).
10 - Apesar de ter obtido quatro dos últimos 10
mandatos para a Presidência, o Partido Democrata não conseguiu
moldar a opinião pública norte-americana. Esta continua a pender para a
direita. O Partido Republicano continua a conseguir ser
representado, num imaginário bastante partilhado, como o partido típico
do americano comum, face a democratas não raro
vistos como uma elite cultural que não sente, nem realiza o que é uma vida
do simples mortal em terras do Tio Sam. Ou seja, para os Democratas
conquistar a Presidência não basta. Ou o Partido Democrata vence
eleições locais, consegue nomear juízes, leva vantagem nos órgãos legislativos,
ou mudanças efectivas que pretende nunca chegarão a ocorrer (p.41). Mais: há
uma grande tradição de empenho democrata em movimentos sociais,
estes foram/são muito importantes como impulsionadores de mudanças com que se
sonha, mas sem uma institucionalização (p.88), sem uma força
partidária-burocrática para concretizar as alterações, tais movimentos não
chegam.
11 - Um dos pontos que Mark Lilla faz notar acerca da política
identitária - e a identidade só entrou no discurso político na década
de 60 do séc.XX - é este: como a soma de discursos, a ausência de foco nos
problemas sociais faz perder os democratas, até aqueles que são,
neste momento, os destinatários dessa mesma política identitária -
os vários segmentos populacionais a que se dirige - ficam a perder (pela
ausência de eficácia em alcançar o poder, por parte dos democratas, em virtude
desta política identitária). E isto porque sem os mayor,
sem o conforto de juízes mais próximos da visão democrata, sem um
conjunto de agentes/burocracia que não esteja empenhada em boicotar, mesmo
adquiridos legais ou constitucionais - em prol de cada minoria - serão, como
são em muitos casos no terreno, "letra morta". Evidentemente, este
raciocínio não deixará de expor o académico à crítica de em nome de uma suposta
protecção de que cada um dos grupos alvo da política identitária,
deixar cair as reivindicações, ou o reconhecimento destas. Ou, se se preferir,
para que as pretensões de tais grupos alcancem vencimento, seria preciso que
estes se escondessem. Sendo que esta leitura de Lilla, exposta pouco depois da
derrota democrata de 2016, não pode integrar os acontecimentos decorridos desde
então e, em particular, a articulação da luta contra o racismo, com o movimento
Black Lives Matter a ser compreendido
por muitos como revigorante das forças à esquerda.
12 - A política identitária fez
esquecer ou ignorar grupos sociais que haviam sido determinantes nas vitórias
políticas democratas (sindicatos de operários, funcionários públicos). Arrumou
com o "nós" para os confins. Fez sermões - e por muito que, na ordem
ideal, os democratas pudessem sonhar outros americanos, para conquistar as suas
mentes, as dos americanos reais, a dos americanos que existem, a esperança,
mais do que a acidez crítica tem que estar presente; a mobilização do que têm
de bom, mais do que o desdenhar do que não possuem, determinante -, mais do que
procurou persuadir diferentes para causas que estes, à partida, não estariam
tão inclinados a apoiar. Trata-se, na perspectiva de Lilla, de deixar o
solipsismo, de avançar agora que com Trump os progressistas americanos
"não têm adversário ideológico". E cura-se de fazê-lo com base na
educação, na promoção de uma ideia de país partilhado, de cidadania, de
pertença ao mesmo, de destino comum. Passagem do liberalismo
identitário a um liberalismo cívico. Ainda que, diríamos,
essa ideia de ausência de adversário ideológico, mesmo que se perceba o que o
autor quer dizer relativamente a um corpo (político) bastante estranho como Trump
seja não pouco controvertida - as políticas de Trump não contêm,
objectivamente, uma ideologia?, mesmo que ele, de facto, não tenha construído
qualquer visão sólida, fundamentada do mundo - não signifique que a cultura que
permanece - a tal "hiper-individualista" - não faça soprar o vento
para longe das condições que mais facilmente permitiriam a implementação de
políticas tipicamente democratas. E que a solução proposta pelo
autor para a reforma do progressismo americano seja tão
essencial quanto um tanto genérica: uma educação para a vida comum, para a
ideia de que somos iguais na cidade, para a cidadania. Que esta seja a panaceia
para que os americanos prósperos sintam uma motivação bastante para ajudar os
seus concidadãos menos afortunados eis o que me parece mais da ordem do desejo
- e com décadas pela frente - do que algo que se veja relativamente simples de
implementar.
Pedro Miranda
(publicado no jornal I)
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