O "VÉU"

 

'O VEÚ
Diz-se que o lenço é uma lenda
que não cumpre as histórias
eleitas para o Livro
Mas eu recordo,
em fina nitidez essa manhã
e a arca com os panos
e os lenços
Não era como a arca
onde coubera tudo: bichos e gente, e água e mantimentos; e ainda
os justos, os que tinham direito à salvação que, sendo embora
poucos, ocupavam um espaço
mais largo que serpente
Também não era a arca a ouro e a rubis
onde muito mais tarde
haviam de guardar fortunas e tesouros
e prata, e jóias de valor sem nome,
tão ao revés do nome
e das palavras d'Ele
A minha arca
era pequena, tinha perfume de sândalo
e incenso, dela tirei o lenço
e enrolei-o em mim, e fui -
Fui pelo meio
à multidão gritante, e vi-O ali, de encontro
à exaustão e ao suor, à inquietação de alma
mais cruel
Outras mulheres nos viram e jurarão por mim:
que eu encostei o lenço à Sua face,
e que ela ali ficou, a Sua face, impressa
como lei
E mesmo no mais raso sofrimento,
mas quase livre já,
Ele olhou-me de frente,
e eu disse-lhe Senhor, se
a prova da verdade
à espera de lembrança é o meu véu,
aqui o tendes
faça-se nele
a história sobre a história que eu sei
e Vós sabeis
E Ele sorriu, pareceu-me,
e o seu rosto agora não era já o rosto
em espelho no meu véu
nem o rosto do deus dos justos e dos donos
da palavra, mas o rosto de todos os
que habitam os restos
e o rasto da justiça'
Ana Luísa Amaral, "O véu", in "Ágora", Assírio e Alvim, 2019, pp.116-118.
cf. reprodução de "Verónica segurando o véu", Hans Memling, 1470-1475

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